Descoberto crocodilo fóssil com restos de outro crocodilo na cavidade abdominal
21/05/2014
Por José Tadeu Arantes
Agência FAPESP – Um espécime antes desconhecido de crocodilo
fóssil, com restos de outro espécime de crocodiliforme na cavidade
abdominal, foi descoberto na região de
General Salgado, no noroeste do
Estado de São Paulo.
Achado realizado no noroeste do Estado de São Paulo indica que o réptil eventualmente devorava indivíduos de espécies aparentadas (ilustração: Rodolfo Nogueira)
Esta é a primeira vez que conteúdos abdominais de crocodilos fósseis
são inequivocamente identificados, evidenciando que esses animais às
vezes devoravam indivíduos de outras espécies do mesmo grupo. Descrição
detalhada do achado já se encontra publicada na
revista científica PLoS One e pode ser acessada em
http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0097138.
A descoberta é tema do mestrado de Pedro Lorena Godoy, que contou com Bolsa da FAPESP
no Brasil e
no exterior. Godoy foi orientado por Max Cardoso Langer, professor associado do Departamento de
Biologia da Universidade de São Paulo no campus de Ribeirão Preto.
“Considero este um dos achados paleontológicos mais importantes
realizados no país nos últimos anos, pois foi, em escala mundial, o
primeiro registro
confiável de conteúdo estomacal em crocodilos fósseis e a primeira
evidência de predação entre diferentes espécies de crocodilos fósseis”,
disse Langer à
Agência FAPESP.
Os animais foram escavados de rochas da chamada Formação Adamantina,
que se estende pelo Oeste Paulista e pelo Triângulo Mineiro, e são
datadas do período Cretáceo, de cerca de 70 milhões de anos atrás. O
predador, que teria aproximadamente dois
metros de comprimento, recebeu o nome de
Aplestosuchus sordidus (“abominável crocodilo guloso”).
Foi classificado no subgrupo dos baurussuquídeos, que englobava
outras espécies de crocodilos carnívoros terrestres. Já a presa foi
identificada como um indivíduo pertencente ao subgrupo dos
esfagessaurídeos, animais de tamanho menor e dieta onívora ou herbívora.
Embora importante, a descoberta de uma nova espécie de crocodiliforme
(grupo que inclui os crocodilos atuais e seus parentes fósseis) não
constitui, por si só, um feito espetacular. Há vários registros de
outras espécies do mesmo grupo na região. “A grande novidade foi mesmo a
descoberta do conteúdo estomacal do animal”, afirmou Langer.
Vestígios desse tipo, descobertos anteriormente, encontravam-se de
tal maneira alterados pelo processo digestivo que mal permitiam dizer
que se tratava mesmo de restos de animais ingeridos pelos predadores.
Na descoberta atual, ao contrário, foram encontradas peças suficientemente íntegras e identificáveis. “Achamos quatro
ossos do crânio
e dentes, que são os materiais mais resistentes do esqueleto. E
conseguimos classificar esses achados no subgrupo dos esfagessaurídeos”,
disse Langer.
Além disso, esta foi a primeira vez que se constatou a predação de
uma espécie fóssil de crocodiliforme por outra. Embora raro, esse tipo
de predação é conhecido em alguns crocodilos da atualidade. É o caso
do crocodilo
marinho da Austrália, um réptil contemporâneo com mais de quatro metros
de comprimento. Esse carnívoro – que devora todo tipo de animal
encontrado em seu habitat, constituindo inclusive uma ameaça para os
seres humanos – também pode se alimentar de crocodilos de água doce.
Mas, entre os fósseis, tal predação intragrupal ainda não havia sido
constatada.
O quadro acima, elaborado pelos pesquisadores e publicado no artigo da
PLoS One,
mostra os principais componentes da fauna de vertebrados da Formação
Adamantina no período considerado. As figuras em preto correspondem a
subgrupos de crocodiliformes. A de número 9 (baurussuquídeos)
corresponde ao subgrupo do predador e a de número 14, ao da
presa (esfagessaurídeos).
A figura 7 corresponde ao subgrupo dos trematocampsídeos, cujas
características já eram praticamente idênticas às dos crocodilos atuais:
focinho alongado com aberturas nasais projetadas
para cima
e patas curtas, traços anatômicos típicos de animais aquáticos. A
comparação da figura 7 com a figura 9 permite perceber com facilidade as
características predominantemente terrestres do predador agora
descoberto: focinho mais curto com aberturas nasais para a frente e
patas alongadas.
O quadro mostra também (em cinza) três tipos de dinossauros: um carnívoro bípede de
grande porte (figura 1), um herbívoro quadrúpede de grande porte (figura 13) e um carnívoro bípede de
pequeno porte (figura 15). Mas é curioso que, embora tais animais habitassem a
Formação Adamantina, o número de
fósseis de dinossauros encontrados até agora seja muito menor do que o de crocodiliformes.
Os pesquisadores ainda não têm uma explicação cabal para esse
desequilíbrio. “Pode ser que tenha sido provocado por fatores ambientais
ou por alguma vantagem adaptativa dos crocodiliformes em relação aos
dinossauros”, conjecturou Langer.