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quinta-feira, 8 de setembro de 2022

 


Serpente mais rara da América do Norte encontrada mordendo mais do que podia mastigar

Cobra mais rara da América do Norte encontrada mordendo mais do que podia mastigar
A cobra coroada de pedra da borda foi encontrada morta em Florida Keys, travada em um combate sem vida com uma centopéia gigante que conseguiu engolir no meio do caminho. Crédito: Drew Martin

A serpente mais rara da América do Norte, Tantilla oolitica (cobra coroada pela rocha), foi vista recentemente em um parque nas Florida Keys após um hiato de quatro anos. Embora isso normalmente seja motivo de comemoração entre os conservacionistas, o avistamento da cobra foi mais uma fonte de admiração incrédula do que qualquer outra coisa. A serpente foi encontrada morta, travada em combate sem vida com uma centopeia gigante que conseguiu engolir no meio do caminho.

O duelo fatal marca a primeira vez que os cientistas observam os hábitos alimentares da  intimamente relacionadas têm preferência por centopeias, mas a T. oolitica é tão raramente vista que, até agora, ninguém tinha uma ideia definida do que ela comia. Pesquisadores do Museu de História Natural da Flórida criaram tomografias computadorizadas do par entrelaçado e publicaram seus resultados neste domingo na revista Ecology .

"Fiquei impressionado quando vi as fotos pela primeira vez", disse o coautor Coleman Sheehy, gerente da coleção de herpetologia do Museu da Flórida. “É extremamente raro encontrar espécimes que morreram enquanto comiam presas, e dada a raridade dessa espécie, eu nunca teria previsto encontrar algo assim.

A cobra foi inicialmente encontrada ao lado de uma trilha por um caminhante no John Pennekamp Coral Reef State Park, em Key Largo, que alertou a equipe do parque. O espécime rapidamente chegou ao Museu da Flórida, onde os pesquisadores esperavam determinar a causa exata da morte.

A explicação mais óbvia, dado que a centopéia tinha um terço do tamanho da cobra, seria asfixia. Mas as cobras são conhecidas por devorar presas muito maiores do que elas. Ao contrário das mandíbulas em humanos e na maioria dos outros vertebrados, que estão diretamente ligados ao crânio, as mandíbulas das cobras são mantidas no lugar por ligamentos e músculos flexíveis que lhes permitem envolver a cabeça em torno da comida.

Para ter certeza, os pesquisadores precisariam dar uma olhada no interior. No passado, isso exigiria uma dissecção, o que causa danos irreversíveis que podem dificultar estudos futuros. Mais recentemente, no entanto, os cientistas se voltaram para a tecnologia de tomografia computadorizada, que fornece uma visão incomparável da anatomia de um organismo sem alterar fisicamente o espécime.

Jaimi Gray, um associado de pós-doutorado no museu, corou a cobra com uma solução de iodo para melhorar o contraste de seus tecidos internos e construiu um modelo 3D em escala fina a partir de tomografias computadorizadas.

Cobra mais rara da América do Norte encontrada mordendo mais do que podia mastigar
O duelo fatal marca a primeira vez que os cientistas observam os hábitos alimentares da cobra. Crédito: Museu da Flórida/Jerald Pinson

“Conseguimos realizar uma autópsia digital, que nos permitiu examinar a centopeia e a serpente, incluindo seus ferimentos e conteúdo intestinal, sem nunca pegar um bisturi”, disse ela. Após a digitalização, o espécime foi descolorido e agora permanece intacto nas prateleiras da coleção do Museu da Flórida para futuros pesquisadores estudarem.

O modelo revelou uma pequena ferida no lado da cobra, provavelmente causada pelas poderosas pinças venenosas da centopeia. Acredita-se que as cobras que costumam comer centopeias têm alguma resistência à mistura de veneno cáustico, mas essa suposição ainda não foi definitivamente demonstrada, disse Sheehy. A mordida parecia causar algum  , mas nem isso nem a toxina foram suficientes para impedir a cobra de matar e engolir parcialmente sua presa.

Em vez disso, o golpe final parece ter sido dado pelo tamanho da centopeia. Uma inspeção minuciosa das tomografias mostra que a traqueia da cobra foi pinçada no local aproximado onde a circunferência da centopeia era maior, cortando seu suprimento de ar.

Os resultados oferecem um vislumbre íntimo de uma espécie que muitos temem estar à beira da extinção. Tantilla oolitica uma vez prosperou em terrenos rochosos de pinheiros que se espalharam do sul da Flórida Central até as Keys, mas desde então sofreram uma severa redução no tamanho da população. A espécie foi listada como ameaçada na Flórida desde 1975, e os esforços estão em andamento pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA para que a espécie seja listada federalmente.

