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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Um estranho no Grand Canyon

Pegadas fósseis de 280 milhões de anos são o primeiro registro de vertebrados, em tese, não adaptados a ambientes secos em um antigo deserto
Parque Nacional do Grand Canyon, nos Estados Unidos
Heitor Francischini
Não muito longe da Trilha do Eremita, uma das mais conhecidas rotas de caminhada do Parque Nacional do Grand Canyon, no estado norte-americano do Arizona, um bloco de arenito de 4,6 metros (m) de comprimento por 2,2 m de altura foi encontrado em 2013. 

A pedra gigante despencara de uma das encostas que pontuam a paisagem árida e montanhosa da região. Esse bloco provém de rochas sedimentares formadas pelo processo de compactação e cimentação dos grãos de quartzo de um deserto que existiu ali há aproximadamente 280 milhões de anos, no início do período Permiano. Em uma das faces do bloco, havia quatro trilhas de pegadas fossilizadas, vestígios deixados por animais da pré-história que andaram por aquelas paragens quando havia um deserto com dunas formadas pelo vento. Em outras seis localidades da região, também em rochas do Permiano da formação geológica denominada Arenito Coconino, foram achados mais 12 conjuntos de rastros semelhantes

Paleontólogos do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha estudaram as pegadas fósseis e chegaram a uma conclusão inesperada: os vestígios foram produzidos por animais peculiares que, em teoria, não deveriam ter vivido em um deserto, pois não fazem parte do grupo reconhecidamente apto a sobreviver e se reproduzir longe de ambientes úmidos, os amniota.

     
Rastros de animal em bloco de arenito que pertenceu a antigo deserto que existiu no Parque Nacional do Grand Canyon, nos Estados Unidos - Parque Nacional do Grand Canyon.

As pegadas fossilizadas representam o primeiro registro conhecido de um enigmático grupo extinto de vertebrados denominados diadectomorfos, quadrúpedes que tinham algumas características de anfíbios e outras de répteis, em um deserto

“Essa é a evidência mais antiga de colonização de um ambiente desértico por vertebrados anamniotas, que não estavam, em princípio, aptos a viver em locais tão áridos”, comenta o paleontólogo Heitor Francischini, que hoje faz estágio de pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), principal autor do artigo que descreve as pegadas, publicado no periódico científico Paläontologische Zeitschrift em 13 de maio deste ano. “Não esperávamos encontrar o registro desses animais em rochas provenientes de um paleodeserto.”

Os anamniotas são vertebrados cujos embriões não são revestidos por membranas (o âmnio, o cório e o alantoide) que lhes servem de proteção contra o ressecamento e choques mecânicos. Seus ovos são desprovidos de uma casca rígida. Essa característica obriga esses animais, hoje representados pelos peixes e anfíbios, a viver dentro ou perto da água, onde depositam diretamente seus ovos. Os amniotas, que hoje incluem os répteis, os mamíferos e as aves, gestam seus filhotes dentro do próprio corpo ou depositam na terra seus ovos, que têm casca dura. 

De aparência que lembra um corpulento lagarto, com patas curtas, os diadectomorfos são considerados como animais de transição entre os anamniotas e os amniotas. “Antes dessas pegadas, pensávamos que apenas alguns tipos de amniotas viviam em desertos antigos”, diz Spencer Lucas, curador da seção de paleontologia do Museu de História Natural e Ciência do Novo México, em Albuquerque, outro autor do estudo. “Agora sabemos que os habitantes desses ambientes eram muito mais diversos.”
Ilustração de como teria sido o animal que deixou as pegadas fósseis no Parque Nacional do Grand Canyon.

Francischini foi chamado para estudar as pegadas fósseis encontradas no bloco de arenito em 2017, quando, como parte de uma bolsa-sanduíche do seu doutorado, passou uma temporada no museu norte-americano sob supervisão de Lucas. Como o brasileiro estuda icnofósseis, vestígios deixados por animais que permanecem preservados nas rochas, os rastros encontrados no Grand Canyon se tornaram objeto de um novo trabalho. 

