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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

 

Após 15 anos de pesquisas, cientistas reconstroem evolução de grupos de mosquitos da era dos dinossauros Exemplar da espécie Acrodicrania fasciata que ilustra capa do trabalho publicado por pesquisadores brasileiros no Bulletin of the American Museum of Natural History (foto: Sarah Siqueira de Oliveira/UFG)

Após 15 anos de pesquisas, cientistas reconstroem evolução de grupos de mosquitos da era dos dinossauros

30 de julho de 2021


André Julião | Agência FAPESP – Nos últimos 15 anos, dois pesquisadores têm se dedicado a contar uma história de mais de 100 milhões de anos praticamente usando apenas microscópio, pinça e o olhar bem treinado. Revisando intensamente a literatura sobre o assunto, viajando o mundo para coletar espécimes e analisando outros depositados em museus de história natural, os pesquisadores Sarah Siqueira de Oliveira, atualmente professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), e Dalton de Souza Amorim, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), publicaram o mais completo trabalho feito até hoje sobre um subgrupo dos chamados mosquitos-de-fungo.

A publicação, com mais de cem páginas e 107 figuras, coloridas em sua maioria, ocupa um volume inteiro do tradicional Bulletin of the American Museum of Natural History, publicado desde 1881 pelo museu norte-americano. O trabalho deixa clara ainda a importância do financiamento público contínuo à ciência, uma vez que foi apoiado por diversos projetos da FAPESP desde 2004.

Entre as novidades, o extenso levantamento levou à descrição de novas espécies e a uma nova proposta de classificação da família Mycetophilidae, como é conhecido o grupo dos chamados mosquitos-de-fungo. Surgidos no final do Jurássico, há mais de 145 milhões de anos, e se diversificando até chegar aos dias de hoje, os mosquitos da família Mycetophilidae (cujo nome, em latim, significa “que gostam de fungo”) têm larvas que se alimentam de cogumelos, orelhas-de-pau, esporos e de outras partes desses organismos que crescem em madeira em decomposição.

Os pesquisadores se debruçaram sobre um subgrupo chamado Leiinae, originado no sul do supercontinente Gondwana, que posteriormente se dividiu nas atuais América do Sul, África e Antártica, Índia, Austrália e Nova Zelândia. O grupo, que conviveu com os dinossauros, é uma das cinco subfamílias e uma das mais diversas dentro de Mycetophilidae, com mais de 600 espécies descritas para o mundo todo. Há pelo menos 2 mil espécies que ainda carecem de descrição. O novo trabalho concluiu que a subfamília abriga 37 gêneros e tem alguns fósseis preservados em âmbar.

“Não havia um consenso na literatura científica sobre quais grupos pertenciam a essa subfamília. Escolhemos, então, trabalhar tanto na descrição e nomeação das espécies, como em entender as relações evolutivas. É um grupo bastante diverso e pouco conhecido na região neotropical”, conta Oliveira, que estudou com cuidado mais de mil exemplares para concluir o trabalho.

A pesquisadora começou a estudar evolução de insetos ainda na graduação em biologia, na USP em Ribeirão Preto. Na época, o Programa BIOTA-FAPESP, lançado em 1999, estava em seus primeiros anos. Existia, portanto, uma grande quantidade de material coletado para ser identificado, uma oportunidade para Oliveira estudar os mosquitos-de-fungo. Esse primeiro trabalho contou com bolsa de iniciação científica da FAPESP, entre 2005 e 2006.

A pesquisa era parte de um projeto maior, “Limites geográficos e fatores causais de endemismo na Mata Atlântica em Diptera”, coordenado por Amorim, seu orientador, no âmbito do BIOTA. Ainda como parte desse projeto, a pesquisadora realizou o mestrado e o doutorado.

