terça-feira, 17 de outubro de 2017

E se tudo o que sabemos sobre os gatos estiver errado?

A fama de bichos antissociais e indomáveis pode ser um grande equívoco. Terça-feira, 3 Outubro

Por Nina Strochlic
Esta reportagem está na edição de setembro de 2017 da revista National Geographic.
Para aqueles que se perguntam se os seus gatos os consideram apenas como uma fonte de comida, a notícia é reconfortante. Um estudo que expôs os gatos a quatro categorias de estímulo – alimento, brinquedo, aroma e interação – revelou que a maior parte dos bichanos, por mais que adore comer e brincar, prefere mesmo é interagir com as pessoas.

Em muitos países, há o estereótipo de que os gatos são pouco sociais e que não podem ser treinados, aponta uma das autoras do inédito estudo, Kristyn Vitale Shreve. “Na verdade, eles podem ser ensinados de acordo com os mesmos princípios aplicados aos cães – desde que os incentivos sejam certos”, diz ela.

Não há como negar que é difícil decifrar as emoções felinas. Por exemplo, o filhote que aparece nesta foto está assustado ou brincando? (Resposta: está saltando para agarrar um brinquedo pendurado acima da câmera.) Um estudo na Itália constatou que a maioria dos donos não reconhece toda a amplitude de sinais que os gatos usam para indicar estresse. “Os donos de cães conhecem melhor o comportamento dos seus animais”, diz a pesquisadora Chiara Mariti. Em contraste, os donos de gatos muitas vezes interpretam o comportamento dos seus animais como sendo algo peculiar da espécie, e não como um sinal específico de algo que estejam comunicando.

Em 2016, uma universidade sueca iniciou um estudo de cinco anos da comunicação entre gatos e seres humanos. O objetivo é ver como os felinos reagem ao modo pelo qual as pessoas se dirigem a eles – e aí saberemos se é possível traduzir os miados em emoções e desejos.

Ciência dos gatos

Propensão à independência: diante de um problema a ser resolvido, os cães se voltam para os seres humanos, em busca de ajuda, ao passo que os gatos continuam a procurar sozinhos uma solução.

Circulação global: na análise do DNA mitocondrial em resquícios de 200 gatos da Antiguidade, pesquisadores franceses descobriram que os felinos se dispersaram primeiro, com os agricultores, a partir do Crescente Fértil, e, depois, com os marinheiros que percorreram o mundo.

Quem foram as misteriosas múmias do pântano?

Jogados em brejos do norte da Europa, os corpos foram preservados por milênios graças à acidez e falta de oxigênio da vegetação pantanosa.

Por Christine Dell'Amore
O Homem de Tollund, que foi enforcado com um cordão de couro e lançado em um pântano dinamarquês, está alojado no Museu Silkeborg, na Dinamarca.
 
 
 
 
 
Lançados em brejos do norte da Europa, os corpos mumificados em pântanos de turfa são tão sombrios para os arqueólogos quanto suas próprias sepulturas. Mas novas evidências têm clareado a misteriosa origem desses seres.


Mais de 500 corpos e esqueletos da Idade do Ferro, datados de 800 a.C. a 200 d.C., foram descobertos apenas em pântanos na Dinamarca. Outros restos também foram encontrados na Alemanha, nos Países Baixos, no Reino Unido e na Irlanda.
Em grande parte, a pele, os cabelos, as roupas e o conteúdo estomacal dos corpos estão notavelmente bem preservados. A acidez e o baixo nível de oxigênio das turfeiras – compostas de camadas acumuladas de musgo morto – contribuem para a mumificação dos corpos.
O Homem de Tollund, por exemplo, encontrado em 1950 na península de Jutland, na Dinamarca – e talvez a mais famosa múmia do pântano do mundo – ainda "tem uma barba de três dias – você sente que ele abrirá os olhos e conversará. É algo que nem mesmo Tutankhamon poderia fazer você sentir", disse Karin Margarita Frei, uma cientista que estuda múmias do pântano no Museu Nacional da Dinamarca.


Na Dinamarca, cerca de 30 desses corpos naturalmente mumificados estão alojados em museus, onde pesquisadores trabalham há décadas para descobrir quem eram e como morreram essas pessoas.
Pelos ferimentos horríveis –como gargantas cortadas – encontrados em alguns dos corpos e por terem sido enterrados em vez de cremados – como normalmente acontecia na comunidade – cientistas sugerem que as múmias foram sacrificadas como criminosos, escravos ou simplesmente plebeus. O historiador romano Tácito lançou essa ideia ainda no século 1, afirmando que se tratava de desertores e criminosos.

No entanto, pesquisas em andamento estão descobrindo uma dimensão inteiramente nova. É possível que essas pessoas do pântano foram membros especiais das aldeias que começavam a se espalhar pela Dinamarca no início da Idade Média.

