Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Os primeiros que chegaram
Livro enfoca pesquisas arqueológicas no norte do Estado de São Paulo
[14/09/2015]
O livro “Os primeiros que chegaram”, editado pela Canal 6 Editora, organizado por Neide Barrocá Faccio reúne artigos resultantes das pesquisas e extensões desenvolvidas pelo LAG- Laboratório de Arqueologia Guarani do Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, Câmpus de Presidente Prudente.
Busca apresentar o estado da arte da pesquisa arqueológica no Estado de São Paulo, com especial ênfase na sua região norte. Os três capítulos do livro foram organizados de forma a manterem certa independência entre si, o que facilita os fins didáticos da publicação.

No primeiro artigo, ‘O índio: da origem do homem aos grupos indígenas brasileiros’,  Neide busca apresentar sinteticamente as teorias e os estudos científicos realizados nas áreas da paleontologia humana e arqueologia brasileira, a fim de proporcionar uma melhor compreensão a respeito da presença da espécie humana antes de 1492/1500 no continente americano e no Brasil.
A pesquisadora conta que, com uma origem que remonta a 120 mil anos atrás, o ser humano ocupa essa área do planeta desde pelo menos 50 mil anos. Os homens que aqui chegaram, provavelmente vindos da Ásia (via Estreito de Bering ou Oceano Pacífico), há 9 mil anos, já haviam ocupado todo o território americano.

As primeiras pesquisas arqueológicas no Brasil foram iniciadas entre 1830 e 1840, por iniciativa do naturalista dinamarquês Peter Wilhem Lund, em grutas da região de Lagoa Santa (MG). No Século XIX, foram criados o Museu Nacional (Rio de Janeiro/1818), o Museu Paulista (São Paulo/1893) e o Museu Paranaense (Paraná/1876), que deram um cunho oficial e científico às pesquisas arqueológicas de forma efetiva.
Contudo, até 1950, muitos amadores coletaram indiscriminadamente materiais arqueológicos para suas coleções particulares. Somente em 26 de julho de 1961 foi criada a Lei Federal n° 3924, visando proteger o patrimônio arqueológico brasileiro. A partir dessa data, impulsionou-se a formação de arqueólogos, sob a orientação de pesquisadores estrangeiros.

Esses pesquisadores, de volta ao Brasil, orientaram a formação de outros arqueólogos. Eles  realizam escavações na área de sítios arqueológicos e, para isso, aplicam técnicas específicas da arqueologia, trabalhando em íntima cooperação com uma equipe interdisciplinar (geógrafos, etnólogos, botânicos, zoólogos, cartógrafos).

Neide lembra que a ocupação indígena mais antiga pesquisada até o momento está no Sudeste do Piauí e foi datada de 48 mil anos antes do presente. Além dessa ocupação indígena, cita outras ocupações, também bastante antigas, como o Sítio Abrigo da Lapa Vermelha, localizado na região de Lagoa Santa em Minas Gerais, datado de 25 mil anos antes do presente e o Sítio Alice Boer, localizado na região de Rio Claro, SP, datado de 14.200 anos antes do presente.
O segundo capítulo, ‘Breve etno-história do Estado de São Paulo’, de Luís Antonio Barone, também professor da FCT em coautoria com Neide, traz uma abordagem etno-histórica que dialoga com a arqueologia pré-histórica, mas foca no contexto do encontro/choque/entrecruzamento de culturas (notadamente amerínidas, africanas e europeias) que formam o povo brasileiro e paulista.
Os pesquisadores mostram que, antes da chegada dos europeus (espanhóis, portugueses, mas também franceses) nas chamadas terras baixas da América do Sul, cuja maior porção constitui o Brasil, uma população muito grande ocupava os diferentes quadrantes desse subcontinente.
No Brasil, grandes populações habitavam o imenso litoral, assim como as espaçosas várzeas da vasta rede hidrográfica. Essa população autóctone, contam os autores, era bastante diversificada, expressando características que conformavam tradições ceramistas específicas e troncos linguísticos distintos, dos quais o mais conhecido é o tupi-guarani.
A convivência dos colonos portugueses e brasileiros com a população indígena configurou, como é narrado no livro, um misto de exploração, absorção e extermínio. Os mamelucos paulistas, responsáveis pelo movimento bandeirante, sempre que possível, se valeram dos caminhos indígenas, conhecidos pelos guaranis como peabirus, que margeavam o rio Paranapanema, seguindo para o Oeste.

Nessas investidas de preação de índios para a escravização, que se intensificaram durante o século XVII, os paulistas destruíram as Missões espanholas do Paranapanema, provocando um despovoamento do vale por quase dois séculos. Durante esse longo período, apenas Kaingangs e Xavantes, etnias hostis aos colonizadores, circulavam pelos antigos caminhos guaranis.
A região entre o Paranapanema e o Tietê teria sido palco de expedições de apresamento, desde o final do século XVI. No século XIX, com a construção da Estrada de Ferro Noroeste na região, povoações de agricultores eram implantadas ao longo do seu percurso. Foi, contam os autores, a época dos “bugreiros”, profissionais em extermínio de populações indígenas.

A expansão decisiva da sociedade brasileira sobre o vale do médio Paranapanema e a região hoje conhecida como Pontal do Paranapanema deu-se a partir do terceiro quarto do século XIX, tendo o povoado de Conceição de Monte Alegre, hoje distrito do município paulista denominado Paraguaçu Paulista, próximo aos municípios de Assis, Marília e Presidente Prudente., como principal referência.
Os Kaiapó meridionais (ou bilreiros), aformam os pesquisadores, teriam resistido à invasão colonizadora do século XVI, sendo denominados genericamente de Tapuias, nome dado, pelos colonos, aos nativos de língua não Tupi. No século XVIII, pressionados pelo movimento minerador, reagiram violentamente, o que praticamente levou ao seu extermínio.
Completa a obra o capítulo ‘Arqueologia do norte do Estado de São Paulo’. Escrito pela organizadora com Gabriel Cerdeira, licenciado em Geografia da FCT e atualmente finalizando o bacharel no mesmo curso da instituição, enfoca as pesquisas arqueológicas realizadas no norte do Estado de São Paulo.
Informa-se inicialmente que a área Norte do Estado de São Paulo é conhecida como território dos Kaiapó. Os vestígios das ocupações desses grupos indígenas têm sido associados à Tradição Arqueológica Aratu-Sapucaí, associada a povos agricultores. Entre os objetos da cultura material dessa tradição, estão objetos confeccionados em argila e em rocha.

Quanto ao Laboratório de Arqueologia Guarani (LAG), os autores apontam atuação a partir de 2009 na região norte do Estado de São Paulo, com desenvolvimento de trabalhos acadêmicos e a identificação de 25 sítios arqueológicos associados ao Sistema Regional de Povoamento Aratu-Sapucaí, além de um sítio arqueológico histórico. A descoberta desses sítios tem garantido o desenvolvimento de uma série de trabalhos acadêmicos, tornando maior o número de dados sobre a região.

O livro conclui que a região norte do Estado de São Paulo deve ser mais estudada, pois há uma forte presença do sistema regional de povoamento Aratu-Sapucaí. Lembra ainda que, na mesma região, foram encontrados vestígios associados a outras tradições, o que permite que seja considerada uma área de fronteira, rica em diversidade cultural durante o período pré-colonial.
Como um todo, a obra constitui um trabalho para alavancar estudos relacionados à introdução à arqueologia e à etno-história do Estado de São Paulo, podendo ser utilizada como leitura paradidática para subsidiar disciplinas de História, Geografia e Sociologia do Ensino Médio e aulas dessas áreas, além de Antropologia, em diferentes cursos superiores.
Oscar D'Ambrosio

terça-feira, 1 de abril de 2014

Rios ocultos de São Paulo

Entre paredes de concreto

Mapas históricos exibem as transformações na forma e na função de rios encobertos por avenidas
CARLOS FIORAVANTI | Edição 214 - Dezembro de 2013
© GUILHERME GAENSLY / IMS
A futura metrópole Este era o Tietê e o clube de regatas na São Paulo de 1915. No mapa,  o rio e a cidade em 1930
Este era o Tietê e o clube de regatas na São Paulo de 1915.

Mais uma vez, nesta época do ano, quando as chuvas estão mais fortes e frequentes, os rios e córregos da cidade de São Paulo voltam a ser vistos e lembrados, ao empurrarem para as ruas o excesso de água que não conseguem mais transportar. Os rios apenas respondem ao modo pelo qual foram moldados ao longo de décadas – “do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento, mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”, diria o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Os rios que cruzam a maior cidade do país estão geralmente comprimidos e escondidos em túneis de concreto sob as avenidas, alguns ganharam outros percursos – foram retificados, diriam os engenheiros – e não podem ser lembrados como alternativa para um passeio de fim de semana.

