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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Pesquisadores descrevem golfinho pré-histórico na Patagônia

Descoberta amplia a diversidade de espécies que habitavam a região há cerca de 25 milhões de anos
Golfinho-pintado-do-atlântico (Stenella frontalis), um dos cetáceos da família dos delfinídeos que ocupou o território de Aondelphis talen
Eduardo Cesar
A descoberta de uma nova espécie de golfinho pré-histórico na região da Patagônia argentina indica que as espécies que habitavam a região há cerca de 25 milhões de anos podem ser mais diversas do que se imaginava. A conclusão é de um grupo de pesquisadores brasileiros e argentinos, a partir da análise de pequenos pedaços do crânio e dos ossos do ouvido de uma antiga espécie de golfinho encontrados pelo paleontólogo argentino Mario Cozzuol, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na província de Chubut, 1.300 quilômetros ao sul de Buenos Aires.

A descrição dos fósseis foi publicada em fins de março na revista Acta Palaeontologica Polonica. Com base em análises morfológicas e filogenéticas, os pesquisadores constataram que eles pertenciam a uma espécie até então desconhecida, batizada de Aondelphis talen, que significa pequeno golfinho do Sul. 

Até então, haviam sido encontrados registros fósseis de apenas uma espécie de golfinho primitivo naquela região, Notocetus vandenedeni, descrita pela primeira vez no século XIX pelo naturalista argentino Francisco Pascasio Moreno (1852-1919), fundador do Museu de História Natural de La Plata.

“Aondelphis talen é a primeira espécie de golfinho primitivo da Patagônia descrita em quase um século”, destaca Cozzuol, que encontrou os remanescentes fósseis agora estudados quando ainda morava na Argentina, há cerca de 20 anos. Como os ossos estavam bastante fragmentados, ele diz ter relutado em avaliá-los ou descrevê-los. Duas décadas depois, trabalhando em colaboração com pesquisadores do Instituto Patagônico de Geologia e Paleontologia do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina e do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Chile, ele retomou as análises. “Juntamos todos os pedaços e os analisamos ao longo de um ano”, comenta.

A nova espécie de golfinho é o representante mais primitivo de um grupo já extinto, segundo os pesquisadores. O animal teria habitado a região há cerca de 25 milhões de anos, no início do período geológico conhecido como Mioceno inferior. Teria em torno de 2 metros de comprimento e pouco mais de 120 quilogramas.

Apesar de seus fósseis terem sido encontrados no vale do rio Chubut, Aondelphis talen por muito tempo viveu nos mares. Cozzuol explica que o oceano à época cobria todo o sul da Patagônia argentina. Com o movimento da placa de Nazca, que teria se movido em direção à placa sul-americana, dando forma às montanhas que hoje compõem a cordilheira dos Andes, o mar que cobria parte da Patagônia teria se retraído. 

Devido à expansão dos golfinhos da família Delphinidae, tanto Aondelphis talen como Notocetus vandenedeni perderam território, tendo de se adaptar aos ambientes fluviais.

Os achados apresentados no estudo na Acta Palaeontologica Polonica são importantes, segundo os pesquisadores, porque sugerem a coexistência de pelo menos duas espécies de golfinhos ancestrais (Aondelphis talen e Notocetus vandenedeni) que teriam vivido naquela região na mesma época.

Artigo científico

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Baleias e golfinhos à vista!

Diversidade de espécies e abundância de animais na costa paulista são maiores do que o imaginado 

CARLOS FIORAVANTI | Edição 218 - Abril de 2014
© EDUARDO CESAR
Golfinho-pintado-do-atlântico: agora recenseado no litoral paulista
Golfinho-pintado-do-atlântico: agora recenseado no litoral paulista.

Em pé, à direita da proa da lancha que oscilava como um pêndulo enquanto deslizava com rapidez, Victor Uber Paschoalini foi quem viu primeiro algo se mexendo ao longe no meio do mar por volta das 11 da manhã do dia 10 de fevereiro deste ano, a menos de 1 quilômetro da Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista. Ele achou que eram golfinhos, exatamente o que estavam procurando. Para confirmar, chamou o chefe da expedição, o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). Aproximaram-se com a lancha e confirmaram: eram mais de 20 golfinhos-pintados-do-atlântico (Stenella frontalis), com 2 a 2,5 metros de comprimento, que logo começaram a saltar na água límpida ao lado da lancha. Santos pediu para o piloto reduzir a velocidade e, com sua equipe, fotografou os animais – principalmente as nadadeiras dorsais, que funcionam como uma cédula de identidade, por causa das cicatrizes e marcas únicas em cada indivíduo – e gravou seus sons com um hidrofone, colocado na água. Em seguida, com uma flecha atirada de uma balestra, ele coletou uma amostra de pele com 1 milímetro de espessura, para análises genéticas, e 2 centímetros de gordura para análise de contaminantes químicos.

