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sábado, 12 de setembro de 2015

O papo dos cachalotes

Vocalizações desta espécie de cetáceos têm muito em comum com a linguagem humana. Cada clã de cachalotes tem um repertório próprio, usado para reconhecer outros membros do grupo. 

 
Por: Salvatore Siciliano
Publicado em 12/09/2015 | Atualizado em 12/09/2015
O papo dos cachalotes
Os cachalotes se organizam em clãs que podem ser diferenciados pelo 'dialeto' que seus membros usam para se comunicar. (foto: Mauricio Cantor, Whitehead Lab, Dalhousie University, Canadá.

 
Imagine que, neste mês de setembro, teremos um grande festival de rock na cidade do Rio de Janeiro. Milhares de pessoas, com idades entre 18 e 60 anos, virão assistir a dezenas de shows de música por vários dias. O que motiva essas pessoas a assistirem aos shows e o que elas têm em comum umas com as outras? E mais: o que isso tem de semelhante com a vida social dos cachalotes?

Antes de falarmos dos cachalotes propriamente, vamos entender três conceitos em estudos sociais: homofilia, conformismo e marcação simbólica. Homofilia é um princípio das redes sociais, e diz que tendemos a ser semelhantes aos nossos amigos. Já o conformismo resulta do fato de uma pessoa mudar o seu comportamento ou as suas atitudes por efeito da pressão do grupo – é, portanto, uma forma de interação, um processo de influência inerente ao funcionamento dos grupos. Por fim, a marcação simbólica implica o conceito de semelhança: ser igual dentro do grupo e diferente das pessoas dos demais grupos.
De volta aos cachalotes, algumas informações básicas. Eles podem viver mais de 60 anos. Os machos alcançam a maturidade sexual entre 18 e 21 anos, com 11 a 12 metros de comprimento; as fêmeas, entre 7 a 13 anos e 8,3 a 9,2 metros de comprimento. Percebeu alguma semelhança com as sociedades humanas? É por aí mesmo. Sua estrutura social – como a de muitos primatas – está baseada em grupos matrilineares de fêmeas aparentadas e jovens, que frequentemente formam associações temporárias com outras fêmeas nas regiões tropicais. Enquanto isso, os machos ficam em águas da Antártica e do Ártico, alimentando-se das enormes lulas por lá encontradas. De vez em quando, eles vêm até as regiões tropicais para acasalar com as fêmeas maduras.

O que chama muito a atenção nesses grupos de fêmeas é o altruísmo entre elas, por exemplo, no cuidado quando algum membro do grupo está ferido ou no carinho com os bebês cachalotes – existem verdadeiras babás que tomam conta das crias enquanto as mamães estão mergulhando fundo para buscar lulas nas profundezas. Para se ter ideia da dimensão desses grupos, estudos que usaram foto-identificação dos cachalotes dos Açores (veja artigo na CH 150) mostraram que, ao redor das ilhas portuguesas, existem entre 300 e 800 fêmeas e jovens cachalotes.
Cachalotes
Um detalhe que chama atenção nessa estrutura social dos cachalotes é que as fêmeas cooperam muito entre si, cuidando umas das outras quando uma delas se fere e até atuando como babás dos filhotes enquanto as mães mergulham fundo para buscar alimentos. (foto: Gabriel Barathieu / Wikimedia Commons / CC BY-SA 2.0)
Nessas regiões, formam-se clãs que funcionam como unidades sociais que compartilham um repertório de vocalizações chamadas de codas. As codas são, na prática, a forma de linguagem entre os membros do grupo, ou seja, a maneira como eles se reconhecem e compartilham experiências. Dessa forma, é possível crer que os cachalotes dos Açores e das Galápagos, por exemplo, apresentam repertórios de vocalização bem diferentes. Assim, comparações entre as codas gravadas em diferentes áreas, mesmo que próximas, podem revelar quantos clãs existem e como eles interagem ente si. Diferentes formas de explorar o ambiente submarino e seus recursos podem ajudar a moldar esses clãs, que formam repertórios vocais diferentes (os repertórios de codas), que parecem ser transmitidos por meio de aprendizado social.

Linguagem aprendida

Um artigo publicado na Nature Communications desta semana avaliou 18 anos de gravações das codas dos cachalotes do Pacífico Norte, próximo às ilhas Galápagos, e mostrou níveis complexos de transmissão de informação das codas. A transmissão do repertório vocal pode se dar tanto por fatores genéticos como sociais, utilizando, no segundo caso, mecanismos tão complexos quanto os observados em culturas humanas.

A transmissão do repertório vocal pode se dar tanto por fatores genéticos como sociais, utilizando, no segundo caso, mecanismos tão complexos quanto os observados em culturas humanas.
Agrupamentos distintos de cachalotes com repertórios acústicos semelhantes, mirando-se em clãs escolhidos, surgem quando as baleias aprendem preferencialmente as codas mais comuns (conformismo) de indivíduos com comportamentos similares (homofilia).

Parece complexo, mas é exatamente como nós humanos agimos: falamos as gírias que nossos colegas de classe ou profissão usam, e assim passamos a ser mais facilmente aceitos no grupo. Usamos roupas mais parecidas com os outros indivíduos da nossa classe social e, dessa forma, somos mais facilmente identificados e passamos a trocar ideias e atitudes. Se nos reunimos para um grande show de rock no Rio, ali nos juntamos a outras pessoas que gostam desse tipo de música, de uma determinada banda, do seu estilo de falar e de se comportar socialmente. Cachalotes e humanos têm muita coisa em comum!

Notas


Cachalotes no Brasil
O mar do Brasil está cheio de cachalotes, mas não sabemos ainda quantificá-los ou identificar sua estrutura social. Carecemos de estudos tão complexos quanto este publicado na Nature. No entanto, sabemos que os cachalotes estão por toda nossa costa pelos encalhes frequentes e por avistagens realizadas pelos poucos programas de estudos disponíveis. Em 2001, um grande levantamento desses registros foi publicado, e procurou-se avaliar a idade dos que encalharam. Já tivemos até um encalhe em massa de 33 cachalotes no Rio Grande do Sul em dezembro de 1972! As conclusões do estudo citado apontam para uma provável sazonalidade do nascimento de filhotes no verão e outono. Outro resultado interessante sugere uma provável diferenciação da estrutura de crescimento dos nossos cachalotes quando comparada a outros estudos pelo mundo, o que implica na composição diferenciada do nosso estoque de cachalotes.

Moby Dick existiu?
Coincidências à parte, no mês de agosto passado um helicóptero flagrou um cachalote na região de Toulon, no Mediterrâneo, ao sul da França, que fez crer na lenda do grande leviatã branco, Moby Dick! Vale a pena conferir as fotos.

Salvatore Siciliano
Instituto Oswaldo Cruz,
Fundação Oswaldo Cruz

sábado, 2 de agosto de 2014

Seres das profundezas

Vermes marinhos revelam surpreendentes estratégias adaptativas às águas frias e escuras da costa brasileir.

CARLOS FIORAVANTI | Edição 221 - Julho de 2014
© YOSHIHIRO FUJIWARA (JAMSTEC)
Verme comedor de ossos: Osedax fêmea ampliada com os minúsculos machos aderidos ao seu corpo
Verme comedor de ossos: Osedax fêmea ampliada com os minúsculos machos aderidos ao seu corpo.

