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quarta-feira, 8 de junho de 2022

 

Varíola dos macacos: sintomas, transmissão, origem e número de casos são atualizados pela OMS

Órgão de saúde mundial faz novas recomendações técnicas e aponta crescimento de casos confirmados


Publicado em: 23/05/2022

Casos da varíola dos macacos (monkeypox, em inglês) não param de surgir em países onde a doença não é endêmica, a maioria deles na Europa. Diante disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem atualizando a quantidade de casos, a forma de transmissão e os sintomas que envolvem a doença “prima” do vírus da varíola comum, que foi erradicado do planeta em 1980 com o apoio do órgão de saúde mundial. (Saiba mais sobre a doença)

De acordo com a OMS, até 21/5, foram confirmados 92 casos em ao menos 12 países onde a doença não é endêmica, todos da linhagem encontrada em países da África ocidental, porém sem relação direta com viagens ao continente africano. Esse evento é considerado pelo órgão como “altamente incomum” e a OMS “espera que mais casos em áreas não endêmicas sejam relatados”. 

Transmissão

A varíola dos macacos é transmitida pelo monkeypox, vírus que pertence ao gênero orthopoxvirus da família Poxviridae, e é considerada uma zoonose viral (o vírus é transmitido aos seres humanos a partir de animais) com sintomas muito semelhantes aos observados em pacientes com varíola, embora seja clinicamente menos grave. O período de incubação da varíola dos macacos é geralmente de seis a 13 dias, mas pode variar de cinco a 21 dias, segundo a OMS. 

A transmissão ocorre por contato próximo com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como roupas de cama. E, segundo o órgão de saúde, a transmissão humano para humano está ocorrendo entre pessoas em contato físico próximo com casos sintomáticos. 

Várias espécies animais foram identificadas como suscetíveis ao vírus da varíola dos macacos, mas permanece incerta a história natural do vírus, sobretudo os possíveis reservatórios e como a sua circulação é mantida na natureza. A ingestão de carne e outros produtos de origem animal mal cozidas de animais infectados é um possível fator de risco, indica a OMS.

Sintomas

A OMS descreve quadros diferentes de sintomas para casos suspeitos, prováveis e confirmados. Passa a ser considerado um caso suspeito qualquer pessoa, de qualquer idade, que apresente pústulas (bolhas) na pele de forma aguda e inexplicável e esteja em um país onde a varíola dos macacos não é endêmica. Se este quadro for acompanhado por dor de cabeça, início de febre acima de 38,5°C, linfonodos inchados, dores musculares e no corpo, dor nas costas e fraqueza profunda, é necessário fazer exame para confirmar ou descartar a doença. 

Casos considerados “prováveis” incluem sintomas semelhantes aos dos casos suspeitos, como contato físico pele a pele ou com lesões na pele, contato sexual ou com materiais contaminados 21 dias antes do início dos sintomas. Soma-se a isso, histórico de viagens para um país endêmico ou ter feito tido contato próximo com possíveis infectados no mesmo período e/ou ter resultado positivo para um teste sorológico de orthopoxvirus na ausência de vacinação contra varíola ou outra exposição conhecida a orthopoxvirus.

Casos confirmados ocorrem quando há confirmação laboratorial para o vírus da varíola dos macacos por reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real e/ou sequenciamento.

Origem e características do vírus

O nome monkeypox se origina da descoberta inicial do vírus em macacos em um laboratório dinamarquês em 1958. O primeiro caso humano foi identificado em uma criança na República Democrática do Congo em 1970. 

Existem dois clados (linhagens) do vírus da varíola dos macacos: o da África Ocidental e o da Bacia do Congo (África Central). As infecções humanas com o clado da África Ocidental parecem causar doenças menos graves em comparação com o clado da Bacia do Congo, com uma taxa de mortalidade de 3,6% em comparação com 10,6% para o clado da Bacia do Congo, segundo a OMS.

Os países onde a varíola dos macacos é considerada endêmica são: Benin, Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Gabão, Gana (identificado apenas em animais), Costa do Marfim, Libéria, Nigéria, República do Congo, Serra Leoa e Sudão do Sul. 

