quarta-feira, 20 de março de 2019

Os animais têm consciência de seu sofrimento?

Humanos e ratos têm circuitos neuronais homólogos que se ativam ao experimentar dor

Teste médico com um macaco na Rússia em 2003.
Teste médico com um macaco na Rússia em 2003. Getty Images
Será que os animais têm consciência de seu sofrimento? A pergunta é tão profunda que parece estar além do alcance da ciência. Afeta diretamente um dos problemas mais fundamentais na singular hierarquia dos filósofos: a questão dos qualia, como a sensação de vermelhidão que o vermelho nos induz, ou a dor consciente que a crueldade nos produz. Mas as políticas para aliviar o sofrimento animal − ou para evitá-lo − dependem totalmente da ciência. Será que os animais sentem, sofrem, e portanto têm algum tipo de direito? Em linhas gerais, a melhor ciência disponível apoia essa ideia, embora sem unanimidade.

A questão vai muito além da neurologia. De um ponto de vista técnico, saber se um animal tem consciência é o mesmo problema que saber se um paciente em coma ou em estado vegetativo tem consciência. Ambas são questões objetivas sobre a estrutura e a atividade do cérebro. Tudo que acontece em nossa mente tem uma correlação na atividade neural, e a consciência não é exceção. Os pesquisadores já têm inclusive um conscienciômetro, um aparelho que atribui um número ao grau de consciência de uma pessoa – enquanto a anestesiam, por exemplo −, ou indica se sofreu um dano cerebral. Com alguns ajustes, ele poderia ser utilizado com qualquer animal, o que nos daria uma medida objetiva do grau em que um animal pode sentir e sofrer.

Definir a consciência é muito difícil − como definir algo sem saber em que consiste? −, mas às vezes uma parábola funciona melhor que uma definição: consciência é aquilo que você perde ao dormir e recupera ao acordar. As dobras do edredom que nos cobre, o aroma de café que chega da cozinha, o som das buzinas que atravessa a janela. A sensação de estar vivo. E também a capacidade de sofrer, de sentir dor, as suas lembranças e a obscura previsão de seu futuro. “Não sei defini-la, mas a reconheço quando a vejo”, como disse o juiz Potter Stewart sobre a pornografia. Em espanhol, o problema é agravado pela confusão entre conciencia (conscience) e consciencia (consciousness), ou entre o significado moral e o neurológico. A confusão existe também na língua portuguesa, já que a mesma palavra, consciência, é usada para os dois sentidos.

Apesar dos problemas filosóficos colocados por sua definição, nos últimos anos os neurocientistas deram passos notáveis para a compreensão da consciência, que afetam diretamente o debate sobre o sofrimento animal. O documento de referência continua sendo a Declaração de Cambridge sobre a Consciência, acordada em 2012 por uma elite de neurocientistas nessa cidade britânica. E as pesquisas recentes reforçam seus argumentos.

Philip Low, fundador e CEO da empresa de neurodiagnóstico NeuroVigil, na Califórnia; Christof Koch, do Instituto Allen de Ciências do Cérebro, em Seattle; David Edelman, do Instituto de Neurociências de La Jolla, Califórnia, e outros neurocientistas de prestígio transmitiram uma mensagem clara na Declaração de Cambridge. Tanto em humanos como em outros animais foram identificados circuitos homólogos cuja atividade coincide com a experiência consciente. Além disso, os circuitos neuronais que se ativam enquanto uma pessoa sente uma emoção são essenciais para que um rato experimente a mesma emoção. Isso é impressionante, pois os humanos e os ratos evoluem separadamente há 200 milhões de anos. Aponta para uma origem comum dos sistemas emocionais nas fases iniciais da vida animal.
“Embora tenham ocorrido muitas atualizações na neurociência, o campo chegou há muito tempo à conclusão incorporada na Declaração de Cambridge de que pelo menos muitos animais não humanos, incluindo todos os mamíferos, têm consciência e têm capacidade de sofrer”, diz Low por correio eletrônico. Consciente de estar falando com um jornal espanhol, o neurocientista se mostra muito crítico em relação às touradas. “Outros países, como Brasil, Canadá, Colômbia, França, Índia, Nova Zelândia, Portugal e Suíça, estão se movendo para o futuro e começaram a fazer mudanças progressistas”, diz.

“Ainda é necessário muito progresso na pesquisa farmacêutica, pois essas empresas só podem patentear moléculas artificiais, que depois testam em animais”, prossegue Low. “Todos os anos, cerca de 100 milhões de vertebrados são sacrificados, mais de 40 bilhões de dólares são investidos, e 94% das moléculas falham em animais. Além disso, 98% das que são aprovadas nessa fase acabam falhando nos testes com humanos. Isso está aquém do desejado e é muito caro. Entender o papel que nosso estilo de vida, e em especial de nossa dieta, tem na saúde será tão essencial como identificar sinais precoces de doenças. As pessoas deveriam prestar mais atenção aos estudos que vinculam os lácteos e a carne vermelha ao Parkinson e ao câncer, respectivamente.”

Juan Lerma, professor de pesquisa do Instituto de Neurociências de Alicante, também afirma que os animais têm consciência, sensibilidade e capacidade de sofrer, mas aponta algumas nuances. “É preciso fugir de todo antropocentrismo”, diz. “As pessoas tendem a aplicar aos animais nossos próprios sentimentos; não faz sentido dizer que um peixe se deprime, mas isso é dito inclusive em artigos técnicos. Os camundongos do meu laboratório não estão se perguntando se têm consciência.”

OS TOUROS VISTOS DA CALIFÓRNIA

O redator da Declaração de Cambridge, o neurocientista Philip Low, não esconde sua irritação quando lhe mencionam as touradas: “Os mamíferos têm consciência e capacidade de sofrer, e isso inclui todos os touros massacrados selvagemente em nome da ‘tradição’ e do ‘entretenimento’. A incapacidade de uma cultura de reconhecer a sofisticação dos outros e respeitá-los carece, ela própria, de sofisticação e não merece respeito”.

Low prossegue sua furiosa argumentação: “A pergunta não é se a neurociência tem avançado, mas sim por que os espanhóis não querem ou não podem aceitar a ciência e calibrar seu comportamento com base nela, repudiando a prática bárbara das touradas, que continua sendo uma mancha na grande cultura espanhola e na riqueza de sua história”.

Como bom norte-americano, Low não pode deixar de mencionar o mais célebre fã de touradas nascido em seu país: “Hemingway deu lugar à Declaração de Cambridge. As touradas já não são consideradas românticas, e sim desnecessárias e cruéis. Não há nada viril ou grandioso em atormentar e espetar um ser inocente e sensível, muito pelo contrário. Já faz muito tempo que os gladiadores desapareceram dos circos romanos. Já é hora de que os touros sejam retirados das arenas espanholas, e de que as pessoas que têm um prazer sádico com as touradas, um espetáculo de crueldade e sofrimento em nome da arte, da história e da cultura, recebam a atenção médica que merecem”.
Bem, assim se veem as coisas na Califórnia.

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