Trabalha-se com entusiasmo no laboratório do biólogo Paulo Sumida no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Na tarde de 1º de abril, diante de um computador em uma mesa entre estantes com livros e organismos marinhos mantidos em potes plásticos com álcool, Olívia Soares Pereira, a mais nova integrante do grupo, ainda na graduação, empolgava-se como uma torcedora de futebol vendo um filme em alta definição sobre o fundo do mar em um dos computadores, com animais peculiares como um polvo com membranas entre os tentáculos, uma estrela-do-mar vermelha e corais alongados que crescem sobre morros cobertos de asfalto que vazou da terra. 

O filme, que lembrava os da National Geographic na TV, era um registro da viagem realizada em abril de 2013 em um submarino japonês a regiões nunca antes exploradas a mais de 4 mil metros de profundidade do litoral do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul.
A todo momento ela e os colegas que começaram a ver os filmes – foram feitas quase 100 horas de filmagem – se perguntavam como os organismos se organizavam e, enfim, por que eram daquele jeito. Um dos organismos já examinados, que exemplifica as peculiaridades da vida no fundo do mar, é um verme marinho – um poliqueta – comedor de ossos do gênero Osedax. “As fêmeas têm um harém de machos anões, às vezes mais de 100 machos, grudados em seu corpo”, descreve Sumida, acrescentando uma curiosidade: esses poliquetas são também chamados de vermes-zumbi, por colonizar carcaças e viver entre animais mortos. O corpo das fêmeas consiste em um tentáculo vermelho com quatro a cinco centímetros de comprimento. Em uma das extremidades, a que fica para fora do osso que estão digerindo, estão os palpos, rugosidades que funcionam como brânquias, filtrando oxigênio da água. A outra extremidade se ramifica e se fixa sobre o interior dos ossos como a raiz de uma planta. Os ovários, junto a essa base, são bem grandes, e os machos, de poucos milímetros de comprimento, vivem no tubo gelatinoso da fêmea, muito próximo ao oviduto, canal que serve para a passagem dos ovos.

© YOSHIHIRO FUJIWARA (JAMSTEC)
Osedax fêmea
Verme Osedax fêmea

As fêmeas se impõem desde cedo sobre o destino dos machos. Ao sair do ovo, a larva poderá crescer e formar outra fêmea se aderir a um osso. Se encontrar à frente o corpo da fêmea, porém, não crescerá e será apenas um macho anão, como resultado provável da ação de substâncias químicas liberadas pelo contato com o corpo da fêmea. “É uma adaptação evolutiva bastante interessante”, comenta Sumida.
Se machos e fêmeas fossem do mesmo tamanho, ele diz, a competição por alimento e a dificuldade de encontrar um parceiro sexual seriam maiores.

A situação atual, provavelmente a única que sobreviveu ao longo de milhões de anos, permite que a fêmea possa produzir milhares de ovos e, ao mesmo tempo, evitar a competição por alimento com os pequeninos machos. “Os óvulos são maiores e não poderiam ser produzidos por fêmeas pequenas, enquanto o espermatozoide pode ser produzido em grande número por animais pequenos”, observa o biólogo. Segundo ele, outro exemplo desse fenômeno é o peixe-diabo, outro ser das profundezas marinhas. O macho é minúsculo e se prende ao corpo da fêmea, muito maior. “Quando um macho encontra uma fêmea, gruda e não sai mais. Torna-se um parasita da fêmea, a ponto de o tecido do macho fundir-se com o da fêmea.”
© PAULO Y. G. SUMIDA (IO/USP)
O submarino Shinkai, antes de mais uma expedição no fundo do mar
O submarino Shinkai, antes de mais uma expedição no fundo do mar


Sumida pôde estudar esse verme – uma espécie ainda não descrita de poliqueta e a primeira do Atlântico – porque ele e os colegas do Japão, de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Espírito Santo, quando passaram com o submarino na chamada Dorsal de São Paulo, a cerca de 700 quilômetros do litoral de São Paulo, tiveram a sorte de encontrar os ossos da cauda de uma baleia, depois identificada como uma minke-antártica com cerca de oito metros de comprimento e morta no assoalho marinho provavelmente entre cinco e 10 anos.

Era a primeira carcaça de baleia encontrada em mar profundo (a 4.200 metros de profundidade, neste caso) na costa da América do Sul. Coletaram nove vértebras, já degradadas, tomadas por esses poliquetas. “Já encontramos três morfotipos [variações morfológicas] diferentes de Osedax, mas todos geneticamente idênticos”, diz Sumida. “Associados aos ossos encontramos 25 espécies de organismos marinhos e vários outros dentro dos ossos, principalmente poliquetas, todos provavelmente ainda não descritos.” Depois de dois anos de planejamento e autorizações, o submarino Shinkai 6.500, operado a partir do navio oceanográfico japonês Yokosuka, explorou as águas brasileiras como parte de uma viagem mundial. O submarino leva duas horas para descer até o fundo do mar a 4 mil metros e pode permanecer lá embaixo por até oito horas.
Em junho de 2013, dois meses depois da viagem ao fundo do mar, Sumida, desta vez a bordo do navio oceanográfico da USP, o Alpha-Crucis, participou de outra operação inusitada: o lançamento, em pontos predeterminados a 1.500 e 3.300 metros de profundidade, de estruturas metálicas contendo ossos de baleia e placas de madeira e de plástico, com o propósito de saber que organismos as colonizam e assim conhecer melhor os processos de transformação da matéria orgânica que se passam nas águas frias e escuras do fundo do mar. Os materiais devem ser resgatados em outubro deste ano e os achados, comparados com os ossos e madeiras depositados na costa do estado de Washington por pesquisadores da Universidade do Havaí.
© JAPAN AGENCY FOR MARINE-EARTH SCIENCE AND TECHNOLOGY (JAMSTEC)
Os ossos da coluna vertebral de uma baleia encontrados a 4.200 metros de profundidade e coletados para análise
Os ossos da coluna vertebral de uma baleia encontrados a 4.200 metros de profundidade e coletados para análise

“Conhecemos pouco dos mares profundos”, diz Sumida, que há 20 anos fez o mestrado sobre organismos de mar profundo e depois desceu seis vezes no fundo do mar – seu recorde, antes do ano passado, tinha sido em 1999, quando chegou a 1.200 metros na costa da Califórnia no submarino Alvin, dos Estados Unidos. Um dos levantamentos mais abrangentes da biodiversidade marinha nacional foi o Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva (Revizee). Concluído em 2003, o Revizee reuniu 150 especialistas de 40 instituições nacionais de pesquisa que dimensionaram os estoques de 50 espécies de peixes e crustáceos, incluindo os de águas profundas, a uma distância de até 350 quilômetros da costa (ver Pesquisa FAPESP nº 83). Em 2010, o Brasil, um dos líderes em biodiversidade terrestre, com cerca de 20% das formas de vida encontradas no planeta, apareceu em uma posição modesta, com 9.101 espécies de organismos marinhos, o equivalente a 4% do total, no Censo de Vida Marinha, que reuniu 2.700 especialistas de 80 países durante 10 anos (ver Pesquisa FAPESP nº 176). Como indicação concreta de que ainda há muito por fazer, em caixas com potes com álcool mantidos em outra sala estão a estrela-do-mar vermelha, um caranguejo e outros seres das profundezas esperando a vez de serem examinados.

Projeto

Biodiversidade e conectividade de comunidades bênticas em substratos orgânicos (ossos de baleia e parcelas de madeira) no Atlântico sudoeste profundo – BioSuOr (11/50185-1); Modalidade Progama Biota – Projeto Temático; Pesquisador responsável Paulo Yukio Gomes Sumida (IO-USP); Investimento R$ 1.443.516,15 (FAPESP).