Novas análises químicas aplicadas a dois dos corpos dinamarqueses, a Mulher de Huldremose e a Mulher de Haraldskær, revelam que elas viajaram longas distâncias antes de morrer. Além do mais, algumas de suas peças de roupas teriam sido feitas em terras estrangeiras e eram mais elaboradas do que se pensava.
"Você só sacrifica algo que é significativo e tem muito valor. Então, talvez, as pessoas que viajavam tinham muito valor", disse Karin.
Análise do casaco de couro e lenço de lã e saia da Mulher de Huldremose mostra que as roupas tinham sido feitas fora da Dinamarca.

Portal sobrenatural?

Para os europeus que viveram durante o período neolítico – há 6 mil anos – os pântanos eram recursos e, possivelmente, portais sobrenaturais sinistros – de acordo com Ulla Mannering, especialista em tecidos antigos no Museu Nacional da Dinamarca.
A turfa dos pântanos, que poderia ser queimada para o aquecimento de casas, era valiosa na Dinamarca, smpre escassa de árvores. E o minério de ferro do pântano era transformado em ferramentas e armas.
Para as pessoas pré-históricas, "quando você pega as coisas, você também oferece coisas", disse Ulla.
Talvez por isso, os moradores dinamarqueses depositavam oferendas de roupas, sapatos velhos, animais abatidos, armas maltratadas e, por um período de 500 anos, pessoas no abismo negro dos pântanos.
As culturas dinamarquesas da Idade do Ferro não deixaram registros escritos, de modo que suas crenças religiosas são desconhecidas, observou Ulla.

Senhora muito fina

Quando os colhedores de turfa começaram acidentalmente a desenterrar os corpos dos pântanos em meados dos anos 1800, muitos foram descobertos sem roupa, consolidando a ideia de que eles eram pessoas simples, disse Frei.
O Homem de Tullund, por exemplo, foi encontrado com um cinto, mas sem roupas. "Não faz sentido estar nu com um cinto", apontou Frei.
Karin se perguntou, então, se algumas das roupas haviam se dissolvido nos pântanos ao longo dos séculos. Ela decidiu examinar a Mulher de Huldremose, uma múmia descoberta em 1879 vestindo saia xadrez e lenço – feitos de lã de ovelha – e duas capas de couro.
Usando microscópios, ela encontrou fibras de plantas minúsculas presas aos restos da pele da mulher de 2,3 mil. Análises posteriores revelaram que as fibras eram, provavelmente, de linho.
Em seguida, Karin realizou uma análise inédita dos isótopos de estrôncio contidos no linho e na lã da saia e do cachecol.

Os pesquisadores analisaram os isótopos, ou diferentes variedades, de átomos do estrôncio preservados nas fibras de linho e de lã. Esses átomos fornecem uma visão química da geologia da região onde as plantas e as ovelhas viviam.
Os resultados mostram que as fibras vegetais retiradas dos fios da roupa de baixo cresceram em terrenos geologicamente mais antigos do que os da Dinamarca – típicos do norte da Escandinávia, como a Noruega ou a Suécia – sugerindo que a Mulher Huldremose veio de outro lugar, de acordo com uma pesquisa publicada em 2009 no Journal of Archaeological Science.
Karin também analisou os isótopos de estrôncio na pele da Mulher de Huldremose. Seres humanos absorvem estrôncio através de alimentos e água – o elemento é mais comum nos nossos dentes e ossos, embora muitas múmias do pântano são encontradas sem dentes e sem ossos por causa da acidez do ambiente.
Acreditava-se que a mulher de Haraldskær, mantida no museu de Vejle da Dinamarca, foi uma rainha norueguesa.
A pesquisa revelou que o corpo da Mulher de Huldremose também continha átomos de estrôncio de locais fora da Dinamarca – evidência de que ela viajara para o exterior antes de acabar no pântano.
Outro estudo publicado em 2009 por Ulla Mannering mostrou que a roupa de lã da mulher de Huldremose ficou marrom por causa da lama. A vestimenta era originalmente tingida – um sinal de riqueza – de azul e vermelho. Ulla e colegas também encontraram uma marca no dedo da Mulher de Huldremose, um possível indício de que ela usava um anel de ouro, deteriorado no pântano.
"No começo, pensamos que ela devia ser uma bruxa – mas agora achamos que ela foi uma senhora muito fina, dona de jóias e roupas caras," disse Karin.
"A riqueza e os recursos utilizados nesses tecidos estavam sendo negligenciados", acrescentou Ulla.
Além disso, a pesquisa mostra que as primeiras culturas da Idade do Ferro nos séculos logo antes e logo depois de Cristo estavam mais interligadas do que se pensava, disse Karin.
Por exemplo, fibras de lã e de plantas eram trazidas como matéria-prima para tecidos com mais frequência do que antes se acreditava, de acordo com a pesquisa de Karin.
"Nesse período, a sociedade era vista como muito fechada e trocava muito pouco com o mundo exterior", disse ela. "De repente, podemos ver que sim, havia muita troca."
Lotte Hedeager, especialista em arqueologia da Idade do Ferro na Universidade de Oslo, na Noruega, concordou, observando que "esses resultados exigem um novo pensamento" sobre as redes de comunicação e comércio entre as culturas do norte da Europa no início da Idade do Ferro.