A transformação dos rios paulistas foi intensa e rápida. No início do século XX, os paulistanos se divertiam aos domingos nadando, pescando ou passeando de barco no rio Tietê – nas margens havia clubes, restaurantes e espaços para piquenique. A alegria acabou à medida que aumentava a descarga de resíduos das casas e das empresas no rio que na década de 1950 já era, como hoje, um esgoto a céu aberto, expondo o descaso com a natureza e o desapego à estética na cidade mais rica do país.

Desde 1995, a despoluição do Tietê, o principal rio que cruza a metrópole, consumiu o equivalente a US$ 1,6 bilhão e reduziu o alcance da poluição, que chegava até Barra Bonita, a 260 quilômetros da capital, e hoje chega apenas até Salto, a 100 km, mas não terminou. Em abril de 2013, o governador de São Paulo anunciou a terceira etapa do programa de despoluição do rio Tietê, que prevê investimentos de US$ 2 bilhões – se tudo der certo, a coleta de esgotos passará dos atuais 84% para 87% e o tratamento de 70% para 84% em 2016. Outros R$ 439 milhões foram usados na despoluição de 137 dos 300 córregos da região metropolitana de 2007 a 2013.

Estima-se que 
7 quilogramas (kg) de resíduos sejam lançados a cada segundo nos rios e córregos da Grande São Paulo, ainda vistos como área de descarte não só de esgoto residencial e industrial, mas também de entulho, garrafas plásticas, sofás e pneus e carros velhos.
“São Paulo afogou os rios”, sintetiza o engenheiro e advogado Rodolfo Costa e Silva, coordenador dos programas de despoluição do rio Tietê e de requalificação das marginais dos rios Tietê e Pinheiros. “Queremos despoluir e manter os rios limpos”, ele diz. “É uma despoluição hídrica e urbanística.” Os programas que ele cooordena contam com a participação dos municípios da Grande São Paulo, empresas e organizações não governamentais e preveem a construção de ciclovias, calcadões e parques ao longo dos 50 quilômetros de marginais e a navegação dos rios, até mesmo unindo, por barco, os aeroportos de Congonhas e de Guarulhos.

A cidade de São Paulo, com seus rios maltratados, “é um exemplo do que pode acontecer quando o poder de decisão está concentrado em poucos grupos de poder”, diz o historiador Luis Ferla, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Curitibano radicado em São Paulo desde 1992, Ferla foi um dos curadores da exposição O tempo e as águas: formas de representar os rios de São Paulo, em cartaz até março no Arquivo Público do Estado de São Paulo, com 17 mapas, fotografias e cadernetas com registros do trabalho de campo de engenheiros e cartógrafos. Logo na entrada da exposição, um mapa de 5 metros de largura por quase 2 de altura compara o curso original – e sinuoso – dos rios Tietê e Pinheiros cruzando a Grande São Paulo em 1916, com o curso retificado, em 2013. A sobreposição dos trajetos sintetiza as ideias e interesses que resultaram em uma cidade de rios retos, encobertos, malcheirosos, cruzados por pontes com passagens de pedestres geralmente estreitas.

As pestes e a Light

No final do século XIX, o medo da morte foi o principal argumento para mudar os cursos dos rios da vila de São Paulo, inalterados por séculos. Pensava-se que a água estagnada nas várzeas, que já recebiam esgotos residenciais e acumulavam despejos de animais de criação, formando as chamadas ilhas de lodo, poderia favorecer a propagação de epidemias como as de febre amarela e febre tifoide, que acossavam os moradores das principais cidades paulistas. Portanto, foi para fazer os rios correrem com maior velocidade e evitarem doenças que os engenheiros à frente da Comissão de Saneamento das Várzeas e, logo depois, da Comissão de Saneamento do Estado ordenaram a retificação dos trajetos e a abertura de canais no Tamanduateí e no Tietê. Em um artigo publicado em 2012, o historiador Janes Jorge, professor da Unifesp que participou do planejamento da exposição, observou que as epidemias começaram a rarear, em razão principalmente da descoberta de seus reais agentes causadores, mas o mau cheiro persistiu: em 1927 o rio Tietê recebia cerca de 30 toneladas de esgoto por dia. Outras cidades, como Chicago, Washington, Londres e Moscou, viveram problemas similares à medida que cresciam, até construírem as estações de tratamento de esgotos.

A cidade de São Paulo se expandia rapidamente, acompanhando o aumento da produção das fazendas de café no interior do estado: o total de moradores passou de 15 mil em 1850 para 30 mil em 1870, 240 mil em 1900, 580 mil em 1920 – quando São Paulo já havia se consolidado como um polo comercial e industrial –, 1,3 milhão em 1940 e 6 milhões em 1960.

O crescimento urbano acelerado favoreceu a ocupação das várzeas, áreas naturalmente alagáveis, visadas para a construção de casas e fábricas, e o avanço sobre os braços dos rios: o córrego Saracura, afluente do Anhangabaú, foi o primeiro a ser coberto e desaparecer, em 1906. Cada vez mais cercados, os rios transbordaram para além de seus limites naturais e as enchentes se tornaram mais intensas, frequentes e danosas, justificando ações mais radicais de retificação dos rios. No início, por meio de propostas como a do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, de 1926, planejava-se o alinhamento dos principais rios de modo a conciliar seus diferentes usos – transporte, lazer, pesca, abastecimento de água, controle de enchentes e produção de energia elétrica –, mas as coisas não saíram desse modo.
© ACERVO ELETROPAULO
Avenida Leopoldina, às margens do rio Pinheiros, em São Paulo, durante a enchente de fevereiro de 1929
Avenida Leopoldina, às margens do rio Pinheiros, em São Paulo, durante a enchente de fevereiro de 1929

“Os projetos de retificação dos rios paulistanos foram empobrecendo e os interesses dos moradores ficaram de lado, por uma série de circunstâncias econômicas e políticas”, diz Jorge. “As mudanças favoreceram quase exclusivamente a produção de energia elétrica, as vias expressas para automóveis e apropriação privada dos terrenos da várzea.” Os planos iniciais se diluíram por causa, em boa parte, da influência da empresa canadense The São Paulo Trainway, Light and Power Company, conhecida como Light, que detinha o monopólio da produção e distribuição de energia elétrica na região de São Paulo. Para garantir mais água para a hidrelétrica de Cubatão, a Light tinha invertido o curso do Pinheiros e recebido o direito de ocupar as várzeas.

Um decreto de dezembro de 1928 determinava que “a linha máxima” da enchente de 1929 delimitaria a área que caberia à Light. Vários pesquisadores acreditam que a Light abriu as comportas da represa de Guarapiranga para ampliar a área alagada e receber mais terras, ainda que agravando os danos de uma das piores enchentes da cidade. “Daí para a frente, um fiscal de terras passou a proibir as pessoas de usarem a várzea, fosse para jogar bola ou levar cabras para beber água”, disse a geógrafa Odete Seabra em uma entrevista ao Estado de S. Paulo em 2009. Em sua tese de doutorado, apresentada na Universidade de São Paulo em 1987 e hoje um estudo clássico sobre a ocupação das várzeas dos rios Tietê e Pinheiros, Odete mostrou, por meio de depoimentos, documentos e notícias de jornais, como a Light agravou a inundação, soltando a água de suas represas. Segundo ela, a Light assumiu o monopólio de fato e, abrindo e fechando as comportas da represa de Guarapiranga, afugentou os barqueiros que exploravam areia e pedregulho do Pinheiros. Depois, procurou-se resolver os litígios com os proprietários de terras próximas aos rios por meio da construção das avenidas marginais, que consolidaram a ocupação das várzeas dos rios. Para reduzir as enchentes, que continuaram, a saída encontrada foi aumentar a calha do Tietê. De 2002 a 2006, o rio foi rebaixado em média 2,5 metros, com a retirada de 9 milhões de metros cúbicos de terra e lixo, a um custo de R$ 1,1 bilhão, reduzindo bastante a probabilidade de transbordamentos.
© ARQUIVO PÚBICO DO ESTADO DE SP
O trajeto original e retificado do rio Tamanduateí
O trajeto original e retificado do rio Tamanduateí

Cachoeiras encobertas

“Começamos a nos afastar dos rios quando os rios deixaram de ter a função de comunicação e de transporte”, diz a historiadora Iris Kantor, da USP. “Até o final do século XVIII havia uma cultura de valorização dos rios como forma de transporte de mercadorias e pessoas para o interior.” Uma prova desse uso estratégico dos rios, segundo ela, é a Carta geographica de projeção espherica da Nova Lusitania ou América Portuguesa e Estado do Brasil, preparada pelo astrônomo mineiro Antonio Pires da Silva Pontes Leme a partir de 80 mapas e concluída em 1798, por encomenda do governo português, interessado em consolidar as fronteiras de sua colônia na América. “Meus colegas geógrafos dizem que, comparativamente, esse mapa traz informações mais detalhadas sobre os cursos dos rios, muitos deles ainda hoje pouco visíveis nas imagens de satélite.” Os rios ainda são relevantes para o transporte de pessoas e de mercadores apenas na região Norte do país, em vista da dificuldade em construir e manter estradas em meio à floresta.

