Com floresta, sem fauna
Declínio de populações de animais é um problema tão sério quanto o desmatamento
REINALDO JOSÉ LOPES |
Edição 223 - Setembro de 2014
© CÉLIO HADDAD/UNESP

Os anfíbios, como a perereca Phasmahyla cochranae, são muito sensíveis a mudanças ambientais.
A divulgação anual dos números do desmatamento é crucial para estimar
a ameaça a esses biomas, mas traça um retrato incompleto da situação.
Mesmo em áreas não desmatadas, a
defaunação – como é conhecida a
diminuição acentuada da população de animais – avança a passos largos,
representando um problema tão importante e difícil de controlar quanto o
desmate, segundo um artigo publicado em julho deste ano na revista
Science.
O trabalho, coordenado pelo mexicano Rodolfo Dirzo, da Universidade
Stanford, nos Estados Unidos, tem entre seus coautores Mauro Galetti, do
Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de
Rio Claro, colaborador de longa data da equipe norte-americana. A
revisão na
Science reforça o que Galetti e seus colegas no Brasil
têm demonstrado nos últimos anos, em especial na mata atlântica: o
crescente empobrecimento faunístico dos ecossistemas. “São áreas não
desmatadas que estão vazias de animais, inicialmente por causa da
pressão da caça, que continua muito presente, mas também por uma série
de outros fatores como o corte do palmito juçara, uma importante fonte
de alimento para a fauna”, afirma Galetti. O grupo liderado por Dirzo
calcula que, no mundo todo, as espécies de vertebrados tenham perdido,
em média, pouco menos de um terço de sua população dos anos 1970 para
cá.
Alguns vertebrados são atingidos de forma mais severa – mais de 40%
das espécies de anfíbios, por exemplo, são consideradas ameaçadas, ante
17% das aves.
É natural que o declínio dos vertebrados seja acompanhado de forma
mais assídua tanto pelos pesquisadores quanto pelo público. São, para
começar, muito mais visíveis do que a maioria dos invertebrados, e
muitos pertencem a espécies consideradas carismáticas, que protagonizam
campanhas conservacionistas e acabam se tornando conhecidas. O
levantamento publicado na
Science, no entanto, reuniu também
dados disponíveis sobre invertebrados, chegando à conclusão de que a
situação deles provavelmente também inspira preocupação.
Cerca de dois terços dos invertebrados monitorados perderam em média
45% de sua população. “A verdade é que precisamos de mais dados, mas não
acho que esse número esteja superestimado”, diz Galetti. “O que
acontece é que esses declínios se referem, em geral, a invertebrados que
costumavam ser muito abundantes e, por isso, eram acompanhados em
trabalhos de campo. O cenário provavelmente seria pior se espécies
naturalmente mais raras entrassem na conta.”
© FÁBIO COLOMBINI

Maior herbívoro da mata atlântica, a anta é um agente importante na dispersão de sementes.
Efeito dominó
Além das consequências mais óbvias da escassez de animais, como o
risco de extinção, a defaunação preocupa porque pode desencadear uma
série de efeitos dominó ecológicos: a perda de espécies-chave tende a
afetar diversos outros animais e plantas, com repercussões que podem
comprometer tanto o funcionamento normal de um ecossistema quanto os
serviços ambientais que ele proporciona aos seres humanos, como a
fertilidade do solo ou a abundância de água potável.
O efeito é mais óbvio com predadores do topo da cadeia alimentar,
como as onças. Sua presença impede que predadores menores sobrepujem os
demais, resultando numa diversidade maior desses “súditos” dos felinos.
Herbívoros de grande e médio porte, por sua vez, são os principais
responsáveis por dispersar sementes de frutos grandes (as antas
desempenham esse papel com maestria), além de atuar também como
“arquitetos”, abrindo clareiras e amassando plantas jovens. Até a
abundância de anfíbios depende, em alguma medida, do pisoteio das
margens de cursos d’água pelos grandes herbívoros, já que esse processo
abre depressões onde rãs e sapos podem se abrigar.