Enquanto os esforços na graduação se dedicavam a identificar espécimes coletados na Mata Atlântica e o projeto de mestrado focava um gênero particularmente diverso, o trabalho de doutorado se propôs a uma análise ampla da subfamília Leiinae – até então uma das menos estudadas dentro dos mosquitos-de-fungo. Este último serviu de base para a publicação atual, que foi ampliada com os resultados do pós-doutorado, também apoiado pela FAPESP.

“Os insetos são grupos bastante antigos e muitos têm distribuição mundial. Por isso, como orientador, costumo escolher temas em que os alunos se tornem lideranças mundiais em grupos que têm poucos especialistas. Escolhemos esse grupo importante, pois aí havia uma lacuna de conhecimento. E com esse trabalho, Sarah assumiu uma liderança na área”, afirma Amorim.

Jurassic Park

Tornar-se uma autoridade em um grupo de animais que ocorre no mundo todo exige a análise dos espécimes pessoalmente. Muitos exemplares encontram-se nos acervos de museus de história natural, instituições que têm por missão preservar o maior e mais diverso número possível de espécimes de animais, vegetais e minerais.

No doutorado, Oliveira foi à Austrália e analisou as coleções do Museu Australiano (AMSA), em Sidney, e do CSIRO-ANIC, em Camberra; no caminho de volta para o Brasil, parou para trabalhar nos museus sul-africanos de Kwa-Zulu Natal (NMSA), Iziko (SAMC) e Pretória (National Collection). Em outra viagem, estudou ainda coleções dos Estados Unidos e do Canadá. No pós-doutorado, parte dele com uma Bolsa de Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) da FAPESP, Oliveira passou um período estudando a coleção do Museu de História Natural em Londres. Ela aproveitou ainda a estadia na Europa para visitar os acervos de museus na França e na Alemanha. Entre estudos in loco e de material enviado por correspondência, foram analisadas coleções de dez países. Amorim, por sua vez, fez coletas no Chile, Nova Zelândia, Austrália, Costa Rica, Califórnia e Nepal, além do Brasil.

“Uma parte importante desse trabalho foi trazer de volta para o Brasil exemplares que haviam sido coletados aqui, mas que não existiam em coleções brasileiras. São animais muito diversos na região neotropical, que se originaram no sul de Gondwana e depois se espalharam para o resto do mundo. Historicamente, porém, pesquisadores dos países do hemisfério Norte descreveram muitas espécies brasileiras até a década de 1940. Uma parte das coleções foi agora repatriada”, diz a pesquisadora.

Em alguns dos museus, parte do acordo para que Oliveira pudesse fazer seus estudos era organizar as coleções de mosquitos, muitas vezes guardadas há anos sem um especialista para identificar e organizar o material.

“Muitos eram exemplares únicos ou com poucas unidades, além de muito antigos. Esses fatores costumam impossibilitar a análise genética. No entanto, o estudo da morfologia, usando microscópio, é suficiente para obter a maior parte das evidências no nosso trabalho. Além disso, não é possível estudo de material genético dos fósseis e a morfologia é a fonte de informação que permite incluí-los no sistema”, explica Amorim.

Um dos princípios do trabalho de taxonomistas como Oliveira e Amorim é justamente encontrar padrões de compartilhamento de caracteres na morfologia dos animais —como asas, pernas e outras partes que os tornem únicos. No estudo publicado agora, foram usados 128 caracteres para diferenciar os gêneros, como estruturas da cabeça, tórax, pernas, asas e órgão sexual.

Para criar uma estrutura de classificação com todos os gêneros da subfamília, os pesquisadores acrescentaram três novas tribos às quatro já existentes. O estudo incluiu 54 espécies conhecidas de fósseis, sendo 12 gêneros extintos, oito deles contando com exemplares preservados em âmbar, forma cristalizada da seiva de árvores que ganhou fama com o filme Jurassic Park, de 1993.

O inseto que aparece no filme, inclusive, não se alimentava de sangue como mostrado, segundo Amorim: trata-se de um dos mosquitos-de-fungo da família Keroplatidae.

