Mostrando postagens com marcador Llallawavis scagliai. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Llallawavis scagliai. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

"Aves do Terror" tinham vozes profundas, sugere fóssil

  • 13-11-2019
https://ichef.bbci.co.uk/news/660/media/images/82215000/jpg/_82215118_89436.jpg
Direitos autorais da imagem F. Degrange
Legenda da imagem As chamadas "aves do terror" tinham bicos muito grandes e anzóis, e as maiores espécies cresceram para 3m
Um esqueleto completo de 90% de "pássaros do terror" encontrado em uma praia argentina sugere que esses predadores de bico grande tinham boa audição em baixa frequência e vozes profundas.
 
É o esqueleto mais completo já descoberto para um desses animais ameaçadores e representa uma nova espécie.
 
Os cientistas foram capazes de reconstruir a forma do ouvido interno.
Isso oferece pistas sobre a audição do animal, que provavelmente foi menor do que a das aves modernas e sugere que eles usaram chamadas em voz baixa para se comunicar.
A descoberta é relatada no Journal of Vertebrate Paleontology .
 
Os paleontólogos argentinos fizeram a descoberta nas falésias da praia de La Estafeta, não muito longe da popular cidade turística de Mar del Plata.
Federico Degrange, um dos autores do estudo, disse que lidar com a maré apresentou um desafio.
 
"O mar pode realmente pegar o fóssil e destruí-lo no mar. É um bom lugar para trabalhar, mas você precisa ser rápido", disse ele à BBC News.
 
As aves terroristas, ou "forusrácidos", foram os principais predadores da massa terrestre da América do Sul na época após a extinção dos dinossauros, cerca de 65 milhões de anos atrás.

https://ichef.bbci.co.uk/news/624/media/images/82212000/jpg/_82212545_89437_web.jpg 
Direito de imagem H. Santiago Druetta
Legenda da imagem Bicos mortais e grunhidos agudos: a impressão artística de uma nova espécie em voz alta
Os animais que não voavam tinham até 3 metros de altura, ostentando longas pernas e devastadores bicos em gancho. Um estudo anterior desse armamento sugeriu que os pássaros poderiam ter despachado suas presas com um único golpe, antes de começar a trabalhar em sua carne.
 
"Eles desenvolveram formas muito únicas, com enormes crânios, enormes bicos com ganchos e longos membros posteriores", disse Degrange, especialista em pássaros do terror que trabalha na Universidade Nacional de Córdoba.
 
"Eles perderam a capacidade de voar e desenvolveram capacidades predatórias muito incomuns que não estavam presentes em nenhum animal comparável".
A espécie recém-descoberta é apelidada de Llallawavis scagliali ("Pássaro Magnífico de Scaglia"), em homenagem ao autor sênior do estudo, Fernando Scaglia.
 
Tinha cerca de 1,2 m de altura e provavelmente pesava 18 kg, tornando-se uma adição de tamanho médio à família das aves terroristas. E viveu no final do longo período de domínio dessa família, cerca de 3,5 milhões de anos atrás.

https://ichef.bbci.co.uk/news/304/media/images/82215000/jpg/_82215116_89435.jpg 
Direitos autorais da imagem M. TAGLIORETTI / F. SCAGLIA
Image caption É o espécime de pássaro terror mais completo já encontrado
Isso significa que provavelmente comeu mamíferos ou outras aves; praticamente qualquer coisa menor que ela própria, sugeriu o Dr. Degrange.
 
Talvez o mais intrigante entre os detalhes bem preservados do fóssil seja seu crânio, que permitiu aos pesquisadores fazer algumas suposições educadas sobre as capacidades sensoriais do animal - e até mesmo sua voz.
"Uma coisa muito interessante é que poderíamos reconstruir a forma do ouvido interno", disse Degrange.
 
