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terça-feira, 24 de julho de 2012

Cruzada científica

A jornada de Walter Neves, um pesquisador incansável que ultrapassa barreiras e adversários

Gilberto Stam



O biólogo e antropólogo físico do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) foi além de superar as dificuldades tradicionais de fazer ciência no Brasil. No nosso caso, isso implica superar barreiras como a burocracia e a dificuldade