Danos da radioatividade
Tecidos animais de antigos experimentos podem ajudar a compreender níveis de radiação prejudiciais
Alison Abbott
| ©Iaroslav Neliubov/ Shutterstock |
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A cidade de Ozersk, nos Urais do Sul, na Rússia, esconde relíquias de um
massivo experimento secreto. Do início dos anos 50 até o fim da
Guerra
Fria, cerca de 250 mil animais foram sistematicamente irradiados.
Algumas doses eram altas o bastante para matar instantaneamente; outras
eram tão baixas que pareciam inofensivas.
Depois que animais como
camundongos, ratos, cães, porcos e macacos morriam, os cientistas
dissecavam os tecidos para observar os danos que a radioatividade havia
provocado. Temendo um ataque nuclear por parte dos Estados Unidos, a
União Soviética queria entender como a radiação danifica tecidos e
produz doenças como o câncer. Preocupações com acidentes locais como o
desastre de 1957 na usina nuclear Mayak, perto de Ozersk, eram outra
motivação. Amostras semelhantes de tecidos irradiados foram feitas nos
Estados Unidos, Europa e no Japão, onde quase meio bilhão de animais foi
sacrificado com esse fim. Com o fim da Guerra Fria essas coleções foram
abandonadas.
Agora essas amostras se tornaram importantes para
uma nova geração de radiobiólogos, que querem explorar os efeitos de
doses extremamente baixas de radiação – abaixo de 100 milisieverts (mSv –
unidade de medida que avalia os efeitos da radiação absorvida pelo
organismo) –, normalmente utilizadas em procedimentos médicos como
diagnósticos por tomografia computadorizada. Outro interesse dos
pesquisadores é analisar os riscos aos quais as pessoas que vivem perto
dos reatores nucleares danificados de Fukushima, no Japão, estão
expostas.
As velhas coleções fornecem um recurso que não poderia
ser recriado hoje. A maioria dos experimentos foi feita sob condições
precisas, com várias de doses de radiação e geralmente por toda a vida
dos animais. “Nós nunca conseguiremos repetir a escala desses
experimentos, por razões éticas e de financiamento”, observa Gayle
Woloschak,
radiobiólogo da Northwestern University, em Illinois. “Mas
talvez possamos reutilizar os tecidos restantes”, completa.
Nos
últimos anos, pesquisadores do mundo todo organizaram um movimento para
identificar e resgatar tecidos dos maiores experimentos de irradiação
animal e receberam suporte de diversos tipos de agências de
financiamento, incluindo a Comissão Européia, o Instituto Nacional do
Câncer e o Departamento de Energia dos Estados Unidos.
Ainda
assim, os desafios são grandes. Os pesquisadores devem mostrar que a
idade das amostras e as técnicas de preservação usadas não afetaram o
DNA, o RNA e as proteínas. Além disso, eles têm que juntar esses dados
moleculares para revelar se os circuitos celulares são destruídos em
baixas doses de radiação. Testes iniciais indicam que algumas das
amostras serão utilizáveis.
Reservatórios de radiação
Quando os
sobreviventes das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki e os
trabalhadores contaminados de Mayak começaram a desenvolver doenças
cardiovasculares a taxas acima do normal, ficou claro que a radiação faz
mais do que “apenas” provocar câncer. O que não se sabe é se – e como –
doses muito baixas de radiação podem aumentar riscos à saúde. Os
biólogos geralmente supõem que o dano será proporcional à dose, mas
estudos in vitro mostraram que as células conseguem restaurar
danos modestos no DNA prouzidas por radiação – e que baixas doses de
radiação podem até mesmo proteger o organismo contra exposições futuras.
“Talvez
haja um limiar abaixo do que a radiação não seja nociva”, observa
Wolfgang Weiss, diretor de proteção e saúde radioativa no Escritório
Federal para Proteção contra Radiação da Alemanha, em Munique. Estudos
epidemiológicos em pessoas expostas à radiação não trouxeram maiores
explicações sobre o assunto. Algumas das pesquisas tinham um número
muito baixo de pessoas estudadas para detectar o que poderia ser um
pequeno aumento na incidência da doença; em outras não ficou claro qual a
dose recebida. Assim, ainda que agências de proteção radioativa
normalmente limitem a exposição ocupacional (na indústria nuclear, por
exemplo) a uma média de 20 mSv por ano, os cientistas não têm dados
adequados para afirmarem qual nível de radiação, se é que existe algum, é
realmente seguro.
Em fevereiro de 2007, a busca para encontrar
esses tecidos levou Soile Tapio a um dos antigos centros de pesquisa
nuclear da Alemanha, o Helmholtz Centre Munich. Soile estava
participando do programa “Promoção dos Arquivos Europeus de
Radiobiologia” (ERA-PRO, em inglês), parte de um esforço desde 1996 para
digitalizar os dados dos experimentos com radiação feitos na Europa. Em
2006, o diretor do programa de irradiação animal do Instituto Biofísico
dos Urais do Sul (Subi), em Ozersk, alertou Soile sobre os diversos
foco dos estudos que ocorriam ali. Ela não sabia exatamente o que
esperar quando se pôs a caminho com sua pequena delegação da ERA-PRO.