Esse era o início da quinta viagem de uma série de 23 planejadas até 2015 para mapear a diversidade e a distribuição de cetáceos – baleias e golfinhos, também chamados de botos – do litoral paulista. Santos e sua equipe, com base nos animais mortos que encontraram na praia nos últimos anos e nos vivos que estão vendo agora, registraram até agora mais de 300 indivíduos de 29 espécies de cetáceos, o equivalente a 63% das 46 espécies já observadas no litoral brasileiro. Em rios a diversidade de golfinhos é menor: uma nova espécie, batizada de Inia araguaiaensis, a quinta já registrada, foi anunciada em janeiro por pesquisadores do Amazonas, que a encontraram no rio Araguaia e seus afluentes. Embora pouco vistos e pouco estudados, os cetáceos da costa brasileira representam quase metade das 87 espécies já identificadas nos mares do mundo.
© EDUARDO CESAR
Em conjunto: grupos de até 20 golfinhos (aqui, pintados-do-atlântico) se exibem no caminho da Ilha da Queimada Grande
Em conjunto: grupos de até 20 golfinhos (aqui, pintados-do-atlântico) se exibem no caminho da Ilha da Queimada Grande

Os resultados preliminares sugerem também uma diversidade de espécies e de abundância de cetáceos maiores do que o imaginado – desde as toninhas (Pontoporia blanivillei), um dos menores mamíferos de água doce, com até 2 metros de comprimento, encontrada do Espírito Santo à Argentina e vítima constante da captura acidental nas redes para peixes, até as colossais baleias-de-bryde (Balaenoptera brydei), que chegam a 15 metros de comprimento.

Desse trabalho estão também emergindo novas conclusões e hipóteses sobre as baleias e os golfinhos que percorrem o litoral brasileiro. Comparando amostras de DNA, Santos e outros pesquisadores da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Colômbia e de Porto Rico verificaram que as populações de golfinhos-pintados-do-atlântico encontrados no Sul e Sudeste do Brasil e no Caribe são distintas entre si e não se misturam. Além disso, um equívoco sobre outra espécie está sendo desfeito. As baleias-de-bryde, uma espécie arisca e ágil, que permanecem pouco tempo na superfície, aparentemente percorrem o litoral paulista ao longo de todo o ano e não apenas no verão e na primavera, como se pensava, porque os mergulhadores as viam apenas na temporada de mergulho.
© EDUARDO CESAR
Amostra de  pele, para análise filogenética
Amostra de
pele, para análise filogenética
Outra abordagem possível – e bastante usada – de mapeamento das populações de cetáceos é a partir de um ponto fixo. É como se faz no arquipélago de Abrolhos, litoral da Bahia, com as baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), uma das espécies de maior distribuição geográfica no mundo e a mais estudada no Brasil, em vista de suas características únicas, como as nadadeiras peitorais, que chegam a um terço do corpo, e por sua distribuição espacial e temporal previsível: 80% das jubartes que visitam a costa brasileira se concentram na região de Abrolhos, principalmente de julho a novembro, para terem e amamentarem os filhotes em águas mornas e rasas.

O biólogo Salvatore Siciliano, atualmente na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, esteve lá em 1989 e 1990 para fazer seu mestrado e, “sentado em uma pedra com prancheta e binóculo”, como ele recordou, avistou 604 grupos de jubarte (metade era de mães com filhotes) em 191 dias de observação. Nessa época havia equipes de pesquisa em mamíferos marinhos estabelecidas apenas em Manaus, no Amazonas, e em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Outros grupos se formaram depois, mas os estudos sobre cetáceos antes de 1980 são muito raros, lembra Siciliano, dificultando análises e comparações, diferentemente de aves ou mamíferos terrestres, estudados há três séculos.

© EDUARDO CESAR
Nariz-de-garrafa, outra espécie encontrada no litoral paulista
Nariz-de-garrafa, outra espécie encontrada no litoral paulista