Está no cabelo 

Com base nas descobertas promovidas pela Mulher de Huldremose, Karin e colegas queriam ver se outros corpos também eram estrangeiros.
Eles se voltaram para a Mulher de Haraldskær – uma múmia do pântano alojada no Museu Vejle, na Dinamarca. O corpo foi encontrado em 1835 e era tratado como se fosse o da rainha norueguesa Gunhild.
Novas tecnologias de rastreamento de isótopos de estrôncio tornaram possível a detecção de isótopos de estrôncio no cabelo humano – permitindo que se revele onde uma pessoa viveu nos últimos anos de vida. Como o cabelo cresce devagar, a análise de átomos de estrôncio na raiz do cabelo comparados aos das pontas, podem revelar movimentos geográficos.
Quanto mais longo o cabelo, mais longo o período registrado – o que faz da Mulher de Haraldskær, com suas madeixas de quase 50 centímetros, a cobaia perfeita.
Os resultados preliminares da análise, ainda inéditos, são empolgantes: a Mulher de Huldremose possivelmente viveu uma vida semelhante à da Mulher de Haraldskær – ambas teriam morado em um lugar diferente de onde morreram. Os cientistas também estão examinando a roupa, possivelmente produzida em outro local.
"O DNA não pode te dizer isso – ele pode te dizer sua constituição genética, mas não onde você nasceu, onde passou a infância e os últimos anos de vida", disse Karin.
O Homem de Tullund também terá seus isótopos de estrôncio analisados pela equipe de Karin Frei para determinar onde ele morou.
Uma parte pequena do pântano permanece onde o homem de Tollund foi encontrado na península de Jutland, na Dinamarca.

Forasteiros geográficos

Outros especialistas concordam que a pesquisa indica que as múmias do pântano eram pessoas especiais em suas aldeias.
Para Heather Gill-Frerking, pesquisadora de múmias da American Exhibitions, as novas descobertas são "ótimas evidências" para sua teoria de que as múmias dos pântanos eram o que ela chama de "forasteiros geográficos" – pessoas que teriam se casado com indivíduos de comunidades dinamarquesas ou que viajavam a trabalho ou estudo.
Heather sugere há anos que as múmias do pântano não foram vítimas de algum ritual religioso, mas estrangeiros jogados no pântano.
Essas pessoas podem não ter sido cremadas como os outros porque ainda não tinham sido assimiladas em suas comunidades, ou, talvez, porque as comunidades não estavam cientes dos costumes funerários da pessoa morta. Ela diz que é provável que alguns dos corpos foram enterrados depois de terem morrido por causas naturais.
"Eu acredito em várias interpretações sobre as múmias do pântano, não apenas [que foram vítimas de] rituais", disse ela.
Se novas descobertas continuarem a revelar que os corpos enterrados no pântano viajaram antes de morrer, "vamos precisar reconsiderar com seriedade a teoria do ritual e enxergar os corpos como indivíduos".

"Segredo dos pântanos"

Niels Lynnerup, antropólogo forense da Universidade de Copenhague, que também estudou as múmias, acredita que elas foram sacrificados – mas o enigma, segundo ele, gira em torno do porquê.
A descoberta de que pelo menos um dos corpos pode ter sido o de um estrangeiro "certamente acrescenta à discussão de 'quem foram as pessoas sacrificadas?'"
Por exemplo, Neils sugeriu que talvez elas tinham um estatuto especial por virem do exterior ou porque eram reféns capturados em invasões a outras regiões.
Também é possível que, como acontecia entre os incas, ser sacrificado era uma honra e as pessoas se voluntariavam para morrer no pântano.
"A informação de que pelo menos um deles não era local é incrivelmente importante e será muito interessante se o fato se confirmar como um padrão."
No geral, arqueólogos reconhecem que possivelmente sempre haverá mais perguntas do que respostas sobre as misteriosas múmias do pântano.
Lotte Hedeager, da Universidade de Oslo, acrescenta: "nunca seremos capazes de descobrir a percepção de vida e morte desses indivíduos há 2 mil anos."
"Isso permanece um verdadeiro segredo dos pântanos."
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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Mosca que viveu há mais de 15 milhões de anos é descrita

16 de outubro de 2017

Por Peter Moon  |   Agência FAPESP – A mais antiga espécie de mosca conhecida para a superfamília Oestroidea, que congrega cerca de 15 mil espécies viventes – entre as quais a mosca-do-berne (Dermatobia hominis –, acaba de ser descrita em um estudo internacional com participação brasileira.

