sábado, 27 de abril de 2013

MATANÇA DE RINOCERONTES

Animais estarão extintos em 20 anos

Cientistas propõem legalizar o comércio de chifres de rinocerontes para conter a matança desses bichos. A ideia é promover o corte ‘humanizado’ em animais vivos ou mortos por causas naturais, conta Cássio Leite Vieira na revista CH de abril. 
 
Por: Cássio Leite Vieira
Publicado em 23/04/2013 | Atualizado em 23/04/2013
Corte legal! Legal?
O mercado negro de chifres de rinocerontes cresce e a matança desses animais aumentou assustadoramente: sete animais em 2000; 668, no ano passado. Nessa taxa, em duas décadas, talvez, os rinocerontes estejam extintos. (foto: Geoff York) 
 
Escolha a melhor opção, segundo suas convicções éticas:

i) matar um rinoceronte para arrancar-lhe o chifre;
ii) mantê-lo vivo e cortar-lhe o chifre, que volta a crescer.

Ambas eticamente repugnantes? Bem, a fêmea de rinoceronte branco da imagem provavelmente só está cuidando do filhote porque alguém optou pela segunda alternativa.

A proposta de legalizar o comércio de chifres de rinocerontes é de quatro renomados cientistas. Justificativa: o embargo global de produtos vindos desses animais falhou. E o mercado negro de chifres cresce – 1 kg de chifre chega a R$ 130 mil (1 kg de ouro é R$ 100 mil).

E a matança desses bichos magníficos aumentou assustadoramente: sete animais em 2000; 668, ano passado. Motivo principal: a medicina chinesa, que atribui ‘poderes’ a esses pelos compactados (e não osso). Nessa taxa, em duas décadas, talvez, os rinocerontes estejam extintos.
Cerca de 5 mil rinocerontes, em áreas de conservação, dariam conta da demanda global. E os lucros iriam para a proteção desses animais
 
A demanda global, dizem os autores, pode ser suprida com o corte ‘humanizado’ do chifre de animais vivos ou mortos por causas naturais – um adulto produz quase 1 kg de chifre por ano. Cerca de 5 mil deles, em áreas de conservação, dariam conta. E os lucros iriam para a proteção desses animais.
Essa oferta diminuiria (muito) o preço do produto ilegal, tornando o mercado negro não atrativo. Uma Organização Central de Vendas supervisionaria o comércio, legitimando o produto vindo do corte legal.
Em 1965, em artigo no The Sunday Times, a escritora e ativista britânica Brigid Brophy (1929-1995) disse que, de hoje, parece incrível que os filósofos gregos não tenham notado a imoralidade da escravidão. “Talvez, daqui a 3 mil anos, pareça igualmente incrível que nós não tenhamos notado a imoralidade de nossa opressão contra os animais.” Essas ideias de Brophy foram fundamentais para desencadear o movimento de proteção aos animais na Inglaterra.

Jacarés são criados em fazendas. E isso impediu que eles fossem extintos por causa da pele. Há vários outros exemplos semelhantes de bichos que estão entre nós porque algo parecido foi feito em relação a eles.
Jacarés são criados em fazendas. E isso impediu que eles fossem extintos por causa da pele
Alguns militantes ecológicos defendem que bastaria os humanos serem vegetarianos, não usarem produtos de couro – e não acreditarem em bobagens sem fundamentação científica que envolvem a morte dos animais. Nas palavras (duras, porém realistas) de Brophy: “Nós empregamos o trabalho deles; nós os comemos e os vestimos. Nós os exploramos para que sirvam a nossas superstições”.
Neste momento, autoridades estão discutindo a proposta em Bangcoc (Tailândia). E, talvez, o destino dos rinocerontes neste século. Com ou sem chifres. A proposta está na revista Science.

Cássio Leite VieiraCiência Hoje/ RJ

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Publicado em 25/04/2013 

País entra na corrida pelo 'mineral do tablet'

Os subsolos do Brasil guardam alguns dos recursos naturais mais cobiçados do século 21: os elementos químicos conhecidos como terras-raras. Embora o nome não soe familiar, eles são o ingrediente essencial das maravilhas da alta tecnologia.
As terras-raras fazem funcionar tablets, telefones celulares, lasers, turbinas de energia eólica, catalisadores para refino de petróleo, aparelhos de ressonância magnética, mísseis teleguiados, carros híbridos (movidos a gasolina e eletricidade) e outras invenções sem as quais não se imagina a vida moderna.

Apesar de terem elevado valor estratégico, o Brasil não tira proveito desses elementos. Praticamente não existem empresas dedicadas à extração de terras-raras. O país também não tem noção de seu potencial. Apenas algumas jazidas estão mapeadas.
O governo corre para mudar esse quadro. Dois ministérios, o de Minas e Energia e o da Ciência e Tecnologia, tentam convencer as mineradoras a explorar as jazidas já localizadas e incentivar os institutos de pesquisa a prospectar minas ainda desconhecidas.