Tratamento e prevenção

A varíola geralmente é autolimitada, ou seja, pode ser curada com o tempo e sem tratamento, mas pode ser grave em alguns indivíduos, como crianças, mulheres grávidas ou pessoas com imunossupressão devido a outras condições de saúde. 


Fonte: https://butantan.gov.b

terça-feira, 23 de julho de 2019


Livro reúne serpentes da Mata Atlântica

23 de julho de 2019

Agência FAPESP – O livro Serpentes da Mata Atlântica: guia ilustrado para as florestas costeiras do Brasil (Ponto A, 2019) será lançado no Instituto Butantan, no dia 8 de agosto de 2019, em São Paulo.


Com lançamento no dia 8 de agosto, no Instituto Butantan, publicação apresenta informações e fotos sobre 140 espécies de serpentes

 
O guia é de autoria dos professores Otavio Augusto Vuolo Marques, Ivan Sazima e André Eterovic e tem apoio da FAPESP.

“O livro reúne 240 fotografias coloridas de um total de 140 espécies de serpentes, com informações sobre elas e mapas com a distribuição pelo Brasil”, disse Vuolo Marques à Agência FAPESP.
Para cada serpente apresentada são fornecidas informações sobre a morfologia (tamanho do corpo e cauda, massa e dentição), o uso de hábitat (horário de atividade e substrato), os hábitos alimentares (principais itens), o modo reprodutivo (ovípara ou vivípara), as táticas defensivas e se a mesma oferece risco de envenenamento grave ao ser humano.

O guia também inclui textos sobre outros répteis que podem ser encontrados na Mata Atlântica. A obra apresenta também comentários taxonômicos sobre algumas das espécies e uma lista de todas as serpentes registradas para a Mata Atlântica até o momento, complementada por informações sobre o tipo de hábitat utilizado por cada espécie.

O lançamento será no Museu Biológico do Instituto Butantan (palestra e homenagem às 19 horas) e no Centro de Difusão Cultural (noite de autógrafos a partir das 19h45).

Mais informações com o Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan: (11) 2627-9811.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Jararacas "gigantes" em São Paulo

24 de agosto de 2018


Janaína Simões  |  Agência FAPESP – Em São Paulo, é mais fácil encontrar jararacas (Bothrops jararaca) “gigantes” no pequeno fragmento de Mata Atlântica existente no Parque do Estado do que em uma área bem maior, como no Parque Estadual da Cantareira, apesar de haver mais alimento disponível para elas nessa última área. 

Um novo estudo indica que a explicação para essa diferença está na quantidade de predadores existentes no habitat e não na disponibilidade de alimento, como se pensava no início do trabalho.

Jararacas 'gigantes' em São Paulo Estudo mostra por que jararacas de grande porte são mais frequentes no Parque do Estado do que em outras e maiores áreas verdes na capital (foto: Otavio A. V. Marques / Instituto Butantan)


Os resultados foram descritos no Journal of Herpetology, em artigo originado do trabalho de mestrado de Lucas Henrique Carvalho Siqueira no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São José do Rio Preto. O estudo teve bolsa da FAPESP e orientação do pesquisador do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan, Otavio Augusto Vuolo Marques

Foram comparadas serpentes do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga – conhecido popularmente como Parque do Estado e que fica na Zona Sul de São Paulo, onde estão os jardins Zoológico e Botânico – com as do Parque Estadual da Cantareira, situado na Zona Norte e cujo clima e vegetação são semelhantes ao primeiro, mas não é isolado como o Parque do Estado, que tem área 16 vezes menor. 

Essas jararacas são chamadas de “gigantes” por serem bem maiores do que a média. Porém, isso não significa que haja um gigantismo nessa população. O que ocorre é que existe uma maior abundância de espécimes muito grandes (em torno de 1,5 metro de comprimento) no Parque de Estado. 

O tamanho dessas jararacas coletadas no parque foi o que chamou a atenção de Marques. “Recebemos muitas jararacas no Butantan e algumas apresentavam tamanho acima da média. Quando checávamos a procedência, constatávamos que vinham do Parque do Estado”, disse.