A sucessão de pegadas, associadas ao gênero Ichniotherium, foi produzida por animais adultos e juvenis que tinham cinco dedos sem garras. Seu tamanho varia entre 11 e 37 centímetros, indício de que esses seres podiam passar de 1 m de comprimento. Esse tipo de pegada é comumente encontrado na Europa e com menor frequência na América do Norte e na África.
Ancestral comum
 
Sua descoberta em rochas associadas a um paleodeserto, se for corroborada por outros achados semelhantes, talvez possa levar a uma nova revisão na classificação dos diadectomorfos, grupo que tem sido alvo de reavaliações à medida que surgem mais evidências sobre seu provável modo de vida. Atualmente, eles são considerados como o grupo mais próximo dos primeiros amniotas, que surgiram por volta de 350 milhões de anos atrás. Ambos os grupos são vistos como muito próximos em termos evolutivos e teriam descendido de um ancestral comum. 

No entanto, cada linhagem teria seguido um caminho distinto, sendo, aparentemente, apenas os amniotas especializados em se reproduzir sem a presença de água. Pelo menos, essa é a interpretação mais clássica. “A presença de diadectomorfos em um ambiente árido significa que eles provavelmente teriam que ser capazes de se reproduzir como hoje fazem os amniotas, seja dando à luz a seus filhotes ou botando algum tipo de ovo com casca”, pondera o paleontólogo Juan Carlos Cisneros, da Universidade Federal do Piauí, que estuda répteis dos períodos Permiano e Triássico e não participou do trabalho sobre as pegadas fósseis do Arizona. 

“Contudo, nunca foram encontrados ovos desse grupo de animais com casca. Por isso, essa questão continua em aberto.” Há ainda outra possibilidade: hoje existem alguns anfíbios anamnióticos adaptados a desertos, que se reproduzem por meio de ovos sem cascas e que não são incubados no corpo dos pais. Ainda que incomum, esse tipo de acomodação também pode ter ocorrido no passado.

Desde 1918, um ano antes de o parque nacional ter sido criado, a região do Grand Canyon apresenta registros de pegadas fósseis. Segundo Vincent Santucci, coordenador do programa de paleontologia do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, esse tipo de vestígio é descoberto com regularidade nessa área do Arizona. 

“Há uma abundância de pegadas fósseis no Arenito Coconino, o que sugere que muitos vertebrados viviam nesse antigo deserto”, comenta Santucci, que também assina o novo estudo. “Mas nenhuma delas, até então, se parecia com a de um diadectomorfo.”

Artigo científico

sábado, 17 de novembro de 2018

Grand Canyon: localização, formação e fatos


Grand Canyon viewed from Hopi Point, on the south rim. New evidence suggests the western Grand Canyon was cut to within 70 percent of its current depth long before the Colorado River existed.

Grand Canyon visto do ponto de Hopi, na borda sul. Novas evidências sugerem que o Grand Canyon ocidental foi cortado em 70 por cento da sua profundidade atual muito antes do Rio Colorado existir.
Credit: National Park Service
O Grand Canyon é realmente um buraco muito grande no chão. Tem 277 milhas (446 km) de comprimento, 29 km de largura e mais de 1.600 metros de profundidade. É o resultado da constante erosão do rio Colorado ao longo de milhões de anos.

Where is the Grand Canyon?

O Grand Canyon fica no canto noroeste do Arizona, perto das fronteiras de Utah e Nevada. A maior parte do Grand Canyon fica no Parque Nacional do Grand Canyon e é administrada pelo Serviço Nacional de Parques, a Nação Tribal Hualapai e a Tribo Havasupai.
Map of the Grand Canyon National Park and region

Map of the Grand Canyon National Park and region
Credit: National Park Service
O rio Colorado, que atravessa o cânion, toca sete estados, mas o Parque Nacional do Grand Canyon está dentro das fronteiras do estado do Arizona. Enquanto o Arizona é conhecido como o estado do Grand Canyon, o anexo Glen Canyon National Recreation Area está em Utah e do Lago Mead National Recreation Area faz fronteira com o Grand Canyon, em Nevada.


O clima do cânion é semiárido, com algumas seções do planalto superior pontilhadas por florestas, enquanto o fundo do cânion é uma série de bacias no deserto. Mais de 1.500 plantas, 355 aves, 89 mamíferos, 47 répteis, 9 anfíbios e 17 espécies de peixes são encontrados no parque, de acordo com o Serviço Nacional de Parques. O Grand Canyon é dividido em North Rim e South Rim. O South Rim está aberto todo o ano e recebe 90% dos visitantes do parque. A borda sul tem um serviço de aeroporto e trem e também está perto de muitos centros de transporte e as cidades do Arizona de William e Flagstaff, bem como Las Vegas, Nevada.

