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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Meghalayan


Na escala de tempo geológico, o Meghalayan é a última idade ou estágio mais alto do Quaternário. [3] É também a parte superior ou mais recente de três subdivisões da época ou série do Holoceno. [4] [5] Sua Seção e Ponto de Estratótipo de Fronteira Global (GSSP) é uma formação de caverna Mawmluh em Meghalaya, nordeste da Índia. [6] A caverna de Mawmluh é uma das mais longas e profundas cavernas da Índia, e as condições aqui eram adequadas para preservar os sinais químicos da transição em eras. [7]
O Meghalayan começa 4.200 anos BP, ou seja, antes de 1950 (cerca de 2250 aC), [8] deixando espaço aberto para a possível criação do Antropoceno a partir de 1950 para a frente. [9] [10] A idade começou com uma seca de 200 anos que afetou as civilizações humanas no Egito, na Grécia, na Síria, na Canaã, na Mesopotâmia, no vale do Indo e no vale do rio Yangtze. [8] "O fato de que o início desta era coincide com uma mudança cultural causada por um evento climático global a torna única", de acordo com Stanley Finney, Secretário Geral da União Internacional de Ciências Geológicas. A idade foi oficialmente ratificada pela Comissão Internacional sobre Estratigrafia em julho de 2018, juntamente com a Gronelândia e a Northgrippian [6].

See also

References


  • Cohen, K.M.; Finney, S.C.; Gibbard, P.L.; Fan, J.-X. "International Chronostratigraphic Chart". International Commission on Stratigraphy. Retrieved July 10, 2018.

  • "announcement ICS chart v2018/07". Retrieved August 9, 2018.

  • Cohen, Kim Mikkel, David A. T. Harper, Philip Leonard Gibbard, and Junxuan Fan. "The ICS International Chronostratigraphic Chart". International Commission on Stratigraphy. Retrieved 15 July 2018.

  • "Scientists call our era the Meghalayan Age. Here's what the world was like when it began".

  • "'Meghalayan Age': Latest phase in Earth's history named after Indian state, began 4,200 years ago".

  • International Commission on Stratigraphy. "ICS chart containing the Quaternary and Cambrian GSSPs and new stages (v 2018/07) is now released!". Retrieved 15 July 2018.

  • "'Meghalayan Age' makes the state a part of geologic history". https://www.hindustantimes.com/. 2018-07-18. Retrieved 2018-07-26. External link in |work= (help)

  • Jonathan Amos (July 18, 2018). "Welcome to the Meghalayan Age - a new phase in history". BBC. Retrieved July 19, 2018.

  • International Commission on Stratigraphy. "Collapse of civilizations worldwide defines youngest unit of the Geologic Time Scale". News and Meetings. Retrieved 15 July 2018.

    1. Michael Irving (July 19, 2018). "Time for the Meghalayan: A new geological age has officially been declared". Retrieved July 19, 2018.

    Entramos na Idade de Meghalaya. Cientistas acrescentam novo capítulo à história da Terra

    A Idade Meghaliana começou há 4200 anos com um seca catastrófica, cujos efeitos afetaram civilizações como o Antigo Egito
    Bem-vindos ao Megalaiano ou Idade de Meghalaya, um "novo" capítulo da história da Terra que os cientistas acrescentaram agora à Tabela Cronoestratigráfica Internacional.

    O que é esta tabela? É uma forma de organizar as várias eras, períodos e idades dos 4600 milhões de anos da história geológica da Terra. O que os investigadores vêm agora dizer é que há um novo capítulo, que começou há 4200 anos, e que vai começar a aparecer nos manuais escolares e nas salas de aula.

    Este novo capítulo que agora é acrescentado será o o Megalaiano ou Idade de Meghalaya (na tabela já divulgada em inglês é Meghalayan Age), uma referência ao sítio na Índia onde foram encontradas as estalagmites que definem o que os investigadores consideram o início desta nova fase.

    A tabela é da responsabilidade da IUGS (União Internacional de Ciências Geológicas), que anunciou as novas subdivisões do Holocénico, a época do período Quaternário em que vivemos. Esta época está agora dividida em três fases: em inglês, "Greenlandian", "Northgrippian" e "Meghalayan", que podem ser traduzidos como Gronelandiano, Nortegripiano e Megalaiano, respetivamente.

    A fronteira de cada uma é definida, no Holoceno, por um evento climático marcante, embora os métodos e eventos-chave selecionados para defini as divisoes sejam variáveis, explica a professora universitária Ana Cristina Azerêdo, da Faculdade de Ciências das Universidade de Lisboa.

    "A base do Holocénico corresponde ao início de fase de aquecimento subsequente ao fim do último período glaciar, tendo sido determinada a partir de parâmetros geoquímicos medidos no gelo de sondagens realizadas na Gronelândia e complementada com dados geoquímicos e micropaleontológicos obtidos em sondagens de sedimentos lacustres e oceânicos, que evidenciaram com precisão o nível que regista os sinais dessa mudança para o clima dos últimos 11 700 anos", explica a docente. A segunda fase, Nortegripiano, também foi delimitada em sondagens do gelo da mesma região. E para a mais recente, "o limite inferior foi datado a partir de estalagmites (depósitos calcíticos em grutas) numa zona da Índia, correspondendo também a alteração climática, que influenciou a evolução das civilizações humanas".

    A Idade Meghaliana começou há 4200 anos com uma seca catastrófica e um período de arrefecimento, cujos efeitos duraram dois séculos e afetaram civilizações como o Antigo Egito. É única, defende o geólogo Stanley Finney, da IUGS, em declarações à BBC, no sentido em que este evento climático produziu alterações nas civilizações humanas.

