quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Rosetta supera ficção ao pousar robô em cometa na busca pela origem da vida

Do UOL, em São Paulo
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  • ESA/Rosetta/Philae/ROLIS/DLR
    Imagem enviada pelo robô Philae mostra aproximação do cometa 67P, antes do pouso: missão histórica Imagem enviada pelo robô Philae mostra aproximação do cometa 67P, antes do pouso: missão histórica
Um sinal emitido a mais de 500 milhões de quilômetros da Terra mudou a história da exploração espacial nesta quarta-feira (12), ao anunciar que o robô Philae havia pousado com sucesso sobre o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Dotado de um laboratório miniaturizado, o robô integra a missão Rosetta, que busca mais respostas sobre a origem da vida na Terra.

O projeto da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), que custou o equivalente a R$ 4 bilhões, entra para a história por fazer aquilo que até então só existia na ficção-científica. Um feito de engenharia, ciência e matemática combinados permitiu que um robô de tamanho semelhante ao de uma máquina de lavar viajasse 6 bilhões de quilômetros atracado à sonda Rosetta para alcançar o cometa 67P e, após alinhamento, iniciasse uma descida de sete horas para pousar pela primeira vez em um cometa.
O robô Philae, aliás, pode ter pousado não apenas uma vez, mas duas vezes, segundo indicou  Stephan Ulamec, gerente de pouso da missão Rosetta. Informações iniciais apontam que o robô teria "quicado" sobre a superfície, antes da aterrissagem final. "Hoje não pousamos apenas uma vez, mas duas vezes no cometa", afirmou Ulamec, sob aplausos dos cientistas e jornalistas reunidos no centro de Darmstadt, na Alemanha.

A preocupação é que o robô não está fixado como deveria à superfície do cometa. Durante a operação, os arpões que deveriam ter sido disparados pelos pés do robô não funcionaram. Os cientistas terão de decidir se tentarão acionar os arpões novamente para garantir a atracagem.
A posição na qual se encontra a sonda Rosetta, abaixo da linha do horizonte do cometa, fez com que o centro de controle perdesse o link antes do horário programado. A comunicação deve ser restabelecida nas primeiras horas desta quinta-feira (13), quando os cientistas saberão qual é a posição correta do robô Philae.
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Sonda Rosetta chega a cometa em busca de pistas sobre "origem da vida"29 fotos

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12.nov.2014 - Ilustração divulgada pela ESA (agência espacial europeia) mostra o pouso do robô Philae, da missão Rosetta, no cometa 67P. O robô vai coletar amostras, fazer análises e tirar fotos do cometa que serão enviadas para a central da ESA, na Alemanha. Os cientistas esperam coletar informações sobre a formação da vida Leia mais ESA/ATG medialab

Primeiras imagens

As primeiras imagens enviadas pelo robô Philae mostram a aproximação do cometa 67P. Os cientistas esperam que nesta quinta-feira seja possível receber imagens já do robô na superfície.
"Foi um grande passo para a civilização humana", afirmou Jean-Jacques Dordain, diretor da Agência Espacial Europeia.

O robô é capaz de coletar e analisar amostras do solo, além de captar imagens que chegam ao centro de controle com uma atraso de meia hora. Como a distância entre o cometa e a Terra é considerável, os cientistas decidiram que não seria possível trazer as amostras -- por isso optaram por enviar um laboratório ao cometa.

O que faz do pouso do robô Philae um feito histórico repousa fundamentalmente no propósito da missão Rosetta. Os cientistas esperam descobrir mais pistas para determinar se a origem da vida no planeta Terra poderia estar associado ao bombardeio de cometas em eras passadas. "Cometas são a fonte original da água na Terra. Aquele robozinho está agora posicionado e pronto para reescrever o que sabemos sobre nós mesmos", escreveu o astronauta canadense Chris Hadfield, que foi comandante da Estação Espacial Internacional.