Estudos anteriores mostraram que serpentes de grande porte, em geral, são encontradas em ilhas. Segundo Marques, o isolamento de populações oferece bons exemplos de divergências morfológicas. 

“O Parque do Estado não tem conexão com outras áreas de mata. É como uma ilha, só que em vez de rodeada de água, está isolada pela cidade”, disse Marques à Agência FAPESP. Trata-se de uma unidade de conservação de 540 hectares, coberta por um remanescente da Mata Atlântica. 

“Resolvemos verificar se essas serpentes estavam ficando maiores do que outras populações e estudar algumas variáveis que seriam respostas para explicar essa diferença de tamanho: a oferta de recurso alimentar e a presença de predadores”, disse.  

Para entender o fenômeno, Siqueira utilizou dados morfológicos sobre jararacas existentes em pesquisas publicadas, em serpentes preservadas na coleção do Instituto Butantan que eram provenientes desses dois lugares e foi a campo para coletar dados originais.
“Também colocamos armadilhas para analisar a disponibilidade de recurso alimentar nas duas áreas. As jararacas adultas se alimentam de pequenos roedores”, disse Siqueira. 

Os autores do estudo se basearam em duas hipóteses. A primeira era de que as jararacas do Parque do Estado eram maiores porque lá provavelmente haveria maior oferta de recurso alimentar. Em estudos feitos por pesquisadores do Instituto Butantan em Alcatrazes, litoral norte de São Paulo, constatou-se que as jararacas que habitam o continente e se alimentam de roedores são maiores do que as presentes na ilha, que não têm este tipo de presa. 

Em Alcatrazes, as jararacas se alimentam de pequenos sapos, lagartos e lacraias, animais de baixo valor calórico. São chamadas de anãs, por atingirem no máximo meio metro.

“Relacionamos o tamanho pequeno com uma alimentação calórica restrita, então, no caso do estudo em São Paulo, era natural pensar em uma grande oferta de recurso alimentar e fazia sentido pensar nos ratos urbanos, já que o Parque do Estado está em uma área urbana alterada”, disse Marques. 
Segundo Siqueira, porém, não houve diferença na média do tamanho entre as duas populações de jararacas presentes em ambos os parques. “Mas observamos uma proporção maior de fêmeas gigantes no Parque do Estado em comparação com o Parque da Cantareira”, disse. As jararacas fêmeas alcançam porte maior do que os machos. 

O biólogo montou armadilhas para capturar algumas das presas. “Também surpreendeu a disponibilidade de alimento, que não era maior do que na Cantareira. Capturamos menos ratinhos no Parque do Estado e não confirmamos a presença de ratos urbanos, só de ratos silvestres durante o tempo do estudo”, disse Siqueira.  

Ataques em massa

Diante da inesperada constatação de que não era a disponibilidade maior de alimento que explicava ser mais frequente a presença de jararacas “gigantes” no Parque do Estado do que no Parque da Cantareira, restou investigar a segunda hipótese, relacionada à presença de predadores. “No Parque do Estado, registramos menos da metade de ataques em comparação aos observados na Cantareira”, disse Siqueira.  

Esse foi outro desafio do estudo: como observar e ter indicador sobre os ataques de predadores. Isso foi resolvido com o uso de modelos feitos em massa de modelar, como as usadas por crianças para brincar. Com essa estratégia, Siqueira pôde verificar quais são os predadores e a frequência de ataques que as cobras sofrem em ambos os parques. 

“Confeccionamos 1.440 réplicas de indivíduos adultos de jararaca, usando uma cor parecida com a da cobra e evitando qualquer tipo de mancha para não haver nenhum viés nos resultados”, disse.  
Em cada um dos parques foram usadas 720 réplicas – 60 utilizadas mensalmente –, que ficaram por dois dias em cada localidade. As marcas dos ataques dos predadores ficaram impressas na massa de modelar. 