O Senado também se envolveu nesse processo. Acaba de criar, dentro da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT), uma subcomissão dedicada às terras-raras. A missão dos senadores é propor e aprovar uma lei que garanta a chamada segurança jurídica aos investidores que decidirem apostar na pesquisa, na extração e na industrialização das terras-raras, estabelecendo quais são seus direitos e deveres.
O presidente da subcomissão é Anibal Diniz (PT-AC). O vice-presidente é Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). A relatoria cabe a Luiz Henrique (PMDB-SC).
O Brasil não está sozinho no atraso. O mundo inteiro depende da China, que reina absoluta no mercado das terras-raras. De todo o volume comercializado internacionalmente, algo em torno de 90% sai das minas chinesas.
Nem sempre foi assim. Países como os Estados Unidos, a Austrália, a África do Sul e o próprio Brasil extraíam quantidades significativas de terras-raras até algumas décadas atrás.

Submarino nuclear

No Brasil, a história remonta ao final do século 19, quando foram descobertos depósitos de areias ricas em terras-raras entre o norte do Rio de Janeiro e o sul da Bahia. Primeiro, saíam do país como lastro de navio (material pesado acomodado no porão das embarcações para dar-lhes estabilidade). Depois, passaram a ser vendidas para a Europa como matéria-prima das mantas incandescentes dos lampiões a gás. Eram as terras-raras que conferiam às mantas a valiosa capacidade de não se queimarem em contato com o fogo.
Nos anos 50, as terras-raras extraídas daquelas mesmas jazidas foram exportadas para os EUA e empregadas no USS Nautilus, o primeiro submarino de propulsão nuclear da história. Em barras, as terras-raras brasileiras controlavam a absorção de nêutrons do reator atômico do Nautilus.
O nome terra-rara é enganoso. Esses elementos não têm terra na composição nem são raros. Quando foram identificados, no século 18, os cientistas chamavam os óxidos de terras. E os consideravam raros porque eram (e ainda são) encontrados em baixas concentrações, agregados a minérios e minerais. Hoje se sabe que, ainda que “diluídos”, estão em vários pontos da crosta terrestre. Alguns são mais abundantes do que o cobre e o ouro.
No total, 17 elementos químicos fazem parte da família das terras-raras, como o európio, o túlio, o lantânio e o ítrio. Eles são vizinhos na tabela periódica. Assemelham-se em razão de suas propriedades químicas, magnéticas e de fluorescência, que os tornam insumos insubstituíveis na tecnologia de ponta. São as terras-raras que possibilitam a existência dos ímãs mais potentes que há e permitem a criação de aparelhos eletrônicos cada vez menores. Em um celular, elas se contam em gramas. Em uma turbina eólica, em centenas de quilos.
A China conseguiu antever que os usos das terras-raras se multiplicariam e entrou com força total nesse filão. Em meados dos anos 80, adotou uma estratégia agressiva de negócio, incluindo polpudos subsídios estatais à pesquisa tecnológica e à extração.
Como os chineses conseguem vender terras-raras a preços irrisórios, é muito mais conveniente e barato para qualquer país importar as terras-raras da Ásia do que extraí-las em seu próprio território. É um clássico exemplo de dumping. Fora da China, como consequência, praticamente mina nenhuma sobreviveu.

Preços em alta

Em 2010, o governo chinês deu um susto no mundo. Sem aviso, restringiu as exportações de terras-raras, impondo cotas e elevando impostos. O país argumentou que queria proteger o meio ambiente e poupar um recurso natural finito. Na realidade, a ideia era favorecer sua própria indústria de tecnologia. É mais lucrativo vender aparelhos de alta tecnologia (que contêm terras-raras processadas) do que exportar a matéria-prima bruta.
Com a procura em alta e a oferta em baixa, o preço disparou. Entre 2010 e 2011, o quilo do térbio pulou de US$ 605 para US$ 2.973. O do európio passou de US$ 625 para US$ 3.800.
Foi então que o mundo acordou para o perigo de ser refém dos humores do monopólio chinês. A situação fica ainda mais preocupante quando se leva em conta a certeza de que o consumo de terras-raras sofrerá um aumento exponencial nos próximos anos — o comércio de laptops, -smartphones e tablets não para de crescer, os carros híbridos estão prestes a ganhar o mundo e os investimentos em energia eólica tendem a se intensificar, como fonte de energia limpa.
Com a crise iniciada em 2010, diversos países se mobilizaram para ressuscitar a exploração local de terras-raras. Entre outras medidas, ofereceram incentivos financeiros às mineradoras e relaxaram as exigências para a concessão das licenças ambientais. Os americanos e os australianos foram os mais ágeis.

Os EUA reativaram uma gigantesca mina na Califórnia, depois de uma década abandonada. A produção americana, nula em 2011, chegou a 7 mil toneladas em 2012. Na Austrália, entre um ano e outro, a extração pulou de 2.200 para 4 mil toneladas. Como comparação, a China chegou a 100 mil toneladas no ano passado.
Em outra frente, o governo do Japão deu estímulos para que sua indústria automobilística criasse formas de reciclar terras-raras.
A preocupação desses países vai muito além do aspecto econômico. Explica Ronaldo Santos, coordenador de Processos Metalúrgicos e Ambientais do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem):
— As terras-raras estão presentes em todos os aparatos eletrônicos de vigilância, segurança e defesa. Os países estão preocupados com sua soberania. Ficarão vulneráveis se houver desabastecimento de terras-raras.