Com base em comparações com espécies vivas, essas medidas sugeriram que os ouvidos de aves do terror como Llallawavis eram mais sensíveis a sons agudos.
"Podemos dizer que as aves terroristas têm sensibilidade a baixas frequências - então parece razoável sugerir que elas também produzem sons de baixa frequência".
 
Mais uma vez, comparando sua anatomia com os pássaros que estão vivos hoje, você pode imaginar que eles pareciam algo com um avestruz ou um emu, disse Degrange.
"Mas não é possível ter certeza."


https://ichef.bbci.co.uk/news/624/media/images/82281000/jpg/_82281421_11.jpg 
Direito de imagem M Taglioretti
Legenda da imagem Praia La Estafeta, província de Buenos Aires: "É um bom lugar para trabalhar, mas você precisa ser rápido"

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Uma nova ave do terror

O mais completo exemplar do grupo de aves carnívoras que eram os principais predadores de sua época foi encontrado na Argentina em depósitos de 3,3 milhões de anos. A nova espécie, tema da coluna de Alexander Kellner, traz informações sobre a audição e a visão desses animais. 
 
Por: Alexander Kellner
Publicado em 22/04/2015 | Atualizado em 22/04/2015
Uma nova ave do terror
Reconstrução em vida de ‘Llallawavis scagliai’, a nova ‘ave do terror’ que viveu na Argentina há 3,3 milhões de anos. (imagem: Santiago Druetta e Journal of Vertebrate Paleontology.
 
Vejo até com uma boa pitada de humor esse tipo de expressão: ‘aves do terror’. Sei que talvez seja uma forma injusta de rotular um grupo de animais que, convenhamos, nada faz de diferente de todos os demais na sua luta pela sobrevivência. Porém, raramente uma expressão desse tipo é tão bem aplicada como para os Phorusrhacidae, um dos mais fascinantes grupos de aves que já existiram. Trata-se de formas terrestres que ocupavam o topo do topo da cadeia alimentar e deveriam ter sido os principais predadores no tempo em que viveram.

Agora uma descoberta realizada na Argentina que acaba de ser publicada no Journal of Vertebrate Paleontology revela diversas novidades sobre essas aves, que incluem interessantes inferências sobre o seu comportamento, inclusive sobre os sentidos da audição e visão.

Aves do terror

De uma forma simplificada, os Phorusrhacidae compõem um grupo de aves cujos primeiros representantes foram encontrados em depósitos formados há 60 milhões de anos, bem antes da extinção dos dinossauros não-avianos (ocorrida há 66 milhões de anos). Elas viveram até aproximadamente 2,5 milhões de anos atrás, quando foram extintas por causas ainda não bem compreendidas. Variam de 1 a 3 metros de comprimento, podendo chegar a pesar em torno de 350 kg.

As aves do terror variam de 1 a 3 metros de comprimento, podendo chegar a pesar em torno de 350 kg
Há quem aponte o surgimento do istmo do Panamá, uma porção de terra que ligou os continentes da América do Norte e da América do Sul mais ou menos por volta desse tempo, como o fator principal para a dizimação do grupo, já que possibilitou a migração de outros carnívoros, como cachorros e felinos, do norte para o sul, aumentando a competição na busca por presas.

A primeira descrição de uma espécie de ‘ave do terror’ foi realizada há muito tempo, mais especificamente em 1887 por Florentino Ameghino (1854-1911), importante paleontólogo argentino. Desde então, foram encontradas muitas novas espécies, totalizando quase duas dezenas. Praticamente todas foram encontradas na América do Sul.
Praia de La Estafeta
Praia de La Estafeta, em Mar del Plata, província de Buenos Aires, Argentina, onde foi encontrado o esqueleto da nova ‘ave do terror’, o mais completo descrito até o momento. (foto: Matias Taglioretti e Fernando Scaglia)
A principal ‘ave do terror’ não-sulamericana é Titanis walleri, encontrada em depósitos de 3,1 milhões de anos no Texas (Estados Unidos). Com 2,5 metros de comprimento e pesando algo em torno de 150 kg, ela era uma das maiores do grupo. Existe também uma ocorrência na África de um fêmur incompleto e outros ossos fragmentados na Europa que poderiam pertencer a esse grupo.
No Brasil, também temos uma representante das ‘aves do terror’: o Paraphysornis brasiliensis, que tinha aproximadamente 2 metros de altura e foi encontrado em rochas de 23 milhões de anos no estado de São Paulo.