“Saber o número absoluto de predadores de jararaca existentes iria requerer uma câmera em cada uma das réplicas, o que não era viável. Mas conseguimos quantificar a frequência de ataque e dizer se o predador era ave ou mamífero”, disse.  
No Parque da Cantareira, aproximadamente 12% das massinhas foram atacadas, um valor alto se comparado com trabalhos relacionados a serpentes feitos anteriormente. No Parque do Estado, cerca de 5% dos modelos foram atacados. “Registramos mais do que o dobro de ataques na Cantareira”, disse Siqueira à Agência FAPESP

Mas qual a relação entre ter menos predadores e o tamanho das cobras? Segundo Marques, as serpentes crescem a vida toda, apesar de a taxa de crescimento ser muito baixa nos indivíduos mais velhos. 

“Para que possam crescer muito, precisam ter uma longevidade grande, viver muito tempo. Como há menos ataques de predadores no Parque do Estado do que no Cantareira, então temos uma explicação plausível para a existência mais frequente de serpentes gigantes por lá. A atenuação da predação permite que elas cresçam”, disse Marques. 

Segundo o pesquisador, o estudo é mais uma contribuição na busca pela preservação de fragmentos florestais como o do Parque do Estado. “Estudos como esse possibilitam entender melhor a dinâmica desses fragmentos florestais, o que pode auxiliar – por exemplo – em ações de manejo para sua conservação”, afirma. 

Como consequência do mestrado, Siqueira agora está estudando no doutorado métodos e formas para estimar a idade de jararacas e cascavéis. O procedimento comum é fazer cortes nos ossos da cobra, onde existem marcas de crescimento, à semelhança do que ocorre com os anéis dos troncos das árvores. 

“Temos uma população senil de jararacas e precisamos saber suas idades, conhecer melhor as taxas de crescimento”, concluem os autores do estudo.

O artigo Effects of Urbanization on Bothrops jararaca Populations in São Paulo Municipality, Southeastern Brazil (doi: https://doi.org/10.1670/17-021), de Lucas Henrique Carvalho Siqueira e Otavio Augusto Vuolo Marques, pode ser lido por assinantes do Journal of Herpetology em www.bioone.org/doi/full/10.1670/17-021.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Adaptados ao ambiente urbano, escorpiões se proliferam e picam cada vez mais

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Espinhos repletos de veneno

Glândula situada na extremidade das cerdas produz secreção tóxica da lagarta-de-fogo
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 254 | ABRIL 2017

© EDUARDO CESAR
Lonomia obliqua, responsável por 500 casos de intoxicação por ano no Brasil
Lonomia obliqua, responsável por 500 casos de intoxicação por ano no Brasil

É no ápice das cerdas que recobrem o dorso das lagartas-de-fogo que se encontra a glândula responsável pela produção de seu veneno, um coquetel de toxinas que em contato com a pele humana pode causar sérios problemas de saúde e, em casos extremos, matar. A identificação da célula produtora de veneno da taturana Lonomia obliqua resulta do trabalho de pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo. Sob a coordenação da bióloga Diva Denelle Spadacci-Morena, do Laboratório de Fisiopatologia, eles analisaram as cerdas da lagarta com o auxílio de um microscópio eletrônico de varredura, capaz de ampliar a imagem dezenas de milhares de vezes, e identificaram a existência de uma célula responsável pela produção da peçonha.

Há algum tempo se sabe que outras lagartas, como as taturanas do gênero Automeris, possuem uma glândula de veneno em seus pelos. Mas havia dúvida sobre o que se passava com as lagartas-de-fogo, que já foram qualificadas popularmente de assassinas por causa dos acidentes fatais. Antes da equipe do Butantan, outros pesquisadores também investigaram as cerdas da Lonomia. Como não encontraram a glândula, inferiram que o veneno devia ser produzido no interior do corpo da taturana — para eles, as cerdas funcionariam apenas como tubos que transportam a secreção para fora.

Além de identificar a célula produtora de toxina, os pesquisadores do Butantan constataram que o veneno, depois de produzido, fica armazenado na extremidade dos pelos. “Um leve esbarrão é o suficiente para romper a ponta e liberar o líquido”, diz Diva, primeira autora do artigo que descreveu o achado em setembro de 2016 na revista Toxicon. Curiosamente, não são todas as cerdas que produzem a peçonha, um líquido de cor alaranjada. Alguns dos pelos liberam hemolinfa, um fluido esverdeado responsável pelo transporte de nutrientes pelo corpo da lagarta.

