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terça-feira, 23 de julho de 2019


Livro reúne serpentes da Mata Atlântica

23 de julho de 2019

Agência FAPESP – O livro Serpentes da Mata Atlântica: guia ilustrado para as florestas costeiras do Brasil (Ponto A, 2019) será lançado no Instituto Butantan, no dia 8 de agosto de 2019, em São Paulo.


Com lançamento no dia 8 de agosto, no Instituto Butantan, publicação apresenta informações e fotos sobre 140 espécies de serpentes

 
O guia é de autoria dos professores Otavio Augusto Vuolo Marques, Ivan Sazima e André Eterovic e tem apoio da FAPESP.

“O livro reúne 240 fotografias coloridas de um total de 140 espécies de serpentes, com informações sobre elas e mapas com a distribuição pelo Brasil”, disse Vuolo Marques à Agência FAPESP.
Para cada serpente apresentada são fornecidas informações sobre a morfologia (tamanho do corpo e cauda, massa e dentição), o uso de hábitat (horário de atividade e substrato), os hábitos alimentares (principais itens), o modo reprodutivo (ovípara ou vivípara), as táticas defensivas e se a mesma oferece risco de envenenamento grave ao ser humano.

O guia também inclui textos sobre outros répteis que podem ser encontrados na Mata Atlântica. A obra apresenta também comentários taxonômicos sobre algumas das espécies e uma lista de todas as serpentes registradas para a Mata Atlântica até o momento, complementada por informações sobre o tipo de hábitat utilizado por cada espécie.

O lançamento será no Museu Biológico do Instituto Butantan (palestra e homenagem às 19 horas) e no Centro de Difusão Cultural (noite de autógrafos a partir das 19h45).

Mais informações com o Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan: (11) 2627-9811.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Jiboia mais rara do mundo é achada viva após mais de 60 anos de buscas


07 de Fevereiro de 2017-
Jiboia do Ribeira foi capturada em comunidade de Sete Barras (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
Jiboia do Ribeira foi capturada em comunidade de Sete Barras (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
Animal foi encontrado em área de Sete Barras, no Vale do Ribeira, SP.
Último registro do animal vivo havia sido feito na mesma região em 1953.

A região do Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, é a casa de uma jiboia considerada por especialistas como a mais rara do mundo. 

O último animal da espécie capturado vivo foi achado há mais de 60 anos, em Miracatu. Passadas mais de seis décadas, a “jiboia do Ribeira”, ou Corralus cropanii, apareceu viva na pequena comunidade do município de Sete Barras. A captura aconteceu no mês passado e foi divulgada na última sexta-feira (3) por pesquisadores do Insituto Butantan e do Museu de Zoologia da USP.

A descoberta do animal que, pelo que se sabe até o momento, é exclusivamente brasileiro, só foi possível graças a um projeto de educação e conservação ambiental desenvolvido há cerca de um ano na comunidade rural do Guapiruvu, onde a jiboia foi encontrada no dia 21 de janeiro por dois moradores.

Trata-se de um macho, de 1,70 metro de comprimento e 1,5 kg, de cor alaranjada, com escamas bem definidas e losangos pretos espalhados pelo corpo.
Biólogo Bruno Rocha segura animal encontrado no Vale (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
Biólogo Bruno Rocha segura animal encontrado
no Vale (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
O biólogo Bruno Rocha, de 33 anos, um dos responsáveis pelo programa comunitário na região, nem era nascido quando a primeira serpente da espécie foi capturada viva, em 1953. O animal foi descrito pelo herpetólogo do Instituto Butantan, Alphonse Richard Hoge, como um macho de um metro de comprimento.

Mais de meio século depois, Rocha não esconde a felicidade de participar do que ele classifica como um novo capítulo da história da ciência mundial. “Não se sabe nada sobre os hábitos dela. Agora será possível estudá-la com todos os detalhes. Existem exemplares da mesma família registrados há muito tempo na África, Ásia e até aqui nas Américas, mas a cropanii só temos identificada na Mata Atlântica do Vale do Ribeira”, explica Rocha, que integra a equipe do Museu de Zoologia da USP.

Apesar das poucas informações sobre a jiboia do Ribeira, os pesquisadores sabem que não se trata de uma serpente venenosa. “É uma descoberta rara e muito importante para a biologia. Finalmente vamos desvendar os mistérios a partir de um um rádio transmissor que será colocado no corpo da cobra, semelhante aos usados em onças e outros animais silvestres, para monitorar o comportamento dela na natureza”, acrescenta.

Por que Vale do Ribeira?
Últimos registros da jiboia do Ribeira foram em Miracatu, Eldorado e Sete Barras (Foto: Reprodução/Google)
Últimos registros da jiboia do Ribeira foram em Miracatu, Eldorado e Sete Barras (Foto: Reprodução/Google)
O foco dos pesquisadores sempre foi a região do Vale do Ribeira justamente pelos primeiros registros datados da década de 1950, em Miracatu. Ao longo dos anos, a jiboia chegou a aparecer outras vezes em Eldorado e em Sete Barras, mas morta.

Motivados pelas últimas ocorrências, os pesquisadores decidiram investir em um trabalho de parceria com a própria comunidade local. O projeto foi determinante para o sucesso da empreitada em busca da “cobra rara”. Para auxiliar na procura, os moradores receberam treinamentos e foram orientados a acionarem a equipe de pesquisadores assim que encontrassem a cropanii. Até um panfleto informativo foi distribuído para facilitar a identificação.

“O projeto mostrou que a parceria entre a ciência e a sociedade funciona e traz benefícios para a produção de conhecimento científico, para a comunidade local e também para a preservação de espécies ameaçadas de extinção”, reforça a bióloga Lívia Corrêa, do Instituto Butantan.