“Os dinossauros são sempre um sucesso de público, mas pouca gente fala onde eles viviam, o que comiam, que outros seres viviam no seu entorno. Nosso trabalho mostra que naquele período existia também esse grupo de mosquitos voando perto de seus pés, cujas larvas comiam os fungos associados a florestas. Nesse período, estas eram basicamente de coníferas, diferentes das atuais florestas tropicais. Podemos agora vislumbrar um cenário cada vez mais completo do entorno da flora e da fauna nessa época”, encerra o pesquisador.

O artigo Phylogeny, classification, Mesozoic fossils, and biogeography of the Leiinae (Diptera: Mycetophilidae) pode ser lido em: https://digitallibrary.amnh.org/handle/2246/7256.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Estudo indica que Zika vírus está cada vez mais eficiente para infectar humanos

03 de dezembro de 2015

Karina Toledo | Agência FAPESP – Durante o caminho que percorreu do continente africano até a América – passando pela Ásia e cruzando o oceano Pacífico –,  o Zika vírus (ZIKV) passou por um processo de adaptação ao organismo humano, adquirindo certas características genéticas que tornaram cada vez mais eficiente sua replicação nas células do novo hospedeiro.



Desde o ano 2000, a espécie vem sofrendo alterações genéticas que ajudam o vírus a driblar o sistema imunológico e a se replicar em células humanas (imagem: Wikimedia Commons)


A conclusão é de um estudo divulgado no site bioRxiv (pronuncia-se "bio-archive") por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Institut Pasteur de Dakar, no Senegal, que chamam a esse processo adaptativo do vírus de “processo de humanização”.

"O ZIKV é um agente zoonótico africano que infecta principalmente macacos e mosquitos.

Estudos anteriores sugerem que teriam ocorrido casos esporádicos de infecção em humanos no passado e o vírus teria saído da África por volta da segunda metade do século 20.

Em 2007 ele causou um primeiro surto em humanos e parece ter havido um processo concomitante de adaptação pelo qual o código genético do vírus passou a mimetizar os genes humanos mais expressos para produzir em maior quantidade proteínas que tornam eficiente sua replicação no novo hospedeiro”, contou Paolo Marinho de Andrade Zanotto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e coautor do artigo.

Entre os genes que o ZIKV passou a mimetizar de forma mais evidente destaca-se o da proteína NS1, cujo papel é modular a interação entre o vírus e o sistema imunológico humano.
“A NS1, produzida em grande quantidade, funciona como um sistema de camuflagem para flavivírus, como o vírus da dengue, de quem o ZIKV é o parente mais próximo. Ela deixa o sistema imunológico desorientado. É o mesmo princípio usado por aviões de guerra ao liberar pequenos fogos para despistar os mísseis guiados pelo calor da turbina”, explicou Zanotto.

Os resultados da pesquisa mostram ainda que o chamado “valor adaptativo” da espécie (fitness) – que é capacidade de sobreviver e gerar uma progênie também capaz de sobreviver e de se reproduzir – cai drasticamente por volta do ano 2000, quando estaria ocorrendo forte seleção possivelmente associada ao processo de tráfego entre espécies. A partir desse ponto, o fitness do Zika vírus passa a crescer exponencialmente. Os gráficos do artigo sugerem que o patógeno já se tornou tão (ou mais) eficiente para sobreviver e se reproduzir em humanos quanto era antes em macacos.
A investigação foi conduzida com apoio da FAPESP durante o doutorado de Caio César de Melo Freire, sob a orientação de Zanotto.

O grupo analisou dados de 17 sequenciamentos completos do genoma viral – que continham informação sobre o ano e o local em que o vírus foi isolado – depositados no GenBank, um banco público mantido pelo National Center for Biotechnology Information (NCBI), nos Estados Unidos.
Com base nessas análises e também em um trabalho anterior do grupo, publicado em 2014 na revista PLoS Neglected Tropical Diseases, foi possível determinar o caminho percorrido pelas linhagens africanas e asiáticas e também as alterações genéticas sofridas no percurso.