Ao selecionar o material do período colonial para a exposição do Arquivo Público, a equipe encontrou um mapa impressionante, intitulado Planta do rio Tietê ou Anemby na capitania de São Paulo desde a cidade do mesmo nome até à sua confluência com o rio Grande ou Paraná. Iris desconfiou da autenticidade da autoria – o nome de José Custódio de Sá e Faria estava escrito a lápis no verso do mapa –, consultou a obra da historiadora Isa Adonias e a base digital da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, e concluiu que o mapa deveria ser uma edição anônima de uma antiga carta hidrográfica do Tietê feita em 1789 pelo cartógrafo paulista  Francisco José de Lacerda e Almeida, que fez medições ao longo do curso do rio Tietê e de seus afluentes em 1788 e 1789, a pedido do então governador de Mato Grosso. A versão encontrada é um pouco posterior a 1810, pertenceu ao acervo do extinto Instituto Geográfico Geológico de São Paulo e contém muitas informações de natureza histórica e etnográfica que não constavam no mapa original de 1789.  O mapa detalha as cachoeiras, portos e fazendas que os viajantes deveriam passar rumo ao rio Paraná. “É um verdadeiro roteiro prático de navegação, no qual se indicam os lugares e pontos do percurso fluvial e terrestre por onde as canoas e as cargas deveriam ser transportadas ou empurradas por cordas e pelos braços dos pilotos e tripulantes”, observa Iris.
© ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SP
As duas faces  do Noroeste: Em 1868, a mesma região era vista como “terrenos ocupados pelos indígenas feroses” no Atlas do Império do Brasil...
As duas faces do Noroeste: Em 1868, a mesma região era vista como “terrenos ocupados pelos indígenas feroses” no Atlas do Império do Brasil…

O mapa registra o salto de Itapura, quase na foz do Tietê, uma das cerca de 150 cachoeiras do Tietê encobertas pelos reservatórios das usinas hidrelétricas que transformaram também outros rios de São Paulo e de outros estados, gerando energia, mas também causando assoreamento e reduzindo a diversidade de peixes e outros organismos aquáticos. “As cidades do interior não precisam fazer as mesmas besteiras que fizemos em São Paulo”, alerta Jorge. No entanto, o que se vê, por enquanto, são as cidades do interior que tentam ser modernas canalizando, cobrindo ou aterrando rios que, quando expostos, exibem uma carga crescente de poluição.
Em 2002, somente 17% do esgoto doméstico gerado nos 645 municípios do estado de São Paulo era tratado antes de ser jogado nos rios, reduzindo a qualidade da água e a diversidade biológica, de acordo com um estudo coordenado por Luiz Antonio Martinelli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP de Piracicaba. Em 2006, Juliano Groppo e Jorge de Moraes, do mesmo grupo, verificaram que a degradação da qualidade da água da bacia do rio Piracicaba, uma das mais prejudicadas no estudo anterior, persistia. “As agências responsáveis pela qualidade da água dizem que o tratamento de esgotos aumentou, mas não vimos melhoria palpável nos rios da região”, diz Martinelli. “Não sei onde está o problema. Temos hoje um bom conjunto de leis, mas algo não está funcionando. Temos de ver onde falhamos.” Em 2013, com base em amostras colhidas em 360 pontos do estado, Davi Cunha e outros pesquisadores da USP de São Carlos e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) verificaram que a qualidade da água continuava aquém dos limites impostos pela legislação.

Rios vivos outra vez?

“Temos de entender os momentos históricos”, sugere o arquiteto Fernando de Mello Franco, secretário de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, que em 2005 concluiu seu doutorado sobre a ocupação das várzeas e planícies fluviais da bacia de São Paulo, na Faculdade de Arquitetura da USP. São Paulo, ele acentua, não é mais uma cidade de passagem para comerciantes, migrantes e imigrantes. “Estamos em um momento de inflexão, com novos conceitos, como o de urbanismo da paisagem, em que a transformação do território não é realizado prioritariamente para amparar a produção, mas para amparar a vida. A paisagem não é dada, não desfrutamos a paisagem como um viajante do século XVI, somos nós que a construímos.”
© ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SP
... e como “terrenos despovoados” no mapa da Sociedade Promotora de Imigração de São Paulo
… e como “terrenos despovoados” no mapa da Sociedade Promotora de Imigração de São Paulo

Agora se procura resgatar um pouco da paisagem perdida. Prevista no programa de requalificação das marginais, a construção de uma ciclovia sobre o rio Pinheiros, unindo a Cidade Universitária ao parque Villa Lobos, deve começar em 2014. E até o final de 2014, segundo Costa e Silva, deve terminar a primeira etapa de despoluição do Tietê, que consiste na limpeza e arrumação dos afluentes e córregos de oito municípios próximos à nascente – Arujá, Mauá, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mogi das Cruzes, Biritiba-Mirim e Salesópolis – que abrigam cerca de 1 milhão de pessoas. “Despoluir não é só tirar o esgoto dos rios”, ele diz. Trata-se de uma operação complexa, que implica também a recuperação da vazão dos rios, redução do assoreamento, controle da drenagem e incentivo à arborização como forma de aumentar a permeabilidade das áreas urbanas. Em novembro de 2013 estudava-se a substituição das bocas de lobo, que deixam passar o lixo que segue para os rios, por grades, que retêm boa parte dos resíduos. “Estamos servindo às cidades”, diz ele. “Não adianta inventar o que as cidades e seus moradores não querem.”

À medida que os resultados se tornarem visíveis, Costa e Silva pretende promover campanhas públicas para evitar que os moradores joguem sujeira nos rios – agora, cartazes de educação ambiental não teriam efeito, ele pondera, diante da atual desmoralização dos rios. Moradores de São Paulo já se mobilizam para valorizar os córregos e rios da cidade. No início de 2013 a geógrafa Janaína Yamamoto Santos, diretora do núcleo de acervo cartográfico do Arquivo Público, participou de um bloco pós-Carnaval que percorreu o trajeto encoberto do córrego da Água Preta, na Pompeia.
O rio Tamanduateí – chamado de Sete Voltas e usado no século XVII pelos moradores da então vila de São Paulo para transportar tijolos, louças, frutas e cereais, em canoas de madeira – hoje corre acanhado sob a avenida do Estado, uma das mais áridas da cidade de São Paulo. “O Tamanduateí poderia ter ciclovia e árvores, mas é apenas esgoto, é feio que dói. Tem de ser assim?”, questiona Jorge. “Todo mundo aceita que São Paulo tem de ser feia, mas não tem. Já podemos conciliar desenvolvimento urbano e estética.”

Projeto

Implementação da tecnologia de sistemas de informações geográficos (SIG) em investigações históricas (13/05444-4). Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coordenador Luis Antonio Coelho Ferla – Unifesp; Investimento R$  51.907,60.

Artigos científicos

JORGE, Janes. Rios e saúde na cidade de São Paulo, 1890-1940. História e Perspectivas. v. 25, n. 47, p. 103-24. 2012.

JORGE, Janes. São Paulo das enchentes, 1890-1940. Histórica. n. 47, p. 103-24. 2012.

KANTOR, Iris. Mapas em trânsito: projeções cartográficas e processo de emancipação política do Brasil (1779-1822). Araucaria. v. 12, n. 24, p. 110-23. 2010.

CUNHA, D.G.F. et al. Resolução Conama 357/2005: análise espacial e temporal de não conformidades em rios e reservatórios do estado de São Paulo de acordo com seus enquadramentos (2005–2009). Engenharia Sanitária e Ambiental. v. 18, n. 2, p. 159-68. 2013.

MARTINELLI, L.A. et al. Levantamento das cargas orgânicas lançadas nos rios do estado de São Paulo. Biota Neotropica. v. 2, n.2, p. 1-18. 2002.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Entre paredes de concreto

Mapas históricos exibem as transformações na forma e na função de rios encobertos por avenidas
CARLOS FIORAVANTI | Edição 214 - Dezembro de 2013
© GUILHERME GAENSLY / IMS
A futura metrópole Este era o Tietê e o clube de regatas na São Paulo de 1915. No mapa,  o rio e a cidade em 1930
A futura metrópole Este era o Tietê e o clube de regatas na São Paulo de 1915.