Daniela Abras, pesquisadora do Instituto Oceanográfico da USP, esteve em Abrolhos em julho de 2013. Com apoio da Marinha, do Instituto Jubarte, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Cetacean Society International (CSI), assentada sobre um dos pontos mais altos do arquipélago, ela registrou 500 majestosas baleias, bem mais que as 200 registradas em 2004. “Está havendo um aumento populacional de baleias-jubarte, como resultado da proibição da caça, mas ainda está muito abaixo do que era”, diz ela. Hoje se estima a população de baleias-jubarte em 7.900 animais, que podem ser vistos na costa desde a região de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, até o Rio Grande do Norte, ainda abaixo das estimadas 25 mil jubartes antes de começarem a ser intensamente caçadas. A partir de 1650, nas principais cidades do litoral, como descrito no livro A baleia no Brasil colonial, da historiadora Myriam Ellis (Edusp/Melhoramentos, 1969), a caça de baleias era uma importante atividade econômica, para extração do chamado azeite de peixe, usado como argamassa para construções e em iluminação pública, e cerdas bucais, vendidas na Europa para a fabricação de espartilhos. Com barcos de 10 a 12 metros de comprimento, as baleias eram capturadas com arpão, depois abatidas por meio de sucessivos golpes de lanças de 2 metros de comprimento, arrastadas à praia e abertas: cada animal fornecia em média 7 mil litros de óleo. Uma lei federal proibindo a caça de baleias entrou em vigor apenas em 1987.
“Esta é a primeira vez que fazemos cruzeiros oceanográficos específicos para mapear cetáceos nos 600 quilômetros do litoral de São Paulo”, afirma Santos. “Por falta de especialistas e limitações financeiras, antes os trabalhos eram feitos apenas com animais mortos”, conta Santos. Ele próprio, durante o mestrado, percorreu de bicicleta ou mobilete as praias de Cananeia e Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo, coletando crânios de cetáceos encontrados mortos – ao todo, Santos reuniu e examinou 124 crânios. Foi também a primeira vez que um repórter fotográfico – Eduardo Cesar, de Pesquisa Fapesp – acompanhou uma das viagens de fevereiro e passou três dias com os pesquisadores em alto-mar.

Duas semanas antes da viagem, Santos, impressionado com a curiosidade de Paschoalini em sala de aula, convidou-o para completar sua equipe nessa expedição, mas não imaginava o tamanho da sorte do rapaz de 19 anos, agora no segundo ano do curso de oceanografia, com um provérbio bretão tatuado no braço direito, “lute e lute novamente até os cordeiros virarem leões”. Os quatro integrantes da equipe revezavam-se na observação, em turnos de uma hora, com meia de descanso, mas foi Paschoalini quem, duas horas mais tarde, avistou o segundo grupo de golfinhos, desta vez de outra espécie, o nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), também com cerca de 20 animais, um pouco maiores e menos abundantes que os pintados, agora em uma água turva e sob sol forte.

© JOÃO HIPÓLITO DO NASCIMENTO / ACERVO MUSEU DA BALEIA DE IMBITUBA
Praia do porto de Imbituba, Santa Catarina, final da década de 1940: matança desenfreada de baleias-francas
Praia do porto de Imbituba, Santa Catarina, final da década de 1940: matança desenfreada de baleias-francas.

Ao seu lado, a oceanógrafa Giovanna Corrêa e Figueiredo notou que os animais, normalmente dóceis – como o amigável Flipper de um antigo seriado da televisão –, naquele dia estavam arredios. Talvez porque, ela cogitou, estivessem com fome e apressados atrás de um cardume ou incomodados com a temperatura da água, que variava de 30 a 33º Celsius, quase cinco graus acima do habitual. Algas e outros organismos proliferam mais facilmente na água mais quente, formando uma mancha escura que dificulta a visibilidade, como a que se estendeu em fevereiro da costa do Rio de Janeiro a Santa Catarina. Nesse dia e nos dois seguintes – percorreram cerca de 650 quilômetros desde São Vicente até a Ilha do Mel, norte do Paraná – permaneceram atentos olhando o mar, da proa à popa, mesmo com o sol refletindo na água no final da tarde, e não viram mais golfinhos ou baleias. “Em alguns momentos o cansaço é tão grande que a gente vê onda e acha que é golfinho”, diz Giovanna.

Ela acompanha Santos desde a primeira expedição, em dezembro de 2012. No primeiro dia eles e outros pesquisadores do grupo percorreram o mar sem ver qualquer cetáceo, mas no segundo maravilharam-se ao avistar um grupo de 16 orcas (Orcinus orca), a espécie mais encorpada de golfinhos (não, não são baleias) – os machos mais taludos chegam a 10 metros de comprimento e 10 toneladas de peso –, atrás de Ilhabela, litoral norte de São Paulo. Não é comum encontrá-las tão perto da costa. “Passamos quase duas horas com as orcas, observando e fotografando”, relatou Santos. “Sabemos muito pouco sobre elas, quantas são, quando vão aparecer.”
Comparando fotografias das nadadeiras dorsais, pôde-se ver que dois indivíduos do grupo de Ilhabela, um mês antes, estavam perto das praias da cidade do Rio de Janeiro, a 400 quilômetros de distância. Alexandre Azevedo, oceanógrafo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, auxiliou na comparação das fotografias e confirmou que os animais eram os mesmos. Depois de cada viagem, uma das tarefas dos pesquisadores é analisar as fotos das nadadeiras dorsais, por meio de um programa de computador específico, para encontrar as que provêm de indivíduos novos e reforçar o catálogo no site do laboratório, já com 104 animais de duas espécies de baleias e três de golfinhos, representados por suas nadadeiras únicas.