Conforme explicam os autores no artigo mais recente, a linhagem africana ainda infecta predominantemente macacos e mosquitos do gênero Aedes. Já a linhagem asiática está se espalhando por meio de uma cadeia de transmissão entre humanos nas ilhas do Pacífico e na América do Sul.
Além da picada do mosquito, os cientistas apontam as relações sexuais e as infecções perinatais como rotas alternativas de transmissão.

Mundo em alerta

O primeiro surto significativo conhecido em humanos, causado pela linhagem asiática em 2007, ocorreu nos Estados Federados da Micronésia. Entre 2013 e 2014 o vírus emergiu novamente e causou uma significante epidemia na Polinésia Francesa, espalhando-se pela Oceania e chegando à América pela Ilha de Páscoa, no Chile, em 2014. Agora, em 2015, já foi reportado em pelo menos 14 estados brasileiros, a maioria na Região Nordeste, e também em outros países da América do Sul.

“As análises feitas com base em dados genéticos sugerem que o vírus está se tornando mais eficiente para produzir suas proteínas em humanos, mas agora precisamos confirmar essa hipótese com ensaios in vitro, colocando linhagens africanas e asiáticas em culturas de células humanas para estabelecer comparações”, comentou Zanotto.

O pesquisador também está organizando uma parceria com cerca de 25 laboratórios de diferentes regiões do Estado de São Paulo para monitorar como está sendo o espalhamento do vírus na região. Várias unidades dessa rede vão trabalhar diretamente na questão das malformações cerebrais congênitas em associação com serviços de neonatologia.

“Estamos ajustando protocolos comuns para identificar, caracterizar e isolar o vírus. Dada a experiência de nossos colegas na África, o isolamento do vírus em humanos pode apresentar problemas e provavelmente teremos de isolar também de mosquitos. Também pretendemos somar esforços no desenvolvimento da expressão de proteínas virais para facilitar a detecção da doença e estamos articulando ações conjuntas e trocando informações diariamente grupos internacionais. Será uma tarefa pesada, mas não temos outra opção, uma vez que o vírus parece de fato estar envolvido nos casos de microcefalia”, disse Zanotto.
Na última terça-feira (01/12), a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta mundial reconhecendo a relação entre a epidemia de Zika vírus e o crescimento dos casos de microcefalia e da síndrome Guillain-Barré no Brasil. No documento, a OMS recomendou que seus mais de 140 países-membros reforcem a vigilância para o eventual crescimento de infecções, sugeriu o isolamento dos pacientes e disse para as nações ficarem atentas à necessidade de se ampliar o atendimento de serviços neurológicos e de cuidados específicos a recém-nascidos.

“Recebemos de nossos colegas do Institut Pasteur, há alguns dias uma notificação do Serviço de Vigilância Sanitária em Papeete, na Polinésia Francesa, dizendo que após reavaliar os dados relacionados a crianças gestadas durante o surto local de ZIKV em 2014 e 2015 foram encontrados 12 casos de mulheres que tiveram filhos com complicações neurológicas sérias. Destas, quatro foram testadas e apresentaram anticorpos contra ZIKV, mas nehuma manifestou sintomas da doença durante a gravidez”, contou Zanotto.
De acordo com o pesquisador, é preciso investigar se há uma interação entre o vírus da dengue e o ZIKV no desenvolvimento da microcefalia. “É possível que o vírus da dengue – por ser muito comum nessas regiões – seja apenas um fator de confusão”, avaliou.