Os ecossistemas rochosos de pinheiros evoluíram por milhões de anos ao longo da espinha de um antigo recife de coral, abrigando uma longa lista de plantas e animais raros encontrados em nenhum outro lugar da Terra. Mas os mesmos atributos que promoveram o crescimento de florestas hiperdiversas também fizeram desta parte da Flórida um lugar ideal para construir vilas e cidades. Hoje, uma expansão ininterrupta de desenvolvimento, de Miami a West Palm Beach, substituiu quase inteiramente os ecossistemas nativos. Fora dos Everglades, apenas 2% das terras rochosas de pinheiros originais permanecem. Para animais endêmicos de florestas de pinheiros, como T. oolitica, as novas paisagens urbanas significaram quase aniquilação.

"Não podemos dizer com certeza se eles ainda estão ou não presentes na península da Flórida. Ausência de evidências não é evidência de ausência, mas seu habitat foi basicamente destruído", disse Sheehy.

Por enquanto, os pesquisadores estão encorajados pelo que parece ser uma população um tanto estável de T. oolitica em Key Largo e planejam fazer o máximo uso possível do novo espécime. As tomografias computadorizadas estão disponíveis online gratuitamente e não faltam novas informações que podem ser obtidas a partir delas.

De acordo com Sheehy, qualquer pessoa interessada neste espécime pode acessar os dados da tomografia computadorizada para observar outros aspectos da anatomia da cobra e, como esta é a primeira tomografia computadorizada da espécie, eles serão as primeiras pessoas a fazer essas descobertas. "Este estudo é apenas o começo do que será aprendido sobre esta espécie enigmática a partir dos dados de tomografia computadorizada", disse ele.


Explorar mais


Mais informações: Kevin M. Enge et al, O que matou a cobra mais rara na América do Norte?, Ecologia (2022). DOI: 10.1002/ecy.3857

Tomografias computadorizadas: www.morphosource.org/concern/m … /000435339?locale=en

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Jiboia mais rara do mundo é achada viva após mais de 60 anos de buscas


07 de Fevereiro de 2017-
Jiboia do Ribeira foi capturada em comunidade de Sete Barras (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
Jiboia do Ribeira foi capturada em comunidade de Sete Barras (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
Animal foi encontrado em área de Sete Barras, no Vale do Ribeira, SP.
Último registro do animal vivo havia sido feito na mesma região em 1953.

A região do Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, é a casa de uma jiboia considerada por especialistas como a mais rara do mundo. 

O último animal da espécie capturado vivo foi achado há mais de 60 anos, em Miracatu. Passadas mais de seis décadas, a “jiboia do Ribeira”, ou Corralus cropanii, apareceu viva na pequena comunidade do município de Sete Barras. A captura aconteceu no mês passado e foi divulgada na última sexta-feira (3) por pesquisadores do Insituto Butantan e do Museu de Zoologia da USP.

A descoberta do animal que, pelo que se sabe até o momento, é exclusivamente brasileiro, só foi possível graças a um projeto de educação e conservação ambiental desenvolvido há cerca de um ano na comunidade rural do Guapiruvu, onde a jiboia foi encontrada no dia 21 de janeiro por dois moradores.

Trata-se de um macho, de 1,70 metro de comprimento e 1,5 kg, de cor alaranjada, com escamas bem definidas e losangos pretos espalhados pelo corpo.
Biólogo Bruno Rocha segura animal encontrado no Vale (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
Biólogo Bruno Rocha segura animal encontrado
no Vale (Foto: Lívia Corrêa/Arquivo Pessoal)
O biólogo Bruno Rocha, de 33 anos, um dos responsáveis pelo programa comunitário na região, nem era nascido quando a primeira serpente da espécie foi capturada viva, em 1953. O animal foi descrito pelo herpetólogo do Instituto Butantan, Alphonse Richard Hoge, como um macho de um metro de comprimento.

Mais de meio século depois, Rocha não esconde a felicidade de participar do que ele classifica como um novo capítulo da história da ciência mundial. “Não se sabe nada sobre os hábitos dela. Agora será possível estudá-la com todos os detalhes. Existem exemplares da mesma família registrados há muito tempo na África, Ásia e até aqui nas Américas, mas a cropanii só temos identificada na Mata Atlântica do Vale do Ribeira”, explica Rocha, que integra a equipe do Museu de Zoologia da USP.

Apesar das poucas informações sobre a jiboia do Ribeira, os pesquisadores sabem que não se trata de uma serpente venenosa. “É uma descoberta rara e muito importante para a biologia. Finalmente vamos desvendar os mistérios a partir de um um rádio transmissor que será colocado no corpo da cobra, semelhante aos usados em onças e outros animais silvestres, para monitorar o comportamento dela na natureza”, acrescenta.

Por que Vale do Ribeira?
Últimos registros da jiboia do Ribeira foram em Miracatu, Eldorado e Sete Barras (Foto: Reprodução/Google)
Últimos registros da jiboia do Ribeira foram em Miracatu, Eldorado e Sete Barras (Foto: Reprodução/Google)
O foco dos pesquisadores sempre foi a região do Vale do Ribeira justamente pelos primeiros registros datados da década de 1950, em Miracatu. Ao longo dos anos, a jiboia chegou a aparecer outras vezes em Eldorado e em Sete Barras, mas morta.