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Baleias e golfinhos à vista!

Diversidade de espécies e abundância de animais na costa paulista são maiores do que o imaginado 

CARLOS FIORAVANTI | Edição 218 - Abril de 2014
© EDUARDO CESAR
Golfinho-pintado-do-atlântico: agora recenseado no litoral paulista
Golfinho-pintado-do-atlântico: agora recenseado no litoral paulista.

Em pé, à direita da proa da lancha que oscilava como um pêndulo enquanto deslizava com rapidez, Victor Uber Paschoalini foi quem viu primeiro algo se mexendo ao longe no meio do mar por volta das 11 da manhã do dia 10 de fevereiro deste ano, a menos de 1 quilômetro da Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista. Ele achou que eram golfinhos, exatamente o que estavam procurando. Para confirmar, chamou o chefe da expedição, o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). Aproximaram-se com a lancha e confirmaram: eram mais de 20 golfinhos-pintados-do-atlântico (Stenella frontalis), com 2 a 2,5 metros de comprimento, que logo começaram a saltar na água límpida ao lado da lancha. Santos pediu para o piloto reduzir a velocidade e, com sua equipe, fotografou os animais – principalmente as nadadeiras dorsais, que funcionam como uma cédula de identidade, por causa das cicatrizes e marcas únicas em cada indivíduo – e gravou seus sons com um hidrofone, colocado na água. Em seguida, com uma flecha atirada de uma balestra, ele coletou uma amostra de pele com 1 milímetro de espessura, para análises genéticas, e 2 centímetros de gordura para análise de contaminantes químicos.

Esse era o início da quinta viagem de uma série de 23 planejadas até 2015 para mapear a diversidade e a distribuição de cetáceos – baleias e golfinhos, também chamados de botos – do litoral paulista. Santos e sua equipe, com base nos animais mortos que encontraram na praia nos últimos anos e nos vivos que estão vendo agora, registraram até agora mais de 300 indivíduos de 29 espécies de cetáceos, o equivalente a 63% das 46 espécies já observadas no litoral brasileiro. Em rios a diversidade de golfinhos é menor: uma nova espécie, batizada de Inia araguaiaensis, a quinta já registrada, foi anunciada em janeiro por pesquisadores do Amazonas, que a encontraram no rio Araguaia e seus afluentes. Embora pouco vistos e pouco estudados, os cetáceos da costa brasileira representam quase metade das 87 espécies já identificadas nos mares do mundo.
© EDUARDO CESAR
Em conjunto: grupos de até 20 golfinhos (aqui, pintados-do-atlântico) se exibem no caminho da Ilha da Queimada Grande
Em conjunto: grupos de até 20 golfinhos (aqui, pintados-do-atlântico) se exibem no caminho da Ilha da Queimada Grande

Os resultados preliminares sugerem também uma diversidade de espécies e de abundância de cetáceos maiores do que o imaginado – desde as toninhas (Pontoporia blanivillei), um dos menores mamíferos de água doce, com até 2 metros de comprimento, encontrada do Espírito Santo à Argentina e vítima constante da captura acidental nas redes para peixes, até as colossais baleias-de-bryde (Balaenoptera brydei), que chegam a 15 metros de comprimento.

Desse trabalho estão também emergindo novas conclusões e hipóteses sobre as baleias e os golfinhos que percorrem o litoral brasileiro. Comparando amostras de DNA, Santos e outros pesquisadores da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Colômbia e de Porto Rico verificaram que as populações de golfinhos-pintados-do-atlântico encontrados no Sul e Sudeste do Brasil e no Caribe são distintas entre si e não se misturam. Além disso, um equívoco sobre outra espécie está sendo desfeito. As baleias-de-bryde, uma espécie arisca e ágil, que permanecem pouco tempo na superfície, aparentemente percorrem o litoral paulista ao longo de todo o ano e não apenas no verão e na primavera, como se pensava, porque os mergulhadores as viam apenas na temporada de mergulho.
© EDUARDO CESAR
Amostra de  pele, para análise filogenética
Amostra de
pele, para análise filogenética
Outra abordagem possível – e bastante usada – de mapeamento das populações de cetáceos é a partir de um ponto fixo. É como se faz no arquipélago de Abrolhos, litoral da Bahia, com as baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), uma das espécies de maior distribuição geográfica no mundo e a mais estudada no Brasil, em vista de suas características únicas, como as nadadeiras peitorais, que chegam a um terço do corpo, e por sua distribuição espacial e temporal previsível: 80% das jubartes que visitam a costa brasileira se concentram na região de Abrolhos, principalmente de julho a novembro, para terem e amamentarem os filhotes em águas mornas e rasas.

O biólogo Salvatore Siciliano, atualmente na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, esteve lá em 1989 e 1990 para fazer seu mestrado e, “sentado em uma pedra com prancheta e binóculo”, como ele recordou, avistou 604 grupos de jubarte (metade era de mães com filhotes) em 191 dias de observação. Nessa época havia equipes de pesquisa em mamíferos marinhos estabelecidas apenas em Manaus, no Amazonas, e em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Outros grupos se formaram depois, mas os estudos sobre cetáceos antes de 1980 são muito raros, lembra Siciliano, dificultando análises e comparações, diferentemente de aves ou mamíferos terrestres, estudados há três séculos.

© EDUARDO CESAR
Nariz-de-garrafa, outra espécie encontrada no litoral paulista
Nariz-de-garrafa, outra espécie encontrada no litoral paulista

Daniela Abras, pesquisadora do Instituto Oceanográfico da USP, esteve em Abrolhos em julho de 2013. Com apoio da Marinha, do Instituto Jubarte, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Cetacean Society International (CSI), assentada sobre um dos pontos mais altos do arquipélago, ela registrou 500 majestosas baleias, bem mais que as 200 registradas em 2004. “Está havendo um aumento populacional de baleias-jubarte, como resultado da proibição da caça, mas ainda está muito abaixo do que era”, diz ela. Hoje se estima a população de baleias-jubarte em 7.900 animais, que podem ser vistos na costa desde a região de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, até o Rio Grande do Norte, ainda abaixo das estimadas 25 mil jubartes antes de começarem a ser intensamente caçadas. A partir de 1650, nas principais cidades do litoral, como descrito no livro A baleia no Brasil colonial, da historiadora Myriam Ellis (Edusp/Melhoramentos, 1969), a caça de baleias era uma importante atividade econômica, para extração do chamado azeite de peixe, usado como argamassa para construções e em iluminação pública, e cerdas bucais, vendidas na Europa para a fabricação de espartilhos. Com barcos de 10 a 12 metros de comprimento, as baleias eram capturadas com arpão, depois abatidas por meio de sucessivos golpes de lanças de 2 metros de comprimento, arrastadas à praia e abertas: cada animal fornecia em média 7 mil litros de óleo. Uma lei federal proibindo a caça de baleias entrou em vigor apenas em 1987.
“Esta é a primeira vez que fazemos cruzeiros oceanográficos específicos para mapear cetáceos nos 600 quilômetros do litoral de São Paulo”, afirma Santos. “Por falta de especialistas e limitações financeiras, antes os trabalhos eram feitos apenas com animais mortos”, conta Santos. Ele próprio, durante o mestrado, percorreu de bicicleta ou mobilete as praias de Cananeia e Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo, coletando crânios de cetáceos encontrados mortos – ao todo, Santos reuniu e examinou 124 crânios. Foi também a primeira vez que um repórter fotográfico – Eduardo Cesar, de Pesquisa Fapesp – acompanhou uma das viagens de fevereiro e passou três dias com os pesquisadores em alto-mar.