Mais uma vez, nesta época do ano, quando as chuvas estão mais fortes e frequentes, os rios e córregos da cidade de São Paulo voltam a ser vistos e lembrados, ao empurrarem para as ruas o excesso de água que não conseguem mais transportar. Os rios apenas respondem ao modo pelo qual foram moldados ao longo de décadas – “do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento, mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”, diria o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Os rios que cruzam a maior cidade do país estão geralmente comprimidos e escondidos em túneis de concreto sob as avenidas, alguns ganharam outros percursos – foram retificados, diriam os engenheiros – e não podem ser lembrados como alternativa para um passeio de fim de semana.

A transformação dos rios paulistas foi intensa e rápida. No início do século XX, os paulistanos se divertiam aos domingos nadando, pescando ou passeando de barco no rio Tietê – nas margens havia clubes, restaurantes e espaços para piquenique. A alegria acabou à medida que aumentava a descarga de resíduos das casas e das empresas no rio que na década de 1950 já era, como hoje, um esgoto a céu aberto, expondo o descaso com a natureza e o desapego à estética na cidade mais rica do país. Desde 1995, a despoluição do Tietê, o principal rio que cruza a metrópole, consumiu o equivalente a US$ 1,6 bilhão e reduziu o alcance da poluição, que chegava até Barra Bonita, a 260 quilômetros da capital, e hoje chega apenas até Salto, a 100 km, mas não terminou. 

Em abril de 2013, o governador de São Paulo anunciou a terceira etapa do programa de despoluição do rio Tietê, que prevê investimentos de US$ 2 bilhões – se tudo der certo, a coleta de esgotos passará dos atuais 84% para 87% e o tratamento de 70% para 84% em 2016. Outros R$ 439 milhões foram usados na despoluição de 137 dos 300 córregos da região metropolitana de 2007 a 2013. Estima-se que 
7 quilogramas (kg) de resíduos sejam lançados a cada segundo nos rios e córregos da Grande São Paulo, ainda vistos como área de descarte não só de esgoto residencial e industrial, mas também de entulho, garrafas plásticas, sofás e pneus e carros velhos.

“São Paulo afogou os rios”, sintetiza o engenheiro e advogado Rodolfo Costa e Silva, coordenador dos programas de despoluição do rio Tietê e de requalificação das marginais dos rios Tietê e Pinheiros. “Queremos despoluir e manter os rios limpos”, ele diz. “É uma despoluição hídrica e urbanística.” Os programas que ele cooordena contam com a participação dos municípios da Grande São Paulo, empresas e organizações não governamentais e preveem a construção de ciclovias, calcadões e parques ao longo dos 50 quilômetros de marginais e a navegação dos rios, até mesmo unindo, por barco, os aeroportos de Congonhas e de Guarulhos.
© ACERVO ELETROPAULO
Avenida Leopoldina, às margens do rio Pinheiros, em São Paulo, durante a enchente de fevereiro de 1929
Avenida Leopoldina, às margens do rio Pinheiros, em São Paulo, durante a enchente de fevereiro de 1929

A cidade de São Paulo, com seus rios maltratados, “é um exemplo do que pode acontecer quando o poder de decisão está concentrado em poucos grupos de poder”, diz o historiador Luis Ferla, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Curitibano radicado em São Paulo desde 1992, Ferla foi um dos curadores da exposição O tempo e as águas: formas de representar os rios de São Paulo, em cartaz até março no Arquivo Público do Estado de São Paulo, com 17 mapas, fotografias e cadernetas com registros do trabalho de campo de engenheiros e cartógrafos. Logo na entrada da exposição, um mapa de 5 metros de largura por quase 2 de altura compara o curso original – e sinuoso – dos rios Tietê e Pinheiros cruzando a Grande São Paulo em 1916, com o curso retificado, em 2013. A sobreposição dos trajetos sintetiza as ideias e interesses que resultaram em uma cidade de rios retos, encobertos, malcheirosos, cruzados por pontes com passagens de pedestres geralmente estreitas.

As pestes e a Light

No final do século XIX, o medo da morte foi o principal argumento para mudar os cursos dos rios da vila de São Paulo, inalterados por séculos. Pensava-se que a água estagnada nas várzeas, que já recebiam esgotos residenciais e acumulavam despejos de animais de criação, formando as chamadas ilhas de lodo, poderia favorecer a propagação de epidemias como as de febre amarela e febre tifoide, que acossavam os moradores das principais cidades paulistas.

Portanto, foi para fazer os rios correrem com maior velocidade e evitarem doenças que os engenheiros à frente da Comissão de Saneamento das Várzeas e, logo depois, da Comissão de Saneamento do Estado ordenaram a retificação dos trajetos e a abertura de canais no Tamanduateí e no Tietê. Em um artigo publicado em 2012, o historiador Janes Jorge, professor da Unifesp que participou do planejamento da exposição, observou que as epidemias começaram a rarear, em razão principalmente da descoberta de seus reais agentes causadores, mas o mau cheiro persistiu: em 1927 o rio Tietê recebia cerca de 30 toneladas de esgoto por dia. Outras cidades, como Chicago, Washington, Londres e Moscou, viveram problemas similares à medida que cresciam, até construírem as estações de tratamento de esgotos.

A cidade de São Paulo se expandia rapidamente, acompanhando o aumento da produção das fazendas de café no interior do estado: o total de moradores passou de 15 mil em 1850 para 30 mil em 1870, 240 mil em 1900, 580 mil em 1920 – quando São Paulo já havia se consolidado como um polo comercial e industrial –, 1,3 milhão em 1940 e 6 milhões em 1960. O crescimento urbano acelerado favoreceu a ocupação das várzeas, áreas naturalmente alagáveis, visadas para a construção de casas e fábricas, e o avanço sobre os braços dos rios: o córrego Saracura, afluente do Anhangabaú, foi o primeiro a ser coberto e desaparecer, em 1906.

Cada vez mais cercados, os rios transbordaram para além de seus limites naturais e as enchentes se tornaram mais intensas, frequentes e danosas, justificando ações mais radicais de retificação dos rios. No início, por meio de propostas como a do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, de 1926, planejava-se o alinhamento dos principais rios de modo a conciliar seus diferentes usos – transporte, lazer, pesca, abastecimento de água, controle de enchentes e produção de energia elétrica –, mas as coisas não saíram desse modo.
© ARQUIVO PÚBICO DO ESTADO DE SP
O trajeto original e retificado do rio Tamanduateí
O trajeto original e retificado do rio Tamanduateí

“Os projetos de retificação dos rios paulistanos foram empobrecendo e os interesses dos moradores ficaram de lado, por uma série de circunstâncias econômicas e políticas”, diz Jorge. “As mudanças favoreceram quase exclusivamente a produção de energia elétrica, as vias expressas para automóveis e apropriação privada dos terrenos da várzea.” Os planos iniciais se diluíram por causa, em boa parte, da influência da empresa canadense The São Paulo Trainway, Light and Power Company, conhecida como Light, que detinha o monopólio da produção e distribuição de energia elétrica na região de São Paulo. Para garantir mais água para a hidrelétrica de Cubatão, a Light tinha invertido o curso do Pinheiros e recebido o direito de ocupar as várzeas.

Um decreto de dezembro de 1928 determinava que “a linha máxima” da enchente de 1929 delimitaria a área que caberia à Light. Vários pesquisadores acreditam que a Light abriu as comportas da represa de Guarapiranga para ampliar a área alagada e receber mais terras, ainda que agravando os danos de uma das piores enchentes da cidade. “Daí para a frente, um fiscal de terras passou a proibir as pessoas de usarem a várzea, fosse para jogar bola ou levar cabras para beber água”, disse a geógrafa Odete Seabra em uma entrevista ao Estado de S. Paulo em 2009. Em sua tese de doutorado, apresentada na Universidade de São Paulo em 1987 e hoje um estudo clássico sobre a ocupação das várzeas dos rios Tietê e Pinheiros, Odete mostrou, por meio de depoimentos, documentos e notícias de jornais, como a Light agravou a inundação, soltando a água de suas represas.

 Segundo ela, a Light assumiu o monopólio de fato e, abrindo e fechando as comportas da represa de Guarapiranga, afugentou os barqueiros que exploravam areia e pedregulho do Pinheiros. Depois, procurou-se resolver os litígios com os proprietários de terras próximas aos rios por meio da construção das avenidas marginais, que consolidaram a ocupação das várzeas dos rios. Para reduzir as enchentes, que continuaram, a saída encontrada foi aumentar a calha do Tietê. De 2002 a 2006, o rio foi rebaixado em média 2,5 metros, com a retirada de 9 milhões de metros cúbicos de terra e lixo, a um custo de R$ 1,1 bilhão, reduzindo bastante a probabilidade de transbordamentos.