Os cometas são feitos de material que data da origem dos planetas e do nascimento do sistema solar. Os cientistas esperam aprender mais sobre essa formação e como os cometas carregaram água e materiais orgânicos complexos para os planetas.
Não é a primeira vez que uma agência espacial envia uma sonda a um cometa. Em 1986, a Nasa (agência espacial norte-americana) enviou uma sonda que voou pela cauda do cometa Halley. Em 2005, a aeronave Impacto Profundo chegou a disparar um bloco de cobre no tempo Temple 1. Mas somente a missão Rosetta pode dizer que pousou um robô na superfície de um cometa.
 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Febre Chikungunya

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A febre chikungunya é uma doença viral parecida com a dengue, transmitida por um mosquito comum em algumas regiões da África. Nos últimos anos, inúmeros casos da doença foram registrados em países da Ásia e da Europa. Recentemente, o vírus CHIKV foi identificado em ilhas do Caribe e na Guiana Francesa, país latino-americano que faz fronteira com o estado do Amapá.

O certo é que o chikungunya está migrando e chegou às Américas. No Brasil, a preocupação é que o Aedes aegypti e o Aedes albopictus, mosquitos transmissores da dengue e da febre amarela, têm todas as condições de espalhar esse novo vírus pelo País. Seu ciclo de transmissão é mais rápido do que o da dengue. Em no máximo sete dias a contar do momento em que foi infectado, o mosquito começa a transmitir o CHIKV para uma população que não possui anticorpos contra ele. Por isso, o objetivo é estar atento para bloquear a transmissão tão logo apareçam os primeiros casos.

Sintomas
Embora os vírus da febre chikungunya e os da dengue tenham características distintas, os sintomas das duas doenças são semelhantes.
Na fase aguda da chikungunya, a febre é alta, aparece de repente e vem acompanhada de dor de cabeça, mialgia (dor muscular), exantema (erupção na pele), conjuntivite e dor nas articulações (poliartrite). Esse é o sintoma mais característico da enfermidade: dor forte nas articulações, tão forte que chega a impedir os movimentos e pode perdurar por meses depois que a febre vai embora.
Ao contrário do que acontece com a dengue (que provoca dor no corpo todo), não existe uma forma hemorrágica da doença e é raro surgirem complicações graves, embora a artrite possa continuar ativa por muito tempo.
Diagnóstico
O diagnóstico depende de uma avaliação clínica cuidadosa e do resultado de alguns exames laboratoriais. As amostras de sangue para análise devem ser enviadas para os laboratórios de referência nacional.
Casos suspeitos de infecção pelo CHIKV devem ser notificados em até 24 horas para os órgãos oficiais dos serviços de saúde.

Tratamento
Na fase aguda, o tratamento contra a febre chikungunya é sintomático. Analgésicos e antitérmicos são indicados para aliviar os sintomas. Manter o doente bem hidratado é medida essencial para a recuperação.
Quando a febre desaparece, mas a dor nas articulações persiste, podem ser introduzidos medicamentos anti-inflamatórios e  fisioterapia.

Prevenção
Não existe vacina contra febre chikungunya. Na verdade, a prevenção consiste em adotar medidas simples no próprio domicílio e arredores que ajudem a combater a proliferação do mosquito transmissor da doença.

Observação importante:
No Brasil, até o momento, só foram registrados três casos importados da febre chikungunya. Os pacientes foram infectados no exterior, num dos 40 países por onde o vírus circula faz tempo. Os episódios foram controlados, sem que houvesse nenhum sinal de transmissão do CHIKV em território nacional.
No entanto, o risco de transmissão local existe. A proximidade da Copa do Mundo e de outros eventos no País favorece a vinda de turistas provenientes de áreas infectadas pelo CHIKV. Mesmo assim, não há motivo para alarme.  Segundo dados fornecidos pelo Ministério da Saúde,  nossos serviços de saúde e de vigilância sanitária estão atentos. Os casos confirmados no Brasil foram notificados para a Organização Mundial da Saúde (OMS). Na mesma linha de conduta, médicos, laboratórios e as secretarias municipais e estaduais de saúde estão recebendo orientação sob a melhor forma de agir diante da nova doença.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Estudo revela que primeiros europeus sobreviveram à Era do Gelo

Publicado em 11/11/2014, às 08h45

Pesquisadores da Universidade de Copenhague utilizaram o DNA de um fóssil conhecido por Kostenki 14 para seu estudo / Foto: Divulgação Pesquisadores da Universidade de Copenhague utilizaram o DNA de um fóssil conhecido por Kostenki 14 para seu estudo Foto: Divulgação
 
O DNA recuperado de um osso fossilizado da perna de um homem que viveu há 36 mil anos sugere que os primeiros europeus sobreviveram à Era do Gelo, revelam pesquisadores nesta quinta-feira. Os pesquisadores da Universidade de Copenhague utilizaram o DNA de um fóssil conhecido por Kostenki 14 para seu estudo, publicado na revista Science.