O Brasil também sentiu os efeitos da política restritiva da China. As dificuldades para obter a matéria-prima chegaram a ameaçar a fabricação nacional de catalisadores para refino de petróleo — o petróleo é um dos grandes motores da economia brasileira. Foi então que o governo se mobilizou.
Ao elaborar o Plano Nacional de Mineração 2030, o Ministério de Minas e Energia incluiu as terras-raras entre as prioridades do país para as próximas duas décadas. O Serviço Geológico do Brasil, que é ligado ao ministério, recebeu a ordem de localizar novas jazidas.

Em outra frente, o Ministério da Ciência e Tecnologia busca estimular a pesquisa e o -desenvolvimento tecnológico em terras-raras. Promete destinar nos próximos anos R$ 11 milhões a institutos de pesquisa públicos e privados. Um dos desafios é criar tecnologias que permitam separar as terras-raras de minérios e minerais. As técnicas que se conhecem hoje são complexas, caras e extremamente poluentes.
Como parte da estratégia do governo, discute-se a possibilidade de o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) criar linhas especiais de financiamento para as empresas que se dedicarem à prospecção, à extração e ao processamento das terras-raras.

Recomeçar do zero

Em meados do século passado, quando as terras-raras ainda não tinham tantas aplicações, o Brasil era líder mundial no setor. No início dos anos 60, as minas foram estatizadas. A Orquima, a empresa que forneceu as terras-raras que alimentaram o submarino Nautilus, também passou para as mãos do governo. Assim começava o lento desmonte da cadeia produtiva.

— O Brasil perdeu todo o investimento que havia feito em tecnologia e recursos humanos. Recomeçar do zero agora não será fácil. Temos um grande desafio — diz o químico da Universidade de São Paulo (USP) Osvaldo Antonio Serra, que foi estagiário na Orquima antes da estatização.
Hoje, a extração de terras-raras no país é feita de forma experimental. A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) retira nióbio (metal que eleva a qualidade do aço) de minas localizadas em Araxá (MG). No ano passado, passou a fazer a separação das quatro terras-raras (cério, lantânio, neodímio e praseodímio) que estão misturadas ao nióbio dessas minas.

Dado o alto potencial geológico de Araxá, a multinacional MbAC Fertilizantes anunciou que construirá na cidade uma fábrica de processamento de terras-raras. A empresa que o governo mais deseja ver nesse mercado é a Vale, a maior mineradora do país.
As mineradoras se dizem interessadas, mas cobram uma atuação mais decisiva do governo. Para o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), que representa o setor, o que há são projetos esparsos, sem comunicação entre si, de institutos de pesquisa e empresas. O IBRAM defende que o Cetem, que é ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, assuma a tarefa de coordenar as iniciativas e apontar-lhes um rumo.

— O Cetem atuaria como os grupos executivos criados por Juscelino Kubitschek para alavancar a economia do país na virada dos anos 50 para os 60. O mais famoso foi o grupo executivo da indústria automobilística, que articulou o setor e obteve resultados fantásticos — explica Marcelo Ribeiro Tunes, um dos diretores do IBRAM.
Jornal do Senado - 15/04/2013 - Ricardo Westin

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pesquisadores identificam ancestral dos vertebrados de quatro patas

Peixe pulmonado africano é agora considerado o parente mais próximo dos tetrápodes, classe de vertebrados terrestres com quatro membros 

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 15:07 18 de abril de 2013
© MATHAE/WIKIMEDIA
Protopterus annectens é uma espécie africana bastante primitiva de peixe pulmonado com nadadeiras lobadas
Protopterus annectens é uma espécie africana bastante primitiva de peixe pulmonado com nadadeiras com ossos

A transição dos vertebrados da água para a terra constitui um dos principais capítulos de nossa história evolutiva. Agora, a partir do sequenciamento do genoma do celacanto – espécie de peixe africano –, uma rede interdisciplinar de pesquisadores internacionais verificou a existência de novas evidências de que outra espécie africana bastante primitiva de peixe pulmonado com nadadeiras lobadas, conhecida como Protopterus annectens, pode ser, do ponto de vista evolutivo, o parente mais próximo dos tetrápodes, classe de vertebrados terrestres com quatro membros, no qual estão inclusos animais como ratos, cachorros e também o ser humano.
Até então se acreditava que o celacanto poderia igualmente ser um provável candidato a ancestral dos tetrápodes. Isso porque, assim como os peixes pulmonados, o celacanto também possui nadadeiras lobadas, isto é, nadadeiras com ossos que, nos animais de quatro patas, correspondem aos ossos dos braços e pernas. No estudo, que é capa da edição desta semana da revista Nature, os pesquisadores sequenciaram o material genético do celacanto – composto por aproximadamente três bilhões de “letras químicas” e de tamanho semelhante ao do genoma humano – e compararam alguns trechos com o material genético do P. annectens e de outras 20 espécies de vertebrados.

