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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

 

Sahelanthropus tchadensis – NOSSO ÚLTIMO ANCESTRAL COMUM CHIMPANZÉ-HUMANO, ATÉ O MOMENTO.

Embora a espécie humana tenha sua origem datada em aproximadamente 200 mil anos, o processo de hominização começou a certa de 7 milhões de anos, na África. Hoje vamos tratar de um ponto muito importante na história da humanidade, o hominínio mais antigo, Salehanthropus tchadensis e espécies relacionadas a ele em um ponto específico da árvore filogenética humana (entre 7 e 5,8 milhões de anos). Este ponto é no tempo é crucial porque nos leva ao encontrado de um conceito muito importante, o “último ancestral comum chimpanzé-humano” (CHLCA).

Crânio de Sahelanthropus tchadensis. Clique para ampliar

Crânio de Sahelanthropus tchadensis. Clique para ampliar

Sahelanthropus tchadensis é visto como a espécie mais antiga relacionada à evolução humana (Brunet et al, 1995). Infelizmente só há poucos fragmentos desta espécie e novas descobertas são aguardadas. Estudos anatômicos indicam que este hominínio era bípede.

Os fósseis de S. tchadensis foram descobertos no deserto Djurab do Chade por uma equipe de pesquisadores liderados por Michel Brunet. A descoberta foi feita em julho entre 2001 e março de 2002 em três locais (TM 247, TM 266 [que produziu a maioria do material] e TM 292).

Até hoje, este é o mais antigo ancestral humano conhecido depois da separação da linhagem humana e dos chimpanzés. Isto tem uma importância grande, pois destaca um conceito importante na evolução humana, o “Chimpanzee–Human Last Common Ancestor (CHLCA), ou o “último ancestral comum do homem com os chimpanzés”, que até o momento é representado pelo S. tchadensis, mas esta sujeito a mudanças mediante novas descobertas, mais antigas.

Os ossos deste hominídeo foram encontrados longe da maioria dos achados fósseis hominídeos anteriores, que são geralmente da África Oriental e Austral. Uma mandíbula de Australopithecus bahrelghazali foi encontrada em Chade por Beauvilain e Brunet e Moutaye em 1995 (Brunet et al, 1995).  Como o dimorfismo sexual conhecido por ter existido nos primeiros hominídeos, alguns autores argumentam que a diferença entre o Ardipithecus e Sahelanthropus pode não ser grande o suficiente para justificar uma espécie separada para o último (Haile-Selassie et al, 2004).

Dimorfismo sexual esta relacionado a estrutura social e interfere diretamente no tamanho relativo dos dentes dos animais. Embora o dimorfismo sexual ocorra por diversos processos dependendo do grupo biológico que ele esta presente, em primatas existem algumas situações chave que representam a sua origem. Relações monogâmicas relativamente estáveis tendem a diminuir o dimorfismo sexual de tal forma que ambos os sexos tenham tamanhos próximos e a diferença no tamanho dos dentes caninos seja semelhante, como ocorre em gibões, siamangos e muitos primatas prossímios. O dimorfismo é mais expressivo quando a estrutura social é baseada em um sistema de macho alpha que tem acesso a diversas fêmeas e por isto é constantemente atacado por outros machos que buscam tomar seu posto. Por essa razão, machos maiores e com caninos mais expressivos tendem a serem selecionados e consolidar um dimorfismo mais intenso como ocorre em símios como os chimpanzés, gorilas e alguns macacos das Américas (Macacos do novo Mundo). Quando as espécies vivem de modo solitário em que o macho e a fêmea só se encontram para a reprodução, a pressão seletiva leva ao ápice do dimorfismo sexual, como ocorre em orangotangos e alguns prossímios (Neves et al, 2015). Se de fato, o S. tchadensis for uma variação de dimorfismo sexual de Ardipithecus teremos uma evidência sobre a estrutura social deste hominínio mais antigo ligado a nossa origem.

Crânio de Sahelanthropus tchadensis. Clique para ampliar e ver os detalhes.

Crânio de Sahelanthropus tchadensis. Clique para ampliar e ver os detalhes.