“O pessoal da comunidade Guapiruvu já possui uma frente ambiental chamada ‘Amigos da Mata’ e eu espero que, a partir dessa descoberta, eles ganhem mais visibilidade e recebam ajuda para melhorar a estrutura. A participação deles para encontrar esse animal, que já era praticamente considerado extinto, foi essencial”, acrescenta o biólogo Bruno Rocha.

Satisfação

Pesquisadores do Instituto Butantan, do Museu de Zoologia da USP e do Grupo de especialistas em Boideos e Pitonídeos da IUCN (International Union for Conservation of Nature) desenvolveram um projeto para conservar a jiboia-do-Ribeira. O projeto conta também com o apoio governamental do RAN-ICMBio (Centro Nacional de pesquisa e conservação de Répteis e Anfíbios) e financiamento de The Mohamed Bin Zayed Species Conservation Fund e do Boa & Pythons Specialist Group.

Apesar dos estudos que envolvem dezenas de pessoas, o biólogo Bruno Rocha espera que o trabalho atual seja só o começo de uma grande história que dê ainda mais frutos. “Essa descoberta mexe com meu coração porque vários cientistas tentaram em métodos tradicionais de coleta e não conseguiram, mas a parceria, educação e comunidade foram fundamentais. É fantástico viver um momento desses como cientista, mas o mais importante agora é que a própria jiboia comece a contar sua história quando voltar à natureza nos próximos dias”
Fonte: globo.com

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Espinhos repletos de veneno

Glândula situada na extremidade das cerdas produz secreção tóxica da lagarta-de-fogo
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 254 | ABRIL 2017

© EDUARDO CESAR
Lonomia obliqua, responsável por 500 casos de intoxicação por ano no Brasil
Lonomia obliqua, responsável por 500 casos de intoxicação por ano no Brasil

É no ápice das cerdas que recobrem o dorso das lagartas-de-fogo que se encontra a glândula responsável pela produção de seu veneno, um coquetel de toxinas que em contato com a pele humana pode causar sérios problemas de saúde e, em casos extremos, matar. A identificação da célula produtora de veneno da taturana Lonomia obliqua resulta do trabalho de pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo. Sob a coordenação da bióloga Diva Denelle Spadacci-Morena, do Laboratório de Fisiopatologia, eles analisaram as cerdas da lagarta com o auxílio de um microscópio eletrônico de varredura, capaz de ampliar a imagem dezenas de milhares de vezes, e identificaram a existência de uma célula responsável pela produção da peçonha.

Há algum tempo se sabe que outras lagartas, como as taturanas do gênero Automeris, possuem uma glândula de veneno em seus pelos. Mas havia dúvida sobre o que se passava com as lagartas-de-fogo, que já foram qualificadas popularmente de assassinas por causa dos acidentes fatais. Antes da equipe do Butantan, outros pesquisadores também investigaram as cerdas da Lonomia. Como não encontraram a glândula, inferiram que o veneno devia ser produzido no interior do corpo da taturana — para eles, as cerdas funcionariam apenas como tubos que transportam a secreção para fora.

Além de identificar a célula produtora de toxina, os pesquisadores do Butantan constataram que o veneno, depois de produzido, fica armazenado na extremidade dos pelos. “Um leve esbarrão é o suficiente para romper a ponta e liberar o líquido”, diz Diva, primeira autora do artigo que descreveu o achado em setembro de 2016 na revista Toxicon. Curiosamente, não são todas as cerdas que produzem a peçonha, um líquido de cor alaranjada. Alguns dos pelos liberam hemolinfa, um fluido esverdeado responsável pelo transporte de nutrientes pelo corpo da lagarta.

Comum nas propriedades rurais do Sul do Brasil, essas taturanas podem alcançar 6 centímetros de comprimento. Elas são os exemplares imaturos (larva) de uma mariposa marrom, cujas asas, quando abertas, lembram uma folha seca. As lagartas nascem de ovos depositados em troncos e folhas das árvores e passam por seis estágios de desenvolvimento até se transformarem na mariposa adulta. Como larva, vivem em grupos de mais de 80 indivíduos, que, apesar das cerdas verdes, costumam ser confundidos com a casca das árvores. É nessas situações que ocorrem os acidentes mais graves.

© EDUARDO CESAR
Extraídas com uma tesoura, as cerdas da taturana são depois maceradas e liberam o extrato usado na produção do soro antilonômico no Instituto Butantan
Extraídas com uma tesoura, as cerdas da taturana são depois maceradas e liberam o extrato usado na produção do soro antilonômico no Instituto Butantan

Pequenas quantidades do veneno provocam, já nos primeiros minutos, queimaduras na pele, inchaço local e um leve mal-estar. Em grandes quantidades, no entanto, a peçonha pode desencadear depois de alguns dias distúrbios hemorrágicos e até insuficiência renal. “Nesses casos, se não for tratado, o indivíduo começa a sangrar pelo nariz e pela gengiva e a perder sangue pela urina”, explica o entomólogo Roberto Moraes, um dos autores do estudo da Toxicon. Uma proteína específica do veneno, a Lopap, altera a coagulação sanguínea e facilita a ocorrência de hemorragias.