Além de concluir que os tetrápodes estão mais próximos evolutivamente dos peixes pulmonados do que dos celacantos, o grupo de pesquisadores confirmou algo de que já suspeitava: que os genes dos celacantos estão evoluindo mais lentamente em comparação com outros organismos vivos. “Essa é uma das razões pelas quais essa espécie de peixe se assemelha morfologicamente aos esqueletos fossilizados de seus ancestrais de mais de 300 milhões de anos”, comentou o biólogo brasileiro Igor Schneider, da Universidade Federal do Pará e um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

A hipótese para essa lentidão nos índices de evolução dos genes é que os celacantos não enfrentaram condições ambientais que favorecessem o acúmulo de alterações genéticas. Eles continuam vivendo primariamente na costa leste da África e, pelo fato de se parecerem muito com os fósseis de milhões de anos atrás, são considerados pelos biólogos como “fósseis vivos”.

Contudo, apesar de as evidências sugerirem que os peixes pulmonados estão evolutivamente mais próximos dos tetrápodes, estudos filogenéticos envolvendo os celacantos continuam sendo fundamentais para a compreensão de como os vertebrados conseguiram migrar da água para a terra. Isso porque os peixes pulmonados ainda não têm seu genoma sequenciado – estima-se que tais peixes tenham um genoma de aproximadamente 100 bilhões de “letras”.
© BROKENSPHERE/WIKIMEDIA
O DNA do peixe Latimeria chalumnae foi estudado pelos pesquisadores no Brasil
O genoma do peixe Latimeria chalumnae (celacanto) foi sequenciado e estudado pelos pesquisadores no Brasil

Schneider e seu grupo de pesquisadores são responsáveis por parte dos experimentos que compõem o estudo. No Brasil, eles identificaram a partir de amostras do código genético do Latimeria chalumnae, espécie de celacanto analisada, trechos do DNA do peixe responsáveis pela ativação de genes que codificam proteínas relacionadas ao desenvolvimento de membros. “Como se fossem interruptores gênicos”, explica o biólogo.
Em seguida, eles inseriram trechos desses interruptores em embriões de camundongos transgênicos. Ao fazerem isso, verificaram que, mesmo sendo duas espécies separadas por milhões de anos de evolução, os genes responsáveis pelo desenvolvimento de membros nos celacantos ativaram os mesmos mecanismos para o surgimento de membros nos camundongos. “Isso significa que os genes associados ao desenvolvimento de membros já existiam no material genético dessa espécie primitiva de peixes há mais de 300 milhões de anos”, ressalta Schneider.

Assim, o celacanto continua a fornecer uma oportunidade única para identificar mudanças genômicas associadas à adaptação bem-sucedida dos vertebrados tetrápodes ao meio ambiente terrestre. Para entender melhor como se deu essa adaptação, os pesquisadores analisaram o genoma do peixe a fim de identificar genes que ao longo de mais de 400 milhões de anos foram sendo eliminados, já que não eram mais necessários, dadas as condições de vida em terra.

Ao menos 50 genes foram eliminados durante o surgimento dos tetrápodes. Ainda, a substituição desses genes por outros elementos regulatórios no decorrer dessa transição permitiu a esses animais desenvolverem novas habilidades que os ajudaram a melhor se adaptar a esse novo ambiente, como, por exemplo, percepção de cheiro e odores transportados pelo ar, mudanças no sistema imunológico, além de regiões genéticas que podem ter sido evolutivamente recrutadas para o desenvolvimento de membros como dedos e polegares.

De acordo com os pesquisadores, estudos mais detalhados sobre essas mudanças entre celacantos e tetrápodes podem ajudar a compreender melhor como organismos complexos, a exemplo dos vertebrados, podem se adaptar a novos ambientes.

Artigo científico

AMEMIYA, CT et al. “The African coelacanth genome provides insights into tetrapod evolution”. Nature. v. 496. p. 311-316. 18 abr. 2013.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Pesquisa traça história evolutiva do vírus da dengue tipo 2 no Brasil

19/04/2013
Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Uma pesquisa publicada na revista PLoS One mapeou, no Brasil, a história evolutiva do sorotipo 2 do vírus da dengue (DENV-2) – uma das quatro espécies transmitidas ao homem pelo mosquito Aedes aegypti .

Os resultados revelam a circulação simultânea de diferentes linhagens de DENV-2 no país, o que pode estar associado a um maior número de surtos epidêmicos e de manifestações graves da doença quando comparado aos outros três sorotipos da dengue. A existência de uma maior variabilidade genética entre o DENV-2 também tem sido apontada como causa do insucesso em testes com vacinas.