Os achados de Sahel no Chade incluem um pequeno crânio, chamado Toumai (que na língua local significa “esperança de vida”), cinco peças de mandíbula e alguns dentes, tornando-se uma cabeça que tem uma mistura de características derivadas e primitivas. A caixa craniana compreende um volume de apenas 320 cm³ a 380 cm³, bastante semelhante ao dos chimpanzés existentes e é notavelmente menor que o volume humana aproximado, que é de 1.350 cm³ (Neves et al, 2015).

Os dentes, extremidade da testa (com traços grosseiros) e estrutura facial diferem muito daqueles encontrados no Homo sapiens. Características cranianas mostram um rosto mais liso, com uma arcada dentária em forma de “U” (contrária a do Homo sapiens que é paraboloide), caninos pequenos e um forame magno anterior. Não há restos pós-cranianos recuperados (ou seja, ossos abaixo do crânio). O crânio sofreu uma grande distorção durante o tempo de fossilização e está achatado dorso-ventralmente mostrando um lado direito deprimido (Brunet; et al, 2002).

Arcada dentaria em "U" nos humanos e paraboloide em chimpanzés

Arcada dentaria em “U” nos humanos e paraboloide em chimpanzés

Como não há restos pós-cranianos “encontrados”, não se sabe definitivamente se Sahelanthropus tchadensis era de fato bípede, apesar de apresentar um forame magno anteriormente colocado sugere que este ter sido o caso. Após uma análise do forame magno no estudo preliminar do achado autor da descoberta concluiu isto com base na morfologia base-cranial semelhante ao hominineos mais recentes (Brunet et al, 2002). Alguns paleontólogos (Wolpoff et al, 2002) contestaram esta interpretação, afirmando que o base-crânio, bem como características da dentição e faciais não representam adaptações únicas para o clado dos hominídeos ou indicativos de bipedalismo. Sendo assim, o desgaste canino seria semelhante a outros primatas do Mioceno (A new hominid from the Upper Miocene of Chad, Central Africa).

Um fêmur de um hominídeo foi descoberto ao lado (cerca de um metro de distância) do crânio de S. tchadensis em 2009, mas nada ainda foi publicado (Hawks 2009). É possivel que o fêmur esteja associada ao crânio. Este osso foi encontrado sem a extremidade distal, onde fica a da cabeça e o colo do fêmur, embora a anatomia da diáfise seja muito característica a de um hominíneo. Pode haver alguma evidência na distribuição na porção cortical no colo do fêmur, mas a ruptura distal ainda não permite fazer uma comparação válida de espessuras corticais superiores e inferiores. A não-publicação de um artigo esta relacionada a precaução em arriscar um estudo precoce a público sobre se o hominineo de fato representa um bípede.

Sahelanthropus tchadensis

Fêmur de Sahelanthropus tchadensis

Não significa necessariamente que o fêmur e o crânio foram depositados juntos, ao mesmo tempo ou localização exata. A dúvida é se de fato o fêmur pertence ao mesmo especime do crânio identificado. A acumulação de diferentes fósseis em uma pequena área que poderia ter acontecido como um erosão ou com o vento qu depositou o material longe do local original, alterando a topografia local (fenômeno chamado de deflação eólica). Tudo indica ser representante de uma única espécie de primata antigo, ja que o fêmur é proporcional ao tamanho esperado ao indivíduo e ao crânio. Parece improvável que duas espécies de hominíneos de porte semelhante, que viveram na mesma área durante o período de tempo limitado e específico sejam representado na mesma estratigrafia. Os paleontólogos aguardam novas descobertas embora esperava-se que algum parecer prévio e não definitivo já tivesse sido dado sobre este achado (Hawks, 2009).

A localização de S. tchadensis na árvore evolutiva humana sugere um posicionamento ancestral de outros dois hominineos; o Orrorin tugenensis e os Ardipithecus (na qual duas espécies são conhecidas), sendo a espécies A. kadabba o mais próximo de S. tchadensis depois de O. tugenensis.

Local da árvore da vida

Local da árvore da vida onde se encontra Sahelanthropus tchadensis, Orrorin tugenensis e Ardipithecus kadabba. Veja a árvore completa aqui.