O genoma deste caçador é o segundo mais antigo já sequenciado de um humano moderno e foi encontrado na região que hoje é o oeste da Rússia.

Quando os investigadores o compararam a outros genomas de humanos antigos, encontraram um nível "surpreendente" de semelhança genética com os primeiros europeus conhecidos.
Isto sugere que alguns "caçadores-coletores do Paleolítico com ancestrais comuns conseguiram sobreviver à 'Última Máxima Glacial' e colonizar a massa continental da Europa durante mais de 30 mil anos", destaca a equipe.
O gelo avançou e recuou durante estas dezenas de milhares de anos e neste período algumas culturas desapareceram completamente, mas outras foram capazes de sobreviver.
O genoma de Kostenki também mostrou um pequeno percentual de genes de Neanderthal, o que revela que houve um cruzamento dos humanos anatomicamente modernos com os neanderthais há cerca de 54 mil anos, muito antes do que se pensava.

Os pesquisadores sabem, há algum tempo, que ocorreu um cruzamento entre neanderthais e os primeiros humanos modernos, que abandonaram a África em direção à Europa. Mas este último estudo permite ter uma maior aproximação do período em que ocorreu esta cruzamento.
Segundo o trabalho, tal cruzamento se deu muito antes de a população europeia começar a se separar em três grupos distintos, há mais de 36 mil anos.

Pesquisadores da UFPE identificam espécie inédita de pterossauro

Publicado em 02/10/2014, às 17h09 | Atualizado em 11/11/2014, às 13h01

O fóssil foi encontrado no Sítio São Gonçalo, no município de Santana do Cariri (CE) / Foto: divulgação UFPE O fóssil foi encontrado no Sítio São Gonçalo, no município de Santana do Cariri (CE) Foto: divulgação UFPE
Pesquisadores das Universidades Federal de Pernambuco (UFPE), Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e Regional do Cariri (Urca) anunciaram nesta quinta-feira (2) a descoberta de uma espécie de pterossauro, encontrada em solo nordestino. O fóssil do Maaradactylus kellneri, que viveu há 111 milhões de anos, foi encontrado no Sítio São Gonçalo, no município de Santana do Cariri, no Ceará, distante 500 quilômetros da capital Fortaleza.

A apresentação da novidade aconteceu no Auditório Reitor João Alfredo, na Reitoria da UFPE, Campus Recife, onde foi exposto o crânio do animal, com dois fragmentos de dentes e a reconstrução em três dimensões do crânio e da mandíbula. A descoberta foi publicada na edição deste mês da revista científica neozelandesa Zootaxa.

Ilustração do pterossauro feita pelo paleoartista Maurílio Oliveira Ilustração do pterossauro feita pelo paleoartista Maurílio Oliveira Foto: divulgação
De acordo com as características físicas do dinossauro, acredita-se que o animal se alimentava de peixes. “A crista fina e os dentes à frente do crânio ajudavam a romper a superfície da água para pegar os peixes”, explicou a professora Juliana Sayão, do Centro Acadêmico de Vitória (CAV)/UFPE e do Programa de Pós-Graduação em Geociências do Centro de Tecnologia e Geociências (CTG), Campus Recife/UFPE.

A docente integra a equipe de pesquisa junto com os professores Gustavo Oliveira (Departamento de Biologia/UFRPE) e Antônio Álamo Saraiva (Laboratório de Paleontologia/Urca), além do doutorando em Geociências Renan Bantim (UFPE), que analisou o fóssil na sua pesquisa de dissertação do Mestrado em Geociências da UFPE, sob a orientação de Juliana Sayão. Esta é a primeira vez que uma espécie de pterossauro é descrita por um grupo de pesquisadores sediado no Nordeste do País.

O fóssil do crânio foi coletado, em 2010, sobre o solo, sem necessidade de escavação, um fato comum no Sítio São Gonçalo (o terreno é uma propriedade privada e pertence ao diretor do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri/Urca, professor Plácido Cidade Nuvens). Na época, Renan Bantim era aluno de graduação do curso de Ciências Biológicas da Urca, então, o material foi guardado para estudo durante a pós-graduação dele, iniciada no ano seguinte, na UFPE.