O North Rim está localizado mais perto de Utah e tem uma vista deslumbrante, mas não é tão acessível como o South Rim. Embora apenas 10 milhas (16 quilômetros) separem os dois aros se você pudesse atravessar o cânion, ele só é acessível por pessoas que percorrem os 33 quilômetros do Norte e do Sul Kaibab Trails, ou aqueles que viajam 220 milhas (354). quilómetros) por veículo. A borda norte é frequentemente fechada durante as intempéries, pois as estradas rapidamente se tornam perigosas.. [Countdown: 7 Amazing Grand Canyon Facts]
The Grand Canyon Skywalk, 4,000 feet above the floor in the Grand Canyon West area.

The Grand Canyon Skywalk, 4,000 feet above the floor in the Grand Canyon West area.
Credit: Laslo Varga
Grand Canyon Skywalk
One popular attraction is the Grand Canyon Skywalk, a horseshoe-shaped glass walkway that is 4,000 feet (1,220 meters) above the canyon floor in the Grand Canyon West area of the main canyon. Since opening in March 2007, about 300,000 visitors have walked the Grand Canyon Skywalk each year.

Commissioned and owned by the Hualapai Indian tribe, the skywalk is an engineering marvel conceived by David Jin, a Las Vegas-based investor who had been involved with tourism and the Hualapai Nation. The project sparked a great deal of controversy regarding the continued commercialization of this natural phenomenon, but proponents argued that it is part of a larger plan to address the tribe’s high unemployment and poverty rates. The tribe unsuccessfully sued Lin regarding management fees.

How was the Grand Canyon formed?


Os processos geológicos específicos e o timing que formaram o Grand Canyon desencadeiam debates animados por geólogos.
 
O consenso científico geral, atualizado em uma conferência de 2010, afirma que o Rio Colorado esculpiu o Grand Canyon começando de 5 milhões a 6 milhões de anos atrás. No entanto, avanços recentes em técnicas de datação derrubaram a noção de um Grand Canyon uniformemente jovem. A nova abordagem determina quando a erosão descobriu rochas no cânion. 
 
O quadro geral: havia dois canyons ancestrais, um no oeste e outro no leste. E o desfiladeiro ocidental pode ter a idade de 70 milhões de anos. [Para mais informações sobre a formação do Grand Canyon, veja-New Clues Emerge in Puzzle of Grand Canyon's Age]



Quase 40 camadas de rochas identificadas formam as paredes do Grand Canyon. Como a maioria das camadas é exposta pelos 277 quilômetros de comprimento do Canyon, eles oferecem a oportunidade de estudar a evolução geológica ao longo do tempo. 
 
Por milhares de anos, a área foi continuamente habitada por nativos americanos que construíram assentamentos dentro do cânion e suas numerosas cavernas. O povo Pueblo considerou o Grand Canyon ("Ongtupqa" em Hopi) um local sagrado e fez peregrinações a ele
.

García López de Cárdenas, um explorador da Espanha, foi o primeiro europeu conhecido por ter visto o Grand Canyon. Como membro da expedição de 1540 de Francisco Vásquez de Coronado, ele liderou um grupo de Cibola, o país Zuñi do Novo México, para encontrar um rio mencionado pelos Hopi. Depois de uma jornada de 20 dias, ele foi o primeiro homem branco a ver o rio Colorado e o Grand Canyon. 
 
O Presidente Theodore Roosevelt, um ávido homem do ar livre, defendeu a preservação da área do Grand Canyon e caçou e admirou o cenário de tirar o fôlego em numerosas ocasiões. No entanto, foi uma longa jornada para se tornar o 15º parque nacional.

O então senador Benjamin Harrison introduziu projetos de lei sem sucesso em 1882, 1883 e 1886 para torná-lo um parque nacional. Theodore Roosevelt criou o Grand Canyon Game Preserve pela proclamação em 1906 e pelo Monumento Nacional do Grand Canyon em 1908. 
 