É possível notar que O. tugenensis (6 milhões de anos) e A. kadabba (5,8 – 5,2 milhões de anos) partem de um mesmo ancestral em períodos próximos e que Sahelanthropus tchadensis antecede ambos. Muitas das características de Ardipithecus kadabba se aproximam de S. tchadensis. Por exemplo: pélvis e membros inferiores sugerem bipedismo, braços longos e polegar opositor nos pés indicam uma habilidade para escalar ambientes arborícolas; a morfologia das mãos e membros superiores sugerem que Ardipithecus kadabba não era capaz de se locomover de forma quadrúpede, ou seja, apoiando-se em nós dos dedos das mãos (nodopedalia). Apresentam também baixo dimorfismo sexual sugerindo uma monogamia.

O nome do gênero, Ardipithecus, é derivado da língua local de Afar, onde “Ardi” significa “solo” e “Pithecus” refere-se a um primata; Kadabba é um epíteto também vindo da língua local e refere-se ao pai de família. Então, o nome completo refere-se a um primata terrestre.

A descoberta de A. kadabba consiste em um fragmento mandibular do lado direito, um molar (M3) e cinco fragmentos de dente, além de outro osso que havia sido encontrado em 1992 e que só foi catalogado em 2001 com a descrição total das peças encontradas em uma Depressão de Afar, na Etiópia. Na primeira descrição feita por Yohannes Haile-Selassie foi reconhecido como uma sub-espécie de Ardipithecus ramidus. Só em 2004, esta designação de outra espécie foi criada (Haile-Selassie, 2004).

Ardipithecus kadabba mostra também semelhança com Orrorin tugenensis.

O O. tugenensis é a única espécie de hominíneo deste gênero, e esta extinto. O nome foi dado pelos autores da descoberta feita próximo a cidade de Tugen, no Quênia. O grupo, liderado por Martin Pickford, encontrou alguns fósseis no ano 2000. Inicialmente, o autor datou-o em 7 milhões de anos, mas a datação do relógio molecular deixou um resultado mais preciso, 6 milhões de anos (Mioceno).

Depois que os fósseis foram encontrados em 2000, eles foram mantidos no museu Kipsaraman, em sua aldeia, mas o museu foi fechado posteriormente. Desde então, de acordo com presidente do Quênia, Eustace Kitonga, os fósseis são armazenadas em um cofre de banco em segredo em Nairobi (Daily Nation)

Os fósseis encontrados até agora são de, no mínimo, 5 indivíduos. Eles incluem um fêmur, sugerindo que o Orrorin andava de forma ereta; um úmero direito, sugerindo habilidades de escalador, mas não de braquiação; e dentes sugerem uma dieta parecida com a dos humanos modernos. Com molares grandes e os pequenos caninos sugere-se que o Orrorin comia frutas, vegetais e, ocasionalmente, carne. Essa espécie tinha, aproximadamente, o mesmo tamanho que o chimpanzé.

Outros fósseis encontrados nessas rochas mostram que o Orrorin viveu em um ambiente arbóreo, mas não na savana como dito por muitas teorias sobre evolução humana e, em particular, sobre as origens do bipedalismo. Se o Orrorin foi um ancestral do homem moderno, o Australopithecus afarensis estaria em um dos lados do ramo da família dos hominíneos (Senut et al, 2001).

A cabeça do fêmur é esférica, o colo é alongado e oval e o trocânter é menor, se projetando medialmente. Isso sugere que o Orrorin era bípede, e o resto pós-craniano indica que ele subia em árvores. Enquanto a falange proximal é curva, a falange distal é de proporções humanas e, apesar de ter sido sugerido estar associado a fabricação de ferramentas, provavelmente estar mais associado a se prender em árvores (Henke, 2007).

Bernard Wood e Nicholas Lonerga (2008) argumentam que S. tchadensis, A. ramides e A. kadabba são variedades de uma mesma espécie que apresentam características diferentes, mesmo na arcada dentária. Isso pode ser visualizado em outros tipos de Homininae que são substancialmente diferentes em suas características de dentição (Wood & Lonergan, 2008).

 

O potencial de Sahelanthropus tchadensis

O último ancestral comum chimpanzé-humano, (CHLCA), refere-se á última espécie ancestral comum compartilhada entre de humanos e chimpanzés; ela representa o ponto do nó em que a linha do gênero Homo se separa da linha que deu origem ao gênero Pan. O último ancestral comum de humanos e chimpanzés é estimado em ter vivido durante o final do Mioceno, isto é, a mais de 7 ou 8 milhões de anos atrás.