O parentesco mais próximo se dá com a seriemas, formas viventes e também aves predadoras nativas da América do Sul, porém de tamanho e peso bem menores.
Entre as características principais dos Phorusrhacidae destacam-se a grande cabeça, que, junto com o bico maciço e em forma de gancho, deve ter sido uma importante ferramenta para destroçar as suas presas. As asas atrofiadas indicam claramente que não podiam voar, mas as suas pernas bem desenvolvidas sugerem que elam tenham sido boas corredoras.

O parentesco mais próximo se dá com a seriemas, formas viventes e também aves predadoras nativas da América do Sul, porém de tamanho e peso bem menores (menos de um metro, com peso variando de 25 a 30 kg). Ademais, as seriemas, cujo canto é bem peculiar, conseguem voar quando ameaçadas.

A descoberta

Liderados por Frederico J. Degrange, da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, pesquisadores descreveram o mais completo esqueleto de uma ‘ave do terror’. O exemplar foi encontrado em rochas formadas há aproximadamente 3,3 milhões de anos na praia de La Estafeta, situada em Mar del Plata, na província de Buenos Aires, costa leste da Argentina.

A nova espécie foi chamada de Llallawavis scagliai, inspirada na palavra llallawa, que, na língua de um povo indígena local, significa ‘magnífico’. O termo scagliai é uma homenagem a um importante diretor (Galileo Juan Scaglia, 1915-1989) de um museu local.
Esqueleto de Llallawavis scagliai
Esqueleto montado de ‘Llallawavis scagliai’, espécie que tinha 1,2 metros de altura e pesava menos de 20 kg. (foto: Matias Taglioretti e Fernando Scaglia)
Llallawavis scagliai não era uma das maiores representantes do grupo, tendo aproximadamente 1,2 metros de altura e pesando menos de 20 kg. Porém, sua excepcional preservação permitiu aos pesquisadores realizar análises por tomografia computadorizada da região auditiva do animal, como também estabelecer inferências de seus movimentos.

Como resultado, Degrange e colegas puderam determinar que Llallawais tinha uma capacidade para ouvir sons com frequências em torno de 2.300 Hz, valor abaixo da média se comparado ao das espécies de aves viventes proximamente relacionadas aos Phorusrhacidae, como as próprias seriemas.

Possivelmente Llallawais desenvolveu habilidades acústicas para sons de baixa frequência para comunicação entre membros da mesma espécie ou talvez para a identificação de presas
Tal fato levou à sugestão de que possivelmente Llallawais desenvolveu habilidades acústicas para sons de baixa frequência para comunicação entre membros da mesma espécie ou talvez para a identificação de presas. Os autores também puderam examinar a região da órbita do animal, onde encontraram os ossos escleróticos em perfeitas condições, o que permitiu ajustar a visão da córnea dessa ave, considerada de hábitos diurnos.

Embora os autores tenham ressaltado bem que esses resultados devem ser considerados preliminares e que mais análises desse tipo deveriam ser feitas em outras espécies de Phorusrhacidae, o mais interessante do estudo é o fato de que temos a possibilidade de refinar o comportamento das ‘aves do terror’.
Antes que eu me esqueça, vale a pena mencionar que essa dica para a coluna veio a partir de um dos autores do artigo, Matias Taglioretti, pelo Facebook. Mais leitores podem fazer o mesmo – também por e-mail.

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências