Bastou uma viagem
Estudo sustenta que uma única leva de caçadores da Ásia colonizou a América há 21 mil anos
MARCOS PIVETTA |
ED. 77 | JULHO 2002
© SÍRIO J.B. CANÇADO

A Beríngia foi coberta pelas águas e deu origem ao Estreito de Bering.
A polêmica sobre o momento da chegada do homem à América, um
acalorado debate científico, acaba de ser reavivada por um estudo
genético com 30 índios nativos do continente, a maioria pertencente a
etnias presentes no Brasil. A análise de uma parte da molécula de DNA
(ácido desoxirribonucléico) desses descendentes dos povos primordiais
que ocuparam o Novo Mundo reforça a tese de que o
Homo sapiens
atingiu o Alasca, vindo da Ásia, via Estreito de Bering, há cerca de 21
mil anos e em apenas uma leva migratória. Saída da Sibéria, uma pequena
população de caçadores-coletores de traços mongolóides (orientais) teria
atravessado, por volta dessa época, a Beríngia – uma vasta extensão de
terra, hoje coberta pelas águas oceânicas, que ligava os dois
continentes – em busca de comida e se instalado na América.
Uma equipe de pesquisadores de nove centros do Brasil e um do Peru,
coordenados por Marco Antônio Zago e Wilson Silva Jr., da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), chegou a
essa conclusão depois de seqüenciar e estudar nos ameríndios o perfil
das mutações e a diversidade do chamado DNA mitocondrial – um tipo de
material genético que, se devidamente trabalhado, é capaz de abrir uma
janela para o passado e fornecer estimativas aproximadas de processos
evolutivos, além de, do ponto de vista clínico, estar potencialmente
relacionado à ocorrência de doenças humanas. Para os defensores da
teoria clássica de colonização da América, hoje muito questionada por
recentes achados arqueológicos e estudos genômicos, houve três
movimentos de entrada de grupos asiáticos no continente, o primeiro
tendo ocorrido há cerca de 12 mil anos.
Os resultados do novo trabalho sugerem que todos os membros da
heterogênea população de ameríndios analisada – 25 índios brasileiros
pertencentes a oito etnias (Guarani, Kaiapó, Katuena, Potururaja, Tirio,
Waiampi, Arara e Yanomami) e cinco Quechua, do Peru – derivaram de um
único grupo ancestral, possivelmente os primeiros colonizadores da
América. “Nossos dados biológicos apóiam a teoria de que a entrada do
homem no continente é mais antiga do que normalmente se pensa e de que
esse processo se deu em apenas uma leva migratória”, afirma Zago, cuja
equipe contou com financiamento da FAPESP e do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Essas populações de
ameríndios provavelmente tiveram uma origem comum.”
Para efeito de comparação e calibragem da metodologia empregada, os
pesquisadores analisaram o DNA mitocondrial de dez brasileiros
não-ameríndios, quatro de origem africana (negros), três de ascendência
branca e três descendentes de asiáticos (japoneses). O trabalho da
equipe de Zago foi publicado na edição de julho da revista
norte-americana
The American Journal of Human Genetics, uma das
mais importantes da área. Suas principaisconclusões ratificam as idéias
centrais de um amplo estudo europeu que ganhou, em 2000, as páginas da
revista
Nature, e também se baseara no uso do DNA mitocondrial como se fosse um relógio molecular da evolução humana.
Apesar de terem analisado o material genético de um número
relativamente pequeno de ameríndios, presentes em apenas dois países
sul-americanos, os pesquisadores brasileiros estão convencidos de que
seus dados são plenamente confiáveis. “Um estudo com uma amostra maior e
mais diversificada chegaria substancialmente aos mesmos resultados”,
comenta o geneticista Silva Jr. Também o fato de terem seqüenciado e
estudado apenas 50% dos pares de base (unidades químicas) do DNA
mitocondrial dos ameríndios – e não 100% – não é visto como uma falha
metodológica do trabalho. Ao contrário. “Nosso artigo é o segundo no
mundo a mostrar que, com metade do DNA mitocondrial mapeado, é possível
chegar aos mesmos resultados do seqüenciamento completo dessa molécula”,
assegura Zago.
Desse modo, como era esperado, o material genético dos 30 índios
sul-americanos estudados se encaixou em uma das quatro grandes linhagens
de DNA mitocondrial que caracterizam os povos nativos da América,
chamadas tecnicamente de haplogrupos A, B, C e D. Entre os dez
brasileiros de origem não-ameríndia – pessoas que, obviamente, não são
candidatas a serem descendentes das primeiras populações que chegaram ao
continente -, somente o DNA mitocondrial de um indivíduo branco
pertencia a um dos haplogrupos típicos dos nativos americanos. Cada
linhagem de DNA mitocondrial apresenta um número e padrão de mutações
que lhe conferem uma identidade própria, uma diversidade genética
peculiar. É isso que as torna diferentes. Os quatro haplogrupos, no
entanto, guardam muita semelhança entre si – como irmãos de uma mesma
família – e também com o DNA mitocondrial dos habitantes atuais da Ásia,
uma evidência de que os ocupantes primordiais da América vieram daquele
continente. Em outras palavras,amatriz dessas quatro linhagens,
aparentemente irmãs, é asiática.
Isso, por si só, não é uma evidência concreta de que os quatro
haplogrupos se originaram simultaneamente e de uma mesma população. Para
demonstrar esse tipo de correlação, o grupo de Zago calculou quando
cada um dos quatro haplogrupos de DNA mitocondrial se diferenciou de sua
seqüência-mãe. É algo como tentar descobrir a data de nascimento de
cada linhagem. Os resultados foram muito semelhantes, sugerindo a
existência de um ancestral comum às quatro linhagens em algum momento do
passado. Pelas contas dos pesquisadores, o haplogrupo A surgiu há 20,5
mil anos; o B, há 18,1 mil anos; o C, há 21,6 mil anos; e o D, há 23,8
mil anos. “Essa diferença não é estatisticamente relevante no tipo de
metodologia que usamos no trabalho”, diz Silva Jr.
“É como se todos os haplogrupos tivessem aparecido mais ou menos ao
mesmo tempo.” E quando isso teria ocorrido? Cerca de 21 mil anos atrás,
pois esse resultado equivale à idade média de todas as linhagens.
Portanto, se os tipos de DNA mitocondrial encontrados hoje em mais de
90% dos povos nativos da América remontam a uma mesma época, isso
provavelmente quer dizer que todos os membros desses grupos descendem de
uma única leva migratória vinda da Ásia.Nesse tipo de estudo genômico,
um dos grandes desafios é levantar subsídios que mostrem onde ocorreu a
tal diferenciação do DNA mitocondrial que levou à disseminação maciça
dos haplogrupos A, B, C e D apenas na América.
Que evidências existem de que esse processo se deu aqui e não na
própria Ásia? Afinal, as quatro linhagens poderiam ter surgido antes da
ocupação do Novo Mundo e terem sido trazidas para cá por mais de um
movimento migratório, simultâneo ou não. “A presença das linhagens A, B,
C e D é minoritária na Ásia, onde predominam outras variedades de DNA
mitocondrial”, comenta Sandro Bonatto, pesquisador da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), que também
participou do estudo. “Se essa diferenciação tivesse ocorrido antes da
chegada à América, deveria haver hoje mais representantes dessas
linhagens naquele continente.”
Efeito gargalo
Para os autores do trabalho com os ameríndios, a origem desses
haplogrupos está claramente ligada a um processo de ocupação do
continente por uma única e reduzida leva migratória, levada a cabo,
possivelmente, por alguns poucos milhares de indivíduos. Se tivessem
ocorrido outras migrações, argumentam eles, hoje deveria haver mais
linhagens de DNA mitocondrial por aqui, mais antigas ou mais novas do
que os quatro haplogrupos. Como os ameríndios apresentam menos
diversidade genética do que os asiáticos, os pesquisadores acreditam que
os nativos da América sejam o resultado de um processo evolutivo
chamado de efeito gargalo: a partir de poucos indivíduos – leia-se baixa
diversidade genética – origina-se uma população enorme que vai
colonizar uma grande área – as três Américas, no caso.
Quem não trabalha com genômica tem dificuldade em entender como os
pesquisadores conseguem construir suas hipóteses teóricas sobre a
ocupação da América a partir da análise de alguns milhares de pares de
base do DNA mitocondrial. Como esse tipo de material genético pode jogar
luz sobre o processo de colonização do Novo Mundo, ocorrido há milhares
de anos? Antes de tudo, é preciso compreender a importância – e a
especificidade – desse tipo de material genético em relação a todo o
genoma humano. Cada célula humana abriga DNA em duas estruturas: o
núcleo, que contém mais de 99,9% de todo o material genético da espécie,
e uma organela responsável pela produção de energia, a mitocôndria.