Cachoeiras encobertas

“Começamos a nos afastar dos rios quando os rios deixaram de ter a função de comunicação e de transporte”, diz a historiadora Iris Kantor, da USP. “Até o final do século XVIII havia uma cultura de valorização dos rios como forma de transporte de mercadorias e pessoas para o interior.” Uma prova desse uso estratégico dos rios, segundo ela, é a Carta geographica de projeção espherica da Nova Lusitania ou América Portuguesa e Estado do Brasil, preparada pelo astrônomo mineiro Antonio Pires da Silva Pontes Leme a partir de 80 mapas e concluída em 1798, por encomenda do governo português, interessado em consolidar as fronteiras de sua colônia na América. “Meus colegas geógrafos dizem que, comparativamente, esse mapa traz informações mais detalhadas sobre os cursos dos rios, muitos deles ainda hoje pouco visíveis nas imagens de satélite.” Os rios ainda são relevantes para o transporte de pessoas e de mercadores apenas na região Norte do país, em vista da dificuldade em construir e manter estradas em meio à floresta.

Ao selecionar o material do período colonial para a exposição do Arquivo Público, a equipe encontrou um mapa impressionante, intitulado Planta do rio Tietê ou Anemby na capitania de São Paulo desde a cidade do mesmo nome até à sua confluência com o rio Grande ou Paraná. Iris desconfiou da autenticidade da autoria – o nome de José Custódio de Sá e Faria estava escrito a lápis no verso do mapa –, consultou a obra da historiadora Isa Adonias e a base digital da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, e concluiu que o mapa deveria ser uma edição anônima de uma antiga carta hidrográfica do Tietê feita em 1789 pelo cartógrafo paulista  Francisco José de Lacerda e Almeida, que fez medições ao longo do curso do rio Tietê e de seus afluentes em 1788 e 1789, a pedido do então governador de Mato Grosso. A versão encontrada é um pouco posterior a 1810, pertenceu ao acervo do extinto Instituto Geográfico Geológico de São Paulo e contém muitas informações de natureza histórica e etnográfica que não constavam no mapa original de 1789.  O mapa detalha as cachoeiras, portos e fazendas que os viajantes deveriam passar rumo ao rio Paraná. “É um verdadeiro roteiro prático de navegação, no qual se indicam os lugares e pontos do percurso fluvial e terrestre por onde as canoas e as cargas deveriam ser transportadas ou empurradas por cordas e pelos braços dos pilotos e tripulantes”, observa Iris.
© ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SP
As duas faces  do Noroeste: Em 1868, a mesma região era vista como “terrenos ocupados pelos indígenas feroses” no Atlas do Império do Brasil...
As duas faces do Noroeste: Em 1868, a mesma região era vista como “terrenos ocupados pelos indígenas feroses” no Atlas do Império do Brasil…

O mapa registra o salto de Itapura, quase na foz do Tietê, uma das cerca de 150 cachoeiras do Tietê encobertas pelos reservatórios das usinas hidrelétricas que transformaram também outros rios de São Paulo e de outros estados, gerando energia, mas também causando assoreamento e reduzindo a diversidade de peixes e outros organismos aquáticos. “As cidades do interior não precisam fazer as mesmas besteiras que fizemos em São Paulo”, alerta Jorge. No entanto, o que se vê, por enquanto, são as cidades do interior que tentam ser modernas canalizando, cobrindo ou aterrando rios que, quando expostos, exibem uma carga crescente de poluição.

Em 2002, somente 17% do esgoto doméstico gerado nos 645 municípios do estado de São Paulo era tratado antes de ser jogado nos rios, reduzindo a qualidade da água e a diversidade biológica, de acordo com um estudo coordenado por Luiz Antonio Martinelli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP de Piracicaba. Em 2006, Juliano Groppo e Jorge de Moraes, do mesmo grupo, verificaram que a degradação da qualidade da água da bacia do rio Piracicaba, uma das mais prejudicadas no estudo anterior, persistia. “As agências responsáveis pela qualidade da água dizem que o tratamento de esgotos aumentou, mas não vimos melhoria palpável nos rios da região”, diz Martinelli. “Não sei onde está o problema. Temos hoje um bom conjunto de leis, mas algo não está funcionando. Temos de ver onde falhamos.” Em 2013, com base em amostras colhidas em 360 pontos do estado, Davi Cunha e outros pesquisadores da USP de São Carlos e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) verificaram que a qualidade da água continuava aquém dos limites impostos pela legislação.

Rios vivos outra vez?

“Temos de entender os momentos históricos”, sugere o arquiteto Fernando de Mello Franco, secretário de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, que em 2005 concluiu seu doutorado sobre a ocupação das várzeas e planícies fluviais da bacia de São Paulo, na Faculdade de Arquitetura da USP. São Paulo, ele acentua, não é mais uma cidade de passagem para comerciantes, migrantes e imigrantes. “Estamos em um momento de inflexão, com novos conceitos, como o de urbanismo da paisagem, em que a transformação do território não é realizado prioritariamente para amparar a produção, mas para amparar a vida. A paisagem não é dada, não desfrutamos a paisagem como um viajante do século XVI, somos nós que a construímos.”
© ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SP
... e como “terrenos despovoados” no mapa da Sociedade Promotora de Imigração de São Paulo
… e como “terrenos despovoados” no mapa da Sociedade Promotora de Imigração de São Paulo

Agora se procura resgatar um pouco da paisagem perdida. Prevista no programa de requalificação das marginais, a construção de uma ciclovia sobre o rio Pinheiros, unindo a Cidade Universitária ao parque Villa Lobos, deve começar em 2014. E até o final de 2014, segundo Costa e Silva, deve terminar a primeira etapa de despoluição do Tietê, que consiste na limpeza e arrumação dos afluentes e córregos de oito municípios próximos à nascente – Arujá, Mauá, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mogi das Cruzes, Biritiba-Mirim e Salesópolis – que abrigam cerca de 1 milhão de pessoas. “Despoluir não é só tirar o esgoto dos rios”, ele diz. Trata-se de uma operação complexa, que implica também a recuperação da vazão dos rios, redução do assoreamento, controle da drenagem e incentivo à arborização como forma de aumentar a permeabilidade das áreas urbanas. Em novembro de 2013 estudava-se a substituição das bocas de lobo, que deixam passar o lixo que segue para os rios, por grades, que retêm boa parte dos resíduos. “Estamos servindo às cidades”, diz ele. “Não adianta inventar o que as cidades e seus moradores não querem.”

À medida que os resultados se tornarem visíveis, Costa e Silva pretende promover campanhas públicas para evitar que os moradores joguem sujeira nos rios – agora, cartazes de educação ambiental não teriam efeito, ele pondera, diante da atual desmoralização dos rios. Moradores de São Paulo já se mobilizam para valorizar os córregos e rios da cidade. No início de 2013 a geógrafa Janaína Yamamoto Santos, diretora do núcleo de acervo cartográfico do Arquivo Público, participou de um bloco pós-Carnaval que percorreu o trajeto encoberto do córrego da Água Preta, na Pompeia.
O rio Tamanduateí – chamado de Sete Voltas e usado no século XVII pelos moradores da então vila de São Paulo para transportar tijolos, louças, frutas e cereais, em canoas de madeira – hoje corre acanhado sob a avenida do Estado, uma das mais áridas da cidade de São Paulo. “O Tamanduateí poderia ter ciclovia e árvores, mas é apenas esgoto, é feio que dói. Tem de ser assim?”, questiona Jorge. “Todo mundo aceita que São Paulo tem de ser feia, mas não tem. Já podemos conciliar desenvolvimento urbano e estética.”

Projeto

Implementação da tecnologia de sistemas de informações geográficos (SIG) em investigações históricas (13/05444-4). Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coordenador Luis Antonio Coelho Ferla – Unifesp; Investimento R$  51.907,60.