 Mosca que viveu há mais de 15 milhões de anos é descrita 

  Muito bem conservado em âmbar, exemplar da nova espécie, Mesembrinella caenozoica, ajuda a entender a evolução desses insetos (foto: divulgação)

A nova espécie, Mesembrinella caenozoica, foi descoberta a partir de um macho fossilizado de 8,5 milímetros que viveu nas matas da atual República Dominicana entre 20 milhões e 15 milhões de anos atrás, na época do Mioceno.


“O exemplar estava em uma gota de resina que escorreu no tronco de uma árvore, preservando a mosca de forma magnífica”, disse um dos autores do artigo, Marco Antonio Tonus Marinho, professor no Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
A descrição da nova mosca foi publicada na revista PLOS ONE, em trabalho liderado por David Grimaldi, do Museu de História Natural de Nova York, nos Estados Unidos.
Grimaldi é um dos especialistas mais renomados no estudo de animais preservados em âmbar, autor de dezenas de descrições de espécies, entre insetos, aranhas, flores e animais.

Marinho se envolveu no trabalho de descrição da nova mosca em 2014, quando participou em Potsdam, na Alemanha, do Congresso de Dipterologia, o ramo da entomologia dedicado à ordem das moscas e mosquitos.

“Trabalho principalmente com moscas da família dos mesembrinelídeos, com 38 espécies viventes conhecidas e, agora, uma fóssil. Grimaldi e os demais autores souberam que eu trabalhava com mesembrinelídeos, comentaram da descoberta do fóssil e me convidaram para o trabalho”, disse Marinho, que naquele momento fazia pós-doutorado no Laboratório de Morfologia e Evolução de Diptera da Universidade de São Paulo (USP).
A pesquisa contou com apoio da FAPESP.

Isolar DNA de seres presos em âmbar há tanto tempo ainda não é possível, como explicou o pesquisador. “O DNA se degrada após a morte do animal. Praticamente nada é preservado, mesmo no caso do âmbar. Aliás, um estudo mais detalhado do fóssil de Mesembrinella caenozoica, realizado de modo bastante cuidadoso por Pierfilippo Cerretti, da Sapienza Università di Roma, na Itália, só foi possível por meio de imagens obtidas por tomografia computadorizada”, disse.

No estudo, Marinho colaborou principalmente com a parte de filogenética molecular. Ele investigou o DNA de moscas viventes da superfamília Oestroidea, de modo a construir uma árvore filogenética na qual o fóssil de M. caenozoica entrou como um marcador temporal para melhor aferir os resultados do relógio molecular – importante ferramenta usada por geneticistas para estimar os tempos de divergência entre os ancestrais de duas ou mais espécies.

Marinho comparou as sequências do DNA ribossômico e de outros genes das 38 espécies viventes de mesembrinelídeos com sequências moleculares já publicadas de outras 61 espécies de moscas caliptradas.

A superfamília Oestroidea pertence ao grupo dos Caliptrados, com 22 mil espécies de moscas, entre elas a mosca doméstica (Musca domestica) e a tsé-tsé (do gênero Glossina), o vetor da doença do sono na África. Os Caliptrados perfazem uma pequena parte (14%) do universo das moscas e mosquitos, que reúne cerca de 160 mil espécies.

Com base na nova filogenia de Caliptrados, Marinho e os demais autores conseguiram estimar que o ancestral comum das moscas caliptradas viveu há 67,5 milhões de anos, antes da grande extinção do final do período Cretáceo, a mesma que dizimou os dinossauros.

Foi também possível estimar que a radiação das Oestroidea pelo mundo teve início na época do Eoceno, há cerca de 48 milhões de anos, e que a família dos mesembrinelídeos evoluiu entre 43 milhões e 39 milhões de anos atrás, o dobro da idade da mosca no âmbar.

Muitas novas espécies

Os resultados do estudo sugerem que, assim como ocorreu com a radiação das aves e dos mamíferos no início da era Cenozoica (os últimos 66 milhões de anos), a extinção em massa que encerrou o Cretáceo pode ter desempenhado um papel fundamental na aceleração da diversificação das moscas caliptradas.