Além de causar sintomas parecidos, explicou Zanotto, os vírus da dengue e Zika são muitos próximos filogeneticamente. No estudo mais recente, o grupo mostrou que ambos compartilham pedaços da proteína NS1 considerados epítopos, ou seja, que são capazes de serem reconhecidos pelos anticorpos humanos.
“Como os dados desse estudo são de grande relevância mundial optamos por torná-los público imediatamente por meio desse arquivo público on-line. Agora pretendemos submetê-lo para revistas científicas”, contou Zanotto.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Processo evolutivo do mosquito da dengue é rápido, constata estudo

05 de novembro de 2015

Karina Toledo | Agência FAPESP – No que se refere à capacidade de adaptação ao ambiente hostil das grandes cidades, talvez nenhuma espécie de mosquito tenha conseguido tanto sucesso quanto o Aedes aegypti – aquele com o corpo coberto de listras brancas que, para azar dos humanos, é capaz de transmitir doenças como dengue, febre amarela, febre chikungunya e zika.

Além de resistência a alguns inseticidas, a espécie vem adquirindo a habilidade de se reproduzir em volumes cada vez menores de água – que nem precisa estar tão limpa quanto no passado. Os insetos, que antes só picavam durante o dia, passaram a atacar também à noite, bastando apenas alguma luz artificial a revelar o caminho até a vítima.

Um estudo recentemente publicado na revista PLoS One por um grupo de pesquisadores do Instituto Butantan pode ajudar a entender de onde vem esse potencial adaptativo tão superior ao de outras espécies de mosquito.
Os pesquisadores acompanharam durante 14 meses (cinco estações climáticas) uma população do inseto presente na Subprefeitura do Butantã, em São Paulo. Mensalmente, foram coletados ovos, larvas e pupas, que foram divididos em cinco grupos – cada um representando uma estação climática. Ao todo, foram estudadas aproximadamente 20 gerações de mosquitos de uma mesma população.

Por dois métodos diferentes, os pesquisadores investigaram e compararam os grupos a variabilidade genética existente entre os indivíduos, ou seja, como era a variação de alelos de DNA ao longo do tempo.
“Desde a primeira amostragem até a última, em todas as comparações feitas mês a mês, encontramos diferenças estatísticas significativas. Como se estivéssemos comparando indivíduos de populações diferentes, ou seja, coletados em locais distintos. Essa alta variabilidade genética indica que é uma espécie com muita capacidade de evoluir rapidamente e pode significar que se adapta rapidamente às adversidades”, afirmou Lincoln Suesdek, coordenador do estudo apoiado pela FAPESP.
O trabalho foi feito durante a Iniciação Científica de Caroline Louise, sob orientação de Suesdek. Segue uma linha de pesquisa que teve início durante o doutorado de Paloma Oliveira Vidal, também bolsista da FAPESP.

“Durante o doutorado, coletei amostras de mosquito de várias cidades do Estado de São Paulo em uma única época do ano. Comparei então a variabilidade genética entre as diferentes populações em uma única geração. Os resultados foram parecidos com os obtidos no projeto que comparou uma mesma população ao longo de várias gerações”, contou Vidal.

De acordo com Suesdek, nos dois projetos foram usados dois diferentes métodos para aferir a variabilidade genética. Um deles é tradicionalmente usado em estudos de parentesco: os marcadores microssatélites. Eles avaliam unidades de repetição de pares de bases do DNA e acusam as variações evolutivas mais recentes. O método tem ligeira semelhança ao usado em testes de paternidade.

O outro método, ainda inédito nesse tipo de estudo, foi a avaliação da morfologia da asa. Nesse caso os pesquisadores elegeram alguns pontos da asa do mosquito como marcos anatômicos. Uma série de softwares avalia a variação posicional entre esses pontos nos diferentes grupos.

“Os marcadores microssatélites são bem informativos, mas esse método é caro e trabalhoso. Queríamos testar um marcador mais simples e barato. Estudos anteriores indicavam que a forma da asa dos mosquitos, assim como a fisionomia dos seres humanos, está ligada à herança familiar. Mas é difícil perceber a olho nu”, contou Suesdek.
O objetivo do grupo era avaliar se os dois marcadores usados seguiriam o mesmo padrão. Os resultados indicaram que de fato há uma correlação, mas que ela não é de 100%.