Comum nas propriedades rurais do Sul do Brasil, essas taturanas podem alcançar 6 centímetros de comprimento. Elas são os exemplares imaturos (larva) de uma mariposa marrom, cujas asas, quando abertas, lembram uma folha seca. As lagartas nascem de ovos depositados em troncos e folhas das árvores e passam por seis estágios de desenvolvimento até se transformarem na mariposa adulta. Como larva, vivem em grupos de mais de 80 indivíduos, que, apesar das cerdas verdes, costumam ser confundidos com a casca das árvores. É nessas situações que ocorrem os acidentes mais graves.

© EDUARDO CESAR
Extraídas com uma tesoura, as cerdas da taturana são depois maceradas e liberam o extrato usado na produção do soro antilonômico no Instituto Butantan
Extraídas com uma tesoura, as cerdas da taturana são depois maceradas e liberam o extrato usado na produção do soro antilonômico no Instituto Butantan

Pequenas quantidades do veneno provocam, já nos primeiros minutos, queimaduras na pele, inchaço local e um leve mal-estar. Em grandes quantidades, no entanto, a peçonha pode desencadear depois de alguns dias distúrbios hemorrágicos e até insuficiência renal. “Nesses casos, se não for tratado, o indivíduo começa a sangrar pelo nariz e pela gengiva e a perder sangue pela urina”, explica o entomólogo Roberto Moraes, um dos autores do estudo da Toxicon. Uma proteína específica do veneno, a Lopap, altera a coagulação sanguínea e facilita a ocorrência de hemorragias.

Relatos de acidentes com a Lonomia começaram a surgir em fins dos anos 1980, sobretudo no norte do Rio Grande do Sul. À época, cerca de 300 pessoas se feriram somente em Passo Fundo, onde a lagarta é mais comum. Ao todo, por ano, são registrados no Brasil cerca de 500 acidentes. Por causa da gravidade dos casos, pesquisadores do Laboratório de Imunoquímica do Instituto Butantan, sob coordenação do imunologista Wilmar Dias da Silva, iniciaram, em 1994, a produção de um soro neutralizador do veneno. A médica Fan Hui Wen, responsável pelo Laboratório de Artrópodes do Butantan, coordena atualmente a produção desse antídoto, elaborado a partir de um extrato das cerdas da lagarta, que, depois de purificado, é injetado em cavalos. Todos os anos o Butantan recebe de agricultores cerca de 3 mil lagartas, quantidade que permite produzir 10 mil ampolas do soro, o suficiente para atender os acidentes que ocorrem no país.

Projeto
 
Identificação e caracterização das toxinas com atividade hemolítica da lagarta Lonomia obliqua e da glândula produtora das toxinas: Estudo bioquímico e morfológico (nº 01/07643-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Ida Sigueko Sano Martins (Instituto Butantan);
Investimento R$ 127.423,13.

Artigo científico
 
SPADACCI-MORENA, D. D. et al. The urticating apparatus in the caterpillar of Lonomia obliqua (Lepidoptera: Saturniidae). Toxicon. 1º set. 2016.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Jiboia rara é achada após mais de 60 anos de buscas

Cobra foi encontrada em comunidade rural no interior de São Paulo
Como toda jiboia, a Corallus cropanii não é venenosa e mata suas presas por esmagamento Lívia Corrêa/Instituto Butantan
 
Com a ajuda da comunidade rural de Guapiruvu, em Sete Barras (SP), a pouco mais de cem quilômetros da fronteira com o Paraná, pesquisadores do Instituto Butantan e do Museu de Zoologia da USP anunciaram a redescoberta da espécie Corallus cropanii, conhecida como jiboia-do-Ribeira ou jiboia-de-Cropan.

A cobra, considerada uma das mais raras do mundo, foi encontrada pela segunda vez viva em seu habitat após 64 anos (veja foto).

