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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Possíveis reservatórios do hantavírus

Pesquisadores identificam anticorpos contra vírus em morcegos de diferentes espécies
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 0:20 29 de setembro de 2015
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© WIKICOMMONS
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Morcegos de São Paulo e Minas Gerais apresentaram anticorpos específicos contra nucleoproteína recombinante do hantavírus

Morcegos brasileiros de espécies e hábitos alimentares distintos, e não apenas aqueles que se alimentam de insetos, podem estar servindo como reservatório do hantavírus, causador de doenças cardiopulmonares e outras complicações. Em um estudo publicado na revista The American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, um grupo internacional de pesquisadores sob coordenação do biólogo Gilberto Sabino-Santos Jr, do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), analisou morcegos de várias espécies que se alimentam de frutas, carne e sangue. Ao todo, capturaram 270 animais entre fevereiro de 2012 e abril de 2014 em São Paulo e no norte de Minas Gerais. Destes, 53 tiveram amostras de sangue colhidas para análises.

Os pesquisadores verificaram que nove deles tinham anticorpos específicos contra a nucleoproteína recombinante do hantavírus Araraquara, variedade assim chamada em referência à cidade do interior paulista, onde foi encontrada pela primeira vez em 1995. O resultado, segundo eles, é preocupante, dada a diversidade desses mamíferos no país. “Os resultados também sugerem que esses animais tiveram contato com o vírus em algum momento e, portanto, estariam servindo de reservatório do hantavírus”, diz Sabino-Santos. Até então, outros estudos sugeriam que só roedores e morcegos que se alimentavam de insetos poderiam abrigar o vírus.

Os roedores são os principais reservatórios naturais conhecidos do hantavírus, que os transmitem pela urina, saliva e fezes. No Brasil, o rato-de-rabo-peludo (Necromys lasiurus) é o principal transmissor do vírus. O mesmo roedor também é responsável pela disseminação do protozoário Leishmania (Viannia) braziliensis, causador da leishmaniose tegumentar americana, a forma mais comum de leishmaniose em seres humanos no território nacional (ver Pesquisa FAPESP nº 101).

Os diversos tipos de hantavírus representam um grave problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil. De 1993 a 2012, o país registrou um total de 1.573 casos de síndrome pulmonar causada pelo hantavírus, com uma taxa de letalidade de 39%. Os indivíduos infectados têm febre alta e sintomas semelhantes a um resfriado comum, o que aumenta os riscos de transmissão para outras pessoas. No entanto, a doença pode rapidamente evoluir para um edema pulmonar e insuficiência respiratória.

“O papel desses animais enquanto reservatórios de hantavírus ainda não foi totalmente esclarecido”, explica Sabino-Santos. ”O potencial impacto de morcegos infectados na transmissão do vírus para humanos precisa ser mais estudado.” Para verificar se de fato os morcegos funcionam como reservatórios naturais do hantavírus, o grupo de Sabino-Santos pretende avaliar o genoma do vírus nas fezes e na urina dos animais. “Queremos tentar detectar o vírus nos tecidos de pulmão, coração e rim. Se o vírus for encontrado nesses tecidos, e se o estiverem excretando nas fezes e na urina, então teremos um forte indício de que os morcegos são reservatórios naturais de hantavírus e podem transmitir a doença para humanos.” A transmissão se dá pelo contato com a urina, fezes ou saliva do morcego. Essas situações podem ocorrer em regiões rurais e sem saneamento.

Projeto

Detecção e ecologia de hantavírus em pequenos mamíferos selvagens e em seus ectoparasitas (nº 11/06810-9); Modalidade Bolsas no país – Doutorado; Pesquisador responsável Luiz Tadeu Moraes Figueiredo Bolsista Gilberto Sabino dos Santos Junior (FMRP-USP); Investimento R$ 155.882,0 (FAPESP).

Artigo científico

Sabino-Santos Jr, G. et al. Evidence of Hantavirus Infection among Bats in Brazil. The American Society of Tropical Medicine and Hygiene. v. 93, n. 2, p. 404-6. ago. 2015.

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