Há também razões para inquietação: em consequência da construção de portos e do aumento do número de embarcações e da poluição crescente na costa, os cetáceos podem estar se afastando da costa e procurando áreas mais calmas. Giovanna Figueiredo, da equipe de Santos, verificou que os registros de avistagem da baleia-franca-austral (Eubalaena australis), com até 18 metros de comprimento e 60 toneladas, antes comuns nas praias mais próximas da costa do Sudeste, escassearam desde 2002, mesmo que a população estivesse aumentando, com o fim da caça. Em uma das viagens, a equipe da USP avistou uma baleia-franca com um filhote na Ilha da Queimada Grande, a 27 quilômetros da costa. Karina Groch e outros biólogos do Projeto Baleia-franca estão atentos sobre os possíveis efeitos da construção do porto de Imbituba, em Santa Catarina, e do aumento do tráfego de embarcações na região, antes um centro regional de caça à baleia-franca. Em 2005, Karina estimou em 500 o número de baleias-francas que visitam regularmente a costa brasileira, das quais 100 se abrigam no litoral sul, principalmente no período reprodutivo, de julho a novembro.

“Estamos afastando as baleias e os golfinhos, por um conjunto de causas, com efeitos cumulativos”, reitera Siciliano, que publicou vários artigos nos últimos anos indicando a contaminação por metais pesados e outras substâncias tóxicas, que devem favorecer, em golfinhos, as deformações ósseas, que ele próprio registrou, e as doenças de pele, que Santos descreveu em 2009. “É uma pena, porque as populações estão se refazendo e os cetáceos estão buscando as baías que ocupavam antes, mas as encontram transformadas em estacionamento de navios e depósito de esgoto.”
Siciliano foi um dos pesquisadores que participaram da elaboração do plano de ação para conservação da toninha, uma espécie que vive na faixa costeira e apresenta alta mortalidade ao se prender em redes de pescadores (Santos está examinando com pescadores de Cananeia as formas possíveis de reduzir a mortalidade de toninhas). Aprovado e publicado em 2010, o plano de ação previa a criação de dois parques nacionais (em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul) e a ampliação de outro, atualmente apenas com restinga, no litoral norte do estado do Rio, de modo a se limitar um espaço adequado para toninhas, tubarões, raias, tartarugas e outros animais marinhos. Siciliano, ao comentar que os parques ainda não foram criados, lembrou-se da resistência para a proibição da pesca e a transformação em parque nacional de uma área cobiçada para a construção de portos. Em uma das reuniões sobre a criação das unidades de conservação marinhas, ele se lembrou, um dirigente de um órgão público ambiental perguntou aos pesquisadores: “Afinal, para que serve uma toninha?”. Em uma peça do teatrólogo Bertolt Brecht, um cardeal fez uma pergunta parecida enquanto se recusava a ver pelo telescópio de Galileu: “Serão as estrelas realmente necessárias?”.

Projetos

1. Ocorrência, distribuição e movimentos de cetáceos na costa do estado de São Paulo (nº 11/51543-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular/Biota; Pesquisador responsável Marcos César de Oliveira Santos – IO/USP; Investimento R$ 454.775,03 (FAPESP).

2. Capturas acidentais de pequenos cetáceos em atividades pesqueiras no litoral sul paulista: buscando subsídios para formulação de políticas de conservação (nº 10/51323-6); Modalidade Parceria para Inovação Tecnológica (Pite); Pesquisador responsável Marcos César de Oliveira Santos – IO/USP. Investimento R$ 242.490,33 (FAPESP).

Artigos científicos

CABALLERO, S. et al. Initial description of the phylogeography, population structure and genetic diversity of Atlantic spotted dolphins from Brazil and the Caribbean, inferred from analyses of mitochondrial and nuclear DNA. Biochemical Systematics and Ecology. v. 48, p. 263-70. 2013.

SANTOS, M.C.O. et al . Cetacean records along São Paulo state coast, Southeastern Brazil. Brazilian Journal of Oceanography. v. 58, n. 2, p. 123-42. 2010.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O menor golfinho do mundo a caminho da extinção pelas redes de pesca e reduziu a espécie para apenas 55 sobreviventes


The world’s smallest and rarest dolphins are facing ‘imminent’ extinction with just 55 individuals left, conservationists have warned.
Maui’s dolphins – which are classified as critically endangered - have seen their numbers halve in the last seven years alone, as dozens have been caught in fishing nets. 
Only found on the west coast of New Zealand, there may be as little as 20 breeding females left, a new study has found. 
The Maui dolphin - the world's smallest - is under threat from fishing and just 55 individuals are left
The Maui dolphin - the world's smallest - is under threat from fishing and just 55 individuals are left

Only found on the west coast of New Zealand, there may be as little as 20 breeding females left, a new study has found
Only found on the west coast of New Zealand, there may be as little as 20 breeding females left, a new study has found

The dolphins have fallen prey to fishing nets
The dolphins have fallen prey to fishing nets

Although part of the coast is protected from fishing, along most of it, trawling and vast fixed nets held in place by anchors have been blamed for killing the striking animals. The last corpse of a Maui dolphin – which grow to just 1.7metres long - was found last month. 
Maui’s have a lifespan of around 20 years but only reach sexual maturity after around seven, and breed infrequently – around one calf every three years.
 