Reconstrução de Sahelanthropus cthadensis

Reconstrução de Sahelanthropus tchadensis

A especiação de Pan para Homo parece ter sido um processo longo e arrastado. Inicialmente acreditava-se que após a divergência, houve períodos de hibridação entre grupos populacionais e um processo de divergência que durou alguns milhares ou milhões de anos (Patterson et al, 2006). Em algum momento durante o final do Mioceno ou no início do Plioceno os primeiros membros do clado humano completaram uma separação definitiva da linhagem do Pan, algumas estimativas por especialistas variam entre 13 milhões (Arnason et al, 1998) com uma margem de 4 milhões de anos para mais ou para menos (ou seja, 17 ou 9 milhões de anos) (Patterson et al, 2006). A última estimativa, de 9 milhões de anos é a mais aceita. E eventos de hibridação são rejeitados por Wakeley (2008) e as estimativas mais recentes.

Richard Wrangham (2001) argumentou que a espécie CHLCA era muito parecida com o chimpanzé comum (Pan troglodytes), então é assim que ele deve ser classificado, como um membro do gênero Pan e ser dado o nome taxonômico Pan prior (De Waal, 2001). No entanto, até o momento, nenhum fóssil foi identificado como candidato mais provável para a vaga de CHLCA, ou como o táxon Pan prior.

Em estudos genéticos humanos, o CHLCA é útil como um ponto de ancoragem para o cálculo genético de Polimorfismo de nucleotídeo único (SNP, sigla de single nucleotide polymorphism) em populações humanas em que os chimpanzés são utilizados como um grupo externo, que é, a espécie existente geneticamente mais semelhante ao Homo sapiens. O SNP refere-se a uma variação na sequência de DNA que afeta somente uma das 4 bases (adenina, timina, citosina ou guanina) na sequência do genoma. Alguns autores consideram a troca de poucos nucleotídeos, assim como pequenas inserções ou deleções (chamadas de “indel”) como SNPs. Nestes casos, o termo polimorfismo de nucleotídeo simples é mais adequado. Estas variações devem ocorrer em no mínimo 1% de uma determinada população para ser considerada como um SNP. Se, por outro lado, a frequência de uma variação for inferior a 1%, a mesma será considerada simplesmente uma mutação. Os SNPs constituem 90% de todas as variações genômicas humanas e aparecem, em média, uma vez a cada 1.300 bases, ao longo do genoma humano. Dois terços dos SNP correspondem a substituições de uma citosina por uma timina. Além de poder acarretar mudanças morfológicas, essas variações na sequência do DNA podem influenciar a resposta dos organismos a doenças, bactérias, vírus, produtos químicos, fármacos, etc.

A tribo “Hominini” foi proposta com base na ideia de que, ao construir uma filogenia, quando surge uma tricotomia (três espécies surgindo em um mesmo ponto, o que é improvável), a espécie menos semelhante deve estar separada dos outros dois. Originalmente, isto produziu o gênero Homo que, previsivelmente, foi considerado “mais diferente” entre os três gêneros que incluem Pan e Gorilla. No entanto, mais tarde descobertas e análises revelaram que Pan e Homo estão mais próximas geneticamente do que Pan e Gorilla; assim, o gênero dos chimpanzés foi encaminhado para a tribo Hominini com o Homo. Por esta razão podemos considerar humanos, chimpanzés, gorilas e orangotangos como “hominídeos”, mas quando nos referirmos aos fósseis ligados á evolução humana chamamos de “hominínios”, e se incluirmos os chimpanzés a eles, então chamamos de “hominíneos”.

Classificação humana

Classificação humana

Gorilla tornou-se um gênero separado e foi encaminhado para uma nova “Gorillini”. Mann e Weiss (1996) propuseram que a tribo Hominini deve abranger Pan, bem como Homo, mas agrupados em subtribos separados (Mann et al, 1996). Richard Wrangham (2001) argumentou que a espécie CHLCA era muito semelhante ao dos chimpanzés, então ele deve ser classificado como um membro do gênero Pan com o nome de Pan prior (De Waal, 2001). Até o presente momento, Sahelantrhopus tchadensis é o candidato potencial para a vaga de CHLCA ou ao táxon Pan prior.

