Nova espécie de crocodilo pré-histórico é identificada em São Paulo
Animal pode ter ocupado nicho ecológico de grandes predadores há mais de 80 milhões de anos
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE |
Edição Online 9:59 22 de junho de 2013
© RODOLFO NOGUEIRA

Gondwanasuchus scabrosus atacando indivíduo jovem do gênero Caipirasuchus, espécie de crocodiliforme da família Sphagesauridae (animais onívoros e herbívoros)
Há muito se sabe que a Bacia Bauru – depósito de rochas formadas por
sedimentos localizado entre os estados de São Paulo, Minas Gerais,
Goiás, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul – foi habitada, há
milhões de anos, por uma abundante fauna de crocodiliformes, um grupo de
répteis em que estão inclusos os crocodilos, jacarés e seus parentes
pré-históricos extintos. Entre as famílias que por lá viveram está a
Baurusuchidae, que, na região, englobava outras seis espécies de
crocodiliformes exclusivamente terrestres e com grande capacidade de
deslocamento, crânio alto e comprimido lateralmente e longos dentes
serrilhados. Agora, em um artigo publicado na versão on-line da revista
Cretaceous Research,
um grupo de pesquisadores das universidades federais do Rio de Janeiro e
do Triângulo Mineiro, em Minas Gerais, identificaram mais um membro
dessa antiga família.
Com base em um crânio e mandíbula de aproximadamente 80 milhões de
anos parcialmente completos e muito bem preservados, encontrados em
camadas de rochas da
Formação Adamantina, sítio paleontológico da
fazenda Buriti, em
General Salgado (SP), o grupo pôde descrever como era
e vivia esse parente recém-descoberto dos crocodilos e jacarés que
conhecemos hoje. De acordo com o artigo, o
Gondwanasuchus scabrosus,
como ficou conhecido, foi um carnívoro terrestre de porte médio – 1,30
metros de comprimento –, com o crânio bastante comprimido lateralmente e
uma dentição única com profundos sulcos que corriam da base até a
ponta, o que pode ter lhes garantido maior resistência a quebras durante
a alimentação e os ataques.
“Isso também permitiu ao
Gondwanasuchus scabrosus ocupar
nichos ecológicos de alguns dinossauros carnívoros de pequeno porte do
sudeste brasileiro, devido ao tamanho reduzido e pelo fato de esses
animais terem sido exímios caçadores”, explica o biólogo Thiago da Silva
Marinho, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e autor principal
do estudo. Além disso, completa, “os dinossauros carnívoros eram
escassos na região. Isso pode ter contribuído para a proliferação desses
crocodiliformes terrestres”.
Ele destaca que essa espécie de crocodilo é bastante interessante por
ser o mais distinto de uma família de crocodiliformes terrestres
extinta (Baurusuchidae), muito comum em rochas do Cretáceo no estado de
São Paulo. Segundo o pesquisador, o
G. scabrosus se diferencia
das outras espécies de sua família também por possuir uma visão
binocular tridimensional muito bem desenvolvida, em razão da posição de
suas órbitas oculares, que, diferentemente do que foi observado na
maioria das outras espécies de crocodiliformes, eram voltadas
anteriormente. “É algo incomum para crocodiliformes”, ressalta. “Sua
visão é semelhante à inferida para o
Tyrannosaurus rex, um dos maiores predadores de que já se ouviu falar”, diz.
De acordo com o biólogo, a identificação dessa nova espécie contribui
para a compreensão da diversidade ecológica e morfológica dos
crocodiliformes na América do Sul no contexto da Gondwana, o
supercontinente formado há cerca de 200 milhões de anos e que agrupava a
América do Sul, África, Madagascar, Índia, Oceania e a Antártida no
período Cretáceo, que vai de 145 a 65 milhões de anos atrás. Isso porque
a própria Bacia Bauru se formou a partir do rompimento precoce desse
continente, junto com a abertura do Oceano Atlântico Sul.
Justamente por isso, o nome genérico “
Gondwanasuchus’” faz alusão à distribuição da família dos Baurussuquídeos, restrita às regiões do antigo supercontinente Gondwana, enquanto “
suchus” significa “crocodilo”. O pesquisador explica que o nome do epíteto específico,
scabrosus,
é uma palavra em Latim que significa “tinhoso”, um apelido dado pelos
autores que descreveram a espécie devido à aparência agressiva observada
no crânio do animal. O estudo teve apoio da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Coordenação de
Aperfeiçoamento ao Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Artigo científico
MARINHO, T. S.
et al.
Gondwanasuchus scabrosus gen. et
sp. nov., a new terrestrial predatory crocodyliform (Mesoeucrocodylia:
Baurusuchidae) from the Late Cretaceous Bauru Basin of Brazil.
Cretaceous Research. 2013 (
on-line).