Relatos de acidentes com a Lonomia começaram a surgir em fins dos anos 1980, sobretudo no norte do Rio Grande do Sul. À época, cerca de 300 pessoas se feriram somente em Passo Fundo, onde a lagarta é mais comum. Ao todo, por ano, são registrados no Brasil cerca de 500 acidentes. Por causa da gravidade dos casos, pesquisadores do Laboratório de Imunoquímica do Instituto Butantan, sob coordenação do imunologista Wilmar Dias da Silva, iniciaram, em 1994, a produção de um soro neutralizador do veneno. A médica Fan Hui Wen, responsável pelo Laboratório de Artrópodes do Butantan, coordena atualmente a produção desse antídoto, elaborado a partir de um extrato das cerdas da lagarta, que, depois de purificado, é injetado em cavalos. Todos os anos o Butantan recebe de agricultores cerca de 3 mil lagartas, quantidade que permite produzir 10 mil ampolas do soro, o suficiente para atender os acidentes que ocorrem no país.

Projeto
 
Identificação e caracterização das toxinas com atividade hemolítica da lagarta Lonomia obliqua e da glândula produtora das toxinas: Estudo bioquímico e morfológico (nº 01/07643-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Ida Sigueko Sano Martins (Instituto Butantan);
Investimento R$ 127.423,13.

Artigo científico
 
SPADACCI-MORENA, D. D. et al. The urticating apparatus in the caterpillar of Lonomia obliqua (Lepidoptera: Saturniidae). Toxicon. 1º set. 2016.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Aranhas - antes da primeira mordida

Aranha-gigante despeja sobre suas presas suco rico em enzimas que inicia a digestã.

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 249 | NOVEMBRO 2016
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© LÉO RAMOS
Exemplares como esse de Nephilingis cruentata conseguem memorizar informações e aperfeiçoar instintos básicos, como os ligados à construção da teia
Exemplares como esse de Nephilingis cruentata conseguem memorizar informações e aperfeiçoar instintos básicos, como os ligados à construção da teia

Com um volumoso abdômen estriado de amarelo e preto, as aranhas-gigantes impressionam por sua voracidade. Habituadas a comerem grilos, baratas e outros insetos, essas aranhas já foram flagradas consumindo presas bem maiores do que elas próprias, como lagartixas e até mesmo pequenas aves. Há tempos os especialistas em aracnídeos se perguntavam como tal proeza ocorria. Um trabalho coordenado pela bioquímica Adriana Lopes, do Instituto Butantan, em São Paulo, começa a apresentar algumas respostas.

Tão logo o jantar se enrosca na teia e é imobilizado pela injeção do veneno, as aranhas-gigantes (Nephilingis cruentata) regurgitam sobre ele um líquido espesso e amarronzado que dissolve seus tecidos, transformando-os em uma gororoba pastosa. Desse modo, as aranhas-gigantes conseguem se alimentar lentamente de suas presas, consumindo pequenas partes pré-digeridas. Por muito tempo se pensou que o líquido lançado sobre a presa fosse o próprio veneno, produzido por uma glândula próxima à boca das aranhas. Ao estudar a digestão da N. cruentata detalhadamente, o grupo de Adriana verificou que esse líquido, na verdade, é o fluido digestivo, rico em enzimas que a ajudam a digerir suas presas.

Facilmente encontradas em jardins, próximas a luminárias, em cantos de paredes ou canteiros de obras, as aranhas-gigantes apresentam um dimorfismo sexual marcante. As fêmeas em geral são bem maiores que os machos. Algumas podem chegar a 4 centímetros (cm) de comprimento. Os machos, por sua vez, têm em média 0,5 cm. Apesar do tamanho, grande o suficiente para deixar de cabelo em pé qualquer pessoa que tenha um leve temor de aranhas, seu veneno é inofensivo para os seres humanos. Nos insetos, porém, ele age sobre o sistema nervoso e causa paralisia — sem, no entanto, matar. As presas costumam estar vivas quando são cobertas pelo fluido e começam a ser parcialmente digeridas.

© LÉO RAMOS
Encontradas em jardins ou próximas a luminárias, essas aranhas podem ficar meses sem comer
Encontradas em jardins ou próximas a luminárias, essas aranhas podem ficar meses sem comer.

A curiosidade sobre a digestão da Nephilingis cruentata levou a equipe de Adriana a iniciar anos atrás a análise da composição química do fluido digestivo dessas aranhas. Em uma busca rápida nos arredores do Instituto Butantan, eles coletaram 10 exemplares. De volta ao laboratório, os pesquisadores os alimentaram e os induziram a produzir o fluido digestivo por meio de estímulos mecânicos e elétricos. Em seguida, fizeram a caracterização química das amostras. Os pesquisadores verificaram que o fluido digestivo era sintetizado nas células secretoras do intestino e que era muito rico em enzimas que quebram ou transformam proteínas, gorduras e açúcares em moléculas menores, que podem ser convertidas em energia mais facilmente. Ao todo, eles caracterizaram quase 400 enzimas, conforme descreveram em um estudo publicado em setembro na revista científica BMC Genomics.

Entre as carboidrases, enzimas que digerem carboidratos (açúcares), o grupo de Adriana identificou uma produção de grandes concentrações de quitinases, especializadas na degradação de quitina, polímero natural responsável pela dureza do exoesqueleto de artrópodes. Dentre as enzimas proteolíticas, que degradam proteínas, as astacinas foram as sintetizadas em maior quantidade. Essas enzimas são comumente encontradas na maioria dos seres vivos. Mas, segundo Adriana, é a primeira vez que se verifica a produção de uma variedade tão ampla de astacinas e em níveis tão elevados. “Identificamos 25 tipos de astacinas no fluido digestivo dessas aranhas”, ela diz.