Para qualquer tipo de fauna, porém, a situação na mata atlântica não
parece ser das melhores. Num trabalho publicado em julho do ano passado
na
Biological Conservation, Galetti e colegas mapearam a situação
de quatro espécies icônicas do bioma: o maior predador (a
onça-pintada), o maior herbívoro (a anta), o maior devorador de sementes
(a queixada) e o maior dispersor arbóreo de sementes (o muriqui, maior
macaco das Américas). Analisando dados de quase 100 locais diferentes,
eles chegaram à conclusão de que em 88% dos remanescentes da floresta
não há mais nenhuma dessas espécies, e em 96% dos casos pelo menos uma
delas está ausente. O pior é que, de acordo com o grupo da Unesp, menos
de 20% dos fragmentos remanescentes da mata seriam adequados para
abrigar o quarteto de espécies-chave.
A situação não melhora muito quando se analisa um leque mais amplo de
espécies de grande e médio porte. Num estudo publicado em 2012 na
PLoS ONE,
do qual participaram Gustavo Canale, da Universidade do Estado de Mato
Grosso (Unemat), e Carlos Peres, da Universidade de East Anglia (Reino
Unido), a equipe avaliou a presença de 18 espécies de mamíferos
(incluindo, além dos citados acima, tamanduás, tatus e bugios, entre
outros) em quase 200 fragmentos de mata atlântica, espalhados por três
estados (Minas Gerais, Bahia e Sergipe). Resultado: só quatro das 18
espécies, em média, ainda ocorrem em fragmentos de até 5 mil hectares.
E, mesmo em pedaços de mata com área maior do que isso, só sete espécies
costumam ocorrer juntas.
© RAIMUNDO PACCÓ / FOLHAPRESS

Macacos grandes como os bugios têm desaparecido de alguns lugares devido à caça excessiva
Nos poucos lugares em que esses animais ainda existem, o temor dos
biólogos é de que machos e fêmeas teriam dificuldade para encontrar
parceiros. A redução da população também aumentaria o risco de
cruzamentos entre parentes próximos, gerando filhotes com problemas
congênitos ou dificuldade para resistir a doenças. Os dados disponíveis a
respeito das onças-pintadas no bioma sugerem um cenário desse tipo, diz
o geneticista Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul. “Claramente há uma redução da diversidade, e os
fragmentos também vão ficando diferenciados entre si, provavelmente um
resultado de intensa deriva genética [perda aleatória de variação]”,
afirma (
ver Pesquisa FAPESP nº 215).
Pequenas grandes mudanças
No caso dos vertebrados pequenos e dos invertebrados, os danos
ecológicos da perda de fauna são claros. Um exemplo é o papel de insetos
como polinizadores, em especial as muitas espécies de abelhas – não é
por acaso que o declínio das colmeias pelo mundo tem sido fonte de
preocupação para agricultores.
No caso dos anfíbios, bem vulneráveis a perturbações ambientais, há
registros de declínios populacionais dramáticos em regiões como os Andes
e a América Central. Nesses casos, dois fatores podem estar atuando
numa sinergia perversa: mudanças climáticas, que esquentam os ambientes
frescos e úmidos preferidos pelos anfíbios, e o fungo
Batrachochytrium dendrobatidis, que se dá bem nessas condições e pode levar muitas dessas espécies ao desaparecimento.
Boa parte da diversidade remanescente dos anfíbios da mata atlântica
se concentra em áreas montanhosas e relativamente mais frias, onde o
B. dendrobatidis
foi identificado na década passada, o que levou os especialistas a
temer uma repetição do cenário dos Andes. Por enquanto, contudo, a
situação está se revelando mais complexa, diz a zoóloga Vanessa Kruth
Verdade, da Universidade Federal do ABC.