Resultados indicam grande variabilidade genética e circulação simultânea de diferentes linhagens, o que eleva o risco de surtos epidêmicos e dificulta a criação de vacinas (célula do vetor infectada com o vírus da dengue tipo 2/foto:Monika Barth/IOC) 

Para mapear a diversidade filogenética e filogeográfica do vírus, ou seja, o caminho evolutivo trilhado em diferentes regiões do país, pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, realizaram o sequenciamento completo de 12 amostras de DENV-2 de pacientes atendidos em São José do Rio Preto durante a epidemia de 2008. Os dados foram comparados com amostras de bancos de dados genéticos de dengue do Brasil e do mundo.

O trabalho foi coordenado por Mauricio Lacerda Nogueira, do Laboratório de Pesquisas em Virologia da Famerp, e contou com financiamento da FAPESP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e apoio da Secretaria de Saúde de São José do Rio Preto e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Dengue.

“Dentro de cada uma das quatro espécies de vírus causadoras da dengue existem diferentes genótipos. Dentro de cada genótipo ainda há variações genéticas que chamamos de clados ou linhagens. Nossos dados mostram que três diferentes linhagens de DENV-2 entraram no Brasil nos últimos 30 anos e todas elas pertencem ao genótipo Americano/Asiático”, disse Nogueira.

Segundo o pesquisador, há ao todo seis diferentes genótipos do DENV-2. O genótipo Americano/Asiático, que estima-se teria vindo do Vietnã via Cuba, predomina hoje em todo o continente americano. “O genótipo Americano existente na região originalmente foi expulso por uma versão do vírus oriunda da Ásia, mais agressiva e mais adaptada às condições epidemiológicas das Américas”, explicou.
As três diferentes linhagens de DENV-2 analisadas no estudo foram chamadas pelos pesquisadores de BR1, BR2 e BR3. Diferem geneticamente entre si por 37 alterações de aminoácidos. Essas variações, segundo Nogueira, encontram-se na região do genoma do vírus que mais interage com o sistema imunológico humano.

Os resultados divulgados na PLos One indicam que a primeira introdução do genótipo Americano/Asiático teria ocorrido entre 1988 e 1989, possivelmente no Rio de Janeiro. Essa linhagem, batizada de BR1,teria circulado continuamente em diferentes regiões do país por pelo menos 14 anos.
Entre 1998 e 2000 teria ocorrido a introdução da linhagem BR2, mais restrita à região Nordeste do país. Paralelamente, em 1999, o BR3 teria aparecido no Sudeste e, em 2001, na região Norte, causando grandes epidemias no Rio de Janeiro e em São Paulo entre 2007 e 2008 e superando as outras duas linhagens em termos de número de casos e de manifestações graves.

Presença constante

“Fizemos um estudo semelhante com o DENV-1, publicado em 2012 na revista Archives of Virology, no qual mostramos que, quando uma nova linhagem do vírus emergia, a anterior desaparecia completamente. Mas, no caso do DENV-2, existem períodos em que há dois clados diferentes circulando ao mesmo tempo no país, o que torna esse vírus mais perigoso. A maior variabilidade genética favorece epidemias”, disse Nogueira.

Não é por coincidência, afirmou o pesquisador, que o DENV-2 é há pelo menos dez anos uma presença constante no interior de São Paulo, enquanto os demais sorotipos causam epidemias em anos específicos e depois desaparecem por longos períodos. “Ao analisar os dados do Ministério da Saúde é possível detectar dengue do tipo 2 todos os anos no Brasil e em diferentes regiões”, disse.
Há alguns anos, o consenso entre os especialistas era de que, uma vez afetado por um sorotipo da dengue, o indivíduo ficaria imune àquela espécie do vírus, mesmo se infectado por diferentes genótipos e linhagens. Mas estudos recentes têm levantado novos questionamentos entre os cientistas.
Em artigo publicado na The Lancet em 2012, pesquisadores do laboratório Sanofi Pasteur reportaram o sucesso apenas parcial da vacina tetravalente contra a dengue testada em 4 mil crianças com idades entre 4 e 11 anos na Tailândia.

Entre os sorotipos DENV-1, DENV-3 e DENV-4, a taxa de eficiência ficou entre 60% e 90%. Mas o sorotipo DEN-2 resistiu quase que totalmente aos efeitos da vacina. Uma das razões apontadas no estudo seria a diferença entre os clados circulantes na população da Tailândia e os usados para fazer o imunizante.

Outros testes com a vacina da Sanofi estão em andamento em dez países da Ásia e da América Latina, entre eles o Brasil, com 31 mil crianças e adolescentes.
“Não sabemos se os resultados brasileiros serão parecidos com os da Tailândia. Pode ser, por exemplo, que aqui a vacina funcione contra o DENV-2 e não funcione contra o DENV-4. Precisamos de mais estudos para entender a evolução dos quatro sorotipos, as variações de linhagem e o quanto isso importa em termos de resposta imune, do número de casos e da gravidade da doença”, afirmou Nogueira.
Para o pesquisador, no entanto, o mais provável é que os resultados apontem para a necessidade de desenvolver vacinas específicas para cada país e para cada região.
“Temos de conhecer exatamente qual tipo de vírus está circulando em um local para saber o tipo de vacina que precisamos. Assim como não é possível fazer uma vacina genérica contra a gripe, talvez tenhamos que fazer vacinas diferentes contra a dengue. Mas precisamos de mais dados dos ensaios em andamento para saber ao certo”, ponderou.