Por meio de técnicas de bioinformática, os pesquisadores fizeram um estudo filogenético dessas enzimas. Softwares específicos analisaram as sequências de DNA que compõem os genes contendo a receita das astacinas da aranha-gigante e as compararam com as produzidas por outras aranhas e outros artrópodes. Os resultados sugerem que as aranhas evolutivamente mais primitivas produzem menos astacinas do que as que surgiram mais recentemente. Os dados apresentados no artigo ainda são preliminares, explica Adriana, mas dão margem para algumas interpretações. Uma delas é que a digestão em duas fases — uma extracorpórea e outra intracelular — seria uma característica selecionada ao longo de milhões de anos, permitindo a essas aranhas passar longos períodos sem se alimentar. “A Nephilingis cruentata pode ficar sem comer por até um ano”, conta Adriana. “Nessas aranhas, a superprodução dessas enzimas se justificaria pela necessidade de realizar uma digestão que aproveite ao máximo todos os nutrientes.”

© LÉO RAMOS
Após capturar sua presa, as aranhas regurgitam sobre elas um líquido que dissolve seus tecidos, facilitando a ingestão de partes pré-digeridas
Após capturar sua presa, as aranhas regurgitam sobre elas um líquido que dissolve seus tecidos…

Uma evidência obtida pelo grupo de Adriana reforça essa hipótese. Ela e seus colaboradores verificaram que, após a aranha ingerir toda a presa, inicia-se uma segunda fase da digestão, agora dentro das células. Nas células do intestino, a parte dos nutrientes que não foi transformada pelo fluido digestivo é transportada para o interior dos vacúolos digestivos, compartimentos intracelulares repletos de enzimas que fragmentam proteínas provavelmente formados pela fusão dos lisossomos com vesículas contendo nutrientes. Em análises de microscopia, os pesquisadores identificaram grandes quantidades de açúcares e lipídios estocados em células de reserva conectadas ao intestino das aranhas-gigantes. Possivelmente é essa reserva que provê os nutrientes necessários para manter essas aranhas vivas durante os longos períodos de escassez de alimentos.

Indo à caça
 
Em uma linha de trabalho paralela à de Adriana, o biólogo Hilton Japyassú, no Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), investiga a flexibilidade de comportamentos supostamente fixos da N. cruentata. Segundo ele, essas aranhas são capazes de memorizar informações e de aprender com as experiências vividas, aperfeiçoando instintos básicos como os ligados à caça e à construção da teia. Japyassú começou a estudar a espécie há quase 10 anos, quando ainda estava no Laboratório de Artrópodes do Instituto Butantan. Em suas pesquisas, ele verificou que essas aranhas podem alterar seu comportamento de caça ou de construção da teia de acordo com o tamanho das presas que pretendem capturar.

As aranhas-gigantes produzem dois tipos de fio de seda, um seco e outro mais viscoso. Para tecê-los, elas usam diferentes fiandeiras, estruturas associadas a glândulas de seda localizadas na parte de trás do abdômen. Os dois tipos de seda são usados em partes distintas da teia. Os fios secos, por exemplo, dão forma à estrutura da teia, constituída pelos raios; pela espiral seca, construída do centro para as bordas; pelos fios de quadro, que sustentam toda a espiral; e pelo refúgio, conectado à região central onde as aranhas ficam à espera da presa. Os fios viscosos, por sua vez, compõem a espiral adesiva da teia, responsável pela captura.
© LÉO RAMOS
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… facilitando a ingestão de partes pré-digeridas

Quando apanham uma presa grande, as aranhas cortam os fios que sustentam a teia, fazendo-a envolver o futuro jantar e limitar os seus movimentos. Já as presas pequenas são imobilizadas com a injeção de veneno, que as paralisa. Parte dessa plasticidade é decorrente da memória de eventos predatórios anteriores. Segundo o pesquisador, as aranhas são capazes de se lembrar de diferentes aspectos de suas presas, como o tamanho ou o tipo, e também de se recordar do número de animais capturados previamente. Um indício disso é que as dimensões gerais, o formato e o espaçamento entre as espiras da teia levam em conta a frequência e o tamanho dos animais capturados.

A caçada começa quando a aranha direciona a sua atenção para certos setores da teia, geralmente aqueles em que as presas caem com mais frequência. Ela vigia esses setores mantendo tensionados alguns de seus fios com as pernas dianteiras. Essa tensão permite filtrar certos tipos de vibração e detectar as mais sutis. “Quanto mais famintas, mais as aranhas tensionam os fios”, explica o biólogo. “Desse modo, vibrações antes imperceptíveis, produzidas por presas pequenas, passam a ser alvo de sua atenção.” O passo seguinte da caçada é a captura. Assim que um inseto cai na teia, a aranha corre em direção à presa, aproxima-se dela e, a depender das circunstâncias, alimenta-se ali mesmo ou a envolve em mais fios de teia antes de levá-la para um refúgio onde se encontram as capturadas anteriormente.

Analisando a caça dessas aranhas, Japyassú constatou que essas táticas apresentam sinais filogenéticos. Isso significa que certos comportamentos evoluíram ao longo do tempo, sendo modificados e transmitidos para o repertório comportamental de outras aranhas de maneira sistemática como resposta a estímulos do ambiente em que elas vivem. É como se essas táticas envolvessem comportamentos cuja organização no cérebro das aranhas é facilitada. O que explicaria o aprimoramento de certos comportamentos? Para Japyassú, seria a capacidade de aprender, característica do cérebro. “À medida que a aranha vive novas experiências, certos comportamentos são aprimorados em resposta aos desafios impostos pelo ambiente.”

Artigos científicos
 
FUZITA J. F. et al. High throughput techniques to reveal the molecular physiology and evolution of digestion in spiders. BMC Genomics. v. 17 (716), p. 1-19. 2016.