    A mudança acontece numa altura em que há uma discussão acesa na comunidade científica sobre se a Terra entrou numa nova era geológica, que tem sido chamada de Antropoceno e que terá começado no século XVI. A palavra Antropoceno é aqui usada para dar conta da altura em que a espécie humana se tornou uma força com um impacto no planeta que já não passa despercebido.
    Ou seja, as divisões do Holocénico surgem numa altura em que os cientistas discutem se já abandonámos esta era. Assim, no meio deste debate, há investigadores que acham que a revisão da tabela e introdução destas novas idades não foi devidamente aprofundada, como o geógrafo Mark Maslin, que criticou a decisão, em declarações à BBC.

    Em reação à polémica, a IUGS lembrou, no Twitter, já esta quarta-feira, que as novas fases foram propostas pela Comissão internacional de Estratigrafia, numa equipa liderada por Mike Walker da Universidade de Gales, e aprovadas pela IUGS, "após muito debate". Lembrou também que quando a proposta foi aprovada pela subcomissão do Quaternário, o presidente do grupo de trabalho do Antropoceno era subcomissário daquela comissão.

    sexta-feira, 10 de agosto de 2018

    Dúvidas sobre a seca que desencadeou nossa última era geológica, e uma confrontação entre percevejos com vespas samurais

    Science Podcast
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    stink bug
    Melissa McMasters/Flickr
    Nós agora vivemos na era Meghalayan - a última era da época do Holoceno. Você recebeu o memorando? Uma decisão de julho da Comissão Internacional de Estratigrafia, responsável por nomear períodos geológicos, dividiu o Holoceno em três eras: a groenlandiana, a northgrippiana e a meghalayana. 

    Aquela em que vivemos - a era Meghalayan (pronuncia-se “megalion”) - está vinculada a uma seca global que se pensava ter ocorrido há 4200 anos. Mas muitos críticos questionam o momento da última era e a extensão global da seca. O escritor da equipe, Paul Voosen, fala com a apresentadora Sarah Crespi sobre as provas a favor e contra a seca global - e o que isso significa se estiver errado.


    Sarah também fala com a escritora Kelly Servick sobre sua reportagem sobre o que acontece quando o biocontrol sai do controle. Aqui está a configuração: os pesquisadores do Departamento de Agricultura dos EUA queriam saber se os percevejos marrom marmoreados que invadiram os Estados Unidos poderiam ser controlados - também conhecidos como mortos - importando seus predadores naturais, vespas samurais, da Ásia. Mas antes que pudessem descobrir, as vespas apareceram de qualquer maneira. Kelly discute como usar uma espécie para combater outra pode dar errado - ou certo - e o que acontece quando a situação ultrapassa os reguladores. O episódio desta semana foi editado por Podigy.

    Listen to previous podcasts.
    [Image: Melissa McMasters/Flickr; Music: Jeffrey Cook]

    segunda-feira, 31 de outubro de 2016

    Pesquisadores identificam marcador do Antropoceno no Atlântico Sul

    27 de outubro de 2016

    Peter Moon  |  Agência FAPESP – Os Estados Unidos e a antiga União Soviética conduziram, entre 1945 e 1963, centenas de testes nucleares em terra, ar e mar, para testar e ampliar o seu arsenal nuclear. Os elementos radioativos forjados nas explosões, ao serem ejetados à estratosfera, depositaram-se em toda a superfície. Em 1963, as duas superpotências assinaram um tratado banindo os testes nucleares de superfície, mantendo apenas aqueles subterrâneos, que confinariam a radiação no subsolo.

    Pesquisadores identificam marcador do Antropoceno no Atlântico Sul Amostras de colunas de lama, conhecidas como testemunhos, foram divididas em fatias, de acordo com o momento de depósito de cada camada de sedimento (foto: Rubens Figueira)

    Mas se o banimento dos testes feitos durante a Guerra Fria eliminou a possibilidade de futuras contaminações, não havia como eliminar os efeitos dos testes nucleares realizados até o momento da assinatura do tratado. Seus elementos radioativos permanecem.

    Ao longo de mais de uma década, pesquisadores do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (IO-USP), em conjunto com colegas do Pará, Pernambuco, Paraná e Uruguai, coletaram em diferentes sistemas estuarinos amostras de sedimentos. Um dos autores da pesquisa no IO-USP foi Rubens Cesar Lopes Figueira, que contou com apoio da FAPESP desde o início – em quatro projetos, com início em 2007, 2009, 2011 e 2014.

    Foram feitas coletas na bacia do rio Caeté (Pará), na foz do rio Capibaribe (Pernambuco), no estuário de Caravelas (Bahia), nos sistemas Santos-São Vicente e Cananeia-Iguape (São Paulo), na bacia do Paranaguá (Paraná) e no estuário do rio da Prata (Uruguai).

    Ao estudar a composição das amostras, os cientistas detectaram um dado comum: radionuclídeos (traços) do elemento químico césio, na forma do isótopo radioativo césio-137. Radionuclídeos são elementos que emitem vários tipos de partículas e que eventualmente se tornam estáveis.
    Usado em radioterapias, o césio-137 é o mesmo do maior acidente radioativo ocorrido no Brasil, em 1987, em Goiânia. Mas a única fonte desse radionuclídeo artificial no Atlântico Sul até a década de 1960 resulta dos testes norte-americanos e soviéticos, destacam os autores em artigo publicado na revista Anthropocene.