A nova espécie de pterossauro é da Era Mesozoica, período Cretáceo, e viveu na região da Bacia Sedimentar do Araripe, localizada no sul do Ceará, alcançando os estados de Pernambuco e Piauí. Antes do Maaradactylus kellneri, a última identificação de uma nova espécie de pterossauro dentado (Anhangueridae) no local aconteceu em 2003.

O estudo de achados paleontológicos prossegue na Bacia Sedimentar do Araripe. Os professores Juliana Sayão e Gustavo Oliveira realizam duas excursões didáticas ao ano, cada um, com alunos de graduação e pós-graduação. Também são feitas coletas e escavações periódicas por grupos de pesquisadores no local.

O NOME - A origem do nome Maaradactylus remonta a uma lenda dos índios Cariri, que habitaram a região sul do Ceará. Os longos dentes do pterossauro fazem alusão à lenda de Maara, filha do chefe da tribo que, por um feitiço, foi transformada em um monstro com grandes dentes que atraía e abocanhava pescadores no rio. A terminação “dactylus” (do grego “dedo” – em alusão ao “dedo de voo”) é normalmente atribuída a animais desse gênero. Já kellneri homenageia o pesquisador Alexander Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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Pterossauro

É a 1ª vez que uma espécie de pterossauro é descrita por grupo de pesquisadores sediado no Nordeste
Crédito: UFPE

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Ecos da separação


Não, não foi engano. Em 2011, geólogos colheram amostras de granito, um tipo de rocha continental, da Elevação do Rio Grande, uma cadeia de montanhas submersas a cerca de 1.300 quilômetros do litoral do Rio Grande do Sul.

Pensava-se que essas montanhas seriam resultado da formação do assoalho oceânico e de erupções vulcânicas, portanto, formadas por outro tipo de rocha. Dois anos depois, por meio de um submarino, colheram outras amostras de rochas continentais, cuja análise reforçou a hipótese de que essa região do Atlântico Sul poderia de fato ser um pedaço de continente que teria submergido durante a separação da América do Sul e da África, iniciada há 120 milhões de anos.

A conclusão deu valor econômico à Elevação do Rio Grande. Em julho, o governo federal recebeu a autorização para levar adiante o plano de exploração de jazidas de cobalto dessa região, situada em águas internacionais, e a possibilidade de ali haver reservas de outros minerais, como níquel, manganês e terras-raras tornou-se mais concreta. Cresceu também seu valor científico, por servir de argumento adicional para a hipótese de que a separação da América do Sul da África foi mais complicada e fascinante do que se pensava.
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A Elevação do Rio Grande: agora, fragmentos de um continente © JAMSTEC
Geólogos do Brasil, dos Estados Unidos, da Alemanha e da França reunidos no Rio de Janeiro em abril concluíram que os grandes blocos de rochas – ou microplacas – que formam os dois continentes e o assoalho oceânico não se afastaram como duas partes de uma folha rasgada, mas esticaram, se quebraram e se posicionaram caoticamente. Algumas partes podem ter ficado no meio do caminho e afundado, enquanto outras se afastavam e se misturavam, formando um imenso mosaico que agora se torna um pouco mais claro.
As rochas coletadas da Elevação do Rio Grande – granitos, granulitos, gnaises e pegmatitos – devem ter de 500 milhões a 2,2 bilhões de anos, de acordo com as análises de equipes da Universidade de Brasília e da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais e Serviço Geológico do Brasil (CPRM). "As idades não estão fora do que encontramos na América do Sul e na África", diz Roberto Ventura Santos, diretor de geologia da CPRM. Segundo ele, os levantamentos sísmicos indicaram que a espessura da crosta, ali, é de cerca de 30 km, "típica de crosta continental e não oceânica", reiterando a conclusão de que se trata de um resquício de continente.
fapesp-rochas-de-muitas-idadesEssa descoberta, uma das mais espetaculares da geologia brasileira dos últimos tempos, trouxe algumas dúvidas. Pensava-se que as duas cadeias montanhosas do Atlântico Sul, a Rio Grande e a Dorsal Atlântica, tivessem se formado na mesma época, mas agora se cogita que pode não ter sido assim. E quais são os efeitos da Elevação do Rio Grande? Uma cadeia com montanhas de 3.200 metros de altura no fundo do Atlântico Sul, cujo topo está a apenas 800 metros de profundidade, deve formar barreiras para a circulação oceânica, mas ainda não se sabe ao certo como. Ventura acredita que algumas respostas podem vir à tona com a análise de uma coluna com 70 metros de sedimentos do fundo do mar, que, espera-se,
 permitirá a reconstituição de fenômenos climáticos e geológicos dos últimos 7 milhões de anos.
"A identificação de rochas continentais na Elevação do Rio Grande muda o quadro da evolução do Atlântico Sul, que se formou com a separação dos dois continentes", comenta o geólogo Peter Christian Hackspacher, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. Há quase 20 anos, por meio de pesquisas de campo no Sudeste e Sul do Brasil, na Namíbia e em Angola, ele examina os sinais das possíveis forças que levaram à separação da América do Sul e da África. Suas conclusões reforçam a contestação do modelo tradicional, segundo o qual as linhas de costa dos dois continentes, representando os blocos de rochas que os formaram, poderiam se encaixar. Há um encaixe na costa do Nordeste com o Oeste da África, mas em outras regiões, como o litoral do Rio de Janeiro, parecem faltar partes do quebra-cabeça de rochas.