JAPYASSÚ‚ H. F. et al. Predatory plasticity in Nephilengys cruentata (Araneae: Tetragnathidae): Relevance for phylo­geny reconstruction. Behaviour. v. 139 (4), p. 529-44. 2002.

Taxidermia - Natureza no museu

Profissão de taxidermista auxilia estudos taxonômicos, ecológicos, biogeográficos e ambientais
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 250 | DEZEMBRO 2016
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© EDUARDO CESAR
No Museu de História Natural de Taubaté, interior paulista, especialistas mantêm a estética dos animais e simulam o ambiente em que viviam
No Museu de História Natural de Taubaté, interior paulista, especialistas mantêm a estética dos animais e simulam o ambiente em que viviam

Os olhos impávidos, as narinas umedecidas, a pelagem reluzente. O hiper-realismo promovido pela taxidermia, à primeira vista, causa fascínio e estranhamento. Ao fazer com que animais inanimados pareçam vivos, a área desperta o interesse de instituições de pesquisa e ensino do Brasil por possibilitar a conservação de espécies raras ou ameaçadas de extinção, além de auxiliar na identificação e na classificação de variedades muito parecidas entre si. Por sua vez, a exposição de animais taxidermizados em museus tem se revelado uma importante ferramenta didática para estudos ambientais. Pouco conhecida, a profissão de taxidermista — outrora denominada “empalhador” — apresenta-se como uma opção de carreira para aqueles interessados em preservar os animais para estudos científicos.

A taxidermia tem como objetivo manter a estética dos animais, reconstruindo suas características físicas e, às vezes, simulando o ambiente em que viviam. Trata-se de uma profissão que exige habilidade manual e experiência teórica em diversas subáreas da biologia, como anatomia, morfologia e ecologia, segundo o taxidermista Marcelo Felix, do Laboratório de Ornitologia do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP). Ele explica que os profissionais que trabalham nessa área hoje no Brasil são muito especializados e escassos. “Como não existem cursos técnicos ou universitários, a maioria dos profissionais inicia a carreira em cursos informais ou em estágios em institutos de pesquisa e museus”, conta. Segundo Felix, é possível encontrar cursos de taxidermia organizados esporadicamente pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro e pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. A taxidermia também é oferecida no curso de pós-graduação na Universidade de Santo Amaro, em São Paulo.

© EDUARDO CESAR
Profissionais trabalham no estágio final de preparação de anta atropelada em rodovia
Profissionais trabalham no estágio final de preparação de anta atropelada em rodovia

Apesar de ser uma carreira técnica, os interessados precisam cursar graduação em biologia, veterinária ou zootecnia, sendo recomendável fazer pós-graduação em zoologia e, em seguida, procurar por estágios em museus, na própria universidade ou nos institutos de pesquisa. Nesses estágios, o profissional irá aprender as técnicas de preparação dos animais. Por lei, a comercialização de peças taxidermizadas é proibida no Brasil. A prática é permitida apenas para fins de pesquisa ou ensino. O trabalho do profissional só começa quando o animal, morto, é destinado a jardins zoológicos, instituições científicas ou museus.

Marcelo Felix trabalha na profissão desde 2008. Ele entrou em contato com a atividade pela primeira vez pouco antes de concluir a graduação em biologia no Centro Universitário Adventista de São Paulo. “Participei de uma oficina sobre o assunto e conheci o museólogo e taxidermista Emerson Boaventura, que à época prestava serviços para o MZ-USP ”, conta. “Foi ele quem me orientou em meus primeiros passos nessa área.” Durante o estágio com Boaventura, Felix aprendeu as técnicas do processo de taxidermização de um animal. O primeiro passo consiste na retirada da pele, separando-a da carcaça ainda com as vísceras (ver infográfico). A pele é mergulhada em uma solução contendo ácido cítrico e sal, para descontaminação e preservação de suas características, enquanto a carcaça é congelada. Após alguns dias a carcaça é descongelada, e a pele, retirada da solução.
© DIVISÃO DE DIFUSÃO CULTURAL DO MZ-USP
Hiper-realismo pode auxiliar pesquisadores em estudos morfológicos
Hiper-realismo pode auxiliar pesquisadores em estudos morfológicos

Em uma nova fase, os taxidermistas revestem a carcaça com um papel filme e, posteriormente, engessam-na. Algumas horas depois, o gesso é desprendido da carcaça e preenchido com espuma de poliuretano, tomando a forma exata do molde e se solidificando após algumas horas. Por fim, coloca-se em cada pata e na cabeça do animal um pedaço de arame fixado na espuma para que os membros e a cabeça permaneçam parcialmente móveis, permitindo ao taxidermista colocar o animal na posição desejada. Ao fim do processo, costura-se a pele em volta do molde esculpido.

O trabalho é definido como uma arte refinada e complexa pela taxidermista Maria da Graça Salomão, do Instituto Butantan. Ela também conheceu a profissão durante a graduação em biologia na Faculdade de Ciências e Letras Farias Brito, em Guarulhos. “Durante o mestrado, em 1983, meu orientador exigiu que eu guardasse e conservasse as amostras de animais analisadas em minha pesquisa.” Foi então que Maria da Graça começou a aprender as técnicas de preparação e conservação dos animais coletados. Quando foi para o Butantan, em 1987, trabalhou com a taxidermia de répteis e aracnídeos. “Nossa coleção tem animais preservados há mais de 100 anos”, diz. Sua experiência na área lhe permitiu escrever, junto com outros pesquisadores, o livro Técnicas de coleta e preparação de vertebrados (Instituto Pau Brasil de História Natural, 2002), no qual explica técnicas de conservação de aves, mamíferos, anfíbios, entre outros.
094-097_Carreiras_250-info

A taxidermização de animais é uma prática antiga. Na Europa, sabe-se que a atividade teve grande desenvolvimento durante o período da Renascença, ganhando força no século XVIII, em consequência da intensificação das expedições científicas e do desejo de conhecer melhor, e detalhadamente, novas espécies animais. No Brasil, a atividade era bastante difundida entre as décadas de 1930 e 1960, devido à legalização da caça de animais silvestres. Em janeiro de 1967, uma lei federal determinou a proibição da caça e da comercialização de espécimes da fauna brasileira. Com isso, a taxidermia perdeu relevância no país. À época os animais eram preenchidos com arame e palha — daí o termo “empalhado” — e expostos como troféus. O problema é que o uso desses materiais comprometia a fidelidade corpórea do bicho, que acabava ficando levemente deformado.


Os animais taxidermizados expostos em coleções didáticas de museus de história natural, laboratórios ou zoológicos, em geral, são encontrados mortos na natureza. Se estiverem em bom estado, são restaurados e expostos em museus. Em outros casos, são obtidos pelos próprios pesquisadores durante trabalho de campo. Não raro, os animais ficam expostos com dados sobre o local em que foram coletados, com informações científicas, comportamentais e registros fotográficos. As informações são usadas pelos cientistas como base para identificação de novas espécies. “Os pesquisadores comparam as características físicas entre o animal taxidermizado e o encontrado na natureza”, explica Felix. Além disso, os exemplares ajudam no desenvolvimento de estudos morfológicos sem a necessidade de o aluno
ou o pesquisador ir ao hábitat do animal.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Por que os escorpiões agora preocupam

Número de casos de envenenamento cresceu 600% em 15 anos
EVERTON LOPES BATISTA | ED. 247 | SETEMBRO 2016