Proibido
Alguns meses foram necessários para
receber a aprovação da Rússia para visitar a cidade fechada de Ozersk.
Depois de um longo voo, uma viagem de carro de três horas e uma demorada
autorização de segurança, um pequeno grupo de cientistas idosos levou a
equipe até uma casa abandonada com furos no teto e janelas quebradas.
Lâminas de vidro e cadernos de laboratório jaziam espalhados pelo chão
de algumas salas. Mas outras, aquecidas, continham caixas de madeira com
lâminas e blocos de cera em sacos plásticos. Em seus tempos de glória o
programa tinha mais de 100 funcionários. Quando foi abruptamente
fechado durante a Guerra Fria, apenas quatro ou cinco pessoas foram
incumbidas de cuidar do material produzido. Os visitantes ficaram
impressionados ao descobrir que esses cientistas podiam ligar todas as
amostras, de 23 mil animais, a protocolos detalhados de experimentos
individuais. “Os cientistas ficaram muito felizes com o fato de alguém
finalmente reparar nas coleções”, descreve Soile. “Eles me disseram
várias vezes que queriam deixá-las em ordem antes de morrer”.
Enquanto
isso, outra operação de resgate de tecidos estava sendo feita nos
Estados Unidos. Na metade da década de 90, Gayle trabalhou nas amostras
de 7 mil cães (beagles) e 50 mil ratos que haviam sido irradiados em
experimentos no Laboratório de Pesquisa Argonne, em Illinois, entre 1969
e 1992. Depois de se mudar para a Northwestern, ela descobriu que as
amostras estavam sendo jogadas fora e conseguiu permissão do
Departamento de Energia para armazená-las.
A Northwestern
University atualmente é o lar de materiais provenientes de todos os
estudos sobre irradiação animal dos Estados Unidos e Gayle estima que já
recebeu 20 mil amostras. Ela descobriu também que muitos tecidos já
foram destruídos, incluindo os de estudos feitos com ratos, no
Laboratório Nacional Oak Ridge, no Tennessee, e os realizados com cães,
na University of California. Coleções também foram destruídas em outros
locais, incluindo os feitos pela Universidade de Hiroshima, no Japão,
pela Agência Nacional de Novas Tecnologias, Energia e Desenvolvimento
Econômico Sustentável em Casaccia, na Itália, e no complexo do Conselho
de Pesquisas Médicas do Reino Unido.
Os cientistas sabem que
colocar as mãos nos antigos tecidos será apenas o primeiro desafio:
depois disso eles precisam descobrir se as biomoléculas dos materiais
ainda podem ser detectadas e medidas. Eles querem identificar e analisar
as rotas moleculares atingidas por pequenas doses de radiação para ver
como as células de diferentes tecidos se adaptam – ou não – ao estresse,
e como isso pode colocá-las no caminho das doenças. Eles também querem
descobrir os padrões de moléculas podem ajudar a determinar quanta
radiação uma pessoa recebeu ou por que ela é particularmente suscetível a
doenças induzidas por radiação.
O trabalho de Gayle, feito em 1990 no velho laboratório Argonne, traz
alguma esperança. Ela descobriu, por exemplo, que ao usar a técnica de
reação em cadeia de polimerase ela poderia detectar mutações ou
reorganizações em genes específicos. Soile, enquanto isso, adaptou
técnicas proteômicas padrão de modo que pudessem ser aplicadas a alguns
dos tecidos mais velhos. Além disso, vários grupos estão estudando se
micro-RNAs – que ajudam a controlar a expressão de genes e são
relativamente estáveis – estão presentes nas amostras.
Os
cientistas agora estão prontos para aplicar esse trabalho
sistematicamente aos tecidos restantes: Soile está prestes a começar a
trabalhar com tecidos cardíacos aplicados em parafina dos antigos
estudos russos e americanos. Ela quer identificar quaisquer sinais de
danos que possam explicar a elevada incidência de doenças
cardiovasculares em sobreviventes de bombas nucleares. “Os cientistas
que fizeram essas pesquisas procuravam câncer, mas podemos buscar outras
doenças que sabemos ser relevantes”, ressalta ela.
Os estudos
podem, no entanto, identificar outras respostas moleculares. “A resposta
das células ao estresse causado por qualquer dose de radiação é uma
rede complexa de atividades que provavelmente afeta muitas rotas
moleculares”, explica Soile. Os radiobiólogos esperam que o limiar da
dose “segura” varie entre tecidos e espécimes diferentes.
De
qualquer forma, os tecidos em Ozersk foram colocados em ordem, como
esperavam seus antigos guardiões. Eles logo se mudarão para um prédio de
armazenamento de última geração que está sendo construído no campus
Subi, junto com tecidos humanos dos trabalhadores de Mayak expostos a
radiação. Os tecidos animais, esperam os pesquisadores, passarão por uma
nova fase – dessa vez em palco internacional.