A new study carried out by University of Auckland, Oregon State University and the New Zealand Department of Conservation - using DNA  samples - found the number of dolphins aged more than a year had plummeted from 111 when the last survey was carried out in 2004.

Dr Barbara Maas, a Cambridge University-trained zoologist who was not involved in the research, but has organised a petition to save the Maui’s which has gathered 10,000 signatures, told the Mail: ‘To have just 55 of these wonderful creatures left is beyond even our worst estimates. 
‘Their extinction is really imminent now, within a few years. New Zealand is a civilised country, which markets itself as an unspoilt paradise. They must act before it is too late.’
The Maui dolphin is now listed as 'critically endangered'
The Maui dolphin is now listed as 'critically endangered'

The tiny Maui dolphin may have as few as 20 females left
The tiny Maui dolphin may have as few as 20 females left

There were around 1,000 in the 1970s before commercial fishing took off in the area. Marine biologist Dr Rochelle Constantine, who worked on the study, told the New Zealand Daily Herald: ‘We are staring down the barrel of extinction of this sub-species.’ 
It comes just a month after a coalition of scientists and animal welfare groups came up with a dolphin ‘bill of rights’ they hope will be enshrined in law.
They believe the animals are so intelligent they should be thought of as ‘non-human persons’, allowing whalers to be classed as murderers, they told the American Association for the Advancement of Science’s annual conference in Vancouver.
Experts say it is still possible to save Maui’s by setting up a sanctuary and banning nets over a larger area of the coastline. The government has said it recognises the problem and will bring forward proposals at the end of May.
However charities fear more delays could be devastating for the much-loved creatures. Their plight recalls that of the Baiji dolphin in China, which was once numerous and known as the ‘goddess’ of the Yangtze river.
In 2006, an international group of marine scientists spent six week scouring the 1,700 mile river in search of the last survivor, as the population was decimated by fishing, transport and hydroelectric power on the river. They hoped to move it to safer waters and rebuild the population- but found nothing.  

It was declared extinct, the first marine mammal to be wiped out for more than 50 years and the first recorded disappearance of a cetacean species due to human activity, the scientists said.
Maui's dolphin is now the rarest in the world. They are a subspecies of Hector’s dolphin which is also endangered. 

Conservation groups have been calling for more protection of its habitat for more than 10 years, when a former Environment Minister of New Zealand accused fishermen – who must record any found dead in their nets – of lying about the scale of the problem. 
A spokeswomen World Wildlife Fund said: ‘The Maui’s population has been declining since the 1970s, and protection measures introduced in 2008 have not succeeded in turning the situation around. It is a national tragedy that our critically endangered dolphins are still dying needlessly in fishing nets. 

‘We need to act immediately to get nets out of the water, including harbors and estuaries, to protect these dolphins throughout their range.’

Fonte: http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2118304/Worlds-smallest-dolphin-threat-nets-species-reduced-just-55-survivors.html

domingo, 17 de junho de 2012

Ruído e silêncio

Em sua coluna de junho, Jean Remy Guimarães revela um fato que passou em branco pelo noticiário internacional: o súbito aparecimento de centenas de golfinhos mortos no litoral do Peru no verão passado. O fenômeno seria consequência da exploração de petróleo na costa do país. 
 
Por: Jean Remy Davée Guimarães
Publicado em 15/06/2012 | Atualizado em 15/06/2012
Ruído e silêncio
Golfinho recém-nascido encontrado morto em uma praia do Peru. A ONG ambiental Orca estima em 3 mil o número de animais mortos no litoral norte do país no verão passado. (foto: Orca/ Peru) 
 
Precisei viajar ao Peru, em maio passado, para saber, pela imprensa local, que cerca de mil cadáveres de golfinhos apareceram no litoral daquele país nos primeiros meses de 2012. Parece muito – e é. Mas os técnicos da ONG peruana Organización Científica para Conservación de Animales Acuáticos (Orca) estimam que ao longo do verão 2011-2012 o total de golfinhos mortos chegou a 3 mil.

A ONG peruana Orca estima que ao longo do verão 2011-2012 o total de golfinhos mortos chegou a 3 mil
O aparecimento de algumas dezenas de golfinhos mortos seja lá onde for costuma ser notícia global, com especulações sobre as causas do fenômeno, que podem ser muitas: epidemia de vírus ou bactéria, intoxicação por metal pesado, óleo ou cianotoxina, inanição, desorientação devida a alterações eletromagnéticas, entre outras. O caso relatado, apesar da dimensão inédita, não foi mencionado em nossa grande imprensa e – que eu saiba – em nenhuma outra.