Nogueira também coordena, com apoio da FAPESP e da prefeitura de São José do Rio Preto, um projeto de vigilância em dengue para acompanhar em tempo real o que acontece no município, que atualmente enfrenta uma forte epidemia.
“Já foram registrados mais de 8 mil casos somente em 2013 e nossos dados indicam que mais de 90% correspondem ao DENV-4, que aparentemente é menos agressivo. O número de casos graves não está sendo grande”, contou.

Entre 2009 e 2010, a região enfrentou uma epidemia de DENV-1 com mais de 20 mil casos. Com epidemias tão próximas causadas por diferentes vírus e a presença constante do DENV-2, o risco de a população sofrer infecções repetidas aumenta, o que eleva também o risco de manifestações graves, alertou o pesquisador.

O artigo Circulation of Different Lineages of Dengue Virus 2, Genotype American/Asian in Brazil: Dynamics and Molecular and Phylogenetic Characterization (doi: 10.1371/journal.pone.0059422) pode ser lido em www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0059422

Pesquisadores identificam ancestral dos vertebrados de quatro patas

Peixe pulmonado africano é agora considerado o parente mais próximo dos tetrápodes, classe de vertebrados terrestres com quatro membros 

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 15:07 18 de abril de 2013
© MATHAE/WIKIMEDIA
Protopterus annectens é uma espécie africana bastante primitiva de peixe pulmonado com nadadeiras lobadas
Protopterus annectens é uma espécie africana bastante primitiva de peixe pulmonado com nadadeiras com ossos

A transição dos vertebrados da água para a terra constitui um dos principais capítulos de nossa história evolutiva. Agora, a partir do sequenciamento do genoma do celacanto – espécie de peixe africano –, uma rede interdisciplinar de pesquisadores internacionais verificou a existência de novas evidências de que outra espécie africana bastante primitiva de peixe pulmonado com nadadeiras lobadas, conhecida como Protopterus annectens, pode ser, do ponto de vista evolutivo, o parente mais próximo dos tetrápodes, classe de vertebrados terrestres com quatro membros, no qual estão inclusos animais como ratos, cachorros e também o ser humano.

Até então se acreditava que o celacanto poderia igualmente ser um provável candidato a ancestral dos tetrápodes. Isso porque, assim como os peixes pulmonados, o celacanto também possui nadadeiras lobadas, isto é, nadadeiras com ossos que, nos animais de quatro patas, correspondem aos ossos dos braços e pernas. No estudo, que é capa da edição desta semana da revista Nature, os pesquisadores sequenciaram o material genético do celacanto – composto por aproximadamente três bilhões de “letras químicas” e de tamanho semelhante ao do genoma humano – e compararam alguns trechos com o material genético do P. annectens e de outras 20 espécies de vertebrados.

Além de concluir que os tetrápodes estão mais próximos evolutivamente dos peixes pulmonados do que dos celacantos, o grupo de pesquisadores confirmou algo de que já suspeitava: que os genes dos celacantos estão evoluindo mais lentamente em comparação com outros organismos vivos. “Essa é uma das razões pelas quais essa espécie de peixe se assemelha morfologicamente aos esqueletos fossilizados de seus ancestrais de mais de 300 milhões de anos”, comentou o biólogo brasileiro Igor Schneider, da Universidade Federal do Pará e um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

A hipótese para essa lentidão nos índices de evolução dos genes é que os celacantos não enfrentaram condições ambientais que favorecessem o acúmulo de alterações genéticas. Eles continuam vivendo primariamente na costa leste da África e, pelo fato de se parecerem muito com os fósseis de milhões de anos atrás, são considerados pelos biólogos como “fósseis vivos”.

Contudo, apesar de as evidências sugerirem que os peixes pulmonados estão evolutivamente mais próximos dos tetrápodes, estudos filogenéticos envolvendo os celacantos continuam sendo fundamentais para a compreensão de como os vertebrados conseguiram migrar da água para a terra. Isso porque os peixes pulmonados ainda não têm seu genoma sequenciado – estima-se que tais peixes tenham um genoma de aproximadamente 100 bilhões de “letras”.

© BROKENSPHERE/WIKIMEDIA
O DNA do peixe Latimeria chalumnae foi estudado pelos pesquisadores no Brasil
O genoma do peixe Latimeria chalumnae (celacanto) foi sequenciado e estudado pelos pesquisadores no Brasil

Schneider e seu grupo de pesquisadores são responsáveis por parte dos experimentos que compõem o estudo. No Brasil, eles identificaram a partir de amostras do código genético do Latimeria chalumnae, espécie de celacanto analisada, trechos do DNA do peixe responsáveis pela ativação de genes que codificam proteínas relacionadas ao desenvolvimento de membros. “Como se fossem interruptores gênicos”, explica o biólogo.