“Conseguimos prever uma parte da variabilidade genética estudando a asa, mas o método não substitui a análise do DNA. Pode ser uma metodologia preliminar, a ser usada quando não se conhece nada sobre uma população e se deseja fazer um teste rápido para entender a microevolução”, disse Suesdek.

Controle ao longo do ano

Ao comparar o resultado das análises feitas durante seu projeto com dados da literatura científica, Louise concluiu que a dinâmica evolutiva do Aedes em São Paulo é mais acelerada do que em outras cidades onde há registros semelhantes.

“Acreditava-se que no inverno a variabilidade seria menor, pois com o frio a reprodução do inseto se torna mais lenta. De fato a taxa reprodutiva é menor nos meses de inverno, mas a variabilidade genética se manteve alta em todos os meses avaliados. Esse resultado reforça a necessidade de combater o mosquito o ano inteiro, não apenas no verão”, disse Louise.

Na avaliação de Louise, a melhor forma de controlar o mosquito é a adoção de medidas combinadas, como a eliminação de criadouros e a rotação de inseticidas, para que não ocorra a seleção de indivíduos resistentes.

Suesdek também ressaltou a necessidade de se investir em pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos métodos de controle químico e biológico, como novos inseticidas e mosquitos transgênicos.
“O cenário é preocupante e todas as pessoas têm uma parcela de responsabilidade. Tanto o governo quanto a população precisam fazer sua parte”, afirmou a equipe.

terça-feira, 19 de maio de 2015

O que é Febre Chikungunya?

Sinônimos: febre chicungunha

Febre Chikungunya é uma doença parecida com a dengue, causada pelo vírus CHIKV, da família Togaviridae. Seu modo de transmissão é pela picada do mosquito Aedes aegypti infectado e, menos comumente, pelo mosquito Aedes albopictus.

Seus sintomas são semelhantes aos da dengue: febre, mal-estar, dores pelo corpo, dor de cabeça, apatia e cansaço. Porém, a grande diferença da febre chikungunya está no seu acometimento das articulações: o vírus avança nas juntas dos pacientes e causa inflamações com fortes dores acompanhadas de inchaço, vermelhidão e calor local.

A febre chikungunya teve seu vírus isolado pela primeira vez em 1950, na Tanzânia. Ela recebeu esse nome pois chikungunya significa “aqueles que se dobram” no dialeto Makonde da Tanzânia, termo este usado para designar aqueles que sofriam com o mal. A doença, apesar de pouco letal, é muito limitante. O paciente tem dificuldade de movimentos e locomoção por causa das articulações inflamadas e doloridas, daí o “andar curvado”.

Os mosquitos transmitiam a doença para africanos abaixo do Saara, mas os surtos não ocorriam até junho de 2004. A partir desse ano, a febre chikungunya teve fortes manifestações no Quênia, e dali se espalhou pelas ilhas do Oceano Índico. Da primavera de 2004 ao verão de 2006, ocorreu um número estimado em 500 mil casos.

A epidemia propagou-se do Oceano Índico à Índia, onde grandes eventos emergiram em 2006. Uma vez introduzido, o CHIKV alastrou-se em 17 dos 28 estados da Índia e infectou mais de 1,39 milhão de pessoas antes do final do ano. O surto da Índia continuou em 2010 com novos casos aparecendo em áreas não envolvidas no início da fase epidêmica.
Os casos também têm sido propagados da Índia para as Ilhas de Andaman e Nicobar, Sri Lanka, Ilhas Maldivas, Singapura, Malásia, Indonésia e numerosos outros países por meio de viajantes infectados. A preocupação com a propagação do CHIKV atingiu um pico em 2007, quando o vírus foi encontrado no norte da Itália após ser introduzido por um viajante com o vírus advindo da Índia.
As taxas de ataque em comunidades afetadas em recentes epidemias variam de 38% a 63% e, embora em níveis reduzidos, muitos casos destes países continuam sendo relatados. Em 2010, o vírus continua a causar doença em países como Índia, Indonésia, Myanmar, Tailândia, Maldivas e reapareceu na Ilha Réunion.
Casos importados também foram identificados no ano de 2010 em Taiwan, França, Estados Unidos e Brasil, trazidos por viajantes advindos, respectivamente, da Indonésia, da Ilha Réunion, da Índia e do sudoeste asiático.
Atualmente, o vírus CHIKV foi identificado em ilhas do Caribe e Guiana Francesa, país latino-americano que faz fronteira com o estado do Amapá. Isso quer dizer que a febre chikungunya está migrando e pode chegar ao Brasil, onde os mosquitos Aedes aegypti e o Aedes albopictus têm todas as condições de espalhar esse novo vírus.
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Febre chikungunya é transmitida pelo mosquito Aedes aedypti