Talvez seja coincidência, mas todos esses registros de golfinhos mortos ocorreram no litoral norte do Peru, onde se concentram as atividades de prospecção e exploração petrolífera marinha naquele país.
O Instituto del Mar del Perú (Imarpe), órgão do governo peruano, declarou que a mortalidade em massa de golfinhos não se devia a qualquer das causas apontadas acima nem à asfixia em rede de pesca, colisão ou falta de alimento. Em relatório, o Imarpe menciona o total de 877 golfinhos mortos desde fevereiro. Devido ao estado de decomposição dos animais, 42 exemplares foram revisados de forma geral e apenas dois exemplares submetidos a autópsia, diz o documento.
Litoral peruano
Trecho de aproximadamente 135 km da costa peruana, entre a praia de San José (A) e o limite sul da Zona Reservada de Illescas (B), onde pesquisadores da ONG Orca encontraram mais de 600 golfinhos mortos. (imagem: Google Maps)
As evidências mostram que as mortes ocorreram em um lapso de 2 a 3 dias, sugerindo um agente causal que atua de forma aguda, causando morte rápida. Apesar da magra amostragem, o Imarpe apressou-se em afirmar que não havia evidências científicas que permitissem associar a mortandade de animais aos testes acústicos realizados de forma rotineira pela indústria petrolífera no litoral norte do país.
Curioso: quando se faz esse tipo de teste, cria-se na região uma área de exclusão para navegação e pesca, ampla e previamente divulgada. Possivelmente porque há algum risco associado. O problema é que não há como cercar a área afetada pelos testes nem avisar os mamíferos marinhos, que não ouvem boletins de rádio ou comunicados oficiais.

A confusão aumentou com o aparecimento de centenas de pelicanos mortos nas mesmas áreas do litoral e também nos primeiros meses do ano. Dessa vez, a causa mortis era clara: fome. Não havia nenhum alimento no estômago ou intestino das infelizes aves marinhas, fato atribuído ao aumento da temperatura do mar e à consequente migração de peixes, que são o sustento dos pelicanos. Ninguém explicou por que os golfinhos conseguiam achar alguma comida e os pelicanos não.

Bolsa acústica

O festival de versões oficiais desencontradas que se seguiu à divulgação do relatório do Imarpe incluía a seleção natural como causa da morte dos golfinhos, embora nenhum porta-voz tenha arriscado explicar por que esse poderoso agente agiria de forma tão aguda e seletiva.

Na tentativa de pôr fim às especulações, o diretor científico do Imarpe, Raúl Castillo Rojas, declarou que análises feitas em amostras dos golfinhos mortos no Centro de Mamíferos Marinhos dos Estados Unidos indicaram a presença de um vírus, Morbilivirus, que se pareceria com o distemper canino. Mas esse centro de pesquisa, procurado por duas redes de televisão peruanas, disse desconhecer qualquer pedido de análise feito pelo Imarpe. Apesar disso, o Dr. Rojas continua no posto de diretor científico da instituição.
Golfinho morto
O veterinário Carlos Yaipén-Llanos, da ONG Orca, examina filhote de golfinho achado morto no litoral norte do Peru, onde há atividades de prospecção e exploração petrolífera. (foto: Orca/ Peru)
O veterinário Carlos Yaipén-Llanos, diretor da ONG Orca, tem uma versão bem diferente. Segundo ele, a morte por Morbilivirus produz líquidos nos tecidos e não gases; e os exames histopatológicos realizados pela ONG em cadáveres dos golfinhos revelaram a presença de bolhas de ar em órgãos como fígado, rim e vasos sanguíneos, hemorragia no ouvido médio, fraturas nos ossos perióticos e enfisema pulmonar disseminado, entre outras evidências da chamada síndrome de descompressão, causada por impacto sonoro, agudo e fatal.

Ainda segundo a ONG, o impacto acústico é causado pelo uso de sonares de profundidade, muitas vezes de ar comprimido, na prospecção de petróleo no mar. As frequências sonoras usadas variam segundo as características físicas (profundidade, relevo) e oceanográficas da zona em exploração.
O princípio – emissão de som e captação do seu eco – é o mesmo usado por golfinhos, morcegos e outros animais para comunicação e orientação. No caso dos golfinhos, as características do eco, como tempo de retorno e grau de atenuação, trazem informações para localizar cardumes de peixes, indicar a presença de obstáculos ou massa d’água com densidade diferente daquela em que o animal está etc.
No caso dos sonares usados em prospecção petrolífera, as mesmas informações são usadas, como era de se esperar, para indicar a possível presença de depósitos de petróleo no fundo marinho. Embora o princípio seja o mesmo, nesse caso a intensidade do som emitido é muitas ordens de grandeza superior à dos discretos cochichos dos golfinhos.
A intensidade do som emitido na prospecção petrolífera é muitas ordens de grandeza superior à dos discretos cochichos dos golfinhos.
 
O princípio do sonar explicaria por que nem todos os organismos marinhos ao alcance da ‘bolsa acústica’ são prejudicados; só os que emitem ou recebem sons naquela faixa de frequência seriam afetados por problemas como desorientação, hemorragia interna, destruição do ouvido interno e das mandíbulas, descompressão respiratória, presença de bolhas de ar em órgãos internos, derrame cerebral e morte. Ainda bem que todo esse processo ocorre em um período de tempo relativamente curto, pois a dor deve ser intensa. Maiores detalhes apontados pela ONG estão em sua página no Facebook.
Curiosamente, ninguém se lembrou de perguntar às empresas petrolíferas que atuam no país se elas realizaram testes acústicos na região no período em que ocorreu a mortandade em massa de golfinhos. Elas também não vieram a público espontaneamente para comentar o caso, e o governo local se encarregou de eximi-las.

O episódio sugere cumplicidade entre governo e empresas, numa circunstância em que a ciência oficial é amordaçada ou convocada a emitir laudos suspeitos e convenientes. Ficaremos sem saber se é possível fazer testes acústicos em frequências que não detonem o tímpano de mamíferos marinhos carismáticos como golfinhos e baleias. O som tem frequência, o ruído tem muitas e o silêncio, nenhuma.

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Pesquisadora identifica nova espécie de golfinho

15/09/2011

Uma pesquisadora descobriu que os golfinhos existentes nos arredores da área de Melbourne, na Austrália, pertencem a uma nova espécie.

Antes, pensava-se que os mamíferos que nadavam nas águas na baía de Port Phillip e dos lagos Gippsland fossem uma das duas espécies de golfinho-nariz-de-garrafa reconhecidas cientificamente.
Mas a pesquisadora Kate Charlton-Robb, da Universidade Monash, descobriu que os grupos são diferentes depois de comparar os crânios dos animais, o DNA e a composição física com espécies que datam dos anos 1900.
Charlton-Robb nomeou a nova espécie de Tursiops australis.
Foto divulgada pela Universidade Monash mostra um exemplar do novo golfinho, o "Tursiops australis"
Foto divulgada pela Universidade Monash mostra um exemplar do novo golfinho, o "Tursiops australis"(Foto: Universidade de Monash/Efe)

Fonte: Folha.com.br

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Quem matou o golfinho?



Representação artística de um tubarão suspeito do ataque que vitimou o golfinho 'Astadelphis gastaldii'. A tarefa dos detetives-paleontólogos era identificar a espécie do 'assassino' (arte: Giovanni Bianucci).


Alexander Kellner conta como foi desvendado um ‘crime’ ocorrido há quase 4 milhões de anos. Os detetives são paleontólogos que identificaram o responsável pela morte de um golfinho cujos fósseis apresentavam marcas de dentadas.

Por: Alexander Kellner

Publicado em 02/07/2010 | Atualizado em 02/07/2010


Uma descoberta bem curiosa foi publicada em março na revista Palaeontology: fósseis de um golfinho com marcas de dentes. E o melhor: a equipe de Giovanni Bianucci, da Universidade de Pisa, na Itália, acredita não apenas ter descoberto o culpado, mas também a estratégia do ataque. Um verdadeiro mistério à moda de Sherlock Holmes!

A vítima

Examinando a coleção do Museu Regional de História Natural de Torino, Bianucci se deparou com o esqueleto de um golfinho fossilizado. As partes recuperadas foram crânio e mandíbula, quase toda a coluna vertebral e diversas costelas.

Ao contrário do que acontece com a maioria das descobertas paleontológicas, o exemplar não era novo: foi escavado durante a segunda metade do século 19, na localidade de Bagnasco, região de Piemonte, no norte da Itália.


Os fósseis tampouco pertenciam a uma espécie desconhecida, mas sim a um golfinho extinto há aproximadamente 4 milhões de anos – o Astadelphis gastaldii.

O que chamava atenção nesse exemplar eram algumas marcas nos ossos, bem diferentes daquelas resultantes de problemas durante a coleta e preparação ou mesmo decorrentes do processo de fossilização.

O primeiro autor a descrever o exemplar em 1883, Alessandro Portis, já havia notado que o esqueleto tinha sulcos e perfurações. Ele atribuiu essas características à mordida de um tubarão branco, cujos dentes também são encontrados nos depósitos do Piemonte datados do Plioceno. Mas as observações da equipe de Bianucci não condiziam com essa interpretação. Havia algo de errado...

A prova do crime: o esqueleto do golfinho 'Astadelphis gastaldii' com marcas resultantes de um ataque de tubarão. O desenho esquemático abaixo da foto representa o local da dentada (arco pontilhado em azul) e os danos provocados nos ossos da vítima (pontos em vermelho). Imagens: Bianucci et al. / Palaeontology.