Em seguida, eles inseriram trechos desses interruptores em embriões de camundongos transgênicos. Ao fazerem isso, verificaram que, mesmo sendo duas espécies separadas por milhões de anos de evolução, os genes responsáveis pelo desenvolvimento de membros nos celacantos ativaram os mesmos mecanismos para o surgimento de membros nos camundongos. “Isso significa que os genes associados ao desenvolvimento de membros já existiam no material genético dessa espécie primitiva de peixes há mais de 300 milhões de anos”, ressalta Schneider.

Assim, o celacanto continua a fornecer uma oportunidade única para identificar mudanças genômicas associadas à adaptação bem-sucedida dos vertebrados tetrápodes ao meio ambiente terrestre. Para entender melhor como se deu essa adaptação, os pesquisadores analisaram o genoma do peixe a fim de identificar genes que ao longo de mais de 400 milhões de anos foram sendo eliminados, já que não eram mais necessários, dadas as condições de vida em terra.

Ao menos 50 genes foram eliminados durante o surgimento dos tetrápodes. Ainda, a substituição desses genes por outros elementos regulatórios no decorrer dessa transição permitiu a esses animais desenvolverem novas habilidades que os ajudaram a melhor se adaptar a esse novo ambiente, como, por exemplo, percepção de cheiro e odores transportados pelo ar, mudanças no sistema imunológico, além de regiões genéticas que podem ter sido evolutivamente recrutadas para o desenvolvimento de membros como dedos e polegares.

De acordo com os pesquisadores, estudos mais detalhados sobre essas mudanças entre celacantos e tetrápodes podem ajudar a compreender melhor como organismos complexos, a exemplo dos vertebrados, podem se adaptar a novos ambientes.

Artigo científico

AMEMIYA, CT et al. “The African coelacanth genome provides insights into tetrapod evolution”. Nature. v. 496. p. 311-316. 18 abr. 2013.

domingo, 14 de abril de 2013

New species of primate from 35 mln years ago found in Spain


A new species of primate from 35 million years ago has been discovered by researchers with the Catalan Institute of Palaeontology Michel Crusafont (Icp) in Sossis, in the area of Pallars Jussa' in the Llerida province.

New species of primate from 35 mln years ago found in Spain
New species of primate from 35 mln years ago found in Spain [Credit: ANSA]
The Icp said in a statement that the finding has been published in the Journal of Human Evolution by palaeontologists Judit Mariago' and Reef Minwer-Barakat, directed by Salvador Maya'-Sola' who contributed to form one of Europe's most important collections of fossil primates. The fossil of a small prosimian, similar to today's lemur, is the first of the Anchomomys which belonged to the extinct group of Adapiform primates. 

The new species has been named 'Nievesia Sossiensis' in honour of late Icp palaeontologist Nieves Loper Martinez known for her research on mammals from the Cretaceous and Cenozoic period in the Pyrenees. Among its characteristics are very peculiar primitive teeth with enlarged and flat premolars, larger inferior molars than the rest of the species and a small cusp on superior molars weighing between 100 and 150 grams.

The published finding greatly contributes to the phylogenetic study of other extinct primates in the northern hemisphere, North Africa, and tropical Asia in the Eocene era until the Miocene epoch on the Spanish peninsula. 

Source: ANSA [April 12, 2013]

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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pesquisa acrescenta novas peças ao ‘quebra-cabeça’ da evolução das espécies

10/04/2013
Por Noêmia Lopes

Agência FAPESP – O maior episódio de extinção em massa da história da Terra ocorreu na passagem do Permiano (o período situado entre 290 e 245 milhões de anos atrás) para o Triássico (entre 245 e 200 milhões de anos). A hipótese mais aceita é a de que eventos vulcânicos ocorridos na Sibéria tenham alterado a composição química da atmosfera, resultando em mudanças climáticas, alterações na circulação das correntes marinhas e, por fim, a extinção em massa.


Vestígios fósseis coletados nos estados do Maranhão, Paraná e Rio Grande do Sul ampliam conhecimentos a respeito das espécies que habitaram essas regiões entre 290 e 200 milhões de anos atrás (divulgação)

Em busca de pistas para entender melhor esse momento-chave da história geológica, Max Cardoso Langer, professor do Departamento de Biologia da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto, foi a campo nos estados que guardam os principais depósitos do período Permo-Triássico brasileiro – Maranhão, Paraná e Rio Grande do Sul.
Fósseis de vertebrados, invertebrados e até mesmo vegetais desse período foram encontrados ao longo dos dois anos da pesquisa apoiada pela FAPESP entre 2010 e 2012.

Em rochas do período Permiano da Bacia do Parnaíba, no Maranhão, foi localizada uma flora até então desconhecida. “Ela guarda uma semelhança muito grande com as floras permianas da Europa, dos Estados Unidos e do Sudeste Asiático. É um detalhe técnico, mas muito interessante, pois mostra que o norte do Brasil, naquela época, tinha uma biota mais parecida com regiões ao norte do planeta do que com o restante da América do Sul”, disse Langer.

