Uma nova época na história geológica da Terra?
Há mais de uma década, esforços vêm sendo realizados para
reunir evidências científicas sobre a influência do ser humano sobre a
Terra e seus ecossistemas. Tudo indica que já estamos vivendo uma nova
época na história geológica do planeta: o Antropoceno. Sua formalização
tem data marcada para meados de 2016.
Por:
Juliana Assunção Ivar do Sul
Publicado em 16/02/2016
|
Atualizado em 16/02/2016
Escala do tempo geológico da Terra, incluindo o Antropoceno
(em vermelho) logo após a época atual – o Holoceno. (gráfico: Luiz
Baltar)
Há mais de uma década, esforços vêm sendo realizados para reunir
evidências científicas sobre a influência do ser humano sobre a Terra e
seus ecossistemas. Tudo indica que já estamos vivendo uma nova época na
história geológica do planeta: o Antropoceno. A sua formalização tem
data marcada para meados de 2016, e a comunidade científica está
mobilizada para dar esse importante passo.
No início da década de 2000, o termo Antropoceno foi sugerido pelo
químico holandês Paul Crutzen, ganhador do prêmio Nobel de Química em
1995, para descrever a época ou intervalo de tempo mais recente na
escala geológica da Terra. O termo reflete a profunda e contínua
influência das atividades humanas sobre o planeta – que tem 4,6 bilhões
de anos – e seus compartimentos físicos, geológicos e biológicos.
Na escala geológica, o Antropoceno – caso fosse formalmente incluído –
sucederia a época atual, denominada Holoceno, que teve início há 11,7
mil anos, depois do último período glacial ou Idade do Gelo – que, por
sua vez, está inserido no período Quaternário da Era Cenozoica, os quais
seriam mantidos inalterados. O termo e suas inúmeras implicações
científicas e de caráter social, político e/ou econômico foram
amplamente discutidos nos últimos 15 anos, gerando centenas de artigos
publicados em importantes revistas científicas, bem como outras centenas
de documentos de cunho científico e informativo divulgados em
diferentes meios de comunicação (ver
‘Antropoceno: a época da humanidade?’, em
CH
283). Atualmente, talvez pela aproximação de um importante congresso a
se realizar na Cidade do Cabo (África do Sul) neste ano, o debate
sobre a oficialização dessa ‘nova época’ se intensificou, mobilizando
a comunidade científica envolvida com o tema.
Na escala geológica, o Antropoceno – caso fosse
formalmente incluído – sucederia a época atual, denominada Holoceno, que
teve início há 11,7 mil anos
Para explicar melhor, vamos voltar um pouco no tempo. No final da
década de 2000, a União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS, na
sigla em inglês), importante órgão científico da área, sinalizou a
possibilidade de formalização do Antropoceno caso, naturalmente, fossem
cumpridos os ‘pré-requisitos’ estabelecidos pela comunidade
científica – neste caso, composta principalmente por geólogos. Para ser
reconhecido como uma unidade, ou intervalo de tempo geológico, o
Antropoceno deve apresentar um início definido – que é o tópico mais
discutido atualmente; deve ocorrer de forma sincrônica ao redor do
planeta; e precisa apresentar evidências (químicas, físicas e/ou
biológicas, como os fósseis) passíveis de serem monitoradas e que
reflitam, claramente, os limites estratigráficos – ou seja, dos estratos
ou camadas de rochas que formam a crosta terrestre – entre os
intervalos de tempo adjacentes, assim como ocorre em outras unidades já
estabelecidas na escala geológica.
Para que esses pré-requisitos fossem estudados a fundo, foi criado o
Grupo de Trabalho do Antropoceno (AWG, na sigla em inglês), que está
formalmente ligado à Comissão Internacional de Estratigrafia. Naquela
época, foi definido um prazo para a atuação do grupo e, ao final desse
período, a IUGS ‘bateria o martelo’ quanto à oficialização do
Antropoceno. Esse prazo termina em agosto deste ano, durante o
Congresso Internacional de Geologia na Cidade do Cabo.
Datas propostas
Inicialmente, Crutzen sugeriu que o Antropoceno teria começado junto
com a Revolução Industrial e a invenção da máquina a vapor no final do
século 18. Nessa época, as concentrações de gás carbônico e metano
começaram a aumentar (em comparação aos níveis encontrados no Holoceno),
e a população atingiu a marca de 1 bilhão de habitantes. Alguns
pesquisadores acreditam que o Antropoceno começou antes mesmo da
Revolução Industrial, há alguns milhares de anos, com os primeiros
impactos do homem sobre a Terra – incluindo, por exemplo, a caça e o
desmatamento para a expansão da agricultura. Outros pesquisadores
sugerem ainda que o Antropoceno teve início na metade do século 20,
período por eles denominado de ‘Grande aceleração’, quando ocorreram
profundas mudanças causadas por atividades antrópicas em um período
de tempo relativamente curto.
Inicialmente, Crutzen sugeriu que o Antropoceno
teria começado junto com a Revolução Industrial e a invenção da máquina a
vapor no final do século 18
Liderados pelo geólogo inglês Jan Zalasiewicz, cientistas das mais
diversas áreas do conhecimento (paleontólogos, biólogos, botânicos,
oceanógrafos, meteorologistas e cientistas sociais), muitos deles
membros do Grupo de Trabalho do Antropoceno, foram além: definiram o
ano de 1945 como o início da nova época. A data escolhida representa a
primeira explosão de uma bomba nuclear na superfície da Terra (em
Alamogordo, no Novo México (EUA), em 16 de julho de 1945). Dessa data
até 1988, foram detonadas outras bombas nucleares em uma média de uma a
cada 9,6 dias, incluindo as de Hiroshima e Nagasaki, deixando marcas na
superfície da crosta terrestre.
De ‘pernas para o ar’
A proximidade do Congresso Internacional de Geologia já vinha
movimentando a comunidade científica envolvida na formalização do
Antropoceno. Porém, um
artigo recentemente publicado na Nature
lançou novos questionamentos. O artigo sugere novas datas para marcar o
início da nova época: os anos de 1610 e 1964. O Grupo de Trabalho do
Antropoceno e outros pesquisadores, de forma independente, logo se
manifestaram por meio da publicação de outros textos, discordando das
datas sugeridas por uma série de razões, todas baseadas em evidências
científicas levantadas nos últimos anos.
A data de 1610, por exemplo, foi escolhida com base em um ‘leve e
curto’ declínio na concentração de gás carbônico atmosférico medido em
testemunhos de gelo (tipo de amostra coletada ao longo da camada de
gelo; muitas vezes, com vários metros de profundidade) da Antártida. O
declínio, entretanto, pode ser observado em outros momentos durante o
Holoceno, não sendo, portanto, evidência suficiente para indicar a
influência de atividades humanas. Já 1964 foi selecionado, entre outros
motivos, com base nas altas concentrações atmosféricas de um isótopo
(elemento químico com o mesmo número de prótons, mas diferente número de
nêutrons) de carbono, registradas nos anéis de crescimento de pinhos em
um parque da Polônia. Nesse caso, a madeira do pinho não foi
considerada um ‘material geológico’ propriamente dito, como são
as rochas, os sedimentos marinhos e o gelo.
Até meados deste ano, e possivelmente pelas próximas décadas, a
comunidade científica tem grandes desafios. Um deles é indicar, com
precisão, se e quando começou o Antropoceno, sinalizando de forma
definitiva a magnitude da influência dos humanos sobre a Terra. Muitos
outros desafios virão, pois os problemas decorrentes dessa ocupação,
muitas vezes desordenada, podem estar apenas começando.