Motivados pelas últimas ocorrências, os pesquisadores decidiram investir em um trabalho de parceria com a própria comunidade local. O projeto foi determinante para o sucesso da empreitada em busca da “cobra rara”. Para auxiliar na procura, os moradores receberam treinamentos e foram orientados a acionarem a equipe de pesquisadores assim que encontrassem a cropanii. Até um panfleto informativo foi distribuído para facilitar a identificação.

“O projeto mostrou que a parceria entre a ciência e a sociedade funciona e traz benefícios para a produção de conhecimento científico, para a comunidade local e também para a preservação de espécies ameaçadas de extinção”, reforça a bióloga Lívia Corrêa, do Instituto Butantan.

“O pessoal da comunidade Guapiruvu já possui uma frente ambiental chamada ‘Amigos da Mata’ e eu espero que, a partir dessa descoberta, eles ganhem mais visibilidade e recebam ajuda para melhorar a estrutura. A participação deles para encontrar esse animal, que já era praticamente considerado extinto, foi essencial”, acrescenta o biólogo Bruno Rocha.

Satisfação

Pesquisadores do Instituto Butantan, do Museu de Zoologia da USP e do Grupo de especialistas em Boideos e Pitonídeos da IUCN (International Union for Conservation of Nature) desenvolveram um projeto para conservar a jiboia-do-Ribeira. O projeto conta também com o apoio governamental do RAN-ICMBio (Centro Nacional de pesquisa e conservação de Répteis e Anfíbios) e financiamento de The Mohamed Bin Zayed Species Conservation Fund e do Boa & Pythons Specialist Group.

Apesar dos estudos que envolvem dezenas de pessoas, o biólogo Bruno Rocha espera que o trabalho atual seja só o começo de uma grande história que dê ainda mais frutos. “Essa descoberta mexe com meu coração porque vários cientistas tentaram em métodos tradicionais de coleta e não conseguiram, mas a parceria, educação e comunidade foram fundamentais. É fantástico viver um momento desses como cientista, mas o mais importante agora é que a própria jiboia comece a contar sua história quando voltar à natureza nos próximos dias”
Fonte: globo.com

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Jiboia rara é achada após mais de 60 anos de buscas

Cobra foi encontrada em comunidade rural no interior de São Paulo
Como toda jiboia, a Corallus cropanii não é venenosa e mata suas presas por esmagamento Lívia Corrêa/Instituto Butantan
 
Com a ajuda da comunidade rural de Guapiruvu, em Sete Barras (SP), a pouco mais de cem quilômetros da fronteira com o Paraná, pesquisadores do Instituto Butantan e do Museu de Zoologia da USP anunciaram a redescoberta da espécie Corallus cropanii, conhecida como jiboia-do-Ribeira ou jiboia-de-Cropan.

A cobra, considerada uma das mais raras do mundo, foi encontrada pela segunda vez viva em seu habitat após 64 anos (veja foto).

A primeira, achada em 1953, em Miracatu (SP), foi descrita pelo herpetólogo do Butantan Alphonse Richard Hoge como um macho de aproximadamente um metro. O novo espécime, encontrado no último dia 21 por moradores da região de Sete Barras, também é um macho com 1,7 metro e 1,5 quilo. Como toda jiboia, ela não é venenosa e mata suas presas por esmagamento.

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“A cobra será estudada a fim de se descobrir mais informações sobre sua biologia e hábitos. Como nunca foi observada na natureza, não temos muitas informações sobre o seu comportamento”, disse a bióloga do Instituto Butantan Lívia Corrêa. “Ela será solta em seu habitat natural e receberá um equipamento com radiotelemetria que possibilitará seu rastreamento na natureza e a transmissão de informações aos pesquisadores”, explicou.

Segundo a bióloga, a redescoberta só foi possível graças à parceria com a comunidade do Vale do Ribeira. Os pesquisadores deram palestras e materiais sobre o animal com o objetivo de encontrá-lo vivo. As ações mostraram a importância de conservar as serpentes e o ecossistema onde elas vivem, além de promover a apropriação da biodiversidade local pela comunidade (que por falta de informação matava as serpentes encontradas).

Registros da jiboia

• 1953: Encontrada viva pela 1ª vez em Miracatu (SP)
• 1969: Capturada em Pedro Toledo (SP) e levada já morta ao Butantan
• 1978: Localidade incerta, mas chegou por trem de Santos (SP) ao Butantan
• 2003: Encontrada sem vida em Eldorado (SP). Cabeça e pele conservados em álcool por um morador
• 2009: Apenas fotos em Guapiruvu, Sete Barras (SP)
• 2017: Encontrada viva em Guapiruvu, Sete Barras (SP)