Duas semanas antes da viagem, Santos, impressionado com a curiosidade de Paschoalini em sala de aula, convidou-o para completar sua equipe nessa expedição, mas não imaginava o tamanho da sorte do rapaz de 19 anos, agora no segundo ano do curso de oceanografia, com um provérbio bretão tatuado no braço direito, “lute e lute novamente até os cordeiros virarem leões”. Os quatro integrantes da equipe revezavam-se na observação, em turnos de uma hora, com meia de descanso, mas foi Paschoalini quem, duas horas mais tarde, avistou o segundo grupo de golfinhos, desta vez de outra espécie, o nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), também com cerca de 20 animais, um pouco maiores e menos abundantes que os pintados, agora em uma água turva e sob sol forte.

© JOÃO HIPÓLITO DO NASCIMENTO / ACERVO MUSEU DA BALEIA DE IMBITUBA
Praia do porto de Imbituba, Santa Catarina, final da década de 1940: matança desenfreada de baleias-francas
Praia do porto de Imbituba, Santa Catarina, final da década de 1940: matança desenfreada de baleias-francas.

Ao seu lado, a oceanógrafa Giovanna Corrêa e Figueiredo notou que os animais, normalmente dóceis – como o amigável Flipper de um antigo seriado da televisão –, naquele dia estavam arredios. Talvez porque, ela cogitou, estivessem com fome e apressados atrás de um cardume ou incomodados com a temperatura da água, que variava de 30 a 33º Celsius, quase cinco graus acima do habitual. Algas e outros organismos proliferam mais facilmente na água mais quente, formando uma mancha escura que dificulta a visibilidade, como a que se estendeu em fevereiro da costa do Rio de Janeiro a Santa Catarina. Nesse dia e nos dois seguintes – percorreram cerca de 650 quilômetros desde São Vicente até a Ilha do Mel, norte do Paraná – permaneceram atentos olhando o mar, da proa à popa, mesmo com o sol refletindo na água no final da tarde, e não viram mais golfinhos ou baleias. “Em alguns momentos o cansaço é tão grande que a gente vê onda e acha que é golfinho”, diz Giovanna.

Ela acompanha Santos desde a primeira expedição, em dezembro de 2012. No primeiro dia eles e outros pesquisadores do grupo percorreram o mar sem ver qualquer cetáceo, mas no segundo maravilharam-se ao avistar um grupo de 16 orcas (Orcinus orca), a espécie mais encorpada de golfinhos (não, não são baleias) – os machos mais taludos chegam a 10 metros de comprimento e 10 toneladas de peso –, atrás de Ilhabela, litoral norte de São Paulo. Não é comum encontrá-las tão perto da costa. “Passamos quase duas horas com as orcas, observando e fotografando”, relatou Santos. “Sabemos muito pouco sobre elas, quantas são, quando vão aparecer.”
Comparando fotografias das nadadeiras dorsais, pôde-se ver que dois indivíduos do grupo de Ilhabela, um mês antes, estavam perto das praias da cidade do Rio de Janeiro, a 400 quilômetros de distância. Alexandre Azevedo, oceanógrafo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, auxiliou na comparação das fotografias e confirmou que os animais eram os mesmos. Depois de cada viagem, uma das tarefas dos pesquisadores é analisar as fotos das nadadeiras dorsais, por meio de um programa de computador específico, para encontrar as que provêm de indivíduos novos e reforçar o catálogo no site do laboratório, já com 104 animais de duas espécies de baleias e três de golfinhos, representados por suas nadadeiras únicas.

Há também razões para inquietação: em consequência da construção de portos e do aumento do número de embarcações e da poluição crescente na costa, os cetáceos podem estar se afastando da costa e procurando áreas mais calmas. Giovanna Figueiredo, da equipe de Santos, verificou que os registros de avistagem da baleia-franca-austral (Eubalaena australis), com até 18 metros de comprimento e 60 toneladas, antes comuns nas praias mais próximas da costa do Sudeste, escassearam desde 2002, mesmo que a população estivesse aumentando, com o fim da caça. Em uma das viagens, a equipe da USP avistou uma baleia-franca com um filhote na Ilha da Queimada Grande, a 27 quilômetros da costa. Karina Groch e outros biólogos do Projeto Baleia-franca estão atentos sobre os possíveis efeitos da construção do porto de Imbituba, em Santa Catarina, e do aumento do tráfego de embarcações na região, antes um centro regional de caça à baleia-franca. Em 2005, Karina estimou em 500 o número de baleias-francas que visitam regularmente a costa brasileira, das quais 100 se abrigam no litoral sul, principalmente no período reprodutivo, de julho a novembro.

“Estamos afastando as baleias e os golfinhos, por um conjunto de causas, com efeitos cumulativos”, reitera Siciliano, que publicou vários artigos nos últimos anos indicando a contaminação por metais pesados e outras substâncias tóxicas, que devem favorecer, em golfinhos, as deformações ósseas, que ele próprio registrou, e as doenças de pele, que Santos descreveu em 2009. “É uma pena, porque as populações estão se refazendo e os cetáceos estão buscando as baías que ocupavam antes, mas as encontram transformadas em estacionamento de navios e depósito de esgoto.”
Siciliano foi um dos pesquisadores que participaram da elaboração do plano de ação para conservação da toninha, uma espécie que vive na faixa costeira e apresenta alta mortalidade ao se prender em redes de pescadores (Santos está examinando com pescadores de Cananeia as formas possíveis de reduzir a mortalidade de toninhas). Aprovado e publicado em 2010, o plano de ação previa a criação de dois parques nacionais (em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul) e a ampliação de outro, atualmente apenas com restinga, no litoral norte do estado do Rio, de modo a se limitar um espaço adequado para toninhas, tubarões, raias, tartarugas e outros animais marinhos. Siciliano, ao comentar que os parques ainda não foram criados, lembrou-se da resistência para a proibição da pesca e a transformação em parque nacional de uma área cobiçada para a construção de portos. Em uma das reuniões sobre a criação das unidades de conservação marinhas, ele se lembrou, um dirigente de um órgão público ambiental perguntou aos pesquisadores: “Afinal, para que serve uma toninha?”. Em uma peça do teatrólogo Bertolt Brecht, um cardeal fez uma pergunta parecida enquanto se recusava a ver pelo telescópio de Galileu: “Serão as estrelas realmente necessárias?”.

Projetos

1. Ocorrência, distribuição e movimentos de cetáceos na costa do estado de São Paulo (nº 11/51543-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular/Biota; Pesquisador responsável Marcos César de Oliveira Santos – IO/USP; Investimento R$ 454.775,03 (FAPESP).

2. Capturas acidentais de pequenos cetáceos em atividades pesqueiras no litoral sul paulista: buscando subsídios para formulação de políticas de conservação (nº 10/51323-6); Modalidade Parceria para Inovação Tecnológica (Pite); Pesquisador responsável Marcos César de Oliveira Santos – IO/USP. Investimento R$ 242.490,33 (FAPESP).