Os descendentes do “lado humano” de CHLCA devem ser especificados como membros da tribo Hominini, isto é, para a inclusão do gênero Homo e seus gêneros estreitamente relacionados (Australopithecus), mas com a exclusão de gênero Pan. Esse agrupamento representa o ”clado humano” e seus membros que são chamados de hominínios (Bradley, 2006). Os descendentes do “lado chimpanzé” refere-se á tribo “Panini”, que foi idealizado a partir da família Hominidae sendo composto por um de trifurcação subfamílias (Wood & Richmond, 2000).

Sahelanthropus tchadensis é a espécie extinta com uma morfologia esperada do CHLCA; e que viveu cerca de 7 milhões de anos, que é muito próximo ao tempo da divergência chimpanzé-humano. Mas não está claro se ele deve ser classificado como um membro da tribo Hominini, ou seja, um hominídeo, ou como um ancestral direto do Homo e Pan e um candidato potencial para a própria espécie CHLCA. Alguns espécimes fósseis no “lado chimpanzé” foram encontrados; o primeiro chimpanzé fóssil data entre 545 e 284 mil anos e foi descoberto em Leste Africano Rift Valley, no Quênia (McBrearty, 2005) (McBrearty et al, 2005).

Outros gêneros extintos listados foram ligados ao ancestral de Homo, ou são desdobramentos paralelos. Apenas Orrorin e Sahelanthropus, existiam na época da divergência entre chimpanzés e nossa linhagem, e assim, um ou ambos podem ser ancestral tanto do gênero Homo quanto de Pan.

Uma reconstrução virtual detalhado do crânio TM 266 de S. tchadensis corrigiu as distorções causadas pela fossilização. Uma tomografia computadorizada de alta resolução foi usada para criar uma representação digital do crânio ao longo das principais fissuras e foi avaliada em diversos testes independentes. Em primeiro lugar, a face e o complexo neuro-base-cranial foram reconstituídas em separados, em um plano ao longo das margens superior e laterais da região pós-orbital. Em segundo lugar, a morfologia foi avaliada e reconstruída e comparada contra uma restrição anatômica não considerada durante a reconstrução virtual.

A reconstrução confirma que S. tchadensis é um hominídeo e não está intimamente relacionada com os grandes primatas africanos (Wolpoff et al, 2002). A análise da base do crânio indica que S. tchadensis eram um bípede ereto, o que sugere que o bipedalismo estava presente no mais antigo membro conhecido dos hominídeos e provavelmente surgiu logo após a divergência da linhagem chimpanzé e humana.

Reconstrução do crânio de Sahelanthropus tchadensis

Reconstrução do crânio de Sahelanthropus tchadensis

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Sahelanthropus tchadensis, Orrorin tugenensis, Ardipithecus kadabba, evolução humana, Chimpanzé, Humanos, Último ancestral comum, Fósseis, Crânio, Fêmur