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© EDUARDO CESAR
O escorpião-amarelo, causador da maioria dos acidentes graves
O escorpião-amarelo, causador da maioria dos acidentes graves
Dezenas de caixas de plástico empilhadas do piso ao teto em uma sala climatizada de uma ala nova do biotério do Instituto Butantan abrigam cerca de 5 mil exemplares vivos de Tityus serrulatus, o escorpião-amarelo, a espécie que mais causa envenenamento em pessoas no país. Técnicos e pesquisadores do laboratório de artrópodes transitam entre as caixas com cuidado, mas sem receio, para alimentar os animais com baratas e grilos, retirados diariamente de um estoque de milhares de insetos mantido nas salas ao lado.
Os escorpiões – tanto o amarelo quanto os de outras espécies – são mantidos ali com duas finalidades. A primeira é a produção do soro usado para neutralizar a ação do veneno – ou peçonha—, cada vez mais importante em vista do aumento de quase 600% no número de acidentes e mortes causados por esses animais nos últimos 15 anos. Esse aumento é o resultado da expansão urbana sobre áreas antes ocupadas por matas, do acúmulo de lixo e entulho que atraem insetos que servem de alimento, e da capacidade desses animais de se adaptarem a ambientes variados, de florestas úmidas até desertos. De acordo com os registros do Ministério da Saúde, os escorpiões provocaram a maior parte dos acidentes com animais peçonhentos no país, com 74.598 casos registrados, e causaram mais mortes (119) que as serpentes (107), em 2015 (ver gráfico).
A segunda finalidade é a pesquisa dos efeitos – muitas vezes inesperados – do veneno de escorpiões no organismo humano. “O conhecimento sobre os componentes do veneno e seus efeitos ainda tem lacunas”, afirma a médica Fan Hui Wen, gestora de projetos do Butantan, que acompanha a produção de soro contra picadas de escorpiões. “Algumas espécies estão causando acidentes com manifestações clínicas diferentes das que até agora eram conhecidas.”
Em um estudo publicado neste mês de setembro na revista Toxicon, pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical, de Manaus, apresentaram o provável primeiro registro de um caso de acidente classificado como grave, com espasmos musculares e alterações neurológicas, causado por Tityus silvestris, uma espécie comum na Amazônia, em geral associada a acidentes sem gravidade. Um homem de 39 anos, com problemas no fígado causados por hepatite B – estava à espera de um transplante –, foi picado no cotovelo e no ombro enquanto dormia em sua casa na periferia de Manaus. Três horas depois, chegou ao hospital da Fundação Medicina Tropical relatando apenas dor e parestesia (formigamento) na região da picada, no braço esquerdo.
Em duas horas, porém, o homem apresentou dificuldade para respirar, taquicardia, hipertensão e espasmos musculares. O quadro se agravou. Ele foi internado em uma unidade de terapia intensiva, recebeu soro e outros medicamentos e foi liberado apenas sete dias depois. “Esse caso indica que o quadro clínico pode se complicar independentemente da espécie que causa o envenenamento”, diz o farmacêutico bioquímico Wuelton Marcelo Monteiro, pesquisador da fundação e um dos responsáveis pelo estudo. “Ainda há poucos trabalhos sobre as consequências e a variação dos efeitos dessa espécie de ampla distribuição geográfica na Amazônia.”
Entre as cerca de 160 espécies de escorpião encontradas no Brasil, apenas 10 causam envenenamento em seres humanos. De modo geral, o veneno – formado por proteínas, enzimas, lipídeos, ácidos graxos e sais – age sobre o sistema nervoso, causando dor intensa e dormência muscular no local da picada. Com menor frequência se observam efeitos sistêmicos como vômitos, taquicardia, hipertensão arterial, sudorese intensa, agitação e sonolência. A dificuldade de respirar caracteriza os quadros mais graves, verificados principalmente em crianças. As picadas por Tityus obscurus, comum na região amazônica, podem causar também efeitos neurológicos, com espasmos, tremores e uma sensação de choque elétrico. “Como o veneno escorpiônico pode ser rapidamente absorvido na corrente sanguínea”, diz o pediatra Fábio Bucaretchi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), “as manifestações clínicas indicativas de envenenamento grave se iniciam em geral nas primeiras duas horas após a picada”.
Em um estudo amplo, publicado em 2014 na Toxicon, Bucaretchi e outros pesquisadores examinaram 1.327 casos de acidentes com escorpiões atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp de 1994 a 2011. Nesse levantamento, predominaram os acidentes apenas com reações locais (79,6%) e sistêmicas, com vômitos, sudorese e alterações no ritmo cardíaco (15,1%). A chamada picada seca – sem sinais de envenenamento – respondeu por 3,4% do total de casos analisados, enquanto os casos mais graves, com risco de morte, foram de 1,8%. “Todos os casos graves e o único caso letal ocorreram em crianças com idade menor que 15 anos”, diz Bucaretchi.
A maioria dos acidentes provocados por animais identificados foi atribuída ao escorpião-preto, Tityus bahiensis (27,7%), e ao amarelo (19,5%), normalmente o principal causador de acidentes e, neste estudo, responsável pelas ocorrências mais graves. O escorpião-amarelo inquieta também em razão de sua capacidade de adaptação ao ambiente urbano e ao tipo de reprodução. As fêmeas dessa espécie conseguem se reproduzir sozinhas, sem precisar de machos, por meio de um processo conhecido como partenogênese; cada ninhada pode resultar em até 30 filhotes.
© EDUARDO CESAR
Fêmea de escorpião-amarelo com filhotes após se reproduzir sozinha, por partenogênese
Fêmea de escorpião-amarelo com filhotes após se reproduzir sozinha, por partenogênese
Em laboratório
“Os estudos com a peçonha de Tityus serrulatus ajudam a entender o quadro de envenenamento, direcionam a produção de melhores antivenenos e possibilitam a descoberta de novas drogas terapêuticas”, explica a biomédica Manuela Berto Pucca, contratada como professora em julho deste ano pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Em seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCF-RP-USP), ela isolou duas toxinas, chamadas Ts6 e Ts15, do veneno do escorpião-amarelo. Em testes in vitro, as duas toxinas inibiram tanto a proliferação de um grupo de células brancas do sangue, os linfócitos T, quanto a produção de uma citocina – molécula de comunicação do sistema imune – conhecida como interferon-gama. De acordo com esse trabalho, publicado em fevereiro deste ano na Immunology, essa propriedade poderia qualificar as duas toxinas como candidatas a medicamentos contra doenças autoimunes. “Os testes já estão sendo realizados e se apresentaram promissores”, diz ela.
Sob orientação do médico José Elpidio Barbosa, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FM-RP) da USP, Manuela desenvolveu um anticorpo monoclonal humano (produzido a partir de técnicas de clonagem de DNA), que deteve a ação do veneno do escorpião- -amarelo em testes em células e em modelos animais (camundongos). Com base nos resultados, os pesquisadores propuseram o uso do anticorpo como uma alternativa ao soro usado atualmente contra picadas de escorpiões. Segundo ela, uma das principais limitações do novo anticorpo é o custo de produção, estimado em R$ 3 mil por ampola.
“Queremos melhorar o antídoto, mas também procuramos por novos medicamentos que possam surgir de moléculas isoladas do veneno”, diz a química Fernanda Portaro, pesquisadora do Butantan. Ela e sua equipe e colegas de outros laboratórios do instituto isolaram e estão caracterizando dois compostos extraídos do veneno: um com ação pró-inflamatória e outro com atividade analgésica. “O veneno dos escorpiões é como uma orquestra executando uma sinfonia, em que cada elemento tem uma função específica, sobre os músculos, o sistema nervoso ou o coração”, afirma a bióloga Daniela Carvalho, da equipe de Fernanda.
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Prevenção
Estima-se em 2,5 bilhões o número de pessoas em áreas de risco para escorpiões no mundo e em 1,2 milhão os casos anuais de envenenamento, com 3.500 mortes, causadas essencialmente pela demora em buscar o atendimento médico. “Os casos fatais podem ser evitados quando se busca ajuda médica com urgência e o tratamento é iniciado logo após o acidente”, ressalta Fan Hui Wen, do Butantan.
Depois de apresentar as salas dos escorpiões, ela mostra, em outra sala, a extração feita de modo manual. Cada animal recebe um choque elétrico de baixa intensidade na cauda e, em resposta, solta uma pequena gota esbranquiçada de veneno. É preciso manter uma grande população de escorpiões porque os animais não resistem a mais de cinco extrações induzidas por choque elétrico, explica Denise Candido, bióloga responsável pela extração de venenos dos escorpiões.
Os animais provêm de hospitais (em geral as pessoas os levam após picadas para identificação), de centros de controle de zoonoses ou de expedições dos próprios pesquisadores, e só entram na linha de produção após passarem por uma quarentena, que elimina aqueles com eventuais doenças. Depois, o método usado para produção de soros é o mesmo usado contra picadas de serpentes e aranhas: o veneno é diluído e aplicado nos cavalos da fazenda São Joaquim, no município de Araçariguama. Os 850 cavalos produzem anticorpos contra o veneno, que depois são extraídos de seu sangue para formar o soro, em um processo que leva de seis a oito meses. Segundo Hui, o Ministério da Saúde necessita de 80 mil ampolas de soro antiescorpiônico por ano, produzido no Butantan, no Instituto Vital Brasil, no Rio de Janeiro, e na Fundação Ezequiel Dias, em Minas Gerais.
“É muito importante prevenir acidentes, limpando os terrenos que possam abrigar escorpiões e evitando o acúmulo de lixo”, recomenda Bucaretchi, da Unicamp. Os especialistas consideram de baixa eficácia uma estratégia adotada em cidades do interior paulista e noticiada nos últimos meses: a criação de galinhas nos quintais de casas ou em condomínios. A razão é simples: apesar de serem predadores naturais dos artrópodes, as galinhas têm hábitos diurnos e os escorpiões são animais noturnos.
No passado, as soluções eram ainda mais inusitadas. No início da década de 1950, os moradores de Ribeirão Preto, então com uma população de quase 80 mil pessoas (hoje são cerca de 600 mil), usaram dois inseticidas hoje proibidos, o benzeno hexaclorado (BHC) e o diclorodifeniltricloroetano (DDT), para deter uma infestação de escorpiões – cerca de 10 mil foram capturados em banheiros, quartos de dormir, cozinhas e quintais de 1949 a 1951, de acordo com um relato na American Journal of Tropical Medicine and Hygiene. Havia campanhas em rádios e jornais, palestras em escolas, pontos de coleta espalhados pela cidade e um prêmio, promovido pelo prefeito, para o estudante que coletasse o maior número de escorpiões.
Projetos
1. Estudo das toxinas Ts6 e Ts15 do escorpião Tityus serrulatus como potenciais drogas terapêuticas para o tratamento de doenças autoimunes (nº 2012/12954-6);Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Eliane Candiani Arantes – Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCF-RP) da Universidade de São Paulo 
(USP); Beneficiária Manuela Berto Pucca;Investimento R$ 235.699,44.
2. Análise do potencial tóxico de proteases e peptídeos presentes no veneno do escorpião Tityus serrulatus e do poder neutralizante dos antivenenos comerciais: Aprimorando o conhecimento do veneno e seu mecanismo de ação (nº 2015/15364-3);Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Fernanda Calheta Vieira Portaro – Instituto Butantan; Investimento R$ 97.681,32.
Artigos científicos