Artigos científicos

CABALLERO, S. et al. Initial description of the phylogeography, population structure and genetic diversity of Atlantic spotted dolphins from Brazil and the Caribbean, inferred from analyses of mitochondrial and nuclear DNA. Biochemical Systematics and Ecology. v. 48, p. 263-70. 2013.

SANTOS, M.C.O. et al . Cetacean records along São Paulo state coast, Southeastern Brazil. Brazilian Journal of Oceanography. v. 58, n. 2, p. 123-42. 2010.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Biodiversidade marinha

Publicado em 17/05/2013

Museu Oceanográfico Univali passa a abrigar a segunda maior coleção de peixes cartilaginosos do mundo.
Biodiversidade marinha
Pesquisadores da Univali mostram algumas espécies do acervo do Museu Oceanográfico. (foto: Divulgação/ Univali) 
 
O Museu Oceanográfico da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), localizado em Balneário Piçarras, no litoral norte de Santa Catarina, passou a abrigar a segunda maior coleção de tubarões, raias e quimeras do mundo. A instituição chegou à vice-liderança no ranking depois de receber cinco mil peças de peixes cartilaginosos do Núcleo de Pesquisa e Estudo em Chondrichthyes (Nupec), que já abrigava a antiga coleção do Instituto de Pesca de São Paulo (Ipesca) e recentemente fechou sua sede.
Com a integração dos acervos, o museu tem agora 12 mil exemplares, entre espécies raras que ocorrem na costa brasileira e animais de outras regiões do globo. A coleção supera em quantidade amostras seculares de cidades como Londres, Paris e Nova Iorque e só fica atrás do Museu Nacional dos Estados Unidos, com sede em Washington.
Segundo o geógrafo da Univali Jules Soto, curador geral do museu, um dos maiores destaques do novo acervo é o tubarão mangona-negra (Odontaspis noronhai). “Dessa espécie, que é raríssima, apenas três exemplares estão expostos em museus do mundo todo”, diz Soto. “Agora um deles está no nosso museu”, orgulha-se o geógrafo.
Mangona-negra
Exemplar de mangona-negra (‘Odontaspis noronhai’), espécie rara de tubarão, pertencente à Univali. O animal foi capturado no início da década de 1980 na costa sul do Brasil. (foto: Jules Soto)
Com barbatanas pretas – em alguns casos a nadadeira dorsal tem a ponta branca – e o focinho pontudo, o mangona-negra ocorre em diferentes regiões do oceano Atlântico e pode ser encontrado no sul do Brasil. O macho chega a medir até 3,6 m, e a fêmea, 3,3 m.

Exposição e pesquisa

As peças de maior notoriedade serão agregadas a outras já em exposição no museu. Antes da montagem dos módulos, os exemplares vão passar por processos de revisão, higienização e acomodação.
Todo o material será disposto de uma forma que leve o espectador a passar por todo o museu. “Assim, ele não perde nenhuma atração”, comenta o curador. A previsão é de que o trabalho de organização do acervo esteja concluído em julho próximo.
Acervo do Museu Univali
Parte do acervo do Museu Oceanográfico Univali, que passa por processo de organização. (foto: Divulgação/ Univali)
O principal objetivo da nova coleção, de acordo com Soto, é dar ao pesquisador condições de realizar estudos em áreas como anatomia, sistemática e biogeografia. A análise das peças pela comunidade científica deverá, segundo ele, ampliar o conhecimento sobre tubarões e raias encontrados no Brasil. “Essa coleção é o maior testemunho da biodiversidade brasileira nesse grupo zoológico”, avalia.
“Essa coleção é o maior testemunho da biodiversidade brasileira nesse grupo zoológico”
Além da ampla coleção de peixes cartilaginosos, o Museu Oceanográfico Univali abriga também 89 mil peças de conchas, 708 lotes de mamíferos marinhos (baleias, golfinhos, focas, lobos e leões-marinhos) e 644 lotes de tartarugas-marinhas.

Marina Sequinel
Ciência Hoje On-line/ PR

sexta-feira, 17 de maio de 2013


Biodiversidade marinha

Publicado em 17/05/2013

Museu Oceanográfico Univali passa a abrigar a segunda maior coleção de peixes cartilaginosos do mundo.
Biodiversidade marinha
Pesquisadores da Univali mostram algumas espécies do acervo do Museu Oceanográfico. (foto: Divulgação/ Univali) 
 
O Museu Oceanográfico da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), localizado em Balneário Piçarras, no litoral norte de Santa Catarina, passou a abrigar a segunda maior coleção de tubarões, raias e quimeras do mundo. A instituição chegou à vice-liderança no ranking depois de receber cinco mil peças de peixes cartilaginosos do Núcleo de Pesquisa e Estudo em Chondrichthyes (Nupec), que já abrigava a antiga coleção do Instituto de Pesca de São Paulo (Ipesca) e recentemente fechou sua sede.
Com a integração dos acervos, o museu tem agora 12 mil exemplares, entre espécies raras que ocorrem na costa brasileira e animais de outras regiões do globo. A coleção supera em quantidade amostras seculares de cidades como Londres, Paris e Nova Iorque e só fica atrás do Museu Nacional dos Estados Unidos, com sede em Washington.

Segundo o geógrafo da Univali Jules Soto, curador geral do museu, um dos maiores destaques do novo acervo é o tubarão mangona-negra (Odontaspis noronhai). “Dessa espécie, que é raríssima, apenas três exemplares estão expostos em museus do mundo todo”, diz Soto. “Agora um deles está no nosso museu”, orgulha-se o geógrafo.
Mangona-negra
Exemplar de mangona-negra (‘Odontaspis noronhai’), espécie rara de tubarão, pertencente à Univali. O animal foi capturado no início da década de 1980 na costa sul do Brasil. (foto: Jules Soto)
Com barbatanas pretas – em alguns casos a nadadeira dorsal tem a ponta branca – e o focinho pontudo, o mangona-negra ocorre em diferentes regiões do oceano Atlântico e pode ser encontrado no sul do Brasil. O macho chega a medir até 3,6 m, e a fêmea, 3,3 m.

Exposição e pesquisa

As peças de maior notoriedade serão agregadas a outras já em exposição no museu. Antes da montagem dos módulos, os exemplares vão passar por processos de revisão, higienização e acomodação.
Todo o material será disposto de uma forma que leve o espectador a passar por todo o museu. “Assim, ele não perde nenhuma atração”, comenta o curador. A previsão é de que o trabalho de organização do acervo esteja concluído em julho próximo.
Acervo do Museu Univali
Parte do acervo do Museu Oceanográfico Univali, que passa por processo de organização. (foto: Divulgação/ Univali)
O principal objetivo da nova coleção, de acordo com Soto, é dar ao pesquisador condições de realizar estudos em áreas como anatomia, sistemática e biogeografia. A análise das peças pela comunidade científica deverá, segundo ele, ampliar o conhecimento sobre tubarões e raias encontrados no Brasil. “Essa coleção é o maior testemunho da biodiversidade brasileira nesse grupo zoológico”, avalia.
“Essa coleção é o maior testemunho da biodiversidade brasileira nesse grupo zoológico”
Além da ampla coleção de peixes cartilaginosos, o Museu Oceanográfico Univali abriga também 89 mil peças de conchas, 708 lotes de mamíferos marinhos (baleias, golfinhos, focas, lobos e leões-marinhos) e 644 lotes de tartarugas-marinhas.