Enquanto o DNA do núcleo celular apresenta mais de 3 bilhões de pares de
bases, o DNA mitocondrial abriga somente 16.500 pares de base e
apresenta algumas peculiaridades que o tornam um bom marcador biológico.
Ele é independente do DNA nuclear e é passado para as gerações
futuras apenas pela linhagem materna, sem sofrer recombinação com
material genético proveniente da ascendência paterna. Mas isso não quer
dizer que o DNA mitocondrial é imutável e exatamente igual em qualquer
pessoa. Em razão de mutações aleatórias e erros no processo de cópia, os
pares de base que formam a sua seqüência sofrem alterações de tempos em
tempos. Muitos cientistas acreditam que as mutações do DNA mitocondrial
ocorrem num ritmo mais ou menos constante e criam modelos matemáticos
para tentar estabelecer, com forma aproximada, quando duas populações
distintas tiveram um ancestral comum. “Esse tipo de análise não traz
respostas prontas, mas aponta fortes tendências”, ressalta Silva Jr.
Foi, grosso modo, isso que os pesquisadores brasileiros e peruanos
obtiveram em seu trabalho.
Depois de seqüenciar uma região contínua de 8.800 pares de base do
DNA mitocondrial dos 30 ameríndios (e também dos dez brasileiros de
origem não-indígena), a equipe deu início à tarefa de tentar decifrar as
origens, no tempo e no espaço, desse material genético e inferir quando
e em quantas levas o homem chegou à América. Não se trata de um
trabalho que parte do nada, do zero, mas sim de algumas premissas
assumidas e difundidas em outros trabalhos científicos. Para amparar
seus cálculos matemáticos e comparações genômicas que os levariam a
estimar o momento da chegada dos primeiros colonizadores do Novo Mundo,
os pesquisadores tiveram, logicamente, de adotar um ponto de partida
para a existência das formas iniciais de hominídeos na Terra: assumiram,
como outros trabalhos também fizeram, que os hominídeos se
diferenciaram dos chimpanzés há cerca de 5 milhões de anos.
Em seguida, compararam o DNA mitocondrial desses bichos com o dos
ameríndios para estabelecer com que freqüência ocorrem alterações
(mutações) nessa região do genoma em humanos. Feitas as contas,
mostraram que há anualmente 2.4 x 10-8 substituições (mutações) por par
de bases no trecho estudado do DNA mitocondrial dos ameríndios. “Isso
equivale a dizer que ocorre uma mutação nessa região a cada 5 mil anos”,
comenta Sandro Bonatto. Se essa taxa estiver correta e se a ocupação do
Novo Mundo se deu há cerca de 21 mil anos, os ameríndios de hoje devem
apresentar pelo menos quatro mutações a mais em seu DNA mitocondrial do
que seus ancestrais asiáticos.
Existem várias teorias que procuram explicar a chegada do homem à
América a partir da análise de material paleoarqueológico e, mais
recentemente, com a ajuda de estudos do DNA humano. O trabalho dos
pesquisadores da USP de Ribeirão Preto e seus colaboradores é mais um
que se insere nessa crescente tendência de usar a informação genética
para tentar entender um processo de colonização cuja compreensão, até
bem pouco tempo atrás, dependia basicamente do resgate de ossos de
humanos e animais, da análise de artefatos e desenhos feitos por
ascendentes de nossa espécie, além de trabalhos sobre a evolução
lingüística dos ameríndios e do clima no continente. O estudo não tem a
pretensão de esgotar esse polêmico e apaixonante assunto, nem está
isento de críticas, sobretudo dos partidários de outras visões sobre a
chegada do
Homo sapiens ao Novo Mundo. “Mas nossa análise é fria e baseada em dados confiáveis”, salienta Zago.
Até algumas décadas atrás, a visão dominante acerca da colonização
era ditada pelos norte-americanos mais tradicionalistas, que sempre
difundiram a tese de que houve três movimentos migratórios de populações
mongolóides vindos da Ásia. A primeira leva de colonizadores teria
chegado há cerca de 12 mil anos anos. Essa linha de estudiosos diz que a
primeira cultura a se estabelecer aqui foi a de Clóvis, no Novo México,
Estados Unidos, onde, contudo, nunca foram encontradas ossadas humanas,
mas, sim, muitas pontas de lança, prova da existência dessa civilização
primordial.