Artigos científicos

JORGE, Janes. Rios e saúde na cidade de São Paulo, 1890-1940. História e Perspectivas. v. 25, n. 47, p. 103-24. 2012.
JORGE, Janes. São Paulo das enchentes, 1890-1940. Histórica. n. 47, p. 103-24. 2012.
KANTOR, Iris. Mapas em trânsito: projeções cartográficas e processo de emancipação política do Brasil (1779-1822). Araucaria. v. 12, n. 24, p. 110-23. 2010.
CUNHA, D.G.F. et al. Resolução Conama 357/2005: análise espacial e temporal de não conformidades em rios e reservatórios do estado de São Paulo de acordo com seus enquadramentos (2005–2009). Engenharia Sanitária e Ambiental. v. 18, n. 2, p. 159-68. 2013.
MARTINELLI, L.A. et al. Levantamento das cargas orgânicas lançadas nos rios do estado de São Paulo. Biota Neotropica. v. 2, n.2, p. 1-18. 2002.

domingo, 9 de junho de 2013

Plantas ameaçadas do cerrado são identificadas na Grande São Paulo

Biólogos identificam 273 espécies exclusivas da vegetação de cerrado no Parque Estadual do Juquery, na Região Metropolitana de São Paulo 

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 13:24 21 de maio de 2013
© J. B. BAITELLO
Vista geral do Parque Estadual do Juquery
Vista geral do Parque Estadual do Juquery

A apenas 38 quilômetros do centro da capital paulista, entre os municípios de Franco da Rocha e Caieiras, o Parque Estadual do Juquery guarda centenas de espécies características do cerrado, algumas delas, inclusive, consideradas extintas em outras regiões do Estado. A constatação é de um grupo de pesquisadores do Instituto Florestal (IF), vinculado à Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Com base em um levantamento florístico realizado no parque, eles identificaram 420 espécies, das quais 273 são exclusivas da vegetação de cerrado, do tipo campestre e savânica. Detalhes do estudo foram publicados em março na Série Registros, editada pelo próprio IF.

Segundo João Batista Baitello, botânico do Instituto Florestal e responsável pela pesquisa, impressiona a quantidade de espécies presentes no parque que fizeram ou ainda fazem parte oficialmente do chamado livro vermelho de espécies ameaçadas. Na última edição deste catálogo (Resolução SMA 48 de 2004), cinco espécies com populações dentro dos limites do parque foram consideradas “presumivelmente extintas”. É o caso da Oxypetalum capitatum, subarbusto da família Asclepiadaceae recorrente em vegetação de campo-cerrado. Isso porque não havia registros de sua ocorrência nos herbários nos 50 anos anteriores à publicação.

A Ipomoea argentea, arbusto da família Convolvuloaceae, com maior ocorrência em áreas de campo-cerrado, também já esteve na penúltima edição do mesmo livro (Resolução SMA 28 de 1998). Baitello explica que esse tipo de levantamento já havia sido feito antes, mas em escala muito menor. “Nosso estudo foi o primeiro a ser realizado naquela área. Concluímos que o Parque Estadual do Juquery engloba fragmentos de cerrado do Estado com elevado valor biológico”, afirmou.

© J. B. BAITELLO
Ipomoea argentea, especie fez parte da listagem das ameacadas
Ipomoea argentea, espécie fez parte da listagem das ameacadas.

A partir das espécies identificadas, os pesquisadores constataram que o parque está protegendo 28 espécies de plantas ameaçadas de extinção. “O resultado desse levantamento poderá implicar em uma revisão e enquadramento de novas categorias, de menores graus de ameaça, nas próximas edições do livro vermelho, visto que as espécies estão protegidas em uma unidade de conservação de proteção integral localizada em plena Região Metropolitana de São Paulo”, explicou o botânico. Para ele, essa ocorrência reforça a importância do parque como uma das principais unidades de conservação dessas populações no Estado.

O cerrado é o nome dado ao bioma brasileiro caracterizado principalmente pela vegetação campestre e savânica – formada, sobretudo, por gramíneas, subarbustos, arbustos e pequenas árvores que se desenvolvem em regiões de áreas planas e de clima tropical com recorrência de períodos de seca. Atualmente, ele cobre cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados (km²), o que representa quase 23% do território nacional – é menor apenas que a Amazônia, que ocupa cerca de 3,5 milhões de km².


Um dos 25 biomas terrestres mais biodiversos e ameaçados do planeta, o cerrado em São Paulo ocupava 35 mil km² do território em 1800. Até 1962, 96,9% de sua cobertura original manteve-se preservada. Mas, segundo Baitello, a forte expansão da ocupação humana por todo o Estado a partir da segunda metade do século XX reduziu significativamente a vegetação original do bioma. “Em 39 anos de análise, o cerrado no Estado perdeu 94,1% de sua área original”, disse.

Hoje, o cerrado remanescente encontra-se altamente fragmentado e comprometido biologicamente, visto que ocupa apenas 0,83% da superfície do Estado. “Apenas 8,5%, aproximadamente, dos fragmentos remanescentes estão protegidos em unidades de conservação, o que corresponde a cerca de 17 mil hectares (170 km²)”, ressaltou o botânico. Na sua avaliação, não bastasse isso, o processo de fragmentação das vegetações de cerrado tem desencadeado a perda de habitats e de biodiversidade, reduzindo drasticamente o tamanho das populações, especialmente das de espécies raras. “Ela [a fragmentação] afeta o ecossistema em todos os níveis, interrompendo interações entre insetos e plantas, fauna e flora em geral, além de diminuir a rede de polinização, fragilizando e diminuindo a capacidade de recuperação dos ecossistemas”, explicou.
© J. B. BAITELLO
Oxypetalum capitatum, especie considerada presumivelmente extinta nos livros vermelhos
Oxypetalum capitatum, especie considerada presumivelmente extinta nos livros vermelhos.

No Parque Estadual do Juquery, a área de ocorrência de cerrado é de 1.173 hectares, o que representa 0,5% da área total remanescente no Estado de São Paulo, que é de 238 mil hectares. “Embora não tenhamos dados concretos é provável que o remanescente de cerrado periférico no Planalto Paulistano não represente mais que 0,8% da área restante do bioma no Estado”, disse.

De acordo com os pesquisadores, a ocorrência de vegetação de cerrado em áreas de influência da mata atlântica se deve, entre outros fatores, à presença de solos de baixa fertilidade e as chamadas “stones lines” – uma linha de pedra a cerca de 30 centímetros de profundidade –, condição que dificulta o desenvolvimento de vegetação de porte maior. A região onde se insere o parque revela um regime climático com estação seca menos severa do que nas áreas principais de ocorrência dos cerrados no Estado.
Por isso, os pesquisadores recomendam a busca de outras áreas de ocorrência desses cerrados periféricos no domínio da mata atlântica na região de entorno do parque, com o intuito de criar novas unidades de conservação que preservem a diversidade biológica particular da região. “O cerrado é um banco de moléculas ainda a explorar e a sua biodiversidade é matéria-prima para a biotecnologia com ilimitadas possibilidades futuras”, afirmou Baitello. “É preciso estimular políticas públicas que levem à criação de novas unidades de conservação, instrumento que ainda está longe do mínimo requerido para uma proteção efetiva dessas particularidades”, concluiu.

Publicação científica

BAITELLO, J. B., AGUIAR, O. T., PASTORE, J. A. e ARZOLLA, F. A. R. D. P. Parque Estadual do Juquery: refúgio de cerrado no domínio atlântico. Série Registros. IF Sér. Reg. São Paulo n. 50, p. 1-46. mar. 2013.

sábado, 21 de julho de 2012

ESTUDO PETROLÓGICO DOS ARENITOS DA FORMAÇÃO TATUÍ NO ESTADO DE SÃO PAULO

NARA LUCIA BARBOSA GIMENEZ
Orientador: Profa.Dra. Maria Rita Caetano Chang
Data de defesa : 13/12/96   
      
Através do estudo petrológico de arenitos da Formação Tatuí, buscou-se o entendimento de sua proveniência e da evolução diagenética a que foram submetidos. As amostras estudadas provém, em sua maioria, de testemunhos de sondagem de poços perfurados no Estado de São Paulo, além de amostras de superfície.
Os arenitos da unidade foram depositados principalmente em ambiente costeiro, em barras litorâneas e plataformas, em sistemas flúvio-deltaicos, e em cunhas clásticas do tipo fan deltas. 

São classificados predominantemente como subascóseos e, subordinadamente, como sublitarenitos, quartzoarenitos e arcóseos. A maturidade textural varia de imatura a matura, refletindo a variedade de condições deposicionais e de transporte, enquanto os estágios submaturo e maturo de maturidade mineralógica são reflexos, não só das condições deposicionais e de transporte, mas também da natureza das rochas-matrizes, intemperismo na área-fonte e diagênese.

A composição desses arenitos não está condicionada somente à natureza da rocha-matriz, mas também à tectônica e, secundariamente, ao clima e relevo da área-fonte, bem como ao transporte, ambiente deposicional e à diagênese.

