terça-feira, 16 de maio de 2017

Pesquisa sobre anêmonas de tubo sugere que América do Sul teve “mar interno”

05 de setembro de 2012

Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Depois de estudar por quatro anos o processo evolutivo de diversificação de um grupo de anêmonas de tubo do Atlântico Sul, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) obteve um resultado inesperado: o estudo biológico acabou contribuindo para reforçar a teoria geológica de que, há cerca de 10 milhões de anos, a bacia Amazônica era ocupada por um mar interno que ligava o Caribe ao Uruguai.

Estudo sobre processo evolutivo de diversificação de organismos marinhos reforça teoria geológica de que há 10 milhões de anos existia uma língua de oceano que cortava o continente desde o Caribe até o Uruguai, cobrindo toda a bacia Amazônica (ilustração: Science)
 
O estudo, publicado na revista PLoS One, teve o objetivo inicial de identificar, por meio de análises genéticas e moleculares, em que momento da evolução ocorreu a diferenciação entre duas espécies de anêmonas de tubo do gênero Isarachnanthus, do grupo Ceriantharia presentes no oceano Atlântico.
Os resultados mostraram, no entanto, que o cenário mais provável para a diferenciação das duas espécies – e de uma terceira existente no oceano Pacífico – seria coerente com a chamada teoria da “rota marinha da Amazônia no Mioceno médio”.

Segundo essa teoria, um passagem marinha ligava o Caribe à região atual da costa do Uruguai, entre 9 milhões e 11 milhões de anos atrás, cortando ao meio o continente. A maior parte do Brasil atual, nesse período conhecido como Mioceno médio, teria sido uma ilha separada do resto da América do Sul por uma língua de oceano.

O artigo foi elaborado por pesquisadores dos departamentos de Zoologia e de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências (IB) da USP, da Fundação Carmabi de Curaçao (Antilhas Holandesas) e do Instituto de Biodiversidade e Dinâmicas de Ecossistemas da Universidade de Amsterdam (Holanda).

O estudo teve apoio da FAPESP por meio do projeto “Sistemática, ciclo de vida e padrões reprodutivos de medusas”, realizado no âmbito do BIOTA-FAPESP e coordenado por André Morandini, também autor do artigo e professor do IB-USP.

De acordo com o primeiro autor do artigo, Sérgio Stampar, que realiza pós-doutorado no Departamento de Zoologia do IB-USP sob supervisão de Morandini, há pelo menos 50 anos não surgiam estudos novos sobre as anêmonas de tubo Isarachnanthus no Brasil, por causa da dificuldade de se realizar coletas de espécimes desse grupo, que só é encontrado à noite, no substrato marinho.
“Nossa ideia, quando começamos este estudo, foi retomar as pesquisas sobre esse grupo esquecido de cnidários. Fizemos a coleta em várias regiões do oceano Atlântico e conseguimos grande quantidade do organismo. Além dos estudos morfológicos de praxe, começamos a fazer a análise genética dessas anêmonas de tubo, que ainda não havia sido realizada”, disse Stampar à Agência FAPESP.
Segundo Stampar, as análises filogenéticas indicavam que, há cerca de 16 milhões de anos, só existia uma espécie da anêmona de tubo, ancestral a todas as Isarachnanthus tratadas no trabalho, que ocorria no Atlântico Norte, provavelmente na latitude da saída do mar Mediterrâneo. Essa espécie possivelmente atravessou o oceano e chegou até o Caribe.

“Descobrimos que a espécie do Brasil, Isarachnanthus nocturnus, do ponto de vista genético, era mais próxima à espécie existente no Pacífico, Isarachnanthus bandanensis, do que da que existe no Atlântico norte, Isarachnanthus maderensis. Isso nos deixou surpresos, porque achávamos que as duas espécies do Atlântico teriam mais proximidade entre si”, disse Stampar.

A princípio, a espécie do Atlântico Sul, tendo se diferenciado em tempos mais recentes, poderia ter alcançado regiões mais meridionais pela costa da América do Sul, carreada pela corrente. Mas isso não seria possível, porque os estudos geológicos mostram que já naquela época as correntes eram geradas, como hoje, do sul para o norte. Portanto, elas devem ter passado por outra via.

“É praticamente impossível que essas anêmonas de tubo tenham vindo pelo Atlântico. No entanto, as análises moleculares e de DNA que fizemos permitiram estimar que os organismos chegaram ao Atlântico Sul há cerca de 8 milhões ou 9 milhões de anos. Essa data coincide com as especulações da geologia sobre a existência de um mar interno que cortava a América do Sul. É muito provável que essa tenha sido a rota das anêmonas”, explicou Stampar.

Outros organismos

A rota marinha teria ligado a região onde hoje é o Caribe, na costa da Venezuela, à região onde hoje é o Uruguai, estendendo-se por todo continente sul-americano, cobrindo as regiões onde hoje estão o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Acre. Quando esse mar interno se fechou, as anêmonas que haviam chegado ao Atlântico Sul teriam ficado isoladas e se diferenciado em outra espécie.

“O processo geológico explicaria o isolamento dessas anêmonas, que teria permitido a diferenciação da espécie nocturnus quando o mar interno se fechou e a população ficou segregada no Atlântico Sul”, disse Stampar.

“Mais tarde, a espécie bandanensis pode ter surgido por processo semelhante: as anêmonas de tubo da espécie nocturnus, provenientes do Atlântico Sul, depois de chegar ao Caribe, teriam passado pelo Pacífico, porque não havia barreira entre os oceanos. Depois do fechamento do istmo do Panamá, há 4 milhões de anos, elas ficaram segregadas e se diferenciaram na espécie do Pacífico”, disse.
Embora tenha reforçado a teoria da rota marinha da Amazônia, as conclusões ainda são especulativas, segundo Stampar, já que o estudo foi realizado com um só grupo de organismos.

“No entanto, o trabalho mostrou que vale a pena procurar outros organismos que sigam o mesmo padrão. Meu pós-doutorado está em grande parte relacionado a essas pesquisas – principalmente a partir do estudo de outros cnidários como águas-vivas, que são a especialidade do nosso grupo e, em tese, têm características diferentes de dispersão”, afirmou.

O artigo Evolutionary Diversification of Banded Tube-Dwelling Anemones (Cnidaria; Ceriantharia; Isarachnanthus) in the Atlantic Ocean, de Sergio Stampar e outros, pode ser lido na PLoS One em www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0041091

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ORDOVICIANO

Espaço de tempo compreendido entre aproximadamente 500 até cerca de 430 milhões de anos.
Em relação ao período anterior, o Cambriano, há uma flagrante modernização faunística, com o surgimento e/ou desenvolvimento de grupos que sobrevivem até os dias de hoje.
Os trilobitas, que eram dominantes durante o período anterior, no Cambriano passam a dividir os ambientes marinhos com outros invertebrados, como os Briozoários e Braquiópodos por exemplo.
A rigor, da mesma forma que no Cambriano, também não existiram formas de vida continentais terrestres durante boa parte do Ordoviciano, e as terras emersas seriam quase desprovidas de vegetação e/ou animais.
Paleogeografia no Ordoviciano.
 
A partir de aproximadamente 500 milhões de anos (Eo-Ordoviciano) tornam-se mais comuns trilobitas com capacidade de enrolamento, tal como hoje fazem os “tatuzinhos-de-jardim”.
Esta característica tinha o objetivo de proporcionar a estes primitivos artrópodos alguma chance de proteção contra os predadores daquela época.
Trilobita do ordoviciano.
Invertebrados coloniais marinhos, que se fixam a um substrato sólido, como por exemplo estruturas rochosas. Existem desde cerca de 520 milhões de anos, com vários grupos apresentando intenso desenvolvimento durante a Era Paleozóica (especialmente o período Ordoviciano).
Colônias de briozoários participam ativamente na gênese de estruturas recifais, em conjunto com algas calcárias, corais e outros invertebrados marinhos.
Brizoário do Ordoviciano.
Braquiópodos são animais providos de concha formada por duas valvas, presos ao substrato por um pedículo. Alimentam-se filtrando as partículas orgânicas em suspensão na água. Existem desde cerca de 570 milhões de anos atrás.
Braquiópodos.
Em virtude dos movimentos da placas litosféricas, muitos dos fragmentos continentais trocaram sutilmente de posição, de Cambriano para Ordoviciano.
O Gondwana tinha se movido mais para o Pólo Sul, trazendo consigo os atuais continentes de Antártica, América do Sul e África do Sul. Austrália, América do Norte, partes de China e Europa contudo ainda estavam unidas na região do Equador.
O Gondwana prosseguiu sendo o maior continente.
Haviam poucas outras massas continentais muito menores, todas separadas umas das outras.
Paleogeografia no Ordoviciano.

As grandes regiões biogeográficas do planeta

Desde que as ideias evolucionistas de Darwin passaram a ser aceitas como explicação do processo de diversificação da vida na Terra, ficou evidente que as diferenças entre faunas e floras de continentes distintos deveriam ser resultado de histórias evolutivas diferenciadas.

Hoje se compreende perfeitamente que a movimentação dos continentes ao longo da história geológica como decorrência das dinâmicas de afastamento e aproximação das placas tectônicas, associada às flutuações climáticas de longo prazo, foi a responsável por processos evolutivos diferenciados em vários pontos da superfície terrestre, o que levou a uma diferenciação significativa na composição da fauna e da flora em cada uma das assim chamadas regiões biogeográficas do planeta.

Na primeira metade do século XIX, todavia, não existia ainda a principal chave para a compreensão desse fenômeno, que é a aceitação e o entendimento da deriva continental, cuja teoria, central para a explicação do movimento dos continentes, foi proposta pela primeira vez por Alfred Wegener em 1912 e só completamente aceita a partir da metade do século XX.

A ocorrência fóssil da flora de Glossopteris na África, Austrália, Antártida, sul da América do Sul e Índia, as semelhanças no recorte litorâneo das Américas, da Europa e da África e a similitude de rochas e dinâmicas estratigráficas entre esses continentes foram alguns dos elementos que levaram esse autor a propor, por meio da teoria mencionada, que todos os continentes atuais foram originalmente parte de um único supercontinente, chamado de Pangeia.

No entanto, como naquele momento ainda não havia nenhum mecanismo geológico conhecido capaz de fragmentar e mover continentes inteiros, essa teoria precisou esperar até a década de 1950 para que pudesse fazer sentido, com a descoberta da movimentação das placas tectônicas.
Engler
Adolf Engler, botânico alemão, foi muito importante por suas obras em Taxonomia Vegetal e Fitogeografia, “Die Natürlichen Pflanzenfamilien” ( As Famílias Naturais das Plantas)

Mesmo sem uma compreensão global dos mecanismos que promoveram tal diferenciação, o botânico alemão Adolf Engler (1844-1930) propôs, em 1879, uma primeira divisão ecológica do planeta levando em conta a distribuição de floras regionais visivelmente distintas.
Basicamente, ele dividia o mundo em quatro grandes zonas:
  •  o domínio boreal extratropical, englobando a América do Norte, a Europa e o continente asiático ao norte do Himalaia;
  • o domínio paleotropical, englobando o continente africano do Saara para o sul, até as Índias Orientais;
  • o domínio sul-americano, englobando a América do Sul e a América Central, até o México;
  • e o domínio do velho oceano, estendendo-se da costa chilena, passando pelo extremo sul da África, pelas ilhas do Atlântico Sul e pelo Oceano Índico, até a Austrália e parte da Nova Zelândia.
Da mesma forma que Engler, Philip Sclater propôs, em 1858, um esquema para a divisão ecológica do planeta levando em conta a distribuição dos principais grupos de aves, partindo do princípio de que todas as espécies haviam sido criadas dentro da área na qual são encontradas hoje em dia. Essa divisão acabou sendo aceita e aprimorada por Alfred Russel Wallace, que incluiu dados de outras tantas espécies de vertebrados, incluindo mamíferos não voadores, os quais deveriam refletir as divisões naturais do planeta com mais precisão, tendo em vista as suas dificuldades de dispersão.

Ao aperfeiçoar a proposta de Sclater, Wallace propôs, em 1876, um mapa detalhado das seis regiões biogeográficas do planeta, veja figura abaixo, documento este que serviu como referência para os biogeógrafos por mais de um século, permanecendo sem nenhuma modificação.
Biogeografia oficina de textos
Mapa das seis regiões biogeográficas proposto por Wallace em 1876, adaptado de Ritchison (s.d.). Retirado do livro Biogeografia de Adriano Figueiró e publicado pela Oficina de Textos.
Ben G. Holt e com um grupo de cientistas redividiram as seis regiões biogeográficas de Wallace em 11 regiões com base em informações mais detalhadas de distribuição de 20.000 espécies de aves, mamíferos e anfíbios. Veja imagem a seguir.
Biogeografia Oficina de Textos
Mapa das 11 regiões biogeográficas proposto por Ben G. Holt e com um grupo de cientistas no artigo “An update of Wallace’s zoogeographic regions of the world”. Biogeografia de Adriano Figueiró e publicado pela Oficina de Textos.

  Além da localização de um número maior de espécies de que dispunha Wallace, a atualização do mapa também levou em conta os registros de DNA dessas espécies, o que permitiu recompor relações de ancestralidade entre elas.

Tudo a ver
capa_biogeografia 

Esta matéria foi retirado do livro Biogeografia: dinâmicas e transformações da natureza de Adriano Figueiró, publicado pela Oficina de TextosUma das áreas de conhecimento mais fascinantes o livro trata da relação entre seres vivos, sociedade e os diferentes elementos das paisagens, suas dinâmicas e transformações ao longo do tempo.

Com essa abordagem, Biogeografia preenche uma importante lacuna na bibliografia nacional, avançando alguns passos na construção de uma Biogeografia Brasileira. Serve como referência para estudantes e profissionais de Geografia, Biologia, Agronomia e Ecologia e abre os horizontes ao público

terça-feira, 9 de maio de 2017

Pesquisadores descrevem ação de molécula mais potente que a toxina botulínica

09 de maio de 2017

 
Pesquisadores descrevem ação de molécula mais potente que a toxina botulínica Encontrada no veneno de serpentes cascavéis, a crotoxina é capaz de paralisar músculos por tempo prolongado, além de apresentar ação anti-inflamatória, analgésica, antitumoral e imunomoduladora ( foto: cascavel/Wikimedia Commons)

  
Karina Toledo | Agência FAPESP – Encontrada no veneno de serpentes cascavéis (Crotalus durissus), a crotoxina é uma molécula que já apresentou em experimentos laboratoriais potencial para ser usada como anti-inflamatório, analgésico, antitumoral, imunomodulador e até mesmo como um paralisante muscular mais potente que a toxina botulínica.


Porém, para que esse potencial terapêutico possa ser transformado em fármacos, é preciso antes compreender em detalhes como a crotoxina interage com as células humanas. Avanços importantes nesse campo de estudo foram apresentados por pesquisadores brasileiros em artigo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

“Nós sugerimos um novo arranjo estrutural da molécula e também um modelo para explicar seu efeito tóxico sobre o sistema nervoso. Essas informações podem ajudar outros pesquisadores a desenhar compostos sintéticos com estrutura e atividade semelhantes às das regiões da crotoxina que despertam interesse farmacológico”, afirmou Carlos Fernandes, pesquisador do Instituto de Biociências (IBB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu.

O trabalho foi realizado durante o pós-doutorado de Fernandes, com apoio da FAPESP e supervisão do professor do IBB-Unesp Marcos Roberto de Mattos Fontes.

“A crotoxina é considerada um heterodímero, ou seja, um complexo formado por duas proteínas diferentes: a CA, que não é tóxica e não tem ação enzimática, e a CB, uma fosfolipase responsável pelo efeito neurotóxico”, explicou Fontes, que há pelo menos uma década investiga o mecanismo de ação da molécula com apoio da FAPESP.

Em 2008, o grupo descreveu na revista Proteins a estrutura tridimensional da proteína CB isolada.
Por meio de uma técnica conhecida como cristalografia por difração de raios X – que consiste em cristalizar a proteína e observar como esse cristal difrata a radiação emitida sobre ele –, os pesquisadores da Unesp descobriram que, quando não está conectada à CA, a CB tende a se aglomerar em grupos de quatro, formando o que os cientistas chamam de tetrâmeros. Nesse arranjo, entretanto, a proteína apresenta uma menor ação neurotóxica do que quando associada à CA.
Poucos anos depois, um grupo da França publicou no Journal of Molecular Biology a estrutura cristalográfica do complexo formado por CA e CB. No entanto, algumas regiões importantes de CB ficaram escondidas por CA no modelo cristalográfico, entre elas as três apontadas na literatura científica como farmacologicamente ativas: a porção N-terminal (os primeiros resíduos de aminoácido da cadeia), a C-terminal (os últimos resíduos) e o sítio catalítico (onde a reação enzimática ocorre).

“Esse trabalho refutou nossa hipótese de que a CB isolada se organizava em tetrâmeros, criando um impasse no meio acadêmico”, contou Fontes.
O grupo da Unesp decidiu então investigar o arranjo estrutural do complexo proteico em solução, ou seja, em um meio líquido. Essa condição é mais parecida com a que a molécula é encontrada na natureza.
Para isso, combinaram cinco diferentes técnicas biofísicas: calorimetria de titulação isotérmica, espectroscopia de fluorescência, dicroísmo circular, espalhamento de luz dinâmico e espalhamento de raios X a baixo ângulo.

A investigação contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Física (IF) da Universidade de São Paulo (USP), da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP), do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Ezequiel Dias (Funed), de Belo Horizonte (MG).

“Pelas análises calorimétricas observamos que as moléculas de CB isoladas em um recipiente encontravam-se em tetrâmeros, mas, à medida que íamos injetando a CA no meio, os tetrâmeros se dissociavam e as duas proteínas se uniam para formar os heterodímeros”, contou Fernandes.
A observação foi confirmada usando o espalhamento de luz dinâmico e o espalhamento de raios X a baixo ângulo, técnicas que permitem medir o tamanho das moléculas, explicou Fontes. “Ao medir o diâmetro, conseguimos confirmar que a CB isolada forma um tetrâmero, a CA forma um monômero e as duas juntas, um dímero”, disse.

Já a fluorescência, como explicou Fontes, permite descobrir as partes da molécula que estão expostas ao solvente (água, no caso da pesquisa). A análise revelou que na interface entre CA e CB encontram-se quatro resíduos do aminoácido triptofano. Dois desses resíduos estão localizados bem na entrada do sítio catalítico de CB – fechando o acesso à região da proteína responsável pelo efeito biológico. Já a região N-terminal de CB fica exposta ao solvente mesmo quando a proteína está ligada à CA.

“Segundo a hipótese que montamos com base nessas análises, duas das regiões tóxicas da CB ficam praticamente bloqueadas pela CA quando estão na forma de heterodímero. Mas, ao chegar perto da membrana celular, a CB consegue se ligar ao tecido pela porção N-terminal. Isso faz com que a CA se solte do complexo, possibilitando que as outras regiões ativas de CB – o sítio catalítico e a C-terminal – também consigam se ligar à membrana, desencadeando o efeito neurotóxico”, afirmou Fernandes.

Membrana pré-sináptica

Embora seja capaz de se ligar à membrana de qualquer célula do corpo humano, a crotoxina afeta especialmente a chamada membrana pré-sináptica – localizada na junção entre os músculos e os nervos.

De acordo com Cristiano Oliveira, pesquisador do IF-USP e coautor do artigo, a molécula é considerada um dos principais agentes paralisantes do veneno da cascavel e tem sido estudada em modelos animais para o tratamento de estrabismo por apresentar efeito mais duradouro que o da toxina botulínica.

“Estudos anteriores com animais indicaram que a crotoxina tem ação anti-inflamatória, antitumoral e analgésica. Também é possível que tenha aplicação estética. Mas faltava descobrir de que forma ela atua. Nós estamos descrevendo um possível mecanismo de ação, um passo importante para chegar ao desenvolvimento de fármacos”, comentou Oliveira.

Segundo Fernandes, a descoberta também abre caminho para a busca de compostos capazes de inibir a ação da crotoxina, que seriam úteis para aumentar a eficácia do soro antiofídico.
O artigo “Biophysical studies suggest a new structural arrangement of crotoxin and provide insights into its toxic mechanism” pode ser lido em: https://www.nature.com/articles/srep43885.

domingo, 7 de maio de 2017

Peixe é "primo" de cavalo não de tubarão, diz biólogo que quer nova divisão


Estamos acostumados a ver um animal aquático com nadadeiras e dizer: "olha, um peixe". Mas esta afirmação pode estar equivocada. Ao menos é o que diz Carlos Alberts, professor de zoologia e comportamento animal da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Para Alberts, a forma como classificamos e nomeamos os animais atualmente é incorreta e deveríamos fazer uma reorganização, unindo no mesmo grupo todos os bichos com parentes próximos.

A ideia vem da teoria da evolução de Darwin, que parte de um princípio que os seres vivos descendem de um só ancestral. Temos que buscar os graus de parentesco e classificar os animais seguindo este princípio".

Carlos Alberts, professor de zoologia

Um exemplo que facilita a compreensão do sistema proposto pelo professor é a classificação dos peixes. Primeiramente, o nome peixe, que engloba bichos que nadam, não deveria existir, defende o biólogo. Isso porque o grupo une animais muito diferentes entre si.

"Dentro dos peixes temos os ágnatos e os condrictes, por exemplo, e eles não deveriam se encaixar nesta categoria, pois têm características e parentes diferentes dos peixes ósseos", diz.
O grupo dos ágnatos é representado pelas lampreias e feiticeiras, que não têm mandíbula e nem apêndices pares, por exemplo. Já os condrictes são os cartilaginosos tubarões, raias e quimeras, que contam com escamas de dentina, fecundação interna e não tem bexiga natatória. 
iStock
Humanos podem ser parentes próximos das trutas
 
As características de ambos são distintas das dos peixes ósseos, como o dourado, carpa ou truta, e, de acordo com Albert, essa é uma prova de que a divisão taxonômica atual coloca animais diferentes e com grau de parentesco evolutivo distante no mesmo grupo. Ao mesmo tempo, a separação convencional deixa de unir bichos que têm ancestrais comuns, segundo o professor.

"Peixes ósseos estão em um grupo com animais que não têm nada a ver e deixam de ficar junto com parentes, que seriam mamíferos, lagartos, serpentes, anfíbios, crocodilianos, aves e tartarugas". Seriam uma junção com o grupo dos animais que "saíram" da água.

Entendendo a lógica você vê que uma truta é parente mais próximo de um cavalo ou do ser humano, do que de um tubarão. Temos que evidenciar isso"

Carlos Alberts, professor de zoologia
Além dos peixes, Alberts afirma que a mesma tese vale para os répteis, um grupo que conta com bichos não tão próximos, como tartarugas, e exclui as aves, com quem têm ancestrais em comum.

A mudança toda faz sentido?


iStock
 Na vida de quem é leigo, alterar os nomes dos animais pode confundir mais do que facilitar, e talvez não mude nada na sua rotina.
 
"Com a evolução da ciência descobrimos que alguns grupos que juntamos não são muito válidos, mas é todo um sistema que precisa ser mudado. Antes é preciso solidificar as informações, juntar diversas evidências para ver se realmente faz sentido explicar isso para o grande público', diz Rosana Moreira da Rocha, professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Rocha afirma que biólogos sabem que os peixes não são um grupo natural, que lampreias não estão no mesmo ramo evolutivo que os peixes ósseos, mas entendem também que estão ligados por serem parecidos e próximos na cronologia evolutiva.

Antigamente, não tínhamos testes avançados que provassem geneticamente o parentesco dos bichos. Por tanto, o começo da divisão animal era feito com as evidências mais visíveis dos organismos.

Como quem descende do mesmo ancestral geralmente tem características parecidas, pela aparência acertamos muitas classificações, mas testes recentes de bioquímica e genética mostram novidades, como que aves e crocodilos têm ancestrais próximos, o que não diríamos só pela aparência."

Rosana Moreira da Rocha, professora da UFPR

Estamos melhorando o conhecimento, logo estranhezas com as definições antigas podem fazer sentido, mas a professora explica que ainda não é necessário modificar toda a nomenclatura conhecida.
Um exemplo é o que acontece com as tartarugas. Já se sabe que elas são uma família separada dos répteis. "Com o tempo podemos introduzir melhor a ideia, explicar as diferenças que separaram as tartarugas do ramo dos répteis, ver como as pessoas aceitam a mudança. Mas não é nada urgente".
Quanto a questão pontual de peixes serem mais próximos de cavalos do que de tubarões, Rocha diz que é preciso uma análise mais profunda para garantir que os elos evolutivos mostrem a proximidade dos parentescos, mas inicialmente ela acha a ideia incorreta.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Fósseis apontam que mar cobria o interior de SP há 260 milhões de anos

Sítio arqueológico foi descoberto durante escavação em mina de calcário em Santa Rosa de Viterbo. Pesquisadores de universidades brasileiras e portuguesas reuniram dados em inventário geológico.



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USP aponta que Santa Rosa de Viterbo, SP, era coberta por mar há 260 milhões
Um levantamento realizado por pesquisadores de sete universidades brasileiras e portuguesas apontou que há 260 milhões de anos o interior de São Paulo era coberto por água. O chamado “mar de Irati” tinha 1 milhão de quilômetros quadrados e acabou secando após uma série de mudanças geológicas.
Entretanto, fósseis de animais marinhos e vestígios de algas ainda podem ser encontrados em algumas regiões, como no município de Santa Rosa de Viterbo (SP), a 300 quilômetros da capital paulista, onde ficava uma das praias de água salgada, limpa, clara, rasa e quente, como descreve o estudo.
As primeiras descobertas ocorreram na década de 1970, durante os trabalhos de escavação em uma mina de calcário que, mais tarde, se tornou um sítio arqueológico. Agora, as informações foram reunidas em um inventário geológico, publicado na revista científica GeoHeritage.
O documento é assinado por geocientistas da Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de São Carlos (UFScar), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Instituto Florestal e Instituto Geológico de São Paulo.
Mar de Irati se estendia por 1 milhão de quilômetros quadrados em cinco estados, além de Uruguai, Paraguai e Argentina (Foto: Maurício Glauco/EPTV) Mar de Irati se estendia por 1 milhão de quilômetros quadrados em cinco estados, além de Uruguai, Paraguai e Argentina (Foto: Maurício Glauco/EPTV) 
Mar de Irati se estendia por 1 milhão de quilômetros quadrados em cinco estados, além de Uruguai, Paraguai e Argentina (Foto: Maurício Glauco/EPTV) 
 
Segundo os pesquisadores, os elementos que comprovam a existência do mar de Irati estão embaixo da terra, a até 25 metros de profundidade: os estromatólitos são rochas que se formam no fundo de mares rasos a partir de microrganismos solidificados, que se acumulam como um tapete de limo. 
Em Santa Rosa, com a retirada do calcário pela mineração, foram descobertos estromatólitos gigantes, que só haviam sido encontrados na Namíbia. O engenheiro de minas Marco Antônio Cornetti explica que esse tipo de rocha geralmente é pequeno, mas no interior de São Paulo há alguns com até três metros.
“Uma infinidade de algas morreu e o calcário começa a sedimentar em cima delas. Ninguém sabe por que essas algas não sedimentavam de forma plana, elas formam uma estrutura. Por que elas assumiram essa forma, ninguém sabe o motivo”, diz.
Engenheiro Marco Antônio Cornetti mostra os coprólitos, fezes fossilizadas de animais marinhos, encontradas em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV) Engenheiro Marco Antônio Cornetti mostra os coprólitos, fezes fossilizadas de animais marinhos, encontradas em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV) 
Engenheiro Marco Antônio Cornetti mostra os coprólitos, fezes fossilizadas de animais marinhos, encontradas em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV)
Cornetti trabalhou na pedreira em 1972, quando os primeiros indícios de vida marinha foram descobertos, e também atuou ao lado dos pesquisadores entre 2012 e 2015, na elaboração do inventário atual. Ele conta que o grupo também achou coprólitos, fezes fossilizadas de peixes e tartarugas. 

“Elas têm formas diferentes: uma mais cilíndrica e outra mais redonda. Isso vai mostrar a origem de um e de outro [animal]. Esses coprólitos e os restos de conchas estão nessa camada [de rocha], o que comprova ambiente marinho nesse local”, afirma. 

Nas áreas de mineração, os geocientistas ainda identificaram fragmentos de ossos de um vertebrado que antecedeu os dinossauros, o Mesosaurus brasiliensis. O animal vivia no mar de Irati e era parecido com um lagarto com um metro de comprimento, segundo Cornetti. 

“Ele ficava em cima do estromatólito, morria e caía entre dois estromatólitos. A onda ficava balançando e, por isso, você não encontra o corpo do Mesosaurus completo, porque a água do mar ficava balançando e separava todos os pedacinhos”, explica.
Estudo aponta fragmentos de Mesosaurus brasiliensis em rochas em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV) Estudo aponta fragmentos de Mesosaurus brasiliensis em rochas em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV) 
Estudo aponta fragmentos de Mesosaurus brasiliensis em rochas em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV)

Extinção

O mar de Irati se estendia pelos estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e até partes do Uruguai, Paraguai e Argentina. Segundo os pesquisadores, movimentos geológicos fizeram quase toda água escoar para o oceano Atlântico.
“Na região de Uberlândia o solo foi levantando e foi expulsando o mar em direção à foz do Rio Paraná. Em Santa Rosa, ficou um mar fechado, com mais ou menos 3 mil hectares. Não entrou mais água, esse mar secou e na hora que foi secando, foi depositando calcário”, diz Cornetti.
O engenheiro explica que o Irati era um mar raso, com aproximadamente 200 metros de profundidade, e levou cerca de 20 milhões de anos para secar. Logo depois, a região virou um deserto e, lentamente, a vegetação foi se recompondo. As rochas existentes no local ajudaram a formar o maior reservatório de água do mundo: o Aquífero Guarani.
“Depois do mar, se formou um lago com lama argilosa. Aí, aparecem os derrames basálticos e a formação do que, todo mundo conhece, os aquífero Guarani, Botucatu e Pirabóia, que estão muito acima topograficamente dessa formação, são bem mais recentes”, diz.
Mineradora em Santa Rosa de Viterbo tem estromatólitos com até três metros de altura (Foto: Maurício Glauco/EPTV) Mineradora em Santa Rosa de Viterbo tem estromatólitos com até três metros de altura (Foto: Maurício Glauco/EPTV) 
Mineradora em Santa Rosa de Viterbo tem estromatólitos com até três metros de altura (Foto: Maurício Glauco/EPTV)
Vestígios do mar de Irati foram descobertos em mineradora em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV) Vestígios do mar de Irati foram descobertos em mineradora em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV) 
Vestígios do mar de Irati foram descobertos em mineradora em Santa Rosa de Viterbo, SP (Foto: Maurício Glauco/EPTV)