Serra do Mar Rejuvenescida

Os blocos de rochas que antes formavam um só continente se fragmentaram e se alinharam com outros, mais antigos ou mais novos, formando a região montanhosa do Sudeste brasileiro e do Oeste africano, conclui Hackspacher, em colaboração com as equipes de Ulrich Glasmacher, da Alemanha, Antonio Olímpio Gonçalves, de Angola, e de Ana Olívia Magalhães, da Universidade Federal de Alfenas, Minas Gerais. Contrariando as expectativas, blocos mais antigos, como as serras da Mantiqueira e da Bocaina, que soergueram há 120 milhões de anos, estão no interior do continente, e nas bordas, como no litoral entre os estados do Paraná e do Rio Grande do Sul, estão blocos mais recentes, com 35 milhões a 20 milhões de anos (ver mapa).
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Efeitos do soerguimento depois da abertura do Atlântico: vale de um rio no Centro-Oeste de Angola com rochas formadas a 2 bilhões de anos... © PETER C. HACKS PACHER/UNESP
"Não estou descobrindo a roda, estou apenas medindo por outras técnicas", diz ele, reconhecendo as bases conceituais oferecidas por professores da Universidade de São Paulo como Fernando Almeida, Umberto Cordani e Benjamim Bley Brito Neves, que já haviam reconhecido que a América do Sul era formada por microplacas de rochas com idades e origens variadas (verPesquisa Fapesp nº 188). Claudio Ricommini, também da USP, questionou um pouco mais a visão habitual da formação dos continentes ao verificar que a idade das rochas da bacia sedimentar de Taubaté variava de 33 milhões a 55 milhões de anos, bem longe dos supostos 120 milhões que deveriam ter por estarem próximas do litoral.
Há quase 10 anos, tendo à mão equipamentos para medir a idade e a variação da temperatura das rochas de acordo com a profundidade – quanto menor a temperatura, mais superficial e recente é a rocha –, Ana Olívia propôs a Hackspacher, então seu orientador de doutorado, que examinassem a idade das rochas de regiões do Sul e Sudeste do Brasil distantes da costa. Eles partiam do pressuposto de que blocos de rochas mais antigas e mais recentes sobem e afundam, expondo-se de modo alternado na superfície. A partir daí, "resultados muito bons, coerentes geologicamente e com razoável grau de confiabilidade estatística acerca dos processos responsáveis pelo soerguimento crustal das serras do Mar e da Mantiqueira, puderam ser delineados", diz ela. Em uma série de "descobertas espetaculares", definiu Hackspacher, encontraram blocos de rochas com soerguimento entre 60 milhões e 90 milhões de anos, que não se encaixavam no modelo clássico de formação da América do Sul a partir da separação da África.
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... e estrada Florianópolis-São Joaquim, que cruza a serra do Rio do Rastro em Santa Catarina com rochas vulcânicas formadas há 134 milhões de anos. © PETER C. HACKS PACHER/UNESP
Centenas de medições levaram a conclusões que ajudam a desfazer conceitos antigos. Um exemplo é a provável idade da serra do Mar, a cadeia montanhosa que se estende por quase 1.500 km ao longo do litoral, do Espírito Santo a Santa Catarina. "Até 10 anos atrás, quando se começou a pôr o dedo na ferida e a se questionar alguns pressupostos da evolução geológica do Atlântico Sul", diz Hackspacher, "todos entendiam que a serra do Mar teria se formado há 120 milhões de anos. No entanto, estamos vendo que a serra tem apenas 35 milhões anos e não é um rescaldo da separação dos continentes".
O fato de o rio Tietê correr para oeste é uma indicação de fenômenos geológicos mais recentes. Segundo Hackspacher, se a serra tivesse se formado há 120 milhões de anos, o rio provavelmente correria para o mar, não para o interior do continente. Hoje a hipótese mais examinada é que essa cadeia de montanhas poderia ser um efeito da formação dos Andes, iniciada há cerca de 60 milhões de anos, que poderia ter gerado grandes ondulações, afetando o relevo, com baixos, como a região do Pantanal mato-grossense, e altos, como as serras da Mantiqueira e do Mar. "Não acho difícil aceitar essa possibilidade, mas as provas ainda não são suficientes", diz ele.
Hackspacher e seus colegas estão vendo fenômenos semelhantes na Namíbia e em Angola. Em junho, complementando os levantamentos em terra, um navio oceanográfico alemão registrou sinais de placas de rochas, aparentemente com idade similar à da Elevação do Rio Grande, próximas ao litoral da Namíbia.