A composição detrítica, analisada segundo os diagramas QFL e QmFLt (DICKINSON 7 SUCZEK, 1979), revelou que os arenitos da Formação Tatuí apresentam proveniência a partir de cráton estável, com reativações locais por reciclagem orogênica, na categoria de soerguimento pericratônico, motivado por evento tectônico na borda da bacia.

As características mineralógicas desses arenitos evidenciam fonte principalmente a partir de rochas de baixo a médio grau, subordinadamente de alto grau e granitóides, pertencentes ao embasamento cristalino, situado nas porções norte e nordeste da bacia, e sedimentares, decorrentes de coberturas preexistentes.
A contribuição sedimentar é variável, sendo maior nos arenitos provenientes de reciclagem orogênica.
O clima e relevo da área-fonte, da mesma forma que o transporte e ambiente deposicional, tiveram parcelas de atuação variáveis na composição final do arcabouço dos arenitos da formação, contribuindo para que houvesse perda de informações sobre proveniência. 

O clima e relevo da área-fonte foram agentes mais efetivos nos arenitos derivados de cráton estável e menos efetivos nos provenientes de reciclagem orogênica, sendo a composição deste último controlada principalmente pela rocha-fonte. Da mesma forma, o transporte e ambiente deposicional foram mais atuantes nos ambientes de maior energia, ou seja, em barras litorâneas, em porções do sistema flúvio-deltaico sob domínio de ondas, bem como nas porções medianas de fan deltas. A diagênese constituiu-se, também, em importante variável modificadora da composição original desses arenitos.

A história diagenética dos arenitos da unidade foi desenvolvida nos regimes eodiagenético, mesodiagenético e telodiagenético. O regime eodiagenético foi marcado por substituição de bioclastos, dissolução de minerais instáveis e precipitação de cimentos de calcita microcristalina, pirita e feldsspato potássio e ferruginoso. Durante a mesodiagênese, o soterramento e a compactação mecânica tornaram-se mais efetivos, desencadeando várias fases diagenéticas, representadas por crescimentos secundários de quazrtzo e plagioclásios, cimentação por calcita poiquilotópica e em mosaicos, cimentação por dolomita (pura, ferrosa e anquerita), dissolução de calcita e feldspato, precipitação de caulinita e calcita tardia, albitização de feldspatos, precipitação de zeólitas, cimentações por anidrita, anatásio e sílica. Os arenitos submetidos ao ambiente telogenético apresentam quantidades razoáveis de cimento ferruginoso e caulinita, feições de dissolução em feldspatos e ausência de cimento carbonático.

Curso de Pós-Graduação em Geociências
Área de Concentração em Geologia Regional
nível: Mestrado - páginas: 174

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Qualidade de água de um dos principais mananciais de São Paulo tem rápida deterioração

06/07/2012
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – O reservatório Itupararanga, localizado na bacia hidrográfica do rio Sorocaba, nas proximidades dos municípios de Votorantim e Ibiúna, desempenha um papel estratégico no abastecimento de água e geração de energia para cidades do interior paulista como Sorocaba, Votorantim e São Roque e na gestão dos recursos hídricos do Estado de São Paulo.


Estudo feito por pesquisadores da USP indica que poluição de rios do reservatório Itupararanga promove graves alterações na represa da região de Sorocaba (divulgação)

Um Projeto Temático de pesquisa, realizado na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da FAPESP, constatou que a qualidade da água do manancial tem sofrido alterações significativas, causadas pelo avançado estado de degradação de alguns de seus afluentes. Isso, de acordo com os pesquisadores, pode interferir no abastecimento de água dos municípios da região.

“Observamos que a qualidade da água do manancial vem se deteriorando rapidamente, o que é um problema grave uma vez que se trata de um reservatório estratégico para o abastecimento dos municípios da região de Sorocaba”, disse Maria do Carmo Calijuri, professora da EESC e coordenadora do projeto à Agência FAPESP.

Na pesquisa, o grupo compartimentalizou o reservatório, construído pela empresa de geração e transmissão de energia Light em 1911, e realizou coletas de amostras de água para identificar quais os organismos e compostos estão presentes no manancial.
As análises das amostras revelaram a existência de comunidades de macrófitas – plantas aquáticas indicadoras de poluição – principalmente nos braços alimentados pelos córregos do Paruru, Ressaca e Campo Verde, situados próximos aos municípios de Ibiúna e Piedade.
Segundo os pesquisadores, esses braços (desembocaduras) do reservatório recebem grande quantidade de esgoto doméstico. Dessa forma, tornam-se os maiores contribuidores para a deterioração da qualidade da água da represa, juntamente com os rios Sorocamirim e Sorocabuçu, que são os principais formadores do reservatório e também causam impactos negativos no manancial.
“A água desses braços, que é misturada e entra aos poucos no reservatório, está apresentando uma carga muito grande de poluentes. A mistura da água no corpo central e os processos naturais de depuração contribuem para a melhoria da qualidade da água da represa, como um todo. Mas alguns braços estão muito comprometidos”, disse Calijuri.

A constatação de pesquisa de que os braços do reservatório são atualmente os maiores contribuintes do estado de poluição da represa contraria a falsa percepção que havia até então de que as áreas no entorno da represa seriam as grandes responsáveis pela poluição do manancial.
Uma das margens do reservatório ainda está preservada com mata nativa. A outra margem foi ocupada por propriedades rurais, onde se cultivam verduras, milho, morango, cebola, batata e tomate, além de haver algumas áreas de pastagem.

Entretanto, segundo a pesquisa, a maior parte da carga de poluentes que entra no reservatório vem dos afluentes da represa, onde se concentram indústrias de diversos setores, além de condomínios residenciais, chácaras e casas de veraneio, que despejam esgoto in natura diretamente nos rios e córregos, sem tratamento adequado.
“A carga pesada de poluentes que entra no reservatório vem dos rios tributários da represa. Não que a carga difusa de poluentes gerados pela atividade agrícola que entra na represa não contribua para sua deterioração, mas a carga pontual de poluentes dos afluentes é que modifica muito rapidamente a qualidade da água do reservatório”, afirmou Calijuri.

Gestão integrada dos recursos hídricos

Os resultados do estudo até o momento revelam que o reservatório apresenta um estado mesotrófico – com cargas de fósforo e nitrogênio que terão implicações na qualidade da água, aumento da produtividade primária e ocorrência de florações de fitoplâncton (algas) potencialmente tóxicas, inviabilizando os múltiplos usos do reservatório.
De acordo com Calijuri, os resultados parciais do estudo, que indicam a deterioração da qualidade da água do reservatório Itupararanga, podem contribuir para a gestão integrada dos recursos hídricos da bacia hidrográfica do rio Sorocaba.
“O manejo adequado das microbacias existentes contribuirá para melhorar a qualidade da água do reservatório”, disse Calijuri.
O reservatório é utilizado para abastecimento de água dos municípios de Votorantim e Sorocaba, e sua área de drenagem abrange as cidades de Alumínio, Cotia, Ibiúna, Mairinque, Piedade, São Roque, Vargem Grande Paulista e Votorantim.

quinta-feira, 28 de junho de 2012


Pontas pré-históricas de São Paulo são diferentes dos artefatos sulinos  

27.06.2012 

 As pontas de flecha ou de lança pré-históricas foram encontradas em maior concentração do interior de São Paulo até o Rio Grande do Sul. Independente do local, todos os projéteis de pedra resgatados nessa vasta área costumam ser rotulados como pertencentes à tradição Umbu, uma cultura arqueológica associada a antigos caçadores-coletores. Porém, o estudo mostra que as pontas encontradas no estado de São Paulo são diferentes das do Sul. Pode ser que essas diferenças estejam relacionadas com distintas culturas.

Projéteis de pedra do interior paulista de até 10 mil anos apresentam estilo diferente dos artefatos pré-históricos encontrados no Sul
MARCOS PIVETTA | Edição 194 - Abril de 2012
© LÉO RAMOS
Projéteis de Rio Claro (esquerda) e pontas do sul do país (direita)

As pontas líticas de flecha ou de lança oriundas da Pré-história nacional estão concentradas na porção do território brasileiro que se estende do Rio Grande do Sul até a região de Rio Claro, no interior paulista. Independentemente de seu local de origem e de terem sido confeccionados cerca de 500 anos atrás, pouco antes da chegada do conquistador europeu, ou há longínquos 10 milênios, todos os projéteis de pedra resgatados nessa vasta área costumam ser rotulados como pertencentes à tradição Umbu, uma cultura arqueológica associada a antigos caçadores-coletores. No entanto, um estudo comparativo das características morfológicas (físicas) de mais de mil pontas provenientes dos três estados do Sul e de São Paulo rechaça essa classificação, considerada simplista demais, e fornece indícios de que os projéteis encontrados no interior paulista são diferentes dos resgatados na parte mais meridional do país.