    Segundo os pesquisadores, a presença de radionuclídeos em matrizes ambientais é uma ferramenta importante para estudos oceanográficos, uma vez que esses elementos químicos registram processos em escalas espaciais e temporais de acordo com seus níveis e distribuição nos sedimentos.
    “No caso do césio-137 dos estuários, foram coletadas mais de 30 amostras de coluna de lama na forma de cilindros com 1 a 2 metros de comprimento, que chamamos de testemunhos”, disse Figueira.
    Os testemunhos foram divididos em fatias com cerca de 2 centímetros, de acordo com o momento em que cada camada de sedimento foi depositada, as mais novas no topo. Com isso, foi possível estabelecer uma escala de tempo e saber em quais proporções o césio-137 – forjado nas explosões termonucleares americanas e soviéticas, alçado à estratosfera e transportado pelas correntes de ar – foi depositado no litoral sul-americano.

    Os pesquisadores também conseguiram identificar com precisão nas amostras de lama coletadas o momento em que o césio-137 foi depositado no hemisfério Sul. Suas quantidades começam a ser perceptíveis a partir de 1954, com o início dos testes das bombas termonucleares de hidrogênio, milhares de vezes mais potentes que as bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki.

    “As proporções de césio-137 se acentuaram ano a ano de 1954 até 1963, quando atingiram o pico. Em seguida, devido ao banimento dos testes, declinaram subitamente”, disse Figueira.

    Passagem de era geológica

    Segundo outro autor do estudo, o doutorando Paulo Alves de Lima Ferreira (http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/152647/metodos-de-estudo-de-parametros-e-processos-de-dinamica-sedimentar-marinha-com-radionuclideos-natura/), colaborador do Laboratório de Química Inorgânica Marinha do IO-USP, embora o césio das explosões tenha sido detectado em todas as amostras, ainda assim o foi em quantidades muito menos significativas do que aquelas detectadas em testemunhos no hemisfério Norte, onde os testes nucleares foram realizados.

    “A descoberta desse novo marcador ambiental de césio-137 é um exemplo do trabalho que desenvolvemos. Nosso trabalho consiste em achar marcadores químicos dos mais diversos tipos para estudar os efeitos da era industrial, ou seja, os últimos 250 anos”, disse.
    Para estudar esses efeitos está a importância da detecção feita pelos pesquisadores: a possibilidade de o isótopo radioativo ser utilizado como marcador na geologia do Atlântico Sul.

    Esse marcador, chamado de modelo estratigráfico, poderá validar a passagem do Holoceno ao Antropoceno – termo cunhado em 2000 pelo químico holandês Paul Cruitzen, ganhador do Nobel de Química, para definir a época geológica atual, dominada pelo homem, e que, segundo Cruitzen, seria fundamentalmente diferente de todas as anteriores.

    Desde então, pesquisadores têm discutido o ideia e a Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), organismo responsável pela padronização da geocronologia mundial, passou a procurar marcadores que possam definir na geologia o momento em que teria se iniciado o Antropoceno.
    Descobrir o momento é uma condição necessária para que a ICS possa um dia proclamar o término do Holoceno, a época atual, iniciada há 11.700 mil anos com o fim da mais recente Idade do Gelo, e inaugurar oficialmente o Antropoceno.

    O artigo Using a cesium-137 (137Cs) sedimentary fallout record in the South Atlantic Ocean as a supporting tool for defining the Anthropocene (doi: http://dx.doi.org/doi:10.1016/j.ancene.2016.06.002), de Paulo Alves de Lima Ferreira, Rubens Cesar Lopes Figueira e outros, pode ser lido em http://dx.doi.org/doi:10.1016/j.ancene.2016.06.002.

    sábado, 10 de setembro de 2016

    Cientistas querem criar oficialmente a era geológica do homem


    Edilson Dantas/Folhapress
    Aumento da concentração de gás carbônico no planeta seria indício da Era do Homem) ORG XMIT: AGEN1510021411255679
    Aumento da concentração de gás carbônico no planeta seria indício da Era do Homem

    A ideia de que estamos vivendo uma nova fase da história geológica da Terra, marcada pelos impactos avassaladores da ação de uma única espécie –a nossa– sobre a estrutura do planeta, acaba de dar um passo importante rumo à aprovação oficial. Um time com mais de 30 cientistas apresentou suas conclusões após anos de debates e afirmou que sim, este é o Antropoceno, a Era do Homem.

    O anúncio do chamado Grupo de Trabalho do Antropoceno foi feito na semana passada, durante o 35º Congresso Geológico Internacional, realizado na Cidade do Cabo (África do Sul). Pode parecer estranho, mas as decisões sobre os principais temas do debate foram tomadas "democraticamente", por voto.
    Dos 35 membros do grupo coordenado por Jan Zalasiewicz, da Universidade de Leicester (Reino Unido), 30 se posicionaram a favor de formalizar o Antropoceno –termo derivado das palavras gregas para "ser humano" e "recente"– como uma fase geológica distinta do desenvolvimento do planeta, e não como uma simples designação simbólica dos impactos do Homo sapiens sobre a biosfera. Uma maioria sólida (28 dos pesquisadores) também apoiou a proposta de definir o início do Antropoceno como a década de 1950.
    Essa data, aliás, indica em que ponto a discussão vira uma pedreira, sem trocadilhos. Há regras bastante estritas que estabelecem como (e até onde) pode-se dizer que uma nova fase geológica começa. Os geólogos usam duas siglas prolixas para designar esses detalhes: GSSP e GSSA.