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Referências

“A new hominid from the Upper Miocene of Chad, Central Africa” (PDF). Nature 418 (6894): 145–151. 2002.
Arnason U, Gullberg A, Janke A (December 1998). “Molecular timing of primate divergences as estimated by two nonprimate calibration points”. J. Mol. Evol. 47 (6): 718–27. doi:10.1007/PL00006431. PMID 9847414.
Bradley, B. J. (2006). “Reconstructing Phylogenies and Phenotypes: A Molecular View of Human Evolution”. Journal of Anatomy 212 (4): 337–353.
Brunet, M.; Beauvilain, A.; Coppens, Y.; Heintz, E.; Moutaye, A. H. E.; Pilbeam, D. (1995). “The first australopithecine 2,500 kilometres west of the Rift Valley (Chad)”. Nature 378 (6554): 273–275.
Brunet, M.; Guy, F.; Pilbeam, D.; Mackaye, H.T.; Likius, A.; Ahounta, D.; Beauvilain, A.; Blondel, C.; Bocherens, H.; Boisserie, J.R.; de Bonis, L.; Coppens, Y.; Dejax, J.; Denys, C.; Duringer, P.; Eisenmann, V.; Gongdibé, F.; Fronty, P.; Geraads, D.; Lehmann, T.; Lihoreau, F.; Louchart, A.; Mahamat, A.; Merceron, G.; Mouchelin, G.; Otero, O.; Pelaez Campomanes, P.; Ponce; de León, M.; Rage, J.-C.; Sapanet, M.; Schuster, M.; Sudre, J.; Tassy, P.; Valentin, X.; Vignaud, P.; Viriot, L.; Zazzo, A.; Zollikofer, C. (2002). “A new hominid from the Upper Miocene of Chad, Central Africa”. Nature 418: 145–151.
Haile-Selassie, Yohannes; Suwa, Gen; White, Tim D. (2004). “Late Miocene Teeth from Middle Awash, Ethiopia, and Early Hominid Dental Evolution”. Science 303 (5663): 1503–1505
Hawks 2009 “Sahelanthropus: The femur of Toumaï?”
Henke, Winfried (2007). Henke, Winfried; Hardt, Thorolf; Tattersall, Ian, eds. Handbook of paleoanthropology: Phylogeny of hominids. Springer. pp. 1527–9
Mann, Alan and Mark Weiss (1996). “Hominoid Phylogeny and Taxonomy: a consideration of the molecular and Fossil Evidence in an Historical Perspective”. Molecular Phylogenetics and Evolution 5 (1): 169–181.
McBrearty, Sally and Nina G. Jablonski (2005). “First fossil chimpanzee”. Nature 437 (7055): 105–108.
Neves, W. A. Junior, M. J. R. Murrieta, R. S. S. Assim caminhou a Humanidade. Palas Athenas. 2015
“Out of the Pan, Into the Fire” in: Frans B. M. De Waal, ed. (2001). Tree of Origin: What Primate Behavior Can Tell Us About Human Social Evolution. pp. 124–126.
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Wakeley J (March 2008). “Complex speciation of humans and chimpanzees”. Nature 452 (7184): E3–4; discussion E4.
Wood, B. Lonergan, N.: The hominin fossil record: taxa, grades and clades.
Wood and Richmond.; Richmond, BG (2000). “Human evolution: taxonomy and paleobiology”. Journal of Anatomy 197 (Pt 1): 19–60.
Wolpoff, Milford H.; Senut, Brigitte; Pickford, Martin; Hawks, John (2002). “Palaeoanthropology (communication arising): Sahelanthropus or ‘Sahelpithecus’?”. Nature 419: 581–582

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Um instante de nosso misterioso ancestral Homo erectus

Se você topar com um Homo erectus na rua, talvez não os reconheça como sendo muito diferentes de você. Você veria uma certa "humanidade" na postura, e seu tamanho e forma podem ser semelhantes aos seus.
 
Mas o rosto deles seria mais plano, com uma sobrancelha mais óbvia. E ter uma conversa seria difícil - suas habilidades linguísticas seriam fracas (embora elas certamente pudessem criar uma ferramenta de pedra ou acender uma fogueira).
 
Claro que isso é totalmente hipotético, pois o Homo erectus está extinto. Esse ancestral humano enigmático provavelmente evoluiu na África mais de 2 milhões de anos atrás , embora o momento de seu desaparecimento seja menos claro.
 

Leia mais: As ferramentas de pedra datam os primeiros seres humanos no norte da África, há 2,4 milhões de anos

O Homo erectus foi notícia em 2018 graças a novas descobertas nas Filipinas e na China , que transformaram nossa compreensão desse membro da família não muito distante.
 
Então, quem foi o Homo erectus ? E será que 2019 será o ano em que aprenderemos mais sobre nosso misterioso ancestral?
Crânio do Homo erectus descoberto em 1969 em Sangiran, Indonésia. www.shutterstock.com

Onde e quando eles moravam?

O Homo erectus foi descoberto pela primeira vez em Java, Indonésia e depois na China - esses são os famosos fósseis "Java Man" e "Peking Man". A descoberta de Eugène Dubois em 1891 em Java (originalmente chamada Pithecanthropus erectus ) foi uma peça-chave de evidência no apoio às idéias de Darwin sobre a evolução humana.
 
A recente descoberta de artefatos de pedra no platô de Loess, na China, sugere que um hominínio, provavelmente Homo erectus , vivia na região há 2,1 milhões de anos atrás. Essa evidência empurra sua presença na Ásia em pelo menos 400.000 anos.
 
Outros locais antigos do Homo erectus estão presentes na região do Cáucaso da Geórgia (1,8 milhão de anos atrás), em Java e na África.
 