A primeira, achada em 1953, em Miracatu (SP), foi descrita pelo herpetólogo do Butantan Alphonse Richard Hoge como um macho de aproximadamente um metro. O novo espécime, encontrado no último dia 21 por moradores da região de Sete Barras, também é um macho com 1,7 metro e 1,5 quilo. Como toda jiboia, ela não é venenosa e mata suas presas por esmagamento.

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“A cobra será estudada a fim de se descobrir mais informações sobre sua biologia e hábitos. Como nunca foi observada na natureza, não temos muitas informações sobre o seu comportamento”, disse a bióloga do Instituto Butantan Lívia Corrêa. “Ela será solta em seu habitat natural e receberá um equipamento com radiotelemetria que possibilitará seu rastreamento na natureza e a transmissão de informações aos pesquisadores”, explicou.

Segundo a bióloga, a redescoberta só foi possível graças à parceria com a comunidade do Vale do Ribeira. Os pesquisadores deram palestras e materiais sobre o animal com o objetivo de encontrá-lo vivo. As ações mostraram a importância de conservar as serpentes e o ecossistema onde elas vivem, além de promover a apropriação da biodiversidade local pela comunidade (que por falta de informação matava as serpentes encontradas).

Registros da jiboia

• 1953: Encontrada viva pela 1ª vez em Miracatu (SP)
• 1969: Capturada em Pedro Toledo (SP) e levada já morta ao Butantan
• 1978: Localidade incerta, mas chegou por trem de Santos (SP) ao Butantan
• 2003: Encontrada sem vida em Eldorado (SP). Cabeça e pele conservados em álcool por um morador
• 2009: Apenas fotos em Guapiruvu, Sete Barras (SP)
• 2017: Encontrada viva em Guapiruvu, Sete Barras (SP)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Processo evolutivo do mosquito da dengue é rápido, constata estudo

05 de novembro de 2015

Karina Toledo | Agência FAPESP – No que se refere à capacidade de adaptação ao ambiente hostil das grandes cidades, talvez nenhuma espécie de mosquito tenha conseguido tanto sucesso quanto o Aedes aegypti – aquele com o corpo coberto de listras brancas que, para azar dos humanos, é capaz de transmitir doenças como dengue, febre amarela, febre chikungunya e zika.

Além de resistência a alguns inseticidas, a espécie vem adquirindo a habilidade de se reproduzir em volumes cada vez menores de água – que nem precisa estar tão limpa quanto no passado. Os insetos, que antes só picavam durante o dia, passaram a atacar também à noite, bastando apenas alguma luz artificial a revelar o caminho até a vítima.

Um estudo recentemente publicado na revista PLoS One por um grupo de pesquisadores do Instituto Butantan pode ajudar a entender de onde vem esse potencial adaptativo tão superior ao de outras espécies de mosquito.
Os pesquisadores acompanharam durante 14 meses (cinco estações climáticas) uma população do inseto presente na Subprefeitura do Butantã, em São Paulo. Mensalmente, foram coletados ovos, larvas e pupas, que foram divididos em cinco grupos – cada um representando uma estação climática. Ao todo, foram estudadas aproximadamente 20 gerações de mosquitos de uma mesma população.

Por dois métodos diferentes, os pesquisadores investigaram e compararam os grupos a variabilidade genética existente entre os indivíduos, ou seja, como era a variação de alelos de DNA ao longo do tempo.
“Desde a primeira amostragem até a última, em todas as comparações feitas mês a mês, encontramos diferenças estatísticas significativas. Como se estivéssemos comparando indivíduos de populações diferentes, ou seja, coletados em locais distintos. Essa alta variabilidade genética indica que é uma espécie com muita capacidade de evoluir rapidamente e pode significar que se adapta rapidamente às adversidades”, afirmou Lincoln Suesdek, coordenador do estudo apoiado pela FAPESP.
O trabalho foi feito durante a Iniciação Científica de Caroline Louise, sob orientação de Suesdek. Segue uma linha de pesquisa que teve início durante o doutorado de Paloma Oliveira Vidal, também bolsista da FAPESP.