Outra descoberta feita na Bacia do Parnaíba extrapolou o período de abrangência da pesquisa: acima das rochas do Permiano, sedimentos de idade jurássica (de 200 a 145 milhões de anos) escondiam um crânio de um crocodiliforme (parente fóssil dos jacarés atuais). Em terras brasileiras, todos os tetrápodes (animais com quatro patas) do Jurássico eram conhecidos somente a partir de pegadas, tornando esse achado o primeiro com base em esqueleto, segundo Langer.
A terceira entre as coletas mais significativas do Maranhão foi a de vestígios de peixes do grupo dos semionotiformes do período Permiano, animais que tinham por volta de 25 centímetros de comprimento e tegumento áspero por conta de escamas bastante robustas. Eles eram conhecidos somente do Triássico em diante.

“Acreditava-se que tais peixes tinham surgido após a grande extinção. Com o achado, vimos que, na verdade, eles pertencem a uma linhagem que, por algum motivo, resistiu ao evento de crise e irradiou-se depois dela”, disse Langer. O material está na USP de Ribeirão Preto, em análise por uma professora parceira, Martha Richter, do Natural History Museum de Londres.

Descendo o território nacional, Langer e sua equipe foram para a Serra do Cadeado, no norte do Paraná, onde também existem rochas do período Permiano. Lá, encontraram peixes e anfíbios fósseis, agora em vias de serem descritos.
“Achamos ainda vestígios de trilobitas, que são artrópodes – animais com apêndices articulados e exoesqueleto – de ambiente sempre marinho. Não se imaginava que houvesse influência do mar naquela região no período em que viveram esses animais. Mas esta é uma evidência de que tal conexão existiu”, disse o pesquisador.

Na origem dos dinossauros

As investigações em rochas triássicas na depressão central do Rio Grande do Sul ajudaram a descrever três espécies de dinossauros: uma delas, o Pampadromeu (Pampadromaeus barberenai), pela primeira vez; e as outras duas, o Guaibassauro (Guaibasaurus candelariensis) e o Sacissauro (Sacisaurus agudoensis), ganharam descrições mais completas e detalhadas do que as existentes.
“Um dos aspectos que tornam essas descobertas tão interessantes é que as rochas do Triássico do Rio Grande do Sul – assim como as do noroeste argentino – reúnem os dinossauros fósseis mais antigos de que se tem notícia em todo o mundo. Ou seja, estudá-los é olhar para a origem desses animais, para seus primeiros momentos sobre a Terra”, disse Langer.

A irradiação biótica no período do surgimento dos dinossauros, após a extinção entre o Permiano e o Triássico, moldou os padrões de biodiversidade atual. Foi o momento em que também apareceram sapos, tartarugas, mamíferos e as linhagens das aves, crocodilos e lagartos. “Novas descobertas sobre os dinossauros sempre ajudam, portanto, a explicar melhor como se estruturou a fauna que conhecemos hoje em dia”, afirmou Langer.

As buscas em solo gaúcho renderam ainda descrições de novos exemplares de tetrápodes do Triássico, como um rincossauro (Teyumbaita sulcognathus) e um rauisúquio (Decuriasuchus quartacolonia). O primeiro foi um quadrúpede baixo, alongado, que passava dos dois metros de comprimento na idade adulta e contava com uma estrutura dentária própria para mastigar vegetais, provavelmente sementes.
Já os rauisúquios eram os predadores de topo da época, comparáveis, em termos de papel na cadeia alimentar, com os leões e os tigres atuais. “Alguns passavam de cinco metros de comprimento. Pertenciam à linhagem dos crocodilos e conviveram com os dinossauros – que no início não eram tão grandes e provavelmente serviram de presas para os rauisúquios”, explicou Langer.

Hiato de Olson

O projeto envolveu outros cinco docentes e ao menos 15 alunos de instituições parceiras: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e Universidade Federal do Piauí (UFPI). Os esforços investigativos seguem em frente, com o estudo do material coletado. Ao longo dos próximos anos, isso permitirá traçar novas relações de parentesco e preencher lacunas no registro fóssil das espécies.

Os conhecimentos obtidos a partir de então podem contribuir, de modo especial, com o preenchimento do chamado Hiato de Olson, o período que se estende de 270 a 265 milhões de anos atrás (dentro do Permiano), em que registros fósseis são mais escassos.

“Não existe um motivo conhecido e aceito de forma consensual para tal escassez. Pode ser somente pela escassez de rochas dessa idade”, disse Langer. Todos os dados recuperados ao longo da pesquisa são inseridos no Sistema Lund (www.lund.fc.unesp.br/lund), banco de dados on-line para a catalogação de fósseis, o primeiro do tipo no Brasil.

Langer já havia se debruçado sobre fósseis do período Triássico no Rio Grande do Sul em seus projetos de mestrado (1996) e doutorado (2001). Nos anos seguintes, passou a estudar também os depósitos do período Permiano nos estados de São Paulo e Paraná. Com o estudo sobre o Permo-Triássico concluído, o próximo passo do pesquisador será seguir acrescentando peças ao quebra-cabeça evolutivo, agora a partir do estudo de fósseis específicos do Triássico-Jurássico.