Baleias e golfinhos à vista!
Diversidade de espécies e abundância de animais na costa paulista são maiores do que o imaginado
CARLOS FIORAVANTI |
Edição 218 - Abril de 2014
© EDUARDO CESAR

Golfinho-pintado-do-atlântico: agora recenseado no litoral paulista.
Em pé, à direita da proa da lancha que oscilava como um pêndulo
enquanto deslizava com rapidez, Victor Uber Paschoalini foi quem viu
primeiro algo se mexendo ao longe no meio do mar por volta das 11 da
manhã do dia 10 de fevereiro deste ano, a menos de 1 quilômetro da Ilha
da Queimada Grande, no litoral paulista. Ele achou que eram golfinhos,
exatamente o que estavam procurando. Para confirmar, chamou o chefe da
expedição, o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, professor do
Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).
Aproximaram-se com a lancha e confirmaram: eram mais de 20
golfinhos-pintados-do-atlântico (
Stenella frontalis),
com 2 a 2,5 metros de comprimento, que logo começaram a saltar na água
límpida ao lado da lancha. Santos pediu para o piloto reduzir a
velocidade e, com sua equipe, fotografou os animais – principalmente as
nadadeiras dorsais, que funcionam como uma cédula de identidade, por
causa das cicatrizes e marcas únicas em cada indivíduo – e gravou seus
sons com um hidrofone, colocado na água. Em seguida, com uma flecha
atirada de uma balestra, ele coletou uma amostra de pele com 1 milímetro
de espessura, para análises genéticas, e 2 centímetros de gordura para
análise de contaminantes químicos.
Esse era o início da quinta viagem de uma série de 23 planejadas até
2015 para mapear a diversidade e a distribuição de cetáceos – baleias e
golfinhos, também chamados de botos – do litoral paulista. Santos e sua
equipe, com base nos animais mortos que encontraram na praia nos últimos
anos e nos vivos que estão vendo agora, registraram até agora mais de
300 indivíduos de 29 espécies de cetáceos, o equivalente a 63% das 46
espécies já observadas no litoral brasileiro. Em rios a diversidade de
golfinhos é menor: uma nova espécie, batizada de
Inia araguaiaensis,
a quinta já registrada, foi anunciada em janeiro por pesquisadores do
Amazonas, que a encontraram no rio Araguaia e seus afluentes. Embora
pouco vistos e pouco estudados, os cetáceos da costa brasileira
representam quase metade das 87 espécies já identificadas nos mares do
mundo.
© EDUARDO CESAR

Em conjunto: grupos de até 20 golfinhos (aqui, pintados-do-atlântico) se exibem no caminho da Ilha da Queimada Grande
Os resultados preliminares sugerem também uma diversidade de espécies
e de abundância de cetáceos maiores do que o imaginado – desde as
toninhas (
Pontoporia blanivillei), um dos menores mamíferos de
água doce, com até 2 metros de comprimento, encontrada do Espírito Santo
à Argentina e vítima constante da captura acidental nas redes para
peixes, até as colossais baleias-de-bryde (
Balaenoptera brydei), que chegam a 15 metros de comprimento.
Desse trabalho estão também emergindo novas conclusões e hipóteses
sobre as baleias e os golfinhos que percorrem o litoral brasileiro.
Comparando amostras de DNA, Santos e outros pesquisadores da USP, da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Colômbia e de Porto Rico
verificaram que as populações de golfinhos-pintados-do-atlântico
encontrados no Sul e Sudeste do Brasil e no Caribe são distintas entre
si e não se misturam. Além disso, um equívoco sobre outra espécie está
sendo desfeito. As baleias-de-bryde, uma espécie arisca e ágil, que
permanecem pouco tempo na superfície, aparentemente percorrem o litoral
paulista ao longo de todo o ano e não apenas no verão e na primavera,
como se pensava, porque os mergulhadores as viam apenas na temporada de
mergulho.
© EDUARDO CESAR

Amostra de
pele, para análise filogenética
Outra abordagem possível – e bastante usada – de mapeamento das
populações de cetáceos é a partir de um ponto fixo. É como se faz no
arquipélago de Abrolhos, litoral da Bahia, com as baleias-jubarte (
Megaptera novaeangliae),
uma das espécies de maior distribuição geográfica no mundo e a mais
estudada no Brasil, em vista de suas características únicas, como as
nadadeiras peitorais, que chegam a um terço do corpo, e por sua
distribuição espacial e temporal previsível: 80% das jubartes que
visitam a costa brasileira se concentram na região de Abrolhos,
principalmente de julho a novembro, para terem e amamentarem os filhotes
em águas mornas e rasas.
O biólogo Salvatore Siciliano, atualmente na
Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz) do Rio de Janeiro, esteve lá em 1989 e 1990 para fazer seu
mestrado e, “sentado em uma pedra com prancheta e binóculo”, como ele
recordou, avistou 604 grupos de jubarte (metade era de mães com
filhotes) em 191 dias de observação. Nessa época havia equipes de
pesquisa em mamíferos marinhos estabelecidas apenas em Manaus, no
Amazonas, e em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Outros grupos se
formaram depois, mas os estudos sobre cetáceos antes de 1980 são muito
raros, lembra Siciliano, dificultando análises e comparações,
diferentemente de aves ou mamíferos terrestres, estudados há três
séculos.
© EDUARDO CESAR

Nariz-de-garrafa, outra espécie encontrada no litoral paulista
Daniela Abras, pesquisadora do Instituto Oceanográfico da USP, esteve
em Abrolhos em julho de 2013. Com apoio da Marinha, do Instituto
Jubarte, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio) e da Cetacean Society International (CSI), assentada sobre um
dos pontos mais altos do arquipélago, ela registrou 500 majestosas
baleias, bem mais que as 200 registradas em 2004. “Está havendo um
aumento populacional de baleias-jubarte, como resultado da proibição da
caça, mas ainda está muito abaixo do que era”, diz ela. Hoje se estima a
população de baleias-jubarte em 7.900 animais, que podem ser vistos na
costa desde a região de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, até o Rio Grande
do Norte, ainda abaixo das estimadas 25 mil jubartes antes de começarem a
ser intensamente caçadas. A partir de 1650, nas principais cidades do
litoral, como descrito no livro
A baleia no Brasil colonial, da
historiadora Myriam Ellis (Edusp/Melhoramentos, 1969), a caça de
baleias era uma importante atividade econômica, para extração do chamado
azeite de peixe, usado como argamassa para construções e em iluminação
pública, e cerdas bucais, vendidas na Europa para a fabricação de
espartilhos. Com barcos de 10 a 12 metros de comprimento, as baleias
eram capturadas com arpão, depois abatidas por meio de sucessivos golpes
de lanças de 2 metros de comprimento, arrastadas à praia e abertas:
cada animal fornecia em média 7 mil litros de óleo. Uma lei federal
proibindo a caça de baleias entrou em vigor apenas em 1987.
“Esta é a primeira vez que fazemos cruzeiros oceanográficos
específicos para mapear cetáceos nos 600 quilômetros do litoral de São
Paulo”, afirma Santos. “Por falta de especialistas e limitações
financeiras, antes os trabalhos eram feitos apenas com animais mortos”,
conta Santos. Ele próprio, durante o mestrado, percorreu de bicicleta ou
mobilete as praias de Cananeia e Ilha Comprida, no litoral sul de São
Paulo, coletando crânios de cetáceos encontrados mortos – ao todo,
Santos reuniu e examinou 124 crânios. Foi também a primeira vez que um
repórter fotográfico – Eduardo Cesar, de
Pesquisa Fapesp – acompanhou uma das viagens de fevereiro e passou três dias com os pesquisadores em alto-mar.
Duas semanas antes da viagem, Santos, impressionado com a curiosidade
de Paschoalini em sala de aula, convidou-o para completar sua equipe
nessa expedição, mas não imaginava o tamanho da sorte do rapaz de 19
anos, agora no segundo ano do curso de oceanografia, com um provérbio
bretão tatuado no braço direito, “lute e lute novamente até os cordeiros
virarem leões”. Os quatro integrantes da equipe revezavam-se na
observação, em turnos de uma hora, com meia de descanso, mas foi
Paschoalini quem, duas horas mais tarde, avistou o segundo grupo de
golfinhos, desta vez de outra espécie, o nariz-de-garrafa (
Tursiops truncatus), também com cerca de 20 animais, um pouco maiores e menos abundantes que os pintados, agora em uma água turva e sob sol forte.
© JOÃO HIPÓLITO DO NASCIMENTO / ACERVO MUSEU DA BALEIA DE IMBITUBA

Praia do porto de Imbituba, Santa Catarina, final da década de 1940: matança desenfreada de baleias-francas.
Ao seu lado, a oceanógrafa Giovanna Corrêa e Figueiredo notou que os animais, normalmente dóceis – como o amigável
Flipper
de um antigo seriado da televisão –, naquele dia estavam arredios.
Talvez porque, ela cogitou, estivessem com fome e apressados atrás de um
cardume ou incomodados com a temperatura da água, que variava de 30 a
33º Celsius, quase cinco graus acima do habitual. Algas e outros
organismos proliferam mais facilmente na água mais quente, formando uma
mancha escura que dificulta a visibilidade, como a que se estendeu em
fevereiro da costa do Rio de Janeiro a Santa Catarina. Nesse dia e nos
dois seguintes – percorreram cerca de 650 quilômetros desde São Vicente
até a Ilha do Mel, norte do Paraná – permaneceram atentos olhando o mar,
da proa à popa, mesmo com o sol refletindo na água no final da tarde, e
não viram mais golfinhos ou baleias. “Em alguns momentos o cansaço é
tão grande que a gente vê onda e acha que é golfinho”, diz Giovanna.
Ela acompanha Santos desde a primeira expedição, em dezembro de 2012.
No primeiro dia eles e outros pesquisadores do grupo percorreram o mar
sem ver qualquer cetáceo, mas no segundo maravilharam-se ao avistar um
grupo de 16 orcas (
Orcinus orca), a espécie mais encorpada de
golfinhos (não, não são baleias) – os machos mais taludos chegam a 10
metros de comprimento e 10 toneladas de peso –, atrás de Ilhabela,
litoral norte de São Paulo. Não é comum encontrá-las tão perto da costa.
“Passamos quase duas horas com as orcas, observando e fotografando”,
relatou Santos. “Sabemos muito pouco sobre elas, quantas são, quando vão
aparecer.”
Comparando fotografias das nadadeiras dorsais, pôde-se ver que dois
indivíduos do grupo de Ilhabela, um mês antes, estavam perto das praias
da cidade do Rio de Janeiro, a 400 quilômetros de distância. Alexandre
Azevedo, oceanógrafo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro,
auxiliou na comparação das fotografias e confirmou que os animais eram
os mesmos. Depois de cada viagem, uma das tarefas dos pesquisadores é
analisar as fotos das nadadeiras dorsais, por meio de um programa de
computador específico, para encontrar as que provêm de indivíduos novos e
reforçar o catálogo no
site do laboratório, já com 104 animais de duas espécies de baleias e três de golfinhos, representados por suas nadadeiras únicas.
Há também razões para inquietação: em consequência da construção de
portos e do aumento do número de embarcações e da poluição crescente na
costa, os cetáceos podem estar se afastando da costa e procurando áreas
mais calmas. Giovanna Figueiredo, da equipe de Santos, verificou que os
registros de avistagem da baleia-franca-austral (
Eubalaena australis),
com até 18 metros de comprimento e 60 toneladas, antes comuns nas
praias mais próximas da costa do Sudeste, escassearam desde 2002, mesmo
que a população estivesse aumentando, com o fim da caça. Em uma das
viagens, a equipe da USP avistou uma baleia-franca com um filhote na
Ilha da Queimada Grande, a 27 quilômetros da costa. Karina Groch e
outros biólogos do Projeto Baleia-franca estão atentos sobre os
possíveis efeitos da construção do porto de Imbituba, em Santa Catarina,
e do aumento do tráfego de embarcações na região, antes um centro
regional de caça à baleia-franca. Em 2005, Karina estimou em 500 o
número de baleias-francas que visitam regularmente a costa brasileira,
das quais 100 se abrigam no litoral sul, principalmente no período
reprodutivo, de julho a novembro.
“Estamos afastando as baleias e os golfinhos, por um conjunto de
causas, com efeitos cumulativos”, reitera Siciliano, que publicou vários
artigos nos últimos anos indicando a contaminação por metais pesados e
outras substâncias tóxicas, que devem favorecer, em golfinhos, as
deformações ósseas, que ele próprio registrou, e as doenças de pele, que
Santos descreveu em 2009. “É uma pena, porque as populações estão se
refazendo e os cetáceos estão buscando as baías que ocupavam antes, mas
as encontram transformadas em estacionamento de navios e depósito de
esgoto.”
Siciliano foi um dos pesquisadores que participaram da elaboração do
plano de ação para conservação da toninha, uma espécie que vive na faixa
costeira e apresenta alta mortalidade ao se prender em redes de
pescadores (Santos está examinando com pescadores de Cananeia as formas
possíveis de reduzir a mortalidade de toninhas). Aprovado e publicado em
2010, o plano de ação previa a criação de dois parques nacionais (em
Santa Catarina e no Rio Grande do Sul) e a ampliação de outro,
atualmente apenas com restinga, no litoral norte do estado do Rio, de
modo a se limitar um espaço adequado para toninhas, tubarões, raias,
tartarugas e outros animais marinhos. Siciliano, ao comentar que os
parques ainda não foram criados, lembrou-se da resistência para a
proibição da pesca e a transformação em parque nacional de uma área
cobiçada para a construção de portos. Em uma das reuniões sobre a
criação das unidades de conservação marinhas, ele se lembrou, um
dirigente de um órgão público ambiental perguntou aos pesquisadores:
“Afinal, para que serve uma toninha?”. Em uma peça do teatrólogo Bertolt
Brecht, um cardeal fez uma pergunta parecida enquanto se recusava a ver
pelo telescópio de Galileu: “Serão as estrelas realmente necessárias?”.
Projetos
1. Ocorrência, distribuição e movimentos de cetáceos na costa do estado de São Paulo (
nº 11/51543-9);
Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular/Biota;
Pesquisador responsável Marcos César de Oliveira Santos – IO/USP;
Investimento R$ 454.775,03 (FAPESP).
2. Capturas acidentais de pequenos cetáceos em
atividades pesqueiras no litoral sul paulista: buscando subsídios para
formulação de políticas de conservação (
nº 10/51323-6);
Modalidade Parceria para Inovação Tecnológica (Pite);
Pesquisador responsável Marcos César de Oliveira Santos – IO/USP.
Investimento R$ 242.490,33 (FAPESP).
Artigos científicos
CABALLERO, S.
et al.
Initial
description of the phylogeography, population structure and genetic
diversity of Atlantic spotted dolphins from Brazil and the Caribbean,
inferred from analyses of mitochondrial and nuclear DNA.
Biochemical Systematics and Ecology. v. 48, p. 263-70. 2013.
SANTOS, M.C.O.
et al .
Cetacean records along São Paulo state coast, Southeastern Brazil.
Brazilian Journal of Oceanography. v. 58, n. 2, p. 123-42. 2010.