“Durante o doutorado, coletei amostras de mosquito de várias cidades do Estado de São Paulo em uma única época do ano. Comparei então a variabilidade genética entre as diferentes populações em uma única geração. Os resultados foram parecidos com os obtidos no projeto que comparou uma mesma população ao longo de várias gerações”, contou Vidal.

De acordo com Suesdek, nos dois projetos foram usados dois diferentes métodos para aferir a variabilidade genética. Um deles é tradicionalmente usado em estudos de parentesco: os marcadores microssatélites. Eles avaliam unidades de repetição de pares de bases do DNA e acusam as variações evolutivas mais recentes. O método tem ligeira semelhança ao usado em testes de paternidade.

O outro método, ainda inédito nesse tipo de estudo, foi a avaliação da morfologia da asa. Nesse caso os pesquisadores elegeram alguns pontos da asa do mosquito como marcos anatômicos. Uma série de softwares avalia a variação posicional entre esses pontos nos diferentes grupos.

“Os marcadores microssatélites são bem informativos, mas esse método é caro e trabalhoso. Queríamos testar um marcador mais simples e barato. Estudos anteriores indicavam que a forma da asa dos mosquitos, assim como a fisionomia dos seres humanos, está ligada à herança familiar. Mas é difícil perceber a olho nu”, contou Suesdek.
O objetivo do grupo era avaliar se os dois marcadores usados seguiriam o mesmo padrão. Os resultados indicaram que de fato há uma correlação, mas que ela não é de 100%.

“Conseguimos prever uma parte da variabilidade genética estudando a asa, mas o método não substitui a análise do DNA. Pode ser uma metodologia preliminar, a ser usada quando não se conhece nada sobre uma população e se deseja fazer um teste rápido para entender a microevolução”, disse Suesdek.

Controle ao longo do ano

Ao comparar o resultado das análises feitas durante seu projeto com dados da literatura científica, Louise concluiu que a dinâmica evolutiva do Aedes em São Paulo é mais acelerada do que em outras cidades onde há registros semelhantes.

“Acreditava-se que no inverno a variabilidade seria menor, pois com o frio a reprodução do inseto se torna mais lenta. De fato a taxa reprodutiva é menor nos meses de inverno, mas a variabilidade genética se manteve alta em todos os meses avaliados. Esse resultado reforça a necessidade de combater o mosquito o ano inteiro, não apenas no verão”, disse Louise.

Na avaliação de Louise, a melhor forma de controlar o mosquito é a adoção de medidas combinadas, como a eliminação de criadouros e a rotação de inseticidas, para que não ocorra a seleção de indivíduos resistentes.

Suesdek também ressaltou a necessidade de se investir em pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos métodos de controle químico e biológico, como novos inseticidas e mosquitos transgênicos.
“O cenário é preocupante e todas as pessoas têm uma parcela de responsabilidade. Tanto o governo quanto a população precisam fazer sua parte”, afirmou a equipe.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Clique Ciência: de onde vieram as cobras?