Pensa-se que o Homo erectus tenha se tornado praticamente extinto após o surgimento de seres humanos modernos - no entanto, alguns espécimes de Java foram datados (com alguma controvérsia) até 40.000 anos atrás.  

Se essa datação estiver correta, isso sugere que eles coexistiram com o Homo sapiens , embora provavelmente apenas em regiões muito pequenas na Indonésia.
 
A expansão do Homo erectus em todo o mundo foi a primeira vez que uma espécie de hominínio se aventurou além da África e ocorreu 2 milhões de anos antes dos humanos modernos replicarem esse grande feito de exploração. 

 Eles podem ter sido encorajados a se espalhar tão rapidamente pela expansão das pastagens durante esse período, impulsionada pelas mudanças climáticas. Isso criou mais habitats para animais que comem plantas e, portanto, aumentou a quantidade de presas disponíveis.

Leia mais: Fóssil rinoceronte reescreve a história humana mais antiga das Filipinas

Como eles eram?

O Homo erectus foi o primeiro de nossos ancestrais a se parecer fisicamente com os humanos modernos. Eles eram mais altos e seu cérebro era maior que as espécies de hominídeos anteriores, como Australopithecus sp. ou Homo habilis .
 
Eles tinham um rosto um pouco diferente para nós: era mais plano, com sulcos de sobrancelhas mais proeminentes.
Existem diferenças claras no tamanho e forma do crânio no Homo sapiens em comparação com outras espécies humanas, incluindo o Homo erectus (esquemático). www.shutterstock.com
As pernas longas e o fato de estarem totalmente eretas significavam que os indivíduos do Homo erectus eram caminhantes eficientes e podiam cobrir faixas maiores do que seus ancestrais .
A forma do corpo também significava que eles podiam controlar bem seu equilíbrio de temperatura e água e, portanto, eram adequados para viver em florestas abertas .

O que eles comeram?

O Homo erectus provavelmente foi catador avançado que aumentou sua dieta com alguma predação ao invés de caçadores sofisticados. De fato, eles provavelmente ocupavam um nicho ecológico semelhante ao das hienas atualmente.
 
A importância da carne em suas dietas ainda é contestada, com alguns pesquisadores considerando que eles eram principalmente comedores de carne e outros acreditando que eles tinham uma dieta muito mais ampla .
 

Leia mais: Kids Curious: De onde veio a primeira pessoa?

Quão inteligente onde eles?

O Homo erectus era muito mais esperto que os homininos anteriores, sendo a primeira espécie a usar fogo e pode ter sido a primeira a viver em grupos de caçadores-coletores. Eles fizeram ferramentas de pedra em um estilo chamado acheuliano , caracterizado por eixos manuais distintos.
 
Apesar disso, sua capacidade cognitiva ficou muito aquém dos humanos modernos. Atualmente, não há evidências de que o Homo erectus fosse capaz de empreender comportamentos modernos, como usar a linguagem ou fazer arte.
 
A importância da recente descoberta de material arqueológico atribuído ao Homo erectus nas Filipinas nos ajuda a aprender mais detalhes sobre o que essa espécie pode ter sido capaz.
 
Anteriormente, era amplamente aceito que o Homo erectus não era capaz de realizar travessias de água. Essa teoria se encaixava na presença deles até Java, mas não em águas mais profundas representadas pela linha Wallace para viajar mais a leste.
 
Uma descoberta nas Filipinas (e possivelmente em Sulawesi ) anula isso e abre a emocionante possibilidade de que o Homo erectus possa ter sido marinheiros mais capazes do que pensávamos anteriormente.

Como eles estão relacionados conosco?

Um dos aspectos mais controversos do Homo erectus é quem incluir nas espécies . Embora muitos pesquisadores incluam uma grande variedade de espécimes de todo o mundo como Homo erectus , alguns classificam os espécimes africanos e euro-asiáticos como Homo ergaster . Outros usam os termos Homo erectus senso stricto (isto é, no sentido restrito) para os espécimes asiáticos e Homo erectus senso lato (isto é, no sentido amplo) para todos os espécimes.
 
Essa situação um tanto confusa é, na verdade, muito mais clara do que a história inicial do Homo erectus, onde foram utilizados vários nomes, incluindo Anthropopithecus , Homo leakeyi , Pithecanthropus , Sinanthropus , Meganthropus e Telanthropus .  