Causas

A febre chikugunya não é transmitida de pessoa para pessoa. O contágio se dá pelo mosquito que, após um período de sete dias contados depois de picar alguém contaminado, pode transportar o vírus CHIKV durante toda a sua vida, transmitindo a doença para uma população que não possui anticorpos contra ele. Por isso, o objetivo é estar atento para bloquear a transmissão tão logo apareçam os primeiros casos.
O ciclo de transmissão ocorre do seguinte modo: a fêmea do mosquito deposita seus ovos em recipientes com água. Ao saírem dos ovos, as larvas vivem na água por cerca de uma semana. Após este período, transformam-se em mosquitos adultos, prontos para picar as pessoas. O Aedes aegypti procria em velocidade prodigiosa e o mosquito adulto vive em média 45 dias. Uma vez que o indivíduo é picado, demora no geral de dois a 12 dias para a febre chikungunya se manifestar, sendo mais comum cinco a seis dias.
A transmissão da febre chikungunya raramente ocorre em temperaturas abaixo de 16° C, sendo que a mais propícia gira em torno de 30° a 32° C - por isso ele se desenvolve em áreas tropicais e subtropicais. A fêmea coloca os ovos em condições adequadas (lugar quente e úmido) e em 48 horas o embrião se desenvolve. É importante lembrar que os ovos que carregam o embrião do mosquito transmissor da febre chikungunya podem suportar até um ano a seca e serem transportados por longas distâncias, grudados nas bordas dos recipientes e esperando um ambiente úmido para se desenvolverem. Essa é uma das razões para a difícil erradicação do mosquito. Para passar da fase do ovo até a fase adulta, o inseto demora dez dias, em média. Os mosquitos acasalam no primeiro ou no segundo dia após se tornarem adultos. Depois, as fêmeas passam a se alimentar de sangue, que possui as proteínas necessárias para o desenvolvimento dos ovos.
O mosquito Aedes aegypti mede menos de um centímetro, tem aparência inofensiva, cor café ou preta e listras brancas no corpo e nas pernas. Costuma picar, transmitindo a febre chikungunya, nas primeiras horas da manhã e nas últimas da tarde, evitando o sol forte. No entanto, mesmo nas horas quentes ele pode atacar à sombra, dentro ou fora de casa. Há suspeitas de que alguns ataquem durante a noite. O indivíduo não percebe a picada, pois não dói e nem coça no momento. Por ser um mosquito que voa baixo - até dois metros - é comum ele picar nos joelhos, panturrilhas e pés.
Além de transmitir dengue e febre chikungunya, a fêmea do Aedes aegypti também passou a carregar o vírus responsável pela febre Zika.