O crime

Ao observar cada um dos ossos daquele esqueleto, os cientistas constataram certo padrão nas marcas. Elas não eram aleatórias, mas tinham uma direção preferencial. A mandíbula, várias vértebras e, sobretudo, as costelas exibiam estrias e sulcos que foram interpretadas como tendo sido feitas por dentes.

Os paleontólogos costumam atribuir esse tipo de marca a dois fatores. Elas podem ter sido deixadas após a morte do animal, pela atividade de espécies carniceiras que se alimentaram da carcaça, ou podem ser indicações de que o animal em questão havia sido ‘assassinado’ por algum predador.


Bianucci e colegas já sabiam, com base em estudos anteriores, que marcas deixadas por carniceiros são geralmente pequenas e pouco pronunciadas. Muitas vezes, dentes do animal carniceiro se quebram nessa ação. Ademais, marcas desse tipo de mordida não têm uma orientação preferencial, já que o animal dispôs de tempo para se alimentar à vontade da carcaça.

Tudo isso era bem diferente do que os pesquisadores italianos viram no fóssil do golfinho, que tinha marcas orientadas e profundas. Eles tampouco encontraram qualquer dente associado ao esqueleto. A conclusão foi inevitável: as marcas observadas nos ossos do golfinho eram evidências de um ataque que culminou com a sua morte.

Os suspeitos

O golfinho viveu em um mar que ocupava a região norte da Itália há quatro milhões de anos. Dois tipos de tubarão aparecem no registro fóssil do Plioceno nos depósitos do Piemonte: com os dentes lisos ou serrilhados.

Entre as espécies com dentes serrilhados, estão o famoso tubarão-branco (Carcharodon carcharias), o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvieri), o Hexanchus griseus e o Megaselachus megalodon. Destes, apenas o último está extinto – os demais ainda são encontrados hoje em dia.


Já os tubarões com os dentes lisos são menos diversificados nas rochas do Piemonte. Eles são representados pelas espécies Cosmopolitodus hastalis, Parotodus benedeni e Isurus oxyrinchus – este último é o único a ter sobrevivido até os dias de hoje.

Para identificar o agressor do golfinho, Bianucci e seus colaboradores fizeram testes com diferentes dentes de tubarão comuns nos depósitos do Piemonte em massa de modelar. Embora esse material seja bem diferente da carne e dos ossos do golfinho, o experimento pôde dar uma ideia geral das diferentes morfologias deixadas por dentes de formatos distintos.

Uma comparação dos resultados experimentais com as marcas observadas no golfinho levou Bianucci e seus colaboradores à conclusão de que o tubarão que havia atacado o golfinho não possuía dentes serrilhados, cujas marcas são bem distintas. Com isso, quatro dos sete acusados da morte do Astadelphis foram inocentados.


A equipe descartou também da lista de suspeitos a espécie Parotodus benedeni, pois seus grandes dentes teriam deixado marcas maiores e mais profundas do que as encontradas no fóssil. Menos um.

Com isso, a lista de acusados foi reduzida a duas espécies: Isurus oxyrinchus e Cosmopolitodus hastalis. O I. oxyrinchus é encontrado nos dias de hoje e raramente ataca golfinhos. Por se tratar de um animal de porte relativamente pequeno (atinge no máximo 3 metros de comprimento), talvez não fosse um bom candidato a predador do golfinho em questão.

Agora, o principal suspeito era o Cosmopolitodus hastalis, que podia atingir quase 8 metros de comprimento. Os experimentos com massa de modelar deram força à acusação. Eles mostraram que o animal que atacou e possivelmente matou o golfinho tinha mais de 4 metros – um tamanho compatível com o do Cosmopolitodus. Para Bianucci e colegas, estava identificada a espécie do autor do ataque.

Mas faltava um último detalhe: como ocorreu o ‘delito’?

econstituição do ‘crime’

A partir de características como a posição relativa das marcas de mordidas, os cientistas concluíram que o golfinho foi atacado pelas costas e por baixo. A primeira mordida foi desferida na região ventral do cetáceo, que teve grande parte de sua barriga dilacerada. Em seguida, um novo ataque do tubarão visou as costas do golfinho e deixou marcas nas vértebras da vítima.


Mas o estudo deixou uma dúvida: por que o valente golfinho não foi totalmente engolido pelo tubarão? Não há uma resposta definitiva para essa questão, mas os pesquisadores acreditam outros golfinhos podem ter vindo em defesa do animal mortalmente ferido. Mas trata-se apenas de uma especulação: nunca saberemos ao certo.

O estudo liderado por Bianucci mostra que grandes achados podem ser realizados dentro dos museus, em exemplares já estudados. Às vezes, basta um novo olhar sobre o material para trazer à tona episódios fascinantes como o do golfinho 'assassinado'.

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências