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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Fósseis do período Ediacarano são descobertos na Argentina

20 de fevereiro de 2017

Peter Moon | Agência FAPESP – Os fósseis mais antigos de animais da América do Sul têm 565 milhões de anos, datando do período conhecido como Ediacarano superior. São dezenas de milhares de pequenas impressões em formato circular pertencentes a um ser marinho chamado Aspidella. Descobertos em pedreiras de arenito na Argentina, esses fósseis são cerca de 15 milhões de anos mais antigos do que os de animais sul-americanos mais velhos conhecidos anteriormente.

Fósseis do período Ediacarano são descobertos na Argentina Pesquisadores brasileiros e argentinos descrevem ser marinho, em formato circular, com 565 milhões de anos (Foto: Fóssil de Aspidella/Lucas Veríssimo Warren)

As Aspidellas foram descritas por quatro pesquisadores brasileiros e três argentinos em artigo publicado no Scientific Reports, a versão aberta da revista Nature. O segundo autor é o geólogo Lucas Warren, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, que contou com apoio da FAPESP nesta empreitada.

O Ediacarano, entre 635 e 541 milhões de anos, é o último estágio do Pré-Cambriano, período que antecede a explosão de vida multicelular ocorrida no Cambriano (entre 541 e 485 milhões de anos), quando surgiram nos mares todas as linhagens biológicas originais das quais descendem os animais extintos ou viventes.

A Fauna de Ediacara é dividida em três grupos ou assembleias. A mais antiga é a assembleia Avalon, exposta no Canadá e na China, que tem entre 575 e 560 milhões de anos. A assembleia intermediária é a White Sea, australiana e russa, com 560 a 550 milhões de anos.

A assembleia mais recente é conhecida como Nama (550 e 541 milhões de anos), inicialmente descrita na unidade de mesmo nome na Namíbia.

Dada a sua antiguidade, os fósseis ediacaranos são evidentemente raríssimos e seus achados muito esparsos. As primeiras evidências de animais ediacaranos na América do Sul foram encontradas nos anos 1980 em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Ainda nos anos 1980 foram achados novas evidências na Argentina e, desde 2010, no Paraguai e em Minas Gerais. “Todas as formas sul-americanas encontradas até hoje são pertencentes à assembleia Nama,” explica Warren, da Unesp. “As exceções são as Aspidellas de 565 milhões de anos descritas neste trabalho. Elas têm a idade da assembleia Ediacarana e guardam uma relação de semelhança com a fauna da Austrália.”

Dada a raridade – e muitas vezes o lastimável estado de conservação dos fósseis ediacaranos –, um desafio para os paleontólogos que os estudam é comprovar, sem sombra de dúvidas, que aquelas impressões na rocha com formas bizarras e tênues são de origem biológica. “No caso dos fósseis de Aspidella encontrados na Argentina, isto não foi um problema. São dezenas de milhares de individuos bem preservados”, diz Warren.

As Aspidellas foram achadas em 2015 nas pilhas de rejeito de mineração de duas pedreiras de calcário em Olavarría, distante 300 quilômetros a sudoeste de Buenos Aires. O arenito que ocorre sobre os carbonatos nessas pedreiras é composto de grãos muito finos e avermelhados, depositados há mais de meio bilhão de anos em antigas planícies de maré.

“Fomos investigar as pedreiras porque sabíamos que lá havia icnofósseis”, diz Warren. Diferente dos fósseis, que são os restos de organismos onde a matéria orgânica foi substituída por minerais, icnofósseis são as impressões do corpo ou pegadas de animais deixados na rocha. “Se havia icnofósseis, provavelmente teríamos chances de achar algum bicho. Fomos atrás de Cloudinas nos carbonatos, considerado um fóssil guia do Ediacarano e presente no Brasil e outras 10 localidades no mundo. Mas não achamos nenhuma. Em seu lugar, encontramos as Aspidellas” (Leia mais sobre o assunto nas reportagens “A vida protegida por armaduras”  e “O último litoral de Minas” publicadas pela revista Pesquisa FAPESP).

As impressões de Aspidellas achadas em Olavarría têm o formato de pequenos discos, com diâmetros que variam entre 6 e 140 milímetros, sendo que a maioria tem entre 10 e 26 milímetros. “São como bolachinhas presas na rocha”, diz Warren. Exemplares de Aspidella achados em outras partes do mundo mostram que, do centro das bolachas, emergiam estruturas que lembram pétalas ou penas que deviam balançar ao sabor da corrente.

“Em Olavarría foram achadas muito poucas pétalas, predominando as bolachas. A hipótese mais forte para explicar a ausência das pétalas é que elas podem ter sido arrancadas pelo movimento das águas durante tempestades. Ou as condições de fossilização em Olavarría não permitiram a conservação de partes externas como as penas, apenas das partes que estavam presas ao substrato, as bolachas.”

Depois da primeira descrição das Aspidellas de Olavarría, os pesquisadores agora estão realizando estudos de microtomografia 3D e microscopia eletrônica de varredura para identificar as impressões em profundidade. Também estão sendo feitos estudos tafonômicos para identificar as condições exatas de deposição, fossilização e conservação do material por tantas eras.

A Aspidella foi o primeiro animal ediacarano a ser conhecido pela ciência, ainda em 1872, em Newfoundland, no Canadá. Mas há 140 anos não se fazia ideia da real antiguidade desses animais. Eram considerados cambrianos. Até a década de 1940, achava-se que no Pré-Cambriano só havia vida bacteriana no planeta. Isso mudou em 1946, quando foram descobertos na localidade de Ediacara, na Austrália, as impressões na rocha dos primeiros animais pré-cambrianos.

De lá para cá, foram achados novos sítios ediacaranos em todos os continentes. Apesar de se conhecer cada vez mais formas de animais ediacaranos, até o momento todas parecem ter sido experiências evolutivas que não prosperaram. É o caso da Aspidella. Não se sabe se ela pertence a uma linhagem surgida e extinta no Ediacarano, ou se, eventualmente, teve continuidade a partir do Cambriano.

Em outras palavras, os paleontólogos ainda não conseguiram identificar nos fósseis ediacaranos evidências de linhagens que vingaram a partir do Cambriano – embora necessariamente elas tenham que existir. Só falta identificá-las.

O artigo Ediacaran discs from South America: probable soft-bodied macrofossils unlock the paleogeography of the Clymene Ocean, de María Julia Arrouy, Lucas V. Warren, Fernanda Quaglio, Daniel G. Poiré, Marcello Guimarães Simões, Milena Boselli Rosa & Lucía E. Gómez Peral, publicado em Scientific Reports (doi:10.1038/srep30590), pode ser acessado em http://www.nature.com/articles/srep30590.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Avatares do Mesozoico

Cientistas do Brasil e da China descobrem nova espécie de pterossauro chinês que viveu há 120 milhões de anos. O animal, cujo nome remete à sua semelhança com criaturas aladas da ficção, pode ter adotado uma estratégia de alimentação parecida com a de pelicanos. 
 
Por: Isabelle Carvalho
Publicado em 12/09/2014 | Atualizado em 12/09/2014
Avatares do Mesozoico
A nova espécie de pterossauro tem uma grande crista na mandíbula, que servia como base para sustentar uma bolsa gular, onde poderiam ser guardados peixes. (imagem: Maurílio Oliveira/ Museu Nacional UFRJ.


 
A China é um dos países que mais têm contribuído para aumentar nosso conhecimento sobre os seres pré-históricos. Além de um grande investimento em pesquisas, o país abriga um dos mais ricos sítios paleontológicos do mundo em Liaoning – e foi justamente de uma das formações desse terreno fértil em vestígios do passado, chamada Jiufotang, que saiu a mais nova descoberta da área. Um grupo de cientistas chineses e brasileiros descreveu, em artigo publicado na revista Scientific Reports, dois exemplares de uma nova espécie de pterossauro, um réptil alado que viveu há cerca de 120 milhões de anos.


Os dois esqueletos foram encontrados com crânios, mandíbulas e outras partes dos ossos, separados por uma distância de 25 a 30 quilômetros. Com base nos fósseis, foi possível estabelecer com boa precisão algumas das características físicas da espécie, que recebeu o nome de Ikrandraco avatar, devido à semelhança com os banshees, animais voadores do filme Avatar.
Ikrandraco avatar
Os pesquisadores encontraram dois esqueletos com crânios, mandíbulas e outras partes dos ossos do novo pterossauro em uma formação chamada Jiufotang, em Liaoning, na China. (foto: Kellner et al/ Scientific Reports)
“O que mais nos chamou a atenção é que eles tinham uma crista bem grande localizada na mandíbula, o que é raro, já que esse tipo de protuberância costuma aparecer na parte superior do crânio”, explica um dos autores da pesquisa, o paleontólogo brasileiro Alexander Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colunista da CH On-line. O estudo, realizado pela Academia Chinesa de Ciências em parceria com o Museu Nacional/UFRJ e a Universidade Federal do Espírito Santo, foi cofinanciado pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Físico peculiar

Além da crista, o novo pterossauro também apresenta um conjunto de características que o diferem das espécies já conhecidas: asas com cerca de dois metros e meio, crânio mais baixo e alongado e, principalmente, uma estrutura óssea em forma de gancho localizada no final da crista inferior. “Acreditamos que esse gancho sirva como base para sustentar tecidos moles, como um saco gular, uma espécie de bolsa, presente hoje em animais como avestruzes e pelicanos”, conta Kellner.

Com base nessas peculiaridades físicas, os pesquisadores estimaram como deveriam ser os hábitos alimentares do animal. “Imaginamos que ele voava baixo sobre a água e mergulhava sua crista para capturar os peixes, podendo guardá-los e transportá-los para longe na bolsa gular”, deduz Kellner. “A área onde os indivíduos foram encontrados era rica em peixes, então provavelmente eles faziam parte da dieta da espécie, assim como de outros pterossauros já conhecidos e que vivam na mesma região”.

Isabelle Carvalho
Ciência Hoje On-line