Teorias alternativas
Outras correntes postulam que o desembarque inicial da leva de
caçadores e coletores vindos da Ásia em direção ao Novo Mundo ocorreu
antes dessa data. Um estudo recente, feito por pesquisadores da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que analisaram o cromossomo
Y – transmitido apenas pelo pai para os filhos de sexo masculino – de
18 grupos de ameríndios, sustenta que houve apenas uma onda migratória,
entre 15 mil e 30 mil anos atrás – uma conclusão na linha do artigo
produzido agora pelos seus colegas da USP de Ribeirão Preto com o DNA
mitocondrial.
Há ainda quem, como a arqueóloga Niède Guidon, defenda a tese de que a
presença humana na América é bem mais antiga, remontando há cerca de 50
mil anos. Ela sustenta essa idéia a partir de datações realizadas em
restos de uma fogueira (que teria sido feita por humanos) encontrados em
São Raimundo Nonato, no Piauí, onde ainda foram localizadas pinturas
rupestres de mais de 10 mil anos. O sítio arqueológico de Monte Verde,
no Chile, também já forneceu evidências de que o homem está na América
do Sul há mais de 12 mil anos.
Perda de linhagens
Numa outra linha de trabalho, o bioarqueólogo Walter Neves, do
Instituto de Biociências da USP, defende uma hipótese diferente. Baseado
na anatomia de esqueletos humanos achados em pontos da América do Sul,
entre os quais Luzia, o mais antigo crânio completo de
Homo sapiens
encontrado no continente (resgatado na região mineira de Lagoa Santa e
datado em 11 mil anos), Neves diz que os primeiros ocupantes do Novo
Mundo chegaram aqui entre 13 mil e 14 mil anos e não eram mongolóides,
mas, sim, membros de uma população asiática similar aos atuais
aborígines australianos e negros africanos. O problema é que esse
suposto colonizador primordial pode ter se extinguido, sendo suplantado
pelos mongolóides.
Não seria possível, portanto, estudar o DNA mitocondrial dos
descendentes de Luzia simplesmente porque eles podem não existir. Isso,
no entanto, não incomoda Neves. “Esse modelo de ocupação da América
defendido pelos geneticistas a partir da análise do DNA mitocondrial de
grupos indígenas atuais não bate com o que mostram os fósseis”, afirma o
bioarqueólogo. “Eles não levam em conta que pode ter havido perda de
linhagens de DNA com o passar do tempo, tanto na Ásia como na América.”
Os geneticistas admitem que, se Luzia e seus contemporâneos não deixaram
descendentes, não é possível negar ou provar sua existência pela
análise das populacões atuais. “Mas nossos dados mostram que a ocupacão
da América por mongolóides comecou há pelo menos 20 mil anos, muito
antes do período proposto por Neves”, afirma Zago.
Em busca dos males da mitocôndria
Além de ser uma espécie de arquivo molecular do passado, o DNA
mitocondrial também pode fornecer pistas importantes sobre mutações
potencialmente associadas ao desenvolvimento de algumas doenças, como o
mal de Parkinson, Alzheimer e o diabetes melito do tipo 2. Num trabalho
publicado na edição de maio do
The American Journal of Human Genetics,
a mesma revista norte-americana que acolheu o estudo dos brasileiros
com os ameríndios, pesquisadores de uma empresa de biotecnologia da
Califórnia, a MitoKor, revelaram que seqüenciaram o genoma mitocondrial
de 560 pessoas de origem asiática, européia e africana. O esforço da
companhia produziu, possivelmente, a maior base de dados com sequências
dessa região do DNA humano, composta por apenas 16.500 pares de bases
(unidades químicas).
O grande desafio dos cientistas agora é mapear todas as mutações do
genoma mitocondrial e descobrir quais dessas alterações podem ser
fatores de risco para o aparecimento das doenças citadas. Para atingir
esse objetivo, o que abriria caminho para o desenvolvimento de novas
terapias contra esses distúrbios, as seqüências genômicas de indivíduos
sadios e de portadores de Alzheimer, Parkinson e diabetes vão ser
comparadas em detalhe. A tarefa não é fácil nem deve trazer resultados a
curto prazo, mas isso não desanima os pesquisadores. “A questão central
é que não há respostas simples”, afirma Neil Howell, principal autor do
estudo. “Vamos ter de caracterizar o genoma mitocondrial de populações
ainda maiores para encontrar as respostas.”