A razão para essa complexidade é que o Homo erectus (como você quiser chamá-los) possui uma gama comparativamente ampla de características morfológicas, dificultando a decisão da quantidade de diversidade a ser incluída na definição das espécies.
 
O que está claro é que o Homo erectus fica em algum lugar da linhagem humana como um ancestral dos humanos modernos, servindo como uma transição dos primeiros homininos como o Australopithecus para o Homo heidelbergensis , Homo neanderthalensis e Homo sapiens .

Leia mais: Nós sabemos por que as pessoas de baixa estatura de Flores ficaram pequenas - mas para o extinto 'Hobbit' não é tão claro

O que vem depois para o Homo erectus ?

Nenhuma área da arqueologia sofreu mudanças tão vibrantes nos últimos anos do que a maneira como entendemos nossa árvore genealógica. Novas espécies foram descobertas (e debatidas) e as idades dos primeiros exemplos de várias espécies são constantemente revisadas. Infelizmente, temos apenas fósseis limitados para trabalhar e, portanto, novos espécimes e locais podem mudar rapidamente nossa compreensão da evolução humana.
Não há dúvida de que estudos antigos de DNA contribuirão para resolver essa incerteza - no entanto, as seqüências de DNA ainda não foram recuperadas do Homo erectus . Aguardamos essa eventual descoberta com a respiração suspensa!

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Ao sair da África, Homo Sapiens fez sexo com pelo menos cinco espécies diferentes

Durante as migrações, nossos antepassados se relacionaram com diversos grupos. E essa herança está presente em nosso DNA
Joseane Pereira Publicado em 16/07/2019, às 08h00
Homo Denisova
Homo Denisova - Reprodução
Pesquisadores do Centro Australiano para DNA Antigo da Universidade de Adelaide, na Austrália, detectaram no genoma humano traços de espécies, até então, desconhecidas. A análise revelou que os nossos ancestrais cruzaram com pelo menos cinco grupos diferentes, quando saíram do continente Africano e entraram na Eurásia.

Encontros fortuitos

Enquanto se moviam para o leste da África, nossos ancestrais se depararam com várias espécies de hominíneos. Destas, apenas dois grupos são conhecidos: os Neandertais e os Denisovanos. A pesquisa encontrou traços de outros dois grupos, cujos fósseis ainda não foram localizados. "Cada um de nós carrega os traços genéticos desses eventos mistos do passado", afirmou Dr. João Teixeira, Pesquisador Associado do Conselho Australiano de Pesquisa da Universidade de Adelaide.

Geneticamente diferentes, esses grupos muitas vezes compartilhavam com o Homo Sapiens um mesmo território. Suas histórias são parte integrante de nossa constituição. "Todas as populações atuais mostram cerca de dois por cento da ancestralidade neandertal, o que significa que a mistura neandertal com os ancestrais dos humanos modernos ocorreu pouco depois de deixarem a África, provavelmente entre 50 mil e 55 mil anos atrás, em algum lugar do Oriente Médio", afirmou  o Dr. Teixeira.

Reconstruindo rotas de migração e utilizando registros de vegetação fóssil, os pesquisadores indicaram que houve um encontro no sul da Ásia entre o Homo Sapiens e o que chamaram de Hominínio Extinto 1. Já no leste da Ásia, o encontro se deu com um grupo denisovano próximo à caverna Denisova, que lhe dá nome.

A outra espécie desconhecida, apelidada de Hominínio Extinto 2, cruzou com os humanos na região chamada Ilha das Flores, na Indonésia. Essa espécie difere dos hominídeos que habitavam o local, conhecidos como Homo floresiensis.

Segundo Teixeira, “as Ilhas do sudeste da Ásia já estavam lotadas quando os humanos modernos atingiram a região, pouco antes de 50 mil anos atrás. Pelo menos três outros grupos humanos arcaicos parecem ter ocupado a área, e os ancestrais dos humanos modernos se misturaram a eles antes que se extinguissem."

Grupos na Ásia teriam vivido em relativo isolamento uns dos outros por centenas de milhares de anos antes que os ancestrais dos humanos modernos chegassem. "O momento também faz parecer que a chegada dos humanos modernos foi seguida rapidamente pelo desaparecimento dos grupos humanos arcaicos em cada área.", afirmou o pesquisador.