SILVA, T. L. da. The scorpion problem in Ribeirão Preto, São Paulo, Brazil. Notes on epidemiology and prophylaxisAmerican Journal of Tropical Medicine and Hygiene. 1, n. 3, p. 508-13. 1952.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Butantan batiza 17 novas aranhas em homenagem ao filme 'Predador'.
Posted: 10 Aug 2012 07:33 AM PDT

Novas espécies têm mandíbula diferenciada e são pequenas, diz biólogo. Pesquisa integra projeto internacional que começou em 2006.
Rafael Sampaio
Do Globo Natureza, em São Paulo
Pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, identificaram 17 novas espécies de aranha nativas da Mata Atlântica. Os animais têm estrutura de quelícera (mandíbula) diferente de outras espécies, se assemelhando aos vilões do filme "Predador", segundo o biólogo Antonio Brescovit, um dos responsáveis pela descoberta.
As quelíceras das novas aranhas são modificadas e os animais têm as faces cheias de protuberâncias, diz Brescovit. O nome dado ao novo gênero descoberto a partir das espécies, Predatornoops, é inclusive uma homenagem ao filme "Predador". Entre as novas espécies, há várias que foram batizadas relembrando personagens e atores do filme. A aranha Predatoroonops schwarzeneggeri, por exemplo, é uma homenagem ao ator Arnold Schwarzenegger, que atua na produção de Hollywood.

 
 
 
IMAGEM 1: Predatoroonops schwarzeneggeri, aranha batizada em homenagem a ator (Foto: American Museum of Natural History/Divulgação)
Espécies pequenas
As espécies descobertas são pequenas e têm entre 1,8 e 2,1 milímetros, segundo Brescovit. "Elas aparecem no solo, em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, até em Sergipe e no Sul, em Santa Catarina. O importante é que haja vegetação, mesmo que seja de uma área alterada [onde um dia houve Mata Atlântica]", pondera o pesquisador. Ele explica que alguns exemplares das 17 espécies foram encontrados até no campus Butantã da Universidade de São Paulo (USP), onde está localizado o instituto.
As quelíceras modificadas ocorrem basicamente nos machos das espécies. Algumas hipóteses, segundo Brescovit, é que as estruturas sirvam para a cópula ou defesa dos machos."Outra hipótese é que o macho da aranha seguraria a fêmea com as quelíceras para a reprodução", diz o pesquisador.
Ele avalia que o incêndio ocorrido no Instituto Butantan fez a pesquisa demorar para sair. "Levou dois anos e meio para publicar, um pouco atrasado por causa do incêndio. Já era para estar publicado no ano passado", reflete.

Imagem mostra face de aranha recém-descoberta no Brasil 
(Foto: American Museum of Natural History/Divulgação)
Brescovit ressalta, no entanto, que nenhum material do estudo foi perdido com o ocorrido. "Nossos escritórios não foram afetados. O que foi perdido foi muito da coleção [de animais], que ficava no fundo do prédio."
A descoberta faz parte de um projeto internacional, o Inventário Planetário da Biodiversidade (PBI, na tradução do inglês), afirma o pesquisador. Seis cientistas brasileiros fazem parte do grupo, sendo dois de São Paulo, dois do Pará, um do Rio Grande do Sul e outro de Minas Gerais.
Brescovit ressalta que o grupo brasileiro já identificou cerca de 70 espécies dentro do PBI, que começou em 2006. O estudo das 17 novas espécies de aranhas foi publicado no boletim do Museu Americano de História Natural.