Marina Sequinel
Ciência Hoje On-line/ PR

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

BBC & Discovery Channel Oceanos HDTV


Sinopse: O que está abaixo do gelo ártico congelado? Os oceanos são uma característica única da Terra. Eles moldam o nosso clima, a nossa cultura, o nosso futuro. No entanto, sabemos mais sobre a superfície de Marte do que sobre a Terra, quem mora nas profundezas?
O explorador Paul Rose lidera uma equipe de peritos do oceano em uma série de expedições globais ciêntificas. Com ele,o arqueólogo marítimo Dr. Lucy Azul investiga o nosso passado e a nossa relação com o mar, explorando naufrágios e civilizações perdidas. Biólogo marinho e oceanógrafo Tooni Mahto explora a extraordinária vida nos oceanos de hoje, e o ambientalista Philippe Cousteau Jr. olha para o futuro dos nossos oceanos e suas mudanças.
Filmado em alta definição em alguns dos locais dos mares mais bonitos, diversos e ameaçados do planeta, a equipe viaja por todo o mundo, do Oceano Antártico, para o Atlântico, o índio, o Mar Vermelho, o Mar de Cortez, o Oceano Ártico e o Mediterrâneo, para mergulhar nas profundezas dos mares do mundo e dos oceanos.

Edição Especial para Colecionadores !!

Título: BBC & Discovery Channel Oceanos
Produção: BBC & Discovery
Lançamento: 2008
Gênero: Documentario
Formato: HDTV
Qualidade de Vídeo: 10
Qualidade de Audio: 10
Extensão: AVI
Idioma: Inglês
Legendas: BAIXAR
Tamanho: 5.9 GB (Total)

1 – Sea Of Cortez / Mar de Cortez
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2 – Southern Sea / Oceano Austral
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3 – Red Sea / Mar Vermelho
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4 – Atlantic Ocean / Oceano Atlântico
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5 – Indian Ocean / Oceano Índico
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6 – Indian Ocean Coastal Waters / Águas Costeiras do Oceano Índico
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7 – Mediterranean Sea / Mer Mediterrâneo
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8 – Artic Ocean / Oceano Ártico

terça-feira, 5 de junho de 2012

Divulgar é preciso | 05/06/2012

Veja uma breve mostra das mais de dez mil fotografias de organismos marinhos disponíveis no novo canal de divulgação científica, o banco de imagens Cifonauta.
Leia mais sobre o site Cifonauta

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Belezas do mar na internet

Publicado em 10/11/2011
Banco de imagens criado por pesquisadores da USP reúne fotos e vídeos da vida marinha para uso e compartilhamento gratuito.
Belezas do mar na internet
A Porpita, um hidrozoário colonial que vive flutuando na superfície do mar, é uma das mais de 300 espécies reunidas no Cifonauta. (foto: Álvaro Migotto) 
 
Imagens dos mais simples e microscópicos e também dos maiores e mais complexos seres marinhos estão disponíveis para visualização e download no Cifonauta, nova página do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP) na internet.
O banco de imagens criado pelos biólogos Álvaro Migotto e Bruno Vellutini reúne mais de 11 mil fotos e 270 vídeos de 300 espécies de animais, plantas e protozoários marinhos.

Todas as imagens são fruto de pesquisas feitas na instituição e trazem informações como classificação taxonômica, estágio de vida e hábitat de cada organismo apresentado.
“Percebemos que esse acervo tinha um enorme potencial para a divulgação científica e educação em geral e por isso criamos o Cifonauta”
Migotto conta que o site foi criado para aproveitar o material audiovisual resultante das pesquisas feitas no CEBIMar, que acabava ficando esquecido depois do fim dos trabalhos.
“No nosso trabalho, a documentação por imagens é muito comum, mas apenas uma pequena parcela dos vídeos e fotos produzidas acaba sendo publicada”, explica. “Nós percebemos que esse acervo tinha um enorme potencial para a divulgação científica e educação em geral e por isso criamos o Cifonauta, para que esse material possa ser usado por estudantes, professores, artistas, curiosos, e para que colabore na conscientização das pessoas sobre a importância da biodiversidade marinha.”
aranguejo ‘Porcellana’
O exótico Caranguejo ‘Porcellana’. (foto: Álvaro Migotto)


Confira mais imagens na nossa Galeria


Além de fotografias convencionais, o site conta com imagens feitas por microscopia e outras técnicas que permitem a visualização de estruturas internas, órgãos, tecidos e células dos organismos marinhos.
As imagens e vídeos estão classificados também pelo tamanho e tipo de técnica fotográfica, para facilitar uma busca mais específica. A página conta ainda com alguns ‘tours virtuais’  que reúnem imagens de um mesmo tema acompanhadas de um texto explicativo.

Um deles apresenta ao internauta a biodiversidade e a paisagem da Baía do Araçá, no litoral norte de São Paulo, outro mostra em detalhes o ciclo de vida da bolacha-do-mar Clypeaster subdepressus, desde a liberação dos gametas à vida adulta.
Todo o material do site pode ser usado e compartilhado para fins não-comerciais desde que sejam citadas a fonte e a autoria.

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

domingo, 11 de setembro de 2011

Biologia Marinha

O Sistema Profundo
O sistema profundo começa no limite inferior da zona circalitoral e se estende até o ponto mais fundo do oceano, abrigando três zonas mais claramente reconhecíveis:
·         Zona batial - até 2.000 metros. Ambiente livre da influência das ondas e da maré, com temperatura e salinidade relativamente estáveis, somente alterada pela passagem de correntes marinhas profundas.
·         Zona abissal - até 6.000 metros. Ocupa 75% do fundo oceânico e possui uma temperatura uniforme e constante de 4 ºC. A ausência de luz é completa, o que permite a existência de crustáceos e peixes cegos e impede a ocorrência de fotossíntese.
·         Zona hadal - além de 6.000 metros. A pressão é superior a 600 vezes a da superfície. Abrange todas as fossas abissais.
Relevo do fundo oceânico
O relevo do fundo dos oceanos não é simplesmente plano, como o fundo de uma piscina. Ao contrário possui diversos tipos de acidentes geográficos que afetam o percurso das correntes marinhas e retratam a história geológica da Terra.
Os aspectos mais relevantes do relevo submarino são a plataforma continental, os taludes, as planícies abissais, a Cordilheira Meso-Oceânica e as fossas abissais.
As feições e o relevo do fundo oceânico são determinados por processos geológicos, em especial pela tectônica de placas. Ela faz com que as placas da crosta terrestre onde se assentam os continentes e os mares se desloquem, criando choques e afastamentos entre elas. Nos pontos de choque formam-se as fossas abissais e como resultado do afastamento surgem as Cordilheiras Meso-Oceânicas, verdadeiras espinhas dorsais dos oceanos, locais onde se forma constantemente um novo assoalho marinho com o magma que emerge pela atividade vulcânica.
A plataforma continental é uma continuação natural do relevo continental que se estende até o talude, estando sob forte influência da água e dos sedimentos que procedem dele. É onde se concentra a exploração econômica dos oceanos, como a pesca e a extração de petróleo. Costumeiramente atinge 200 metros de profundidade e alcança até 200 milhas náuticas da linha de litoral. Mas grande é a sua diversidade com relação a extensão e características. Há locais como a costa da Califórnia e o litoral cantábrico onde praticamente não há plataforma continental, enquanto que na costa russa do Oceano Ártico ela estende-se até por 1200 quilômetros. Com toda essa variedade, a plataforma continental ocupa apenas 8% do fundo oceânico.
O talude corresponde à borda dos continentes, marcando os limites entre o reino continental e o marinho. Caracteriza-se pelo predomínio do relevo íngreme e acidentado, aumentando sua profundidade em um quilômetro e meio a cada 6 ou 8 quilômetros que se avança mar adentro. Estende-se por cerca de 9% dos fundos oceânicos.