Projeto

História de exumação da plataforma sul-americana, a exemplo da região Sudeste brasileira: termocronologia por traços de fissão e sistemáticas Ar/Ar e Sm/Nd (nº 2000/03960-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Peter C. Hackspacher (Unesp); Investimento R$ 1.282.335,65 (FAPESP).

Artigos científicos

Revista Pesquisa Fapesp -

Entenda os três pilares da sustentabilidade

 
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É comum surgir, de tempos em tempos, novos paradigmas no mundo corporativo que acabam alterando significativamente a maneira como as empresas se posicionam perante seus públicos e a sociedade em geral.
 
Houve épocas em que a relação produção versus tempo era o atributo de destaque entre os concorrentes. Surgiu, posteriormente, a necessidade de humanização das marcas, dando uma maior importância à imagem e à relação com seus consumidores.
 
De alguns anos para cá, parece que a menina dos olhos das empresas tem sido a tal da sustentabilidade. E, desde então, observa-se o esforço incansável das organizações na promoção de ações e divulgação dessa poderosa palavra em anúncios, logomarcas, propagandas e embalagens de todos os produtos possíveis.
 
Mas, afinal, o que é sustentabilidade? Você também já se viu com essa dúvida? Então confira nosso post e entenda exatamente do que se trata esse tão difundido conceito:

A confusão de conceitos

Durante muito tempo se acreditou, erroneamente, que a sustentabilidade estaria diretamente relacionada ao meio ambiente. Seguindo esse princípio, as empresas começaram a fomentar projetos de preservação da flora e da fauna, de reflorestamento, de proteção a espécies ameaçadas de extinção, dentre outras ações pontuais que, por mais que sejam válidas, não representam, em si, o conceito mais amplo do desenvolvimento sustentável.

Os três pilares

Atualmente, essa ideia é dividida em três principais pilares: social, econômico e ambiental. Para se desenvolver de forma sustentável, uma empresa deve atuar de forma que esses três pilares coexistam e interajam entre si de forma plenamente harmoniosa.
Vamos então entender um pouco mais de cada um desses pilares?

Social

Trata-se de todo capital humano que está, direta ou indiretamente, relacionado às atividades desenvolvidas por uma empresa. Isso inclui, além de seus funcionários, seu público-alvo, seus fornecedores, a comunidade a seu entorno e a sociedade em geral.
Desenvolver ações socialmente sustentáveis vai muito além de, por exemplo, dar férias e benefícios aos funcionários. Deve-se proporcionar um ambiente que estimule a criação de relações de trabalho legítimas e saudáveis, além de favorecer o desenvolvimento pessoal e coletivo dos direta ou indiretamente envolvidos.