A maioria das pontas achadas nos arredores de Rio Claro, onde existe grande quantidade desses artefatos no interior paulista, tem o pedúnculo — cabo ou haste situada no lado oposto ao da superfície cortante — maior e mais afilado, com contornos similares aos da letra V, do que o das encontradas no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul. Os projéteis da porção austral do país tendem a apresentar essa parte com um formato bifurcado, semelhante a um pequeno rabo de peixe. Em São Paulo não há pontas desse tipo. “A função das pontas em ambas as regiões era a mesma, eram uma arma de caça”, afirma a arqueóloga Mercedes Okumura, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (Mae-Usp), autora do estudo, que contou com uma bolsa de pós-doutorado do CNPq no início de suas pesquisas e hoje recebe apoio da FAPESP. “No entanto acreditamos que as formas do pedúnculo podem ser interpretadas como marcadores culturais, relacionados a grupos ou tribos distintas.”
Se o design das pontas de pedra do Sul era diferente do das de São Paulo, é possível que os habitantes das duas áreas também não fossem exatamente iguais pelo menos do ponto de vista cultural. Os artefatos dos antigos caçadores-coletores do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina até poderiam ser rotulados como exemplares da tradição Umbu, mas o mesmo não se pode dizer dos projéteis encontrados no interior paulista, segundo a arqueóloga. Eles podem ter pertencido a um grupo com hábitos e tecnologia lítica distintos dos da tradição Umbu, dominante na ponta meridional do Brasil. “As pontas são um artefato complexo, que contêm informações sobre quem as fez”, diz o arqueólogo Astolfo Araujo, também do Mae-USP, que participa dos estudos de Mercedes. “Sua construção demanda muitas etapas e um longo processo de transmissão cultural. Aprender a fazer uma ponta demora anos.”
De acordo com dados de Mercedes, o corpo das pontas do Sul e de São Paulo apresenta tamanho semelhante. Em média, tem entre 2,5 e 3 centímetros. Essa medida leva em conta apenas a parte perfurante do projétil, sem incluir as dimensões do pendúculo. A diferença mesmo entre as pontas das duas regiões aparece quando se olha a forma e as dimensões do pedúnculo. Nas do Sul, a haste que serve de base para o lado cortante do artefato tende a medir entre 0,9 e 1,1 centímetro. Nas de São Paulo, apresenta quase o dobro de tamanho médio, por volta de 1,7 centímetro — e nunca é bifurcada, quase sempre é afilada. Além de estudar pontas da coleção Plynio Ayrosa do Mae, Mercedes visitou o acervo de outras nove universidades e também de colecionadores particulares do Sul e de São Paulo durante o ano passado para realizar o trabalho.


Graduada em biologia e com experiência na análise dos traços anatômicos de crânios e ossos da Pré-história nacional, a pesquisadora adaptou métodos estatísticos, quantitativos, já comumente empregados em estudos de evolução humana, em seu trabalho com os projéteis de pedra. “Como há poucos esqueletos humanos antigos encontrados no Sul e em São Paulo, resolvi estudar arfetados formais que esses povos faziam, como as pontas de pedra”, explica Mercedes. Munida de um paquímetro, instrumento utilizado para aferir com precisão pequenas distâncias, registrou as dimensões de 1.102 pontas. Foram medidos 131 projéteis de São Paulo, 170 do Paraná, 258 de Santa Catarina e 543 do Rio Grande do Sul. Os artefatos analisados provinham de 10 zonas com sítios arqueológicos: cinco em terras gaúchas (Maquiné, Santo Antônio, Caí, Ivoti e Taquari), três catarinenses (Taió, Urussanga e Santa Rosa), uma paranaense (Reserva) e uma paulista (Rio Claro).

© ADRIANA SCHMIDT DIAS
Abrigo na região gaúcha de Caí: estado sulino concentra boa parte das pontas da tradição Umbu


Quatro medidas
Em seu primeiro trabalho com o conjunto de pontas, cujos resultados já foram apresentados em congressos e serão relatados num artigo a ser submetido a uma revista científica, a arqueóloga comparou especificamente quatro medidas: o comprimento da lâmina, o tamanho do pedúnculo, a largura do pescoço (região em que termina a parte cortante e começa o cabo) e a espessura da flecha na altura da metade de seu corpo. De posse desses dados, ela usou métodos estatísticos e programas de computador para comparar as medidas e averiguar se elas poderiam ser associadas a apenas uma mesma cultura material, à  tradição Umbu, ou a mais de uma forma de produzir projéteis. É uma estratégia semelhante à dos arqueólogos que quantificam o tamanho e a forma de um crânio para tentar inferir os traços físicos ou até a etnia do dono da antiga ossada, se era, por exemplo, um africano ou um tipo mais asiático.
Das quatro medidas escolhidas, somente o tamanho do pedúnculo apresentou discrepâncias estatisticamente relevantes. Em seis das nove áreas da Região Sul havia predominância de cabinhos bifurcados. Rio Claro, onde esses artefatos eram confeccionados a partir de silexito e em menor escala de quartzo, se mostrou um caso à parte, com suas pontas afiladas. “Não se pode dizer que os projéteis do Sul sejam todos iguais, mas eles certamente formam um grupo distinto dos de Rio Claro”, afirma Mercedes. As pontas do interior paulista costumam ser classificadas como sendo da fase Rio Claro, que, segundo alguns autores contemporâneos,  seria um sotaque regional no âmbito da língua-mãe, uma manifestação local dentro da tradição Umbu. Mercedes e Araujo suspeitam que as pontas de São Paulo sejam mais do que isso. Elas pertenceriam a um outro idioma lítico, a uma tradição própria, tendo sido talvez lapidadas por um grupo culturalmente distinto dos antigos habitantes do Sul. Os arqueólogos da USP consideram pouco provável que apenas uma tradição cultural tenha se mantido por tanto tempo (cerca de 10 mil anos) numa faixa de terra tão longa como a que vai do Sul até o interior paulista (do Chuí até Rio Claro são 1.800 quilômetros). “Pode ter havido duas populações de caçadores-coletores distintas, uma na parte meridional do país e outra aqui”, comenta Araujo. “Ou a de São Paulo pode ser culturalmente derivada da do Sul, onde há um grande número de projéteis.”
Para o arqueólogo Tom Miller, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que estudou as pontas líticas do interior paulista na década de 1970, a hipótese de que os projéteis de Rio Claro pertençam a uma cultura distinta da presente no Sul faz sentido. “A tentativa de classificar o material de Rio Claro como Umbu foi um engano desde o começo”, afirma Miller. “As formas distintas de pedúnculo podem representar uma diferença de estilo ou de encabamento (de colocar um cabo num artefato).” Ele no entanto acredita que as tradições culturais não podem ser definidas somente a partir do estudo de um tipo de artefato, como as pontas encontradas numa região, mas sim por meio de análises mais complexas, que levem também em conta a tecnologia e as estratégias de adaptação adotadas pelos antigos povos de uma área.

O argentino Marcelo Cardillo, arqueó-logo da Universidade de Buenos Aires, que também realiza análises semelhantes às da pesquisadora da USP com projéteis líticos da Patagônia e da região de Puna, segue uma linha de raciocínio não muito diferente da de Miller. Embora reconheça não ser um especialista em arqueologia brasileira, argumenta que a análise estatística das medições feitas nas pontas do Sul e de São Paulo tornam as conclusões de Mercedes plausíveis. “É bastante possível que o estilo ou o desenho dos projéteis apresentem variações ao longo do tempo e do espaço”, afirma Cardillo, um crítico do próprio conceito de tradição. “Isso pode ocorrer por causas muito distintas, relacionadas, por exemplo, a fatores ambientais ou a processos aleatórios, como deriva cultural, ou à disponibilidade de diferentes materiais num lugar ou época.”

Objetos cunhados pela mão do homem, a chamada cultura material, contam algo sobre quem os confeccionou, especialmente quando são o único ou o principal vestígio arqueológico associado a um povo ou sociedade desaparecida. Essa situação não ocorre apenas no Sul do país e em São Paulo. Nos Estados Unidos, a famosa cultura Clovis, que teria surgido há cerca de 13 mil anos e foi considerada durante muito tempo como a mais antiga das Américas (hoje essa hipótese é bastante contestada), é conhecida fundamentalmente por meio das pontas de pedra resgatadas em localidades do estado do Novo México. Esqueletos humanos associados à cultura Clovis nunca foram encontrados. Nem por isso a importância dessa antiga ocupação deixou de ser reconhecida, com suas pontas alongadas, que, em alguns casos, lembram uma fina taça de champanhe de ponta-cabeça.