    A primeira significa literalmente "ponto e seção de estratótipo de limite global" e se refere a um ponto exato numa camada de rochas que pode ser considerado o momento de início de uma fase geológica. Já GSSA é a sigla de "idade padrão estratigráfica global" e estabelece, como o leitor já deve ter imaginado, uma idade absoluta para o tal GSSP. O fim da Era dos Dinossauros, por exemplo, teria vindo há 66 milhões de anos, e o melhor testemunho dessa catástrofe, segundo a convenção, está nas rochas de El Kef, na Tunísia (nas quais há uma camada de irídio, metal muito mais comum em meteoritos do que na Terra, associada ao bólido celeste que exterminou os dinos).

    HORA DA BOMBA?
     
    A década de 1950 é interessante para alguns dos membros do grupo de trabalho porque ela inclui, entre outras coisas, a ascensão de testes nucleares em escala relativamente ampla, produzindo o elemento químico plutônio e espalhando o dito cujo planeta afora em quantidades jamais vistas.
    Dá para argumentar que geólogos do futuro distante seriam perfeitamente capazes de analisar sedimentos produzidos em meados do século passado e concluir que algo de fundamental havia mudado na química da Terra naquele ponto da história.

    Essa foi a opinião de dez dos cientistas que votaram, mas outros citaram elementos como o aumento vertiginoso da concentração de dióxido de carbono na atmosfera (por conta da queima de combustíveis fósseis) ou o aparecimento de plásticos ou de alumínio puro, materiais nunca vistos no planeta antes do século passado.
    A questão é encontrar lugares onde esses sinais sejam claros e bem preservados, de maneira a definir um GSSP convincente para a comunidade internacional de geólogos, diz Colin Waters, do Serviço Geológico Britânico.
    "Há os que se opõem à formalização do Antropoceno porque acham que a capacidade de defini-lo com base em técnicas estratigráficas tradicionais ainda não foi demonstrada. Alguns pesquisadores argumentam que precisamos achar um GSSP claro, com descrições completas das assinaturas encontradas nele e ideias sobre como encontrar correlações dessas assinaturas em outros lugares do globo", explica Waters.
    As possibilidades a respeito desse lugar exato ainda estão em aberto. Sedimentos depositados em bacias oceânicas, em locais como a costa da Califórnia e da Venezuela, estão entre os candidatos, assim como formações calcárias de cavernas da Itália. O grupo de trabalho espera concluir essa busca por candidatos a GSSP em até três anos.

    Depois disso, três rodadas de votação ainda devem acontecer. A decisão final é do comitê executivo da União Internacional de Ciências Geológicas.
    -

    FASES DA HISTÓRIA DA TERRA

    HADEANO (4,5 bilhões de anos)
    Terra sofria bombardeamento de cometas e meteoritos

    ARQUEANO (4 bilhões de anos atrás)
    Formação dos continentes

    PROTEROZOICA (2,5 bilhões -550 milhões de anos atrás)
    Intensa atividade vulcânica; surge o oxigênio da atmosfera, produzido por bactérias

    PALEOZOICA (550 a 250 milhões de anos atrás)
    Formação de grandes florestas, glaciações e surgimento dos primeiros insetos e répteis

    MESOZOICA (250 milhões de anos atrás)
    Divisão do continente da Pangeia e o surgimento de grandes répteis, como os dinossauros, e mamíferos

    CENOZOICA
    É dividida em dois períodos

    Terciário (60 milhões de anos)
    Aves e mamíferos com aparência moderna se diversificam
    Quaternário (1 milhão de anos)
    é dividido em Pleistoceno e Holoceno (no qual estamos, até então)

    segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

    Uma nova época na história geológica da Terra?

    Há mais de uma década, esforços vêm sendo realizados para reunir evidências científicas sobre a influência do ser humano sobre a Terra e seus ecossistemas. Tudo indica que já estamos vivendo uma nova época na história geológica do planeta: o Antropoceno. Sua formalização tem data marcada para meados de 2016. 
     
    Por: Juliana Assunção Ivar do Sul
    Publicado em 16/02/2016 | Atualizado em 16/02/2016
    Uma nova época na história geológica da Terra?
    Escala do tempo geológico da Terra, incluindo o Antropoceno (em vermelho) logo após a época atual – o Holoceno. (gráfico: Luiz Baltar) 
     
    Há mais de uma década, esforços vêm sendo realizados para reunir evidências científicas sobre a influência do ser humano sobre a Terra e seus ecossistemas. Tudo indica que já estamos  vivendo uma nova época na história geológica do planeta:  o Antropoceno. A sua formalização tem data marcada para meados de 2016, e a comunidade científica está mobilizada para dar esse importante passo.

    No início da década de 2000, o termo Antropoceno foi sugerido pelo químico holandês Paul Crutzen, ganhador do prêmio Nobel de Química em 1995, para descrever a época ou intervalo de tempo mais recente  na escala geológica da Terra. O termo reflete a profunda e contínua influência das atividades humanas sobre o planeta – que tem 4,6 bilhões de anos – e seus compartimentos físicos, geológicos e biológicos.

    Na escala geológica, o Antropoceno – caso fosse formalmente incluído – sucederia a época atual, denominada Holoceno, que teve início há 11,7 mil anos, depois do último período glacial ou Idade do Gelo – que, por sua vez, está inserido no período Quaternário da Era Cenozoica, os quais seriam mantidos inalterados. O termo e suas inúmeras implicações científicas e de caráter social, político e/ou econômico foram amplamente discutidos nos últimos 15 anos, gerando centenas de artigos publicados em importantes revistas científicas, bem como outras centenas de documentos  de cunho científico e informativo  divulgados em diferentes meios de comunicação (ver ‘Antropoceno: a época da huma­nidade?’, em CH 283). Atualmente, talvez pela aproximação  de um importante  congresso a se realizar  na Cidade do Cabo (África do Sul) neste ano, o debate  sobre a oficialização dessa  ‘nova época’ se intensificou, mobilizando  a comunidade científica envolvida com o tema.

    Na escala geológica, o Antropoceno – caso fosse formalmente incluído – sucederia a época atual, denominada Holoceno, que teve início há 11,7 mil anos
    Para explicar  melhor, vamos voltar um pouco no tempo. No final da década  de 2000, a União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS, na sigla em inglês), importante órgão científico da área, sinalizou a possibilidade  de formalização do Antropoceno caso, naturalmente, fossem cumpridos  os ‘pré-­requisitos’  estabelecidos pela comunidade científica – neste  caso, composta principalmente por geólogos. Para ser reconhecido como uma unidade, ou intervalo de tempo geológico, o Antropoceno deve apresentar um início definido – que  é o tópico mais discutido atualmente; deve ocorrer de forma sincrônica ao redor do planeta; e precisa apresentar evidências  (químicas, físicas e/ou biológicas, como os fósseis) passíveis de serem  monitoradas e que reflitam, claramente, os limites estratigráficos – ou seja, dos estratos ou camadas de rochas que formam a crosta terrestre – entre  os intervalos de tempo adjacentes, assim como ocorre em outras unidades já estabelecidas na escala geológica.

    Para que esses pré-­requisitos fossem estudados a fundo, foi criado o Grupo  de Trabalho  do Antropoceno (AWG, na sigla em inglês), que está formalmente ligado à Comissão Internacional de Estratigrafia. Naquela época, foi definido um prazo para a atuação do grupo e, ao final desse período, a IUGS  ‘bateria  o martelo’ quanto  à oficialização do Antropoceno. Esse prazo termina  em agosto deste  ano, durante o Congresso Internacional de Geologia na Cidade do Cabo.

    Datas propostas

    Inicialmente, Crutzen sugeriu que o Antropoceno teria começado junto com a Revolução Industrial e a invenção da máquina a vapor no final do século 18. Nessa época, as concentrações de gás carbônico e metano começaram a aumentar (em comparação aos níveis encontrados no Holoceno), e a população atingiu a marca de 1 bilhão de habitantes. Alguns pesquisadores acreditam que o Antropoceno começou antes mesmo da Revolução Industrial, há alguns milhares  de anos, com os primeiros impactos do homem sobre a Terra – incluindo, por exemplo, a caça e o desmatamento para a expansão da agricultura.  Outros pesquisadores sugerem ainda  que o Antropoceno teve início na metade do século 20, período por eles denominado  de ‘Grande aceleração’, quando  ocorreram  profundas  mudanças causadas  por atividades antrópicas em um período de tempo relativamente curto.
    Inicialmente, Crutzen sugeriu que o Antropoceno teria começado junto com a Revolução Industrial e a invenção da máquina a vapor no final do século 18
    Liderados  pelo geólogo inglês Jan Zalasiewicz,  cientistas  das mais diversas áreas do conhecimento (paleontólogos, biólogos, botânicos, oceanógrafos, meteorologistas e cientistas sociais), muitos deles  membros do Grupo de Trabalho  do Antropoceno, foram além: definiram o ano de 1945 como o início da nova época. A data escolhida representa a primeira explosão de uma bomba nuclear na superfície da Terra (em Alamogordo, no Novo México (EUA), em 16 de julho de 1945). Dessa data até 1988, foram detonadas outras bombas nucleares em uma média de uma a cada 9,6 dias, incluindo as de Hiroshima e Nagasaki, deixando marcas na superfície da crosta terrestre.

    De ‘pernas para o ar’ 

    A proximidade do Congresso Internacional de Geologia já vinha movimentando a comunidade científica envolvida na formalização do Antropoceno. Porém, um artigo recentemente publicado na Nature lançou novos questionamentos. O artigo sugere novas datas para marcar o início da nova época: os anos de 1610 e 1964. O Grupo de Trabalho do Antropoceno e outros pesquisadores, de forma independente, logo se manifestaram por meio da publicação de outros textos, discordando das datas sugeridas por uma série de razões, todas baseadas em evidências científicas levantadas nos últimos anos.

    A data de 1610, por exemplo, foi escolhida com base em um ‘leve e curto’ declínio na concentração de gás carbônico atmosférico medido em testemunhos de gelo (tipo de amostra coletada ao longo da camada  de gelo; muitas  vezes, com vários metros de profundidade) da Antártida. O declínio, entretanto, pode ser observado em outros momentos durante o Holoceno, não sendo, portanto, evidência suficiente para indicar a influência de atividades humanas. Já 1964 foi selecionado, entre outros motivos, com base nas altas concentrações atmosféricas de um isótopo (elemento químico com o mesmo número de prótons, mas diferente número de nêutrons) de carbono, registradas nos anéis de crescimento de pinhos em um parque  da Polônia. Nesse caso, a madeira do pinho não foi considerada um ‘material geológico’ propriamente dito, como são as rochas, os sedimentos marinhos e o gelo.

    Até meados deste ano, e possivelmente pelas próximas décadas, a comunidade científica tem grandes desafios. Um deles é indicar, com precisão, se e quando começou o Antropoceno, sinalizando de forma definitiva a magnitude da influência dos humanos sobre a Terra. Muitos outros desafios virão, pois os problemas decorrentes dessa ocupação, muitas vezes desordenada, podem estar apenas começando.

    segunda-feira, 8 de dezembro de 2014


    ANTROPOCENO - A ESCALDANTE IDADE DO HOMEM

    Impacto da atividade humana sobre o planeta gera debate acerca do advento de uma nova época geológica, o Antropoceno. Em livro, a jornalista Naomi Klein prega reviravolta no capitalismo para frear o aquecimento global -tema de conferência em Lima, nesta semana, e de encontro decisivo no ano que vem, em Paris.

    Prepare-se para o advento do Antropoceno. Em 2016 ele poderá estar entre nós. "Antropoceno" é o nome proposto no ano 2000 pelo Nobel de Química Paul Crutzen para uma nova época geológica, a "Idade do Homem". Ela viria suceder o Holoceno, no qual vivemos há quase 12 mil anos, desde o fim da última era glacial.

    Nesse intervalo, curto para a o tempo geológico (a Terra tem mais de 4 bilhões de anos), a espécie humana tirou proveito do clima estável e ameno. Desenvolveu a agricultura, multiplicou-se e se espalhou ainda mais pelo globo.

    A questão agora é saber se ela modificou o planeta e aqueceu a atmosfera o bastante para deixar uma marca inconfundível no registro estratigráfico. Os geólogos do futuro distante conseguirão distinguir
    uma camada de terreno que não existiria sem que 7 ou 10 bilhões de pessoas vivessem e produzissem na sua superfície?

    A Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS, em inglês), a quem compete decidir sobre as divisões oficiais da história da Terra, pode bater o martelo geológico em meados de 2016, quando se realizará o
    Congresso Internacional de Geologia. Foi esse o prazo que se autoimpôs o Grupo de Trabalho do Antropoceno (GTA) reunido por ela, que tem 37 especialistas e a tarefa de instruir o processo.
        

    Um deles é o próprio Paul Crutzen. Outro, o jornalista norte-americano Andrew Revkin, convidado por ter introduzido, num livro de 1992, "Global Warming" (Aquecimento global), a ideia de um pós-Holoceno produzido pelo homem. Hoje ele lamenta sua "escolha imperfeita de palavra": "Propus 'Antroceno'... Idiota".

    Também integra o grupo o climatologista brasileiro Carlos Nobre, secretário de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. "Acho que será aprovado o estabelecimento de uma
    nova época, em função do peso de evidências", avalia. "Mas o marco temporal ainda suscita discussões acaloradas."

    Não há muita dúvida de que cidades como São Paulo, Nova York ou Mumbai deixarão abundantes vestígios fósseis e arqueológicos para os milênios que virão. Os puristas, contudo, exigem que um novo período geológico esteja demarcado, literalmente, nas rochas.

    Uma proposta é fixar o limiar do Antropoceno em 1945, quando começaram as detonações atômicas. Elas aspergiram por todos os continentes uma camada sutil, mas detectável, de plutônio, césio e estrôncio,
    subprodutos da explosiva reação nuclear.


    Outra possibilidade, defendida por Crutzen, seria o final do século 19, no marco da Revolução Industrial. O argumento privilegia os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs), poluentes produzidos na
    queima de combustíveis fósseis (carvão e derivados de petróleo, principalmente) que se depositam em todos os ambientes.


    O consumo avantajado de combustíveis fósseis sustenta ainda outra hipótese para a delimitação. Nesse caso, sobressaem os efeitos produzidos com o agravamento do efeito estufa decorrente de bilhões de
    toneladas de dióxido de carbono (CO_2 ) lançadas no ar.

    Assim como a atmosfera, os oceanos também se aquecem no processo. Além disso, tornam-se mais ácidos ao absorver parte do CO_2 , o que, em algumas profundidades, interrompe o ciclo de deposição de carbonatos que dá origem a rochas claras, como o calcário. O resultado seria uma banda escura no registro estratigráfico.

    "O tópico todo é preocupante", resume Naomi Oreskes, historiadora da ciência da Universidade Harvard que integra o GTA.

    Oreskes é autora do livro "Merchants of Doubt" (Mercadores da dúvida, de 2011), que demonstra os propósitos ideológicos dos "céticos" militantes em organizações conservadoras como o American Enterprise Institute e a Heritage Foundation, para os quais é uma farsa a noção de mudança do clima causada pelo homem.

    Esse pessoal não quer nem ouvir falar em Antropoceno.

    *LEGIÃO*


    Em contrapartida, a dupla Antropoceno e aquecimento global faz sucesso
    com outra turma. Uma legião estimada em 400 mil pessoas tomou as ruas e
    avenidas de Nova York em 21 de setembro último, na Marcha do Povo pelo
    Clima. Apesar do nome, lá estavam Ban Ki-Moon, secretário-geral da ONU,
    que convocara uma Cúpula do Clima para dois dias depois, a ex-presidente
    da Irlanda Mary Robinson e o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore.

    Não faltaram, além deles, vegetarianos, ex-hippies sexagenários e
    indígenas na passeata convocada pela 350.org. A ONG luta pelo retorno à
    concentração de 350 partes por milhão (ppm) de CO_2 na atmosfera
    terrestre; no fim de novembro, ela estava em 398 ppm, muito acima dos
    280 ppm dos tempos pré-industriais.

    O CO_2 é o principal gás do efeito estufa, por sua capacidade de
    aprisionar e reter junto à superfície da Terra parte da radiação solar
    que incide sobre ela, como os vidros de um abrigo para plantas .

    Na fracassada Conferência de Copenhague, em 2009, só houve acordo quanto
    à necessidade de limitar as emissões de CO_2 para que o aquecimento
    global não exceda 2°C. Acima disso, a mudança do clima poderia conduzir
    a uma série devastadora de eventos extremos como secas, furacões, ondas
    de calor e enchentes.

    No restante, impera o desacordo entre países mais desenvolvidos e menos
    desenvolvidos. Pela 20ª vez, duas centenas deles estão reunidos em Lima,
    até a próxima sexta-feira (12), para tentar traçar as linhas de base de
    um tratado capaz de reduzir as emissões na proporção e no ritmo
    necessários. O prazo se extingue dentro de um ano, quando se realizará a
    Conferência de Paris -a COP 21.

    Os pesquisadores do clima estimam que, para não ultrapassar a marca dos
    2°C, a humanidade conta com um orçamento total, desde o início da
    espécie, de 1 trilhão de toneladas de CO_2 para gastar. Do século 19
    para cá, 600 bilhões já viraram fumaça.

    Para sobreviver com a pífia dotação de 400 bilhões, seria desejável que
    as emissões já estivessem em queda, como pressupunha o malfadado
    Protocolo de Kyoto (1997). Mas continuam a subir. Só recuam em anos de
    crise, como 2009. Em 2013, o aumento foi de 2,3%.

    Se a tendência presente se mantiver, restam apenas 25 anos de carbono
    para torrar. Isso exigiria cortar para zero as emissões, de um ano para
    o outro, em 2040. Como não vai acontecer, as reduções teriam de começar
    já, na toada de pelo menos 8% ao ano.

        Thiago Rocha Pitta    

    Os manifestantes da marcha de Nova York desconfiam de que os governos
    reunidos em Lima e Paris, sem pressão, não cumprirão a meta de
    temperatura acordada em Copenhague. Daí a mobilização.

    *ANTICAPITALISMO*

    Mais radical é a jornalista Naomi Klein, polêmica autora de "Sem Logo".
    Em seu mais novo livro, "This Changes Everything - Capitalism vs. the
    Climate" [Simon & Schuster, R$ 53,30, 576 págs.; R$ 66,71, e-book] (Isso
    muda tudo - capitalismo contra o clima), ela defende que não é possível
    enfrentar o desafio da mudança do clima sem virar de pernas para o ar o
    capitalismo contemporâneo, marcado por desregulamentação, cortes de
    gastos sociais, privatização e liberalização do comércio mundial.

    Nas mais de 500 páginas de texto, não faltam dados e exemplos
    convincentes de que a economia mundial se tornou dependente do carbono,
    vale dizer, dos combustíveis fósseis. Como um viciado, aceita pagar cada
    vez mais para explorar reservas não convencionais, como o gás de
    folhelho (ou xisto) nos EUA, as areias betuminosas no Canadá e o pré-sal
    no Brasil.

    Klein confronta o leitor com uma conta acabrunhante: as reservas já
    escrituradas de carvão, petróleo e gás natural correspondem ao quíntuplo
    do orçamento de carbono que resta para gastar. Ou seja, 4/5 delas seriam
    "inqueimáveis", do ponto de vista do aquecimento global.

    A não ser, é claro, que surjam tecnologias eficientes e baratas para
    limpar da atmosfera o carbono liberado em décadas após ficar retido nas
    entranhas da Terra por milhões de anos. O problema é que a indústria
    fóssil não investe muito nisso, mas sim em aumentar reservas e produção.
    Para Klein, essa indústria teria de ser obrigada pelos governos a
    comprometer seus lucros na limpeza do planeta.

    Acredite quem quiser. Mas o livro também tem seções para lá de otimistas
    com os avanços já alcançados em fontes renováveis de energia, como a
    fotovoltaica (solar) e a eólica (ventos).

    Klein se derrama na narrativa sobre comunidades e cidades que retomaram
    o controle local da geração, contornando a resistência das grandes
    distribuidoras quanto às fontes alternativas. Ela vê nessa
    descentralização o germe de um movimento de contestação do capitalismo
    como o conhecemos e uma oportunidade nunca vista antes pelos movimentos
    sociais.

    Klein não se demora muito na China, cujo capitalismo de Estado produziu
    a maior máquina poluidora do planeta, tendo já ultrapassado os EUA
    -embora o país asiático já se torne também o que mais investe em
    energias alternativas, como solar e eólica.

    Uma das passagens mais sublinhadas do livro, como pode constatar quem o
    lê em versão eletrônica, citada também por Elizabeth Kolbert em resenha
    na revista "The New York Review of Books", resume a conversão térmica da
    autora:

    "Comecei a perceber todas as maneiras pelas quais a mudança climática
    pode se tornar um catalisador para a mudança positiva -como ela pode ser
    o melhor argumento que os progressistas jamais tiveram para exigir a
    reconstrução e a revitalização das economias locais; para recuperar
    nossas democracias da corrosiva influência corporativa; para barrar
    danosos acordos de livre-comércio e reescrever os anteriores; para
    investir na depauperada infraestrutura pública de transporte coletivo e
    habitação social; para retomar a propriedade de serviços essenciais como
    água e energia; para reconstruir o sistema agrícola doente de modo muito
    mais saudável; para abrir as fronteiras a migrantes cujo deslocamento
    está ligado aos impactos do clima; para enfim respeitar os direitos de
    indígenas à terra -tudo isso ajudaria a acabar com os grotescos níveis
    de desigualdade em nossas nações e entre elas."

    *REFORMA*

    Como assinala a resenhista Kolbert, é um programa ambicioso -se não
    irreal, caberia acrescentar. Klein não chega a provar que a solução para
    o clima exija uma reviravolta anticapitalista. Baseia sua fé nos
    movimentos sociais redentores só em si própria -ou seja, em pensamento
    positivo.

    Com essa viseira, não consegue enxergar que o capitalismo não é um
    monólito, mas um sistema flexível e cambiante. Entre outras coisas,
    capaz de criar nichos de mercado para energias limpas (como a eólica,
    recentemente, no Brasil) mesmo em meio às ideias fixas na
    hidreletricidade e petróleo.

    Até os mais céticos quanto ao processo internacional de negociações
    sobre clima, como o cientista político Eduardo Viola, da UnB, se
    distanciam dessa perspectiva: "O capital tende a estar cada vez mais
    dividido entre forças inerciais, conservadoras, e forças que apontam
    para a descarbonização".

    "Mesmo dentro de cada empresa há essa divisão", afirma Viola. "[O
    impasse] na política internacional é derivado disso." Como Klein, o
    professor da UnB vê num imposto sobre o carbono o meio mais eficiente
    para promover a transformação necessária -mas numa moldura capitalista:
    "As forças reformistas estão procurando regras para precificar o carbono".

    Naomi Oreskes tampouco acompanha Klein. "Reconhecer a mudança do clima
    como uma falha de mercado não obriga ninguém a concluir que a falha não
    possa ser corrigida", diz a historiadora de Harvard. Na sua avaliação, a
    xará acaba por confirmar o preconceito dos céticos de que a defesa do
    clima não passa de ataque sub-reptício contra a liberdade do capital.

    "Klein pode estar certa, mas espero que não esteja, porque reformar o
    capitalismo parece uma tarefa mais difícil que reformar nossos sistemas
    de energia e infraestrutura. Ambas as coisas parecem quase impossíveis,
    mas a segunda eu ao menos consigo imaginar."

    Andrew Revkin segue na linha de Viola e Oreskes. "Podemos evitar a
    perigosa mudança climática de origem humana (e os impactos do clima) sem
    desfazer o capitalismo", afirma o jornalista.

    "Existem modelos pós-extrativistas para construir negócios
    bem-sucedidos. No fim das contas, é um misto de pesquisa básica com
    operação do setor privado (capitalista) que está reduzindo os cursos da
    energia alternativa e levando a ganhos de eficiência."

    *REGENERAÇÃO*


    A receita reformista favorita aposta na combinação de energia
    fotovoltaica e eólica, talvez algumas usinas térmicas nucleares, para
    substituir carvão, óleo e gás natural na geração de eletricidade, que
    seria distribuída por redes inteligentes ("smart grids") com desperdício
    reduzido.

    Só a radiação solar tem potencial para fornecer pelo menos seis vezes
    mais energia que os 15 trilhões de watts hoje obtidos de combustíveis
    fósseis. Boa parte dessa energia poderia ser usada para massificar a
    dessalinização de água do mar e, quem sabe, para recapturar carbono da
    atmosfera.

    Em vez da sentimental "regeneração" do planeta defendida por Klein no
    fim do livro, essa perspectiva implicaria redobrar a aposta prometeica
    no Antropoceno. Se não há volta nos ponteiros do relógio geológico,
    resta continuar mudando o mundo -para melhor.

    Seria a única saída para evitar uma ração impalatável de 2.000 watts por
    pessoa que a matriz fóssil atual exigiria para baixar as emissões de
    carbono ao nível necessário. Um americano consome hoje 12.000 watts e
    jamais se contentaria com menos; o restante do mundo vê como um direito
    a chance de chegar a esse patamar.

    Nem por isso se pode dar Klein por nocauteada. A janela para conter a
    mudança do clima está se fechando, e a trajetória que governos, ONGs,
    ONU, empresas verdes e líderes idem -Al Gore à frente como sacerdote-mor
    do termoevangelismo- até aqui fracassou.

    E fracassou, entre outras razões, como aponta "This Changes Everything",
    porque a mudança do clima se tornou um meio de vida para muita gente. O
    livro é impiedoso ao desvendar a teia de relações e doações que une as
    ONGs ambientais mais famosas a empresas e empresários convertidos à
    causa ambiental que, no frigir dos ovos da rentabilidade, seguem
    investindo no bom e velho carbono.

    *PORVIR*


    Para uns, como Ricardo Abramovay, professor de economia da USP, esse
    estado de coisas deixa margem para algum otimismo, ainda que tisnado
    pela dúvida: "Algum dia essa conta terá de ser paga; resta saber se será
    com catástrofe ou não".

    Para outros, como a professora de filosofia Déborah Danowski (PUC-Rio) e
    o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (Museu Nacional), autores do
    livro "Há Mundo Por Vir? Ensaio sobre os Medos e os Fins" [Instituto
    Socioambiental, R$ 35, 175 págs.], há sérias razões para inquietar-se.

    "Nosso presente é o Antropoceno; este é o nosso tempo", escrevem. "Mas
    este tempo presente vai se revelando um presente sem porvir, um presente
    passivo, portador de um carma geofísico que está /inteiramente fora de
    nosso alcance anular/ -o que torna tanto mais urgente e imperativa a
    tarefa de sua mitigação."