07 de agosto de 2015. -  Marcus Cabral


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Pensar em viver sem braços e pernas é desesperador para qualquer ser humano. E, pela nossa lógica, centrada nos nossos próprios parâmetros, ter membros cada vez mais sofisticados é um sinal de evolução. Mas, na natureza, nem tudo é assim. As cobras, por exemplo, já tiveram patas. "Os ancestrais das serpentes eram lagartos", conta o pesquisador Sávio Stefanini Sant`Anna, do Laboratório de Herpetologia do Instituto Butantan, em São Paulo Arte UOL
Pensar em viver sem braços e pernas é desesperador para qualquer ser humano. E, pela nossa lógica, centrada nos nossos próprios parâmetros, ter membros cada vez mais sofisticados é um sinal de evolução. Mas, na natureza, nem tudo é assim. As cobras, por exemplo, já tiveram patas.
"Os ancestrais das serpentes eram lagartos. Não se sabe exatamente qual grupo de lagarto, mas se acredita que faça parte dos Iguania ou dos Anguimorphas", conta o pesquisador Sávio Stefanini Sant`Anna, do Instituto Butantan, em São Paulo.
Embora existam teorias afirmando que esses ancestrais fossem animais aquáticos, atualmente a hipótese mais aceita no meio científico é que as primeiras serpentes teriam tido sua origem no meio terrestre, segundo o especialista.
Em 2006, foi publicada na revista "Nature" a descoberta de uma serpente terrestre que possuía patas posteriores, batizada de Najash rionegrina. O texto teve coautoria, inclusive, de outro pesquisador brasileiro: Hussam Zaher, do Museu de Zoologia da USP (Universidade de São Paulo).
Outro estudo, publicado no mês passado no periódico "BMC Evolutionary Biology", também revela que os ancestrais das serpentes eram predadores noturnos com minúsculos membros posteriores que continham tornozelos e dedos nos pés. A pesquisa, realizada na Universidade de Yale (EUA) foi feita com análise de fósseis, genes e anatomia de 73 espécies diferentes de serpentes e lagartos. E, também de acordo com o principal autor, Allison Hsiang, as cobras evoluíram da terra, e não do mar.
As primeiras cobras, segundo Hsiang, teriam surgido nas florestas do antigo supercontinente conhecido como Laurásia (que envolvia a América do Norte, a Europa e a norte da Ásia), há cerca de 128 milhões de anos, no Cretáceo Inferior.
Os resultados do estudo sugerem que o fato de as cobras terem se espalhado pelo mundo, ocupando uma enorme gama de habitats diferentes, pode ter a ver - acredite - com o fato de que a ausência das pernas lhes conferiu agilidade. O autor diz que as cobras são capazes de viajar por até 110 mil quilômetros quadrados, área quatro vezes maior que a percorrida pelos lagartos. E, muitas vezes, ao longo de sua história evolutiva, esses bichos ainda foram capazes de se adaptar a meios aquáticos.

De dez centímetros a dez metros

Pesquisadores estimam que hoje existam cerca de 3.500 espécies de serpentes no mundo. Só no Brasil, conta o pesquisador do Butantan, existem 381.
"A maior espécie de serpente do mundo é o píton reticulado (Phyton reticulatus), que pode alcançar até dez metros de comprimento. No Brasil, a maior é a sucuri (Eunectes murinus)", continua Sant`Anna. Já a menor serpente é uma cobra-cega de dez centímetros (Leptotyphlops carlae), que vive na Ilha de Barbados, no Caribe.
O pesquisador explica que todas as serpentes são carnívoras, mas as dietas diferem bastante entre as espécies. Enquanto algumas comem um único tipo de alimento, outras são menos "frescas" e, por isso, são chamadas de generalistas.
"Algumas espécies de jararacas, quando jovens, se alimentam basicamente de anfíbios e, quando adultas, comem roedores", comenta Sant`Anna.
Estrategistas
Para subjugar e matar suas presas, as serpentes contam com sofisticados aparatos sensoriais e táticas bem elaboradas, conforme ressalta o pesquisador. Além da visão, que nem sempre é muito boa, existe uma estrutura chamada órgão de Jacobson, que identifica partículas químicas que a língua capta do ar. É por isso que elas estão sempre colocando a língua para dentro e para fora da boca.
As serpentes podem matar suas presas por constrição ou envenenamento. "A jiboia e a sucuri são exemplos de serpentes constritoras: elas se enrolam nas suas presas e apertam até que a mesma morra por parada cardíaca ou respiratória", descreve o especialista.
Já a cascavel e a jararaca contam com um aparato eficiente para injetar o veneno nas vítimas. A serpente parelheira e a falsa-coral também fazem isso, mas, felizmente, o sistema de injeção não é eficiente para matar humanos. Não que isso deixe muita gente animada para brincar com essas cobras. 
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Cobras têm orelhas? Conheça essa e outras curiosidades sobre os bichos23 fotos

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Embora as cobras não tenham orelhas, as ondas de som provenientes do ar atingem sua pele e são transferidas dos músculos para os ossos. Quando o som atinge o osso do ouvido sob o crânio, envia vibrações para o ouvido interno, e o som é processado. Saiba mais sobre esse fascinante animal Leia mais SXC