Econômico

Para que uma empresa seja economicamente sustentável, ela deve ser capaz de produzir, distribuir e oferecer seus produtos ou serviços de forma que estabeleça uma relação de competitividade justa em relação aos demais concorrentes do mercado.
Além disso, seu desenvolvimento econômico não deve existir às custas de um desequilíbrio nos ecossistemas a seu redor. Se uma empresa lucra explorando as más condições de trabalho dos funcionários ou a degradação do meio ambiente da área à sua volta, por exemplo, ela definitivamente não está tendo um desenvolvimento econômico sustentável, já que não existe harmonia nas relações estabelecidas.

Ambiental

Por fim, o desenvolvimento sustentável ambientalmente correto se refere a todas as condutas que possuam, direta ou indiretamente, algum impacto no meio ambiente, seja a curto, médio ou longo prazos.
 
É comum vermos empresas adotando medidas mitigatórias, como, por exemplo, promover ações de plantio de árvores após a emissão de gases poluidores, como se uma coisa compensasse a outra.
 
O desenvolvimento sustentável busca, em primeiro lugar, minimizar ao máximo os impactos ambientais causados pela produção industrial. Caso não seja esse o objetivo, provavelmente  estaremos falando muito mais de estratégias de marketing do que de sustentabilidade de fato.

A parte do todo

Vale ressaltar, mais uma vez, que a sustentabilidade precisa de planejamento, acompanhamento e avaliação de resultados, pois seus três pilares devem estar alinhados com os objetivos da empresa, não podendo ser definidos com base em ações pontuais ou simplesmente compensatórias.
 
O desenvolvimento sustentável é um caminho trilhado diariamente, com respeito mútuo e consciência de que todas as empresas, comunidades, pessoas e demais seres são partes integrantes de um único ecossistema. Assim, para que haja equilíbrio, é necessário que cada parte leve em consideração o todo, entendendo que é só uma pequena parte de um universo infinitamente maior, mas que pode ser afetado por suas ações.
 
E então, agora que você reviu seu conceito e descobriu a verdade por trás das poderosas campanhas tidas como sustentáveis, comente aqui e nos conte se você conhece alguma empresa que promova ações verdadeiramente sustentáveis. E a empresa onde você trabalha, é adepta dessa filosofia? Compartilhe suas opiniões e experiências conosco!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Archaeopteryx e o elo perdido entre aves e dinossauros


Archaeopteryx - Ilustração: NobuTamura (http://paleoexhibit.blogspot.com) (http://spinops.blogspot.com/)/ Creative Commons
Archaeopteryx – Ilustração: NobuTamura (http://paleoexhibit.blogspot.com) (http://spinops.blogspot.com/)/ Creative Commons
Solnhofen, Alemanha, 1861. Em uma pedreira, trabalhadores acham a impressão de uma pena em uma placa de calcário . Ela aparenta ser comum e não possui nenhuma característica extraordinária, exceto sua idade: 145 milhões de anos. O local havia sido um lago superficial de água quente e salgada, onde poucas formas de vida conseguiam sobreviver. Mas, eventualmente, alguns animais acabavam aprisionados ali. Crustáceos, insetos, dinossauros e pterodáctilos ficaram imortalizados após se transformarem em fósseis no fundo da lagoa. Assim como aquela pena. Mas de onde ela veio? Somente aves possuem penas. Que tipo de animal conviveu com dinossauros e dividiu os céus com pterodáctilos? As respostas viriam alguns meses depois.

O fóssil de um animal estranho foi encontrado próximo a cidade de Langenaltheim, Alemanha. Ele poderia ser tanto uma ave quanto um réptil. Tinha membros adornados com penas, como acontece com as aves atuais. Certamente poderiam ser descritos como asas, mas essas asas tinham dedos separados, cada um dotado de uma garra. A cauda era longa e com ossos densos, como a de um lagarto – exceto pelas penas que brotavam por todos os lados. O crânio estava danificado, mas um pedaço da mandíbula inferior deixava claro que o animal possuía dentes. A espécie foi colocada no grupo dos terópodes (que inclui o Tyrannosaurus rex e o Velociraptor) e recebeu o nome de Archaeopteryx (asa antiga). Será que o elo perdido entre aves e dinossauros havia sido encontrado?
Fósseis de Archaeopteryx - Fotos: H. Raab - Crative Commons
Fósseis de Archaeopteryx – Fotos: H. Raab – Creative Commons
A descoberta causou barulho na comunidade científica. Charles Darwin tinha publicado A Origem das Espécies havia dois anos. Em seu livro, diz que todos os organismos são descendentes de seres que viveram anteriormente. Mas grande parte da comunidade científica da época aceitava a ideia de que Deus havia criado cada espécie individualmente. O novo fóssil sugeria que os répteis poderiam ter dado origem às aves e começava a mudar a opinião de muita gente.
A questão agora era entender porque esses animais desenvolveram essas estruturas. Será que o surgimento das penas estaria ligado ao surgimento do voo?