As 38 espécies de mesembrinelídeos existentes são restritas a florestas neotropicais, do sul do México ao norte da Argentina. A ecologia dessas moscas é pouco conhecida, mas se sabe que os adultos preferem viver na sombra e ocorrem quase exclusivamente em florestas com um dossel fechado.
Talvez esteja aí uma explicação para o tamanho diminuto da família. “Há muitas outras espécies desconhecidas de mesembrinelídeos ainda por descobrir. Como são insetos que vivem dentro das florestas, na sombra das árvores, eles são eliminados nas áreas desmatadas, o que reduz as chances de coleta”, disse Marinho.

O artigo First fossil of an oestroid fly (Diptera: Calyptratae: Oestroidea) and the dating of oestroid divergences, de Pierfilippo Cerretti, John O. Stireman III, Thomas Pape, James E. O’Hara, Marco A. T. Marinho, Knut Rognes e David A. Grimaldi, pode ser lido em https://doi.org/10.1371/journal.pone.0182101.

Novo modelo físico explica de onde veio a água da Terra

16 de outubro de 2017

Por José Tadeu Arantes  |  Agência FAPESP – Munidos da lei da gravitação universal de Newton (cuja publicação completou 330 anos em 2017) e de pesados recursos computacionais (para poder aplicar a lei a mais de 10 mil corpos em interação), um jovem pesquisador brasileiro e seu antigo supervisor de pós-doutorado acabam de propor um novo modelo físico para explicar a origem da água na Terra e nos demais objetos de tipo terrestre do Sistema Solar.


Novo modelo físico explica de onde veio a água da Terra Objetos deslocados para o interior do Sistema Solar devido ao crescimento de Júpiter teriam levado à região a maior parte do acervo hídrico atualmente existente (imagem: Nasa)

 

O artigo assinado por ambos, Origin of water in the inner Solar System: Planetesimals scattered inward during Jupiter and Saturn's rapid gas accretion, foi publicado na revista Icarus.
Os autores são André Izidoro, da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – bolsista FAPESP na modalidade Apoio a Jovens Pesquisadores –, e o astrofísico norte-americano Sean Raymond, do Laboratoire d'Astrophysique de Bordeaux, na França.

“A ideia de que a água da Terra veio predominantemente por meio de asteroides não é nova. Ela é praticamente consensual entre os pesquisadores. Nosso trabalho não é pioneiro em relação a isso. O que conseguimos foi associar esse aporte de asteroides ao processo de formação de Júpiter. E, com base no modelo resultante, ‘entregar à Terra’ quantidades de água consistentes com os valores estimados atualmente”, disse Izidoro à Agência FAPESP.

O valor de água existente na Terra varia muito de uma estimativa a outra. Usando como unidade de medida o “oceano terrestre”, o que corresponde a toda a água dos oceanos da Terra, alguns falam em três a quatro “oceanos terrestres”. Outros, em dezenas. A variação decorre do fato de não se saber quanta água existe no manto do planeta. E nem mesmo na crosta, aprisionada no interior das rochas. De qualquer forma, o modelo proposto dá conta do amplo leque de estimativas.

“Convém afastar logo a ideia de uma Terra que recebeu toda a sua água por meio do impacto de cometas oriundos de regiões muito distantes. Tais ‘entregas’ também ocorreram, mas sua contribuição foi posterior e percentualmente muito menos importante. A maior parte da água chegou à região atualmente ocupada pela órbita da Terra antes que o planeta tivesse se constituído”, disse Izidoro.

Para entender “como”, vale recapitular o cenário definido pelo modelo convencional de formação do Sistema Solar, acrescentando o novo modelo relativo ao aporte de água. A condição inicial é uma gigantesca nuvem de gás e poeira cósmica. Devido a algum tipo de perturbação gravitacional ou turbulência local, essa nuvem entra em colapso e passa a ser atraída por uma determinada região de seu interior, que configura um centro.

Com o aporte de matéria, o centro torna-se tão massivo e aquecido que, cerca de 4,5 bilhões de anos atrás, entra em processo de fusão nuclear, transformando-se em estrela. Enquanto isso, a nuvem remanescente continua a orbitar o centro e seu material se aglutina, formando um disco, que posteriormente se fragmenta, definindo os nichos protoplanetários.

“Estima-se que, nesse disco, a região rica em água se localizava a partir de algumas unidades astronômicas de distância do Sol. Na região interior, mais próxima da estrela, a temperatura era alta demais para que a água pudesse se acumular, exceto talvez em muito pequena quantidade, na forma de vapor”, explicou Izidoro.

Por definição, a unidade astronômica (AU) é a distância média da Terra ao Sol. Entre 1,8 AU e 3,2 AU localiza-se atualmente o Cinturão de Asteroides, com centenas de milhares de objetos. Nessa faixa, os asteroides que ocupam a região entre 1,8 AU e 2,5 AU são predominantemente pobres em água, enquanto a maioria daqueles situados além de 2,5 AU são ricos. O processo de formação de Júpiter pode explicar a origem dessa divisão, de acordo com o pesquisador.

“O tempo transcorrido entre a formação do Sol e a completa dissipação do disco gasoso foi bastante curto, na escala cosmogônica: de apenas 5 milhões a no máximo 10 milhões de anos.

E a formação de planetas gasosos tão massivos quanto Júpiter e Saturno só pode ter ocorrido durante essa fase de juventude do Sistema Solar. Então, foi durante essa fase que o rápido crescimento de Júpiter perturbou gravitacionalmente milhares de planetesimais ricos em água, deslocando-os de suas órbitas originais”, disse Izidoro.

Estima-se que Júpiter possua um núcleo sólido, com massa equivalente a algumas vezes a massa da Terra. Esse núcleo sólido é recoberto por um extenso e massivo envoltório gasoso. Júpiter só pode ter adquirido tal envoltório durante a fase da nebulosa solar, quando o sistema estava em formação e havia enorme quantidade de material gasoso disponível.

Devido à vultosa massa do embrião de Júpiter, o processo de aquisição do gás, por atração gravitacional, foi muito rápido. Nas vizinhanças do planeta gigante em formação, situados além da “linha de gelo”, milhares de planetesimais [corpos rochosos semelhantes a asteroides] orbitavam o centro do disco, atraindo-se, simultaneamente, uns aos outros.
O rápido aumento da massa de Júpiter rompeu o precário equilíbrio gravitacional desse sistema de muitos corpos. Vários planetesimais foram engolidos pelo Proto-Júpiter. Outros, enviados para os confins do Sistema Solar. E uma pequena fração, arremessada para a região interior do disco, entregando água para o material que, mais tarde, formaria os planetas terrestres e constituiria o Cinturão de Asteroides.

“O período de formação da Terra é datado entre 30 milhões e 150 milhões de anos após a formação do Sol. Quando isso ocorreu, a região do disco onde nosso planeta se constituiu já dispunha de bastante água, entregue pelos planetesimais deslocados por Júpiter e também por Saturno. Admite-se que uma pequena fração da água existente na Terra tenha chegado mais tarde, mediante o choque de cometas e asteroides. E que uma fração ainda menor possa ter-se formado localmente, por meio de processos físico-químicos endógenos. Mas a maior parte da água veio com os planetesimais”, disse Izidoro.

A afirmação sustenta-se no modelo construído por ele e seu antigo supervisor. “Com o emprego de supercomputadores, simulamos a interação gravitacional entre os múltiplos corpos por meio de integradores numéricos, em linguagem Fortran. E introduzimos uma modificação para incluir os efeitos do gás presente no meio durante a época de formação dos planetas. Isso porque, além de todas as interações gravitacionais em cena, os planetesimais sofreram também a ação do chamado ‘arrasto gasoso’, que é, basicamente, um ‘vento’ em sentido contrário ao do movimento – o mesmo tipo de efeito que um ciclista percebe ao se deslocar, decorrente da colisão das moléculas do ar com seu corpo”, descreveu o pesquisador.

O “arrasto gasoso” fez com que as órbitas dos planetesimais deslocados por Júpiter, inicialmente muito alongadas, fossem, pouco a pouco, “circularizadas”. Foi tal efeito que implantou esses objetos na zona que corresponde atualmente ao Cinturão de Asteroides.

Um parâmetro fundamental para esse tipo de simulação é a massa total da nebulosa solar no início do processo. Para chegar a esse número, Izidoro e Raymond utilizaram um modelo proposto no início da década de 1970. Ele parte do levantamento da massa de todos os objetos atualmente observados no Sistema Solar.

Para compensar as perdas decorrentes da ejeção de matéria durante a fase de formação do sistema, o modelo corrige as massas atuais dos diferentes objetos, fazendo com que suas proporções de elementos pesados (oxigênio, carbono etc.) e de elementos leves (hidrogênio, hélio etc.) fiquem iguais às do Sol. Isso com base na hipótese de que o disco de gás e o Sol tinham a mesma composição. Feitas as alterações, obtém-se a massa presumível da nuvem primitiva.
“Além disso, nosso novo modelo considerou também os diferentes tamanhos dos atuais asteroides, que vão de quilômetros a centenas de quilômetros de extensão, porque o gás tende a afetar mais os asteroides menores”, disse Izidoro.
A simulação feita a partir destas considerações pode ser vista no vídeo a seguir:
O veneno que vem do céu
 
Pulverização aérea de agrotóxicos, monocultivos, UCs e assentamentos da Reforma Agrária
Silvia Beatriz Adoue leciona na Escola Nacional Florestan Fernandes, é professora doutora na UNESP/Araraquara, parecerista da Revista Acadêmica Multidisciplinar Urutágua (UEM) e da Revista Eletrônica Espaço Acadêmico.
14/10/2017
Imagem de GPS para ver a distribuição da fazenda, a estação ecológica e o assentamento
 
Em 11 de outubro, das 10 h às 13 h, houve pulverização no monocultivo de mandioca na fazenda "Brinco de Ouro", no município de Ubirajara-SP, na divisa com o município de Gália-SP. A operação afeta o assentamento da reforma agrária "Luiz Beltrame" e a estação agroecológica Caetetus "Olavo Amaral Ferraz". O assentamento e a estação agroecológica, em Gália, lindam com o campo pulverizado. O fato alarmou duplamente os assentados, já que aconteceu no momento em que as crianças da comunidade se deslocavam para as escolas que frequentam em Ubirajara, e o avião fazia manobras acima do assentamento. .

Com 1.273 ha, o assentamento "Luiz Beltrame" é composto por 77 famílias. Há nele 27 unidades que produzem com sistema agroflorestal (SAF) e 100 ha já estão destinadas à produção agroecológica e orgânica.  Parte da área pertencia antigamente à fazenda "Portal do Paraíso", que foi declarada improdutiva e, em 2012, e foi arrecadada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)[1]. Outra parte era a antiga fazenda "Santa Fé". Então, famílias que durante 4 anos vinham ocupando e sendo despejadas para a beira da estrada, entraram na sede da fazenda.

Na época, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), agência do estado para monitoramento ambiental, resistia a outorgar o licenciamento para instalação de assentamento da reforma agrária na área, por lindar com a estação ecológica. O fazendeiro e candidato a deputado federal pelo Partido Ecológico Nacional (PEN) Ivan Cassaro chegou a iniciar um processo judicial para impedir a constituição do assentamento, também com o argumento da proximidade com a estação ecológica[2].

A área da estação ecológica é é de 2.178 ha, localizada entre nos municípios de Gália e Alvilândia-SP, e também foi parte da fazenda "Paraíso", pertencente a Olavo Amaral Ferraz, foi desapropriada em 1976 para constituir a Reserva Estadual de Gália. Em 1987, a reserva florestal foi transformada numa modalidade específica de  Unidade de Conservação (UC) que exige vigilância ambiental severa, sob proteção integral: a estação ecológica[3]. O seu gestor é o Instituto Florestal. A unidade possui 83% de cerrado e 17% de mata atlântica[4]. Com riqueza em espécies ameaçadas, como o mico-leão-dourado[5].

A pulverização aconteceu sobre um plantio de mandioca. A empresa que controla a fazenda possui também terras em Goiás e Mato Grosso. Dedicados ao gado em condições de terra improdutiva, os empresários sentiram-se ameaçados pelas ocupações de sem terra que disputam a área, e então retiraram o gado e plantaram 100 alqueires de mandioca. A fazenda já vai pelo segundo ciclo de plantio.

A situação é paradigmática. São os assentados os que dão a voz de alarme frente a agressão à área que precisa ser preservada. O esforço da comunidade de "Luiz Beltrame" combina a produção de alimentos livres de veneno com a preservação e expansão do bioma, por meio dos SAFs. Isto é, a reforma agrária, contrariando os prognósticos, tornou-se garantia não só de proteção, mas também de ampliação da abundância no território. Enquanto isso, e lançando mão de uma espécie nativa e que em princípio não teria impacto negativo no ambiente, o agronegócio age com efeito destrutivo da natureza e coloca em risco os habitantes da região.

Destruída a mata para formar pastagem, com terra compactada, mesmo o plantio de mandioca, por ser realizado em grande escala, exige a utilização de veneno para se tornar rentável. Os povos da floresta, que habitaram esse território por pelo menos 2.500 anos, disseminaram a espécie em toda a região. A mandioca e outros tubérculos foram de grande importância para preservar e expandir a abundância no território. Mas o seu modo de plantio em nada parece com o do agronegócio. Em primeiro lugar, porque os povos plantam mandioca no que modernamente se chama de cultivos consorciados e não como monocultivo. Em segundo lugar, porque a rotação de cultivos não permite o esgotamento de uma área. Essas práticas, próprias dos povos da floresta da região, aprendida na caboclagem, hoje também está sendo aprendida pelos assentados da reforma agrária.

O povo encurralado e empobrecido pela colonização, agora na forma do agronegócio, exige passagem. Para defender o território da escassez e a morte.

Por que o caranguejo anda de lado?

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Tauana Marin
DIário do Grande ABC




Os caranguejos andam, principalmente, de lado, porque é desta forma que conseguem se movimentar mais rápido, gastando menos energia. No entanto, o que muitos não sabem é que eles também podem se deslocar para frente e para trás, caso seja necessário.

Eles possuem dez patas, duas delas com finalidade de agarrar o alimento e, as demais, utilizadas para locomoção. Cada uma possui sete partes menores (artículos), que se conectam entre si por articulações. A que une corpo-coxa é mais complexa, permitindo um deslocamento lateral, mas também para a frente e para trás. No entanto, as outras seis articulações se movem em única direção, que é a lateral.

Esses crustáceos pertencem ao filo Arthropoda, a exemplo do que ocorre com os insetos, lacraias, aranhas e escorpiões. A característica de todos é apresentar esqueleto externo (exoesqueleto) que recobre seu corpo, sendo duro pela presença de substância chamada quitina. Detalhe para o fato de que necessitam trocar essa espécie de armadura durante alguns momentos da vida. Quando deixa o exoesqueleto, o animal – ainda com corpo ‘mole’ – consegue ingerir água (se for aquático) ou ar (se terrestre) para aumentar de tamanho, seguindo-se ao enrijecimento da nova cutícula.

Atualmente existem 6.600 espécies de caranguejos em todo o mundo, exceto nos desertos. Eles precisam da água para viver e é nela onde se hidratam, reproduzem e respiram. Os que conseguem ficar mais tempo na terra, como o caranguejo guaiamú, podem viver mais longe das fontes de água pelo fato de possuírem câmaras branquiais bem amplas nas laterais de sua carapaça, permitindo que ‘guardem’ ar na parte superior.

O tipo de alimentação desses animais também varia conforme a espécie. Alguns são herbívoros (se alimentando dos brotos e folhas verdes de algumas árvores de manguezal) e outros são carnívoros (comem mexilhões, caramujos e até mesmo peixes). Há também os onívoros (comem de tudo um pouco, como animais, vegetais e organismos mortos) e as espécies comensais (que se nutrem de restos de alimento de outras espécies).

O tempo de vida dos caranguejos também varia, podendo ser de dois anos. No caso de alguns siris, a exemplo do caranguejo-uçá, chegam a viver até dez anos.

MULTIPLICAÇÃO - Os caranguejos nascem de ovos, que desenvolvem por cerca de 15 dias em temperatura de 25°C e que se abrem, gerando descendentes, que podem emergir como larvas. Os machos têm dois pênis localizados nas coxas do último par de patas, servindo para a transferência de espermatozoides para o interior dos dois poros genitais que as fêmeas possuem. Após o desenvolvimento dos ovários das fêmeas, seus óvulos passam por pequenos sacos internos, onde os espermatozoides são guardados e, como ovos, deixam o corpo da fêmea. Dependendo da família de caranguejo a que pertence, a espécie pode ter de dois a até oito estágios larvais. Já os caranguejos de água doce não possuem fase larval, saindo dos ovos como jovens.

O maior caranguejo do mundo é o japonês. Ele vive a 600 metros de profundidades no Oceano Pacífico e pode chegar a 20 quilos. Se suas pinças forem distanciadas uma da outra, podem medir cerca de quatro metros

Consultoria de Marcelo Antonio Amaro Pinheiro, biólogo marinho e professor doutor do Instituto de Biociências da Unesp – Campus do Litoral paulista.

Encontrado o túmulo mais antigo de um governante Maia

Encontrado o túmulo mais antigo de um governante Maia
Restos mortais têm pelo menos 1.700 anos !

Uma descoberta arqueológica recente conseguiu determinar que o túmulo de um governante maia, escavado na cidade de Perú-Waka e conhecido como “Enterro 80”, corresponde aos primeiros anos da dinastia Wak.
Guatemala - El Perú Waka
Perú-Waka fica no norte da Guatemala, a 40 quilômetros de Tikal, um dos maiores sítios arqueológicos da civilização Wak, no Parque Nacional Laguna del Tigre.
Durante o período clássico, essa cidade real dominou as rotas comerciais mais importantes da região e acredita-se que uma das primeiras dinastias conhecidas, a Wak, tenha se assentado lá durante o segundo século da Era Cristã.
De acordo com os resultados preliminares do estudo, o Enterro 80 abrigaria supostamente os restos do rei Te ‘Chan Ahk, um monarca Wak que governou no século IV. Trata-se do túmulo real mais antigo jamais descoberto nessa região, com, pelo menos, 1.700 anos de história.
Na tumba, também foram encontrados recipientes de cerâmica, enfeites de jade, conchas de Spondylus e um pingente talhado em forma de crocodilo. Além disso, um levantamento topográfico com Laser Scanning 3D permitiu a descoberta de uma rede antiquíssima de passagens que interligavam as pirâmides maias do local.
Fonte: NODAL CULTURA