As planícies abissais são encontradas nos maiores oceanos se estendendo desde a borda do talude até a Cordilheira Meso-Oceânica, geralmente entre 2 e 5 mil metros de profundidade. Com topografia relativamente plana, ocupa grande parte do fundo do mar, passando de 80% dele. É riquíssimo em minérios e recoberto por sedimentos criados pelas carapaças de organismos planctônicos.
Além das Cordilheiras Meso-Oceânicas, as planícies abissais têm a monotonia de sua planura quebrada por outras formas de relevo menos freqüentes, como maciços, guyotes, bancos, cânions e as falhas. Os maciços são montanhas isoladas de origem vulcânica que se destacam da planície abissal. Os guyotes são montanhas também isoladas porém com formato de cone truncado, apresentando o topo plano com aproximadamente 15 quilômetros de diâmetro e até 200 metros de profundidade. Quando o guyot tem o topo mais amplo e a mais de 200 metros de profundidade, recebe a denominação de banco. Os cânions são vales estreitos e não tão profundos a ponto de serem considerados como fossas abissais. As falhas são desníveis no terreno da planície abissal, formando como um degrau.
A Cordilheira Meso-Oceânica, também conhecida como dorsais, constitui-se na principal feição das planícies abissais, acompanhando o contorno dos continentes. Por ser uma cadeia de montanhas submarinas muito altas, emerge em diversos pontos do mar sob a forma de ilhas e arquipélagos.
As fossas abissais são as partes mais profundas, menos conhecidas do oceano e menos presentes, em apenas 3% do fundo oceânico. São mais comuns na região asiática do Oceano Pacífico. No Atlântico existem duas delas, a de Porto Rico e a de Sandwich. E o Índico possui apenas a Fossa de Java. O recorde de profundidade ainda pertence à Fossa das Marianas, com 11.034 metros registrados, que foi visitada uma única vez por Jacques Piccard e Don Walsh em 1960, a bordo do batiscafo Trieste. A Lua, por outro lado, recebeu seis tripulações do Projeto Apollo que a estudaram e coletaram amostras.
Fatores limitantes
A biodiversidade e as características das espécies bentônicas do sistema profundo são determinadas pelos fatores limitantes, dentre os quais destacam-se pressão, oxigênio e sedimentos.
A pressão é o principal fator atuante nas comunidades bentônicas de grandes profundidades, responsável pela distribuição das espécies e pela sua fisiologia.
Devido à pressão, a taxa metabólica de todos os animais é menor, o que faz que cresçam mais devagar e com um tempo de vida muito maior. O resultado é a ocorrência do gigantismo abissal dos invertebrados, que podem ser dez vezes maiores que os correspondentes da superfície.
A existência de organismos pluricelulares é inviável sem a presença de oxigênio. Ainda que a ausência de luz impeça o desenvolvimento dos produtores que gerem oxigênio, seu suprimento é, via de regra, suficiente e garantido pelas correntes marinhas que trazem para o fundo massas de água bem oxigenadas da superfície.
Na medida em que aumenta a profundidade, afastando-se da plataforma continental, os sedimentos que recobrem o fundo vão-se tornando cada vez mais diferente, afetando o tipo de organismo que pode instalar-se sobre e dentro dele. Nas planícies abissais assume uma textura fina, conhecida como vaza, sendo classificada em silicosa e calcária, de acordo com o tipo de organismo que lhe deu origem. A decomposição dos restos orgânicos que afundam desde a superfície torna a vaza muito rica em nutrientes. Mas eles somente serão úteis quando levados à superfície pelas correntes de ressurgência.
Até os cinco mil metros de profundidade a vaza é predominantemente formada pela deposição das carapaças de microrganismos calcários, como os de foraminíferos e de certas algas. Abaixo dessa profundidade, denominada Profundidade de Compensação do Calcário, os sedimentos calcários estão ausentes devido a enorme pressão que faz com que o carbonato de cálcio fique dissolvido na água. A vaza calcária cobre 68% do leito do Oceano Atlântico, 54% no Oceano Índico e apenas 36% do fundo do Oceano Pacífico.
Abaixo dos cinco mil metros a vaza mais comum é a de natureza silicosa, formada a partir das carapaças de diatomáceas e radiolários silicosos, que afundam desde a superfície. Porém a maior parte do fundo oceânico é coberta por uma argila vermelha, rica em alumínio e cobre.
O basalto é o tipo de rocha mais comum no fundo oceânico, aflorando em áreas de deposição vulcânica recente e em pontos onde as correntes marinhas não trouxeram sedimentos continentais. Nódulos de ferro e manganês são também muito freqüentes.
Tanto a salinidade como a temperatura mantêm-se invariáveis abaixo de 3 mil metros, independentemente da latitude e estação do ano.
Características dos ecossistemas do Sistema Profundo
Durante muito tempo acreditou-se que o fundo oceânico fosse uma região desolada e privada de vida. Isso porque a ausência de luz impediria o desenvolvimento de produtores que sustentariam alguma cadeia alimentar. Além do mais, as tremendas pressões e a temperatura permanentemente baixa tornariam qualquer forma de vida inviável. Apenas alguns peixes, vindo de menores profundidades, poderiam se aventurar esporadicamente pelo bentos do sistema profundo.
Entretanto, a análise de um cabo telegráfico quebrado a 2.300 metros de profundidade no leito do Mediterrâneo mostrou como essa concepção era errônea. Ao ser içado à superfície, descobriu-se uma assombrosa variedade de criaturas bentônicas crescendo sobre o cabo telegráfico. Tal descoberta foi confirmada pelos cientistas em 1964 durante um mergulho na Fossa de Porto Rico, onde observaram muitas espécies vivendo a cerca de nove mil metros de profundidade.
Os traços marcantes dos ecossistemas do sistema profundo são:
· baixas taxas reprodutiva e de mortalidade,
· tempo de vida prolongado,
· limitada variabilidade genética,
· limites estreitos de tolerância fisiológica,
· lento metabolismo,
· elevada biodiversidade, que aumenta com a profundidade, atingindo o seu máximo cerca da cota de 1.500 metros.