A Lei do Parque Nacional do Grand Canyon foi finalmente assinada pelo Presidente Woodrow Wilson em 1919 e foi considerada um marco importante pelos conservacionistas. O Serviço Nacional de Parques, estabelecido em 1916, assumiu a administração do parque.


– Kim Ann Zimmermann, LiveScience Contributor

As mais antigas pegadas conhecidas no Grand Canyon foram deixadas por um réptil misterioso


Oldest Known Footprints in Grand Canyon Were Left by Mysterious, Sideways-Walking Reptile

This set of 28 footprints, made by an early reptile-like creature about 315 million years ago, are the oldest vertebrate track marks ever to be found in Grand Canyon National Park.
Credit: Courtesy of Stephen Rowland
About 315 million years ago — long before dinosaurs roamed the Earth — an early reptile scuttled along in a strangely sideways jaunt, leaving its tiny footprints embedded in the landscape, new research finds.


It's anyone's guess why this ancient, clawed critter walked sideways (although experts have several ideas), but one thing is certain: The animal's prints represent the oldest-known vertebrate track marks ever discovered in Grand Canyon National Park, said Stephen Rowland, a professor of geology at the University of Nevada, Las Vegas, who is studying the fossilized trackway.

The trackway is so old, that it was made a mere 5 million years after the first known reptiles emerged on Earth, just as the ancient supercontinent Pangaea was forming. "This is right in that little window of the very first reptiles," Rowland told Live Science. "We don't know much about that real early history." [Photos: Dinosaur Tracks Reveal Australia's 'Jurassic Park']

The research, which has yet to be published in a peer-reviewed journal, was presented at the annual Society of Vertebrate Paleontology meeting in Albuquerque, New Mexico, on Oct. 17.
The trackway — preserved on a slab of sandstone measuring about 3.2 feet long and 18 inches wide (1 meter by 45 centimeters) — contains 28 prints from the mystery animal's front and back feet. A friend of Rowland's first noticed the fossilized tracks in 2016 while hiking along the Grand Canyon's Bright Angel Trail, located on the Manakacha formation in northern Arizona.

When Rowland visited the site in May 2017, the 2-inch-long (5 cm) prints befuddled him. At first glance, the track marks looked as if they were left by two animals walking side by side, "which is very bizarre for an early reptile," he said. After lying awake at night, turning the images over in his mind, Rowland had an epiphany: The animal that left the tracks was moving sideways.
The mystery reptile-like creature walked sideways as it made these track marks. It's unclear why the animal did this, but perhaps it was blown by the wind, doing a mating dance or even facing an aggressor.

The mystery reptile-like creature walked sideways as it made these track marks. It's unclear why the animal did this, but perhaps it was blown by the wind, doing a mating dance or even facing an aggressor.
Credit: Illustration by Stephen Rowland
Normally, four-legged animals walking forward obscure some of their footprints, with the rear foot stepping on top of the front footprint. "In this case, that didn't happen," Rowland said.

He noticed that while the animal's tiny claws were pointing forward, the animal was moving sideways, about 40 degrees toward to the right (each row is offset to the right by about 8 inches (20 cm) compared with the previous row, Rowland said.) Perhaps, a strong wind from the left was blowing against the creature, pushing it sideways. Or, maybe the creature was trying to climb a steep incline and was walking up the slope diagonally. It's even possible that the reptile was walking sideways because it was injured, circling an aggressor or doing a mating dance, Rowland said.
"I don't think we'll know with any confidence," Rowland said.

When the prints were made, during the Carboniferous period (about 359 million to 299 million years ago), Arizona lay close to the equator. At that time, the mysterious reptile walked over a coastal sand dune near a shallow sea to the west, according to co-researcher Mario Caputo, a retired adjunct professor of sedimentology at San Diego State University.

The next-oldest fossilized vertebrate track marks in the Grand Canyon are about 20 million years younger, from the Coconino Sandstone formation, Rowland noted. These date to the Permian period, (about 299 million to 251 million years ago). Because the different trackways look so similar, it's likely that they will be given the same scientific name of Chelichnus, Rowland said. (Like species, fossilized prints are given scientific names.)

"That doesn't mean it was the same animal living in different places," Rowland said. Rather, because the prints look so similar, they're given the same name, even if a different animal made them, he said.
Originally published on Live Science.