Mostrando postagens com marcador peixe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador peixe. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de junho de 2022

 

No Camboja, pesquisadores documentam o maior peixe de água doce do mundo

Rio Mekong produz uma arraia gigante que pesa 300 quilos e tem 4 metros de comprimento

Pesquisadores medem arraia gigante no rio Mekong, no Camboja
Pesquisadores medem uma arraia gigante pesando 300 quilos capturada no rio Mekong, no Camboja. É o maior peixe de água doce já documentado. SINSAMOUT OUNBOUNDISANE/FISHBIO

Graças a pescadores locais, uma equipe de cientistas em uma expedição no Camboja para marcar peixes do rio Mekong descobriu o maior peixe de água doce já documentado – uma arraia gigante de 300 quilos que se estende por quase 4 metros do nariz à cauda.

“É quase inconcebível que um peixe desse tamanho ainda ocorra em um rio tão pescado e desenvolvido quanto o Mekong”, diz Zeb Hogan, biólogo de peixes da Universidade de Nevada, Reno.

A equipe de cientistas, parte de uma colaboração internacional chamada Wonders of the Mekong, marcou e liberou a arraia recordista ( Urogymnus polylepis ) graças a ter laços cooperativos com comunidades pesqueiras locais e um pouco de sorte. Os pesquisadores estavam se preparando para colocar etiquetas acústicas em 200 peixes e usar conjuntos de receptores para rastrear seus movimentos por 300 quilômetros ao longo do Mekong fortemente trançado, perto da cidade de Stung Treng, no norte do Camboja. Os dados podem ajudar nos esforços de conservação.

No início de maio, pescadores locais disseram aos pesquisadores que haviam capturado inadvertidamente uma arraia fêmea de 180 quilos. A equipe Maravilhas do Mekong, na área de implantação de receptores acústicos, ajudou a devolver os peixes com segurança ao rio.

Então, pescadores da mesma área relataram ter capturado uma arraia “muito maior” na noite de 13 de junho. Os cientistas chegaram ao local em 14 de junho e “felizmente, eles também tinham os suprimentos necessários para marcar” os peixes, diz Hogan, diretor do projeto Maravilhas do Mekong que estava em Reno na época. Depois de medir o peixe, a equipe ajudou a liberá-lo de volta à natureza. A arraia eclipsou o maior peixe de água doce documentado anteriormente: um peixe-gato gigante ameaçado de extinção de 293 quilos capturado no Mekong, na Tailândia, em 2005.

Os pesquisadores das Maravilhas do Mekong não estão simplesmente caçando peixes grandes. O projeto se concentra em um trecho remoto do rio que abriga cerca de 1.000 espécies aquáticas e acredita-se que seja um refúgio de época seca criticamente importante para peixes de água doce ameaçados de extinção. Além da biodiversidade, o Mekong apoia a pesca regional e é uma fonte de alimento vital para grande parte do Sudeste Asiático.


Esta é a primeira vez que um conjunto acústico foi implantado no Camboja para rastrear peixes marcados. A arraia gigante também se tornou o primeiro dos 200 peixes que a equipe do Wonders of the Mekong planeja marcar, levando o esforço “a um início inesperado e incrível”, diz Hogan.

Encontrar um espécime tão raro “sinaliza que ainda há tempo para proteger esses megapeixes de água doce”, diz Solomon David, ecologista aquático da Nicholls State University, que não está associado ao projeto Wonders of the Mekong. “As águas doces estão entre os ecossistemas mais ameaçados do mundo”, acrescenta. “Precisamos agir rapidamente para conservar esses habitats e sua biodiversidade carismática única.”


sábado, 9 de maio de 2015

Helicoprion - o tubarão de mandíbula espiralada

© Ray Troll
O Helicoprion ("serra em espiral") é um tubarão que surgiu nos oceanos do Carbonífero há 280 milhões de anos e se extinguiu há 250 milhões de anos, no início do Triássico. Viveu onde hoje são Ásia, Oceania e América do Norte. Media de 3 a 4 m de comprimento e pesava entre 300 e 450 kg.

O que mais chama a atenção no Helicoprion são os dentes da mandíbula, dispostos em espiral e lembrando muito uma serra circular. Conforme o indivíduo crescia, os dentes mais velhos eram empurrados para o centro da espiral e davam lugar aos novos, maiores. A serrilha em suas bordas indica alimentação carnívora; talvez os dentes fossem especializados para quebrar a concha de amonites ou atacar cardumes de peixes.
Os tubarões têm esqueleto feito de cartilagem, que só se fossiliza em condições excepcionais. Por isso, os únicos fósseis conhecidos deste animal são os dentes, e ainda há muitas dúvidas sobre sua posição exata e como o Helicoprion agia com eles. Não foi até conhecer seu parente Ornithoprion que descobriu-se que a espiral ficava na maxila inferior, mas ainda assim reconstruções do animal divergem ao colocá-la na frente ou mais ao fundo da boca. Provavelmente, a segunda proposição: na ponta da mandíbula, os dentes teriam aumentado significativamente o arrasto e, assim, o esforço para nadar.
 
Há fósseis da Rússia, da China, da Austrália, dos EUA, do México e do Ártico canadense. Os primeiros, descobertos nos Montes Urais, foram descritos por Alexander Karpinsky em 1899. Os parentes vivos mais próximos do Helicoprion são as quimeras, peixes cartilaginosos que vivem nas profundezas oceânicas do hemisfério Norte.
Classificação científica:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Chondrichthyes
Subclasse: Holocephali
Ordem: † Eugeneodontida
Família: † Agassizodontidae
Gênero: † Helicoprion
Espécies: Helicoprion bessonovi, H. davish, H. ferrieri, H. ergasaminon, H. jingmenense, H. mexicanus, H. nevadensis e H. sierrensis
© Mundo Pré-Histórico

Os dentes novos e mais fortes que surgiam permitiam que o Helicoprion se alimentasse de presas progressivamente maiores ao longo da vida

Leedsichthys

© 2003 Robert Nicholls
O Leedsichthys problematicus ("peixe de Leeds") foi um peixe ósseo gigante que viveu nos oceanos europeus do período Jurássico, há 165 milhões de anos. Media até cerca de 30 m de comprimento e pesava 80 toneladas, provavelmente o maior peixe que já existiu.
 
Era especializado em comer zooplâncton, pequenos peixes, águas-vivas e camarões, que filtrava da água com seus 40 mil dentes. O Leedsichthys vivia em pequenos grupos, nadando à procura de alimento próximo à superfície. Apesar de seu enorme tamanho, também possuía predadores, que atacavam principalmente os jovens, velhos e doentes.
 
Alfred Leeds Nicholson descobriu a espécie em 1886, na Inglaterra, e a chamou de L. problematicus porque foi extremamente difícil interpretá-la com base apenas em fragmentos de fósseis. Nunca foi encontrada a espinha dorsal completa do Leedsichthys, por isso seu tamanho exato é incerto.

Classificação científica:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Actinopterygii
Ordem: Pachycormiformes
Família: Pachycormidae
Gênero: Leedsichthys
Espécie: Leedsichthys problematicus
© National Geographic
© Dmitry Bogdanov

quarta-feira, 11 de março de 2015

Peixe das cavernas

Espécie recém-descoberta em caverna de Goiás vive exclusivamente em ambientes subterrâneos. O animal já está ameaçado de extinção, devido à ação humana no entorno do seu hábitat. 
 
Por: Valentina Leite
Publicado em 10/03/2015 | Atualizado em 10/03/2015
Peixe das cavernas
Apesar de recém-descoberto, o peixe ‘Ituglanis boticario’ já está ameaçado de extinção: tem dificuldade de encontrar alimento devido aos desmatamentos e ao uso de agrotóxicos e pesticidas no entorno da caverna onde vive. (foto: Pedro Rizzato) 
 
Uma nova espécie de peixe que vive exclusivamente em cavernas foi descoberta na Gruna da Tarimba, em Mambaí (GO), a cerca de 500 km de Goiânia, durante uma expedição de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) ao local. O animal, batizado de Ituglanis boticario, foi descrito oficialmente na revista da Sociedade Brasileira de Zoologia.

Segundo o ictiólogo Pedro Rizzato, pesquisador da UFSCar na época da descrição da nova espécie e agora doutorando na Universidade de São Paulo, esse peixe tem um papel biológico de extrema importância no local onde vive. “A espécie alimenta-se principalmente de invertebrados aquáticos, como larvas de insetos e, por isso, é essencial para o equilíbrio do ambiente por controlar as populações de suas presas e impedir que elas se proliferem”, explica.

Rizzato: “A espécie alimenta-se principalmente de invertebrados aquáticos, como larvas de insetos e, por isso, é essencial para o equilíbrio do ambiente por controlar as populações de suas presas e impedir que elas se proliferem”
 
Em 2004, já tinham sido vistos e coletados dois exemplares dessa espécie na mesma região. Entretanto, essa pequena quantidade de peixes inviabilizava uma descrição científica detalhada. Foi apenas em 2013, com o financiamento da Fundação Boticário de Proteção à Natureza, que as expedições às cavernas puderam ser retomadas e novos exemplares, coletados.

Para Rizzato, esse é um achado importantíssimo, sob vários aspectos. “Trata-se de uma espécie pertencente a um grupo pouco conhecido de peixes, os bagrinhos tricomicterídeos, e a descrição de outras espécies traz novas e importantes informações que permitem aos pesquisadores conhecer melhor as relações evolutivas entre os organismos”, avalia. E complementa: “Além disso, o fato de esta ser uma espécie exclusivamente subterrânea é altamente relevante, já que o Brasil é atualmente o segundo país com o maior número de espécies subterrâneas conhecidas no mundo, ficando atrás apenas da China.”

O I. boticario é um peixe troglóbio – palavra que vem do grego troglos = ‘caverna’. Outra característica marcante dos peixes desse grupo é a presença de pequenos dentes, semelhantes a espinhos, na região lateral da cabeça. Eles servem para que o animal se prenda às pedras no fundo dos rios, evitando que seja levado pela correnteza ou em enxurradas.
Ituglanis boticario
O ‘I. boticario’ possui o corpo fino e alongado, podendo medir até 10 centímetros de comprimento. Algumas particularidades da espécie são a pigmentação mais clara e barbilhões (estruturas sensoriais semelhantes a bigodes) longos. (foto: Pedro Rizzato)
A espécie recém-descoberta possui o corpo fino e alongado, podendo medir até 10 centímetros de comprimento. Apesar de semelhante a outros peixes de sua região, o I. boticário apresenta certas particularidades. “Os olhos são menores, sua pigmentação mais clara e os barbilhões, que são estruturas sensoriais semelhantes a bigodes, mais longos”, explica o ictiólogo.

Pressão antrópica

Infelizmente, a espécie já está ameaçada de extinção. Os peixes dependem de alimentos levados pela água da chuva para dentro da caverna (como larvas de insetos e outros pequenos invertebrados e até matéria em decomposição). Mas, por causa dos desmatamentos e do uso de agrotóxicos e pesticidas no entorno, eles têm dificuldade de encontrar comida. Além disso, a urina do gado criado nas proximidades da caverna também é prejudicial, pois libera na água grandes concentrações de amônia, uma substância tóxica.
Gruna da Tarimba
O peixe vive em um rio subterrâneo na Gruna da Tarimba, caverna localizada em Goiás que sofre impacto negativo do desmatamento e de atividades agropecuárias no seu entorno. (foto: Ricardo Martinelli)
“Em uma contagem feita em uma área de 200 metros de extensão do rio subterrâneo que fica dentro da gruta, foi constatada a presença de 20 a 30 peixes adultos”, pontua Rizzato. “Isso já é considerado uma população muito pequena e reflete as dificuldades que a nova espécie enfrenta por lá.”
Para proteger I. boticario e outros seres que vivem na Gruna da Tarimba ameaçados pela ação humana, o pesquisador defende a criação de unidades de conservação nos arredores da caverna. “Pela ocorrência dessa nova espécie de peixe, bem como por outras características relevantes que apresenta, o local deve ser considerado pela legislação ambiental de proteção às cavernas vigente no país um ambiente de máxima prioridade de conservação, e medidas devem ser tomadas pelos órgãos ambientais para fazer valer essa legislação e preservar o patrimônio da Gruna da Tarimba”, ressalta.

Valentina Leite
Ciência Hoje On-line