· populações pouco numerosas para cada espécie; e portanto, com biomassa reduzida, mil vezes menor do que a encontrada na plataforma continental.
Acredita-se que esse perfil ecológico seja o resultado de um ambiente muito estável em seus fatores limitantes (principalmente salinidade e temperatura) ou da intensa competição pelos escassos alimentos, que sustentariam poucos indivíduos, ou, ainda, da maior área disponível nas planícies abissais, que favoreceria o isolamento das populações e o surgimento de novas espécies.
A vida nas planícies e fossas abissais
A dificuldade de acesso ao sistema profundo torna seus ecossistemas os menos conhecidos da biosfera, não sendo possível reconhecer claramente diferenças locais, nem caracterizar e diferenciar os habitats do bentos de grandes profundidades.
As poucas observações feitas estão restritas à alguns pontos da planície abissal. A comunidade desses locais é constituída principalmente por poliquetas, crustáceos (isópodes e anfípodes) e pepinos-do-mar; ocorrendo alguns peixes, protozoários, anêmonas, esponjas, moluscos gastrópodes de conchas frágeis, tunicados, sipunculídeos, ofiúros, estrelas-do-mar, lulas e polvos. Existem representantes de praticamente todos os filos animais, com cerca de quatro mil espécies já registradas.
Uma característica e importante comunidade dos taludes e planícies abissais é a dos detritívoros. São hemicordados, poliquetas e moluscos bivalves que vivem enterrados no sedimento, ingerindo-o para dele retirar a matéria orgânica. São responsáveis pela reciclagem de nutrientes e pela alteração da textura do sedimento, permitindo a instalação de outros organismos.
Sobre a superfície vivem os filtradores capazes de capturar partículas orgânicas que afundam desde a superfície, sob a forma de pequenos flocos brancos, convenientemente denominados neve marinha.
A cadeia alimentar nas planícies abissais carece de produtores. O primeiro nível trófico é ocupado pelos filtradores. O papel de predador do topo da cadeia é exercido, geralmente, pelas estrelas-do-mar. Predadores nectônicos – como peixes e lulas – também se alimentam desses organismos bentônicos.
Detritívoros – hemicordados, poliquetas e moluscos bivalves.
Filtradores – isópodes, anfípodes, gastrópodes, lírio-do-mar, ofiúros, pepinos-do-mar; anêmonas, penas marinhas, esponja-de-vidro, esponja-túlipa, tunicados e sipunculídeos.
Predadores - estrelas-do-mar, peixes (lagartixa-do-mar – família Macrouridae -, peixe-tripé Benthosaurus spp, pai-velho Sternoptyx spp e enguia-pelicano Scaccopharynx spp), lulas e polvos.
As fossas abissais são habitadas predominantemente por crustáceos, poliquetas e pepinos-do-mar. Em menor porcentagem, encontram-se celenterados, moluscos, estrelas-do-mar, ouriços e ofiúros, podendo chegar a quatrocentas espécies.
Mas o ecossistema bentônico profundo mais extraordinário e estudado ocupa as redondezas das fontes hidrotermais submarinas
As fontes hidrotermais submarinas
No nosso próprio planeta temos habitats tão inacessíveis e desconhecidos como o de outros planetas, povoados por seres tão estranhos que poderíamos chamá-los de “ETs terrestres”. Tratam-se das chamadas chaminés (em inglês “smokes” ou ainda “vents”), fontes hidrotermais submarinas que costumam ocorrer em grande profundidades – abaixo de dois mil metros – nas regiões de fundo oceânico com atividade vulcânica. Foram descobertas apenas em 1977, bem depois da chegada do homem à Lua.
Nas fontes hidrotermais submarinas, a água penetra em minúsculas e inúmeras fendas no solo oceânico até entrar em contato com o magma que a aquece e a “contamina” com muitas substâncias químicas que a escurece. Ao se aquecer, até quase 1.000 °C, a água aumenta de pressão e escapa com força pela abertura da chaminé, quando já resfriou até cerca de 400 °C. Desta forma, a chaminé cria ao redor um ambiente aquecido, ácido e rico em nutrientes minerais, um verdadeiro oásis em meio a um mar escuro e gelado. E não apenas oásis, mas também um autêntico “El Dorado” pelo acúmulo de ouro, prata e cobre.
As chaminés externamente parecem vulcões, mas funcionam como fontes hidrotermais. Apesar da elevada temperatura da água expelida – cerca de 400 °C -, ela permanece no estado líquido devido às imensas pressões a que está submetida, mais de 200 vezes a da superfície do mar. Na verdade, os organismos desse ecossistema não são especialmente adaptados ao calor, pois a três centímetros do fluxo principal de água quente a temperatura é de 2 ºC, típica dessas profundidades.
A fauna existente nesse ecossistema surpreendeu aos cientistas, não só por ser completamente exótica e única, mais ainda pelo fato de terem encontrado as arqueobactérias. Elas parecem ser os mais antigos organismos vivos da Terra. São capazes de usar o enxofre – exalado abundantemente pelas fontes hidrotermais submarinas – como fonte de energia (dispensando a luz solar) para transformar dióxido de carbono, água e os tóxicos nitratos em alimento para si e outros organismos.
Muitos supõem agora que a vida tenha surgido no nosso planeta em um ambiente como esse, e não na superfície dos oceanos primitivos. Experiências em laboratório, simulando as condições ambientais das fontes hidrotermais submarinas, porém sem a presença de nenhuma célula, resultaram na produção de cadeias de aminoácidos. Elas seriam as precursoras das primeiras proteínas e, portanto, da vida., como ocorreu há mais de um bilhão de anos atrás.
Acredita-se que Vênus, Marte, assim como as luas jupiterianas Io e Europa tenham ou já tiveram ambientes similares aos das fontes hidrotermais submarinas, aumentando as esperanças de se encontrar vida em nosso sistema solar.
Já foram identificadas cerca de trezentas espécies diferentes vivendo nas fontes hidrotermais submarinas, como siris, caranguejos, lagostas, camarões, anêmonas, polvos e os bizarros mexilhões gigantes com 25 centímetros de comprimento.
Na cadeia alimentar das fontes hidrotermais submarinas, o papel de produtor é assumido pelas arqueobactérias que, muito antes do surgimento da fotossíntese, permitiram o desenvolvimento da vida graças à quimiossíntese, um processo metabólico menos sofisticado e evoluído que a fotossíntese.

O mais típico e característico habitante das fontes hidrotermais submarinas é o poliqueta tubiforme Riftia pachyptila. Pode ter desde alguns centímetros até três metros de comprimento. Não possui boca, estômago ou mesmo intestino. No seu lugar há uma bolsa repleta de arqueobactérias simbióticas que lhes fornecem a alimentação. Guelras, semelhantes às dos peixes, retiram oxigênio e sulfeto de hidrogênio da água para nutrir as arqueobactérias.
Curioso habitat do fundo oceânico onde a combinação de singulares fenômenos geológicos resulta no afloramento de petróleo, metano e sulfetos, que se espalham por sobre os sedimentos. Pelo frio intenso do local, essas substâncias permanecem congeladas, sendo consumidas por raras sulfobactérias quimiossintetizantes Beggiatoa que sustentam uma simples cadeia alimentar. Elas vivem em simbiose nas brânquias de mariscos do gênero Calyptogena. Em troca de abrigo, produzem alimentos usando a matéria prima retirada da água pelas brânquias.
A elevada concentração de metano dissolvido na água cria piscinas de salmoura que, tão intensa é sua salinidade, mata a todos os peixes que entram nela.
A descoberta do primeiro afloramento frio foi realizada em 1985 no Desfiladeiro Submarino de Monterey, no litoral da Califórnia (EUA), a uma profundidade de 3.200 metros. Os cientistas ficaram surpreendidos com a imensa concentração de mariscos ao redor das piscinas de salmoura e com a variedade de formas de vida em um ambiente tão frio e profundo.
A partir do ponto desde onde aflora os compostos sulfurosos se estabelece um gradiente de concentração deles, responsável pela zonação concêntrica na distribuição das diversas espécies de mariscos, que se diferenciam fisiologicamente quanto à resistência ao metabolismo dos compostos sulfurosos dissolvidos na água. É uma situação equivalente a dos costões rochosos, onde a resistência à dessecação cria uma clara zonação entre as espécies.
Essa comunidade é formada predominantemente por vermes poliquetas, mariscos e gastrópodes. Eventualmente pode ser observada a visita de siris, estrelas-do-mar, pepinos-do-mar, isópodes gigantes e peixes.