“Os resultados indicam que cada espécie responde de maneira diferente
às alterações climáticas. Além disso, descobriu-se que a linhagem do
fungo no Brasil é antiga, anterior aos declínios, o que levanta questões
sobre a sua importância como causador dos declínios em território
nacional”, explica. Embora haja dados sobre perdas populacionais de
diversas espécies de anfíbios no país, dimensionar o problema e entender
suas causas ainda é um desafio pela falta de dados históricos sobre
essas populações e de conhecimento de sua variação natural, afirma
Vanessa. De qualquer maneira, o que está claro é que a defaunação acaba
fortalecendo o círculo vicioso de empobrecimento da mata. “Ela
retroalimenta negativamente o sistema por meio da depauperação da
vegetação arbórea, como consequência da desestruturação das comunidades
ecológicas”, diz ela.
Um exemplo claro desse fenômeno vem de um grupo inusitado de
invertebrados, popularmente conhecidos como besouros rola-bostas. Como o
nome sugere, eles comem fezes e usam o excremento produzido por grandes
mamíferos para seus ninhos. Em outra pesquisa publicada na
Biological Conservation em
2013, Galetti e seus colegas mostraram que, em áreas defaunadas da mata
atlântica, uma série de mudanças afetam os besouros coprófagos: a
diversidade de espécies desses insetos cai, assim como o tamanho dos
besouros, enquanto o número absoluto de indivíduos aumenta. Não se trata
de mera curiosidade, porque essas alterações podem ter impacto
considerável na maneira como a matéria orgânica é reciclada no solo da
mata e, portanto, no crescimento das plantas e numa série de outros
parâmetros.
Reconstruindo comunidades
Para Galetti, esses resultados deixam claro que é preciso repensar
as ações de recuperação ambiental. “Hoje, existem muitos projetos de
criação de corredores ecológicos, plantando árvores, mas reconstituir a
fauna é imprescindível, porém muito mais difícil”, explica.
O primeiro e óbvio passo é fazer valer a legislação que proíbe a
caça, destaca ele, mas igualmente importante talvez fosse considerar
reintroduções de animais levando em conta o papel ecológico de cada um
deles no bioma. “Os projetos são pensados em termos da ameaça para
aquela espécie em particular. Dependendo da situação, porém, talvez
outra espécie fosse igualmente interessante. É claro que é importante
recuperar a população do mico-leão-dourado, mas em alguns casos talvez
reintroduzir outro frugívoro tenha o mesmo efeito”, compara. Seriam, em
outras palavras, “pacotes ecológicos”, incluindo um herbívoro de grande
porte, outro de médio porte, predadores pequenos e grandes, por exemplo?
“Sim, mas isso teria de ser feito passo a passo – os herbívoros
primeiro, por exemplo, depois os carnívoros. É um processo lento de
refaunação que teremos que fazer.”
Projeto
Efeitos de um gradiente de defaunação na herbivoria, predação e dispersão de sementes: uma perspectiva na mata atlântica (
nº 2007/03392-6);
Pesquisador responsável Mauro Galetti (Unesp);
Modalidade Projeto Temático;
Investimento R$ 692.437,03 (FAPESP).
Artigos científicos
DIRZO, R.
et al. Defaunation in the anthropocene.
Science. v. 345, n. 6195, p. 401-06, 25 jul. 2014.
CULOT, L.
et al. Selective defaunation affects dung beetle communities in continuous Atlantic rainforest.
Biological Conservation. v. 163, p. 79-89. jul. 2013.
JORGE, M. L. S. P.
et al. Mammal defaunation as surrogate of trophic cascades in a biodiversity hotspot.
Biological Conservation. v. 163, p. 49-57. jul. 2013.
CANALE, G.
et al. Pervasive defaunation of forest remnants in a tropical biodiversity hotspot.
PLoS One, v. 7, n. 8, e41671. 14 ago. 2012.