Fatores de risco

A febre chikungunya pode afetar pessoas de todas as idades e ambos os sexos. Entretanto, a apresentação clínica é conhecida por variar de acordo com a idade, sendo os muito jovens (neonatal) e idosos os mais afetados pelas manifestações graves da doença. Além da idade, as comorbidades (doenças subjacentes) também vêm sendo identificadas como fator de risco para pior evolução da doença.
A maioria das infecções por CHIKV que ocorre durante a gravidez não resulta na transmissão do vírus para o feto. Existem, porém, raros relatos de abortos espontâneos após a infecção maternal por febre chikungunya. Aqueles infectados durante o período intraparto podem também desenvolver doenças neurológicas, sintomas hemorrágicos e doença do miocárdio. Anormalidades laboratoriais incluíram testes de função hepática aumentados, plaquetas e contagem de linfócitos reduzidos e níveis de protrombina diminuídos.
Indivíduos maiores de 65 anos tiveram uma taxa de mortalidade 50 vezes superior quando comparados ao adulto jovem (menores de 45 anos de idade). Apesar de não ser claro por que os adultos mais velhos têm um risco aumentado para doença mais grave, pode ser devido à frequência de comorbidades ou resposta imunológica diminuída.

Sintomas

Sintomas de Febre Chikungunya

O período de incubação da febre chikungunya varia de dois a 12 dias. Muitas pessoas infectadas com CHIKV não apresentarão sintomas. O quadro clínico é muito semelhante ao da dengue, e os sintomas de febre chikungunya são:

  • Febre
  • Dor nas articulações
  • Dor nas costas
  • Dor de cabeça.
Outros sintomas incluem:

  • Erupções cutâneas
  • Fadiga
  • Náuseas
  • Vômitos
  • Mialgias.
Os sintomas comuns de chikungunya são graves e muitas vezes debilitantes, sendo as mãos e pés mais afetados. No entanto, pernas e costas inferiores frequentemente podem estar envolvidas.

Febre chikungunya x Dengue

A febre chikungunya deve ser diferenciada da dengue, a qual tem um potencial para resultados muito piores, incluindo a morte. Entretanto, as duas doenças podem ocorrer juntas no mesmo paciente. Observações de surtos prévios na Tailândia e na Índia têm demonstrado as principais características que distinguem o CHIKV de dengue. Na febre chikungunya, o choque ou hemorragia grave são raramente observados. O início é mais agudo e a duração da febre é muito mais curta.
Embora as pessoas possam se queixar de dor corporal difusa na presença na dengue, a dor é muito mais pronunciada e localizada nas articulações e tendões nos casos de febre chikungunya.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Mosquitos transmissores da malária têm genoma sequenciado (06/01/2015)
Pesquisadores da Universidade de Cornell, nos EUA, anunciaram o sequenciamento do genoma de 16 espécies de mosquitos Anopheles, insetos que podem transmitir malária para os humanos. O objetivo do estudo é verificar porque algumas espécies de mosquitos têm mais capacidade de disseminar a doença do que outras. O trabalho foi publicado na edição de janeiro da revista científica Science.

A malária é uma doença típica de países com clima tropical, como o Brasil, e é transmitida por mosquitos que, ao picar os seres humanos, os contaminam com um parasita chamado plasmódio, responsável pelo desenvolvimento da enfermidade. Diferentes espécies de insetos do gênero Anopheles são vetores da doença, mas nem todas elas têm a mesma capacidade e eficiência na transmissão. Essa variação chamou a atenção dos pesquisadores e os levou a mapear o genoma de diferentes espécies de mosquitos da África, América, Ásia e Europa.
AnophelesPor meio da comparação do DNA desses animais, foi possível identificar como uma das espécies se especializou em viver entre os humanos e se alimentar de seu sangue. Além disso, os resultados também revelaram outros aspectos evolutivos desses insetos, a exemplo de características de imunidade ao parasita plasmódio e resistência metabólica a inseticidas.

A conclusão do trabalho é que as variações nos genomas das várias espécies de Anopheles trazem informações sobre sua interação com o homem e sua capacidade de transmissão de doenças. Uma vez que controlar as populações de insetos é uma maneira eficiente de reduzir o contágio da malária, essa descoberta pode ser útil para o desenvolvimento de métodos de controle por meio da biotecnologia.
Sicence, janeiro de 2015