Essa pergunta começou a ser respondida em 1996, quando paleontólogos chineses descobriram o fóssil de outro terópode: Sinosauropteryx. Uma fileira de filamentos finos e ocos, que ia da cabeça até a cauda do animal, era visível na rocha calcária. Porém, a analise do esqueleto era clara: esses bichos se locomoviam no solo e não podiam voar. Então, por que essas criaturas tinham penas?
Fóssil de Sinosauropteryx mostra uma camada de penas que vai da cabeça até o final da cauda do animal - Foto: Sam /Olai Ose/Skjaervoy/ Creative Commons
Fóssil de Sinosauropteryx mostra uma camada de penas que vai da cabeça até o final da cauda do animal – Foto: Sam /Olai Ose/Skjaervoy/ Creative Commons
Sinosauropteryx - Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Sinosauropteryx – Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Talvez o Sinosauropteryx pudesse gerar calor e as penas funcionariam como um isolante térmico. Assim ele conseguiria manter a temperatura durante a noite. Na manhã seguinte, o animal poderia sair para caçar antes do sol aquecer os corpos de seus competidores de sangue frio.

Existe outra possibilidade: as penas poderiam ser a diferença entre o sucesso e o fracasso na hora do acasalamento. Elas teriam surgido com a função de atrair um parceiro para a reprodução (como no caso do pavão). Os fósseis que começaram a surgir a partir de 1996 começaram a dar sustentação para essa hipótese e mostram uma transição gradual entre os terópodes e as aves. Uma das descobertas mais promissoras foi o fóssil de Anchiornis, um animal do tamanho de uma galinha com penas pretas e brancas que cobriam o corpo e uma crista vermelha que adornava a cabeça. As penas do animal eram quase idênticas às usadas pelas aves para voar, mas eram simétricas e frágeis demais para o voo. É possível que a evolução dessa plumagem extravagante seja fruto da seleção sexual, assim como a cauda do pavão.
Bolsas microscópicas, denominadas melanossomos, foram descobertas no interior das penas de alguns fósseis. Dependendo do estado de conservação dessas bolsas os cientistas conseguem saber as cores das penas dos animais. O Anchiornis tinha penas pretas e brancas que cobriam o corpo e uma crista vermelha que adornava a cabeça - Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Bolsas microscópicas, denominadas melanossomos, foram descobertas no interior das penas de alguns fósseis. Dependendo do estado de conservação dessas bolsas os cientistas conseguem saber as cores das penas dos animais. O Anchiornis tinha penas pretas e brancas que cobriam o corpo e uma crista vermelha que adornava a cabeça – Ilustração: Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com)/Creative Commons
Faltava ainda responder uma questão crucial: Como e quando surgiu a habilidade de voar? A transição final de um animal terrestre com penas para uma espécie capaz de conquistar o espaço aéreo ainda gera debate. Alguns pesquisadores dizem que os dinossauros emplumados desenvolveram o voo a partir do solo, batendo as asas enquanto corriam. Outros afirmam que os animais usavam as penas para sustentar o corpo ao saltar da copa das árvores, depois começaram a planar até que desenvolveram a capacidade de bater as asas. Talvez ambas as teorias estejam certas. Talvez a habilidade de voar tenha surgido em diferentes espécies de dinossauros. Talvez, ao olhar para as aves de hoje, vemos o resultado de apenas uma dessas transições.
De uma forma ou de outra o Archaeopteryx continua sendo uma das descobertas científicas mais revolucionárias da história e permanece como a maior prova da evolução que pode ser encontrada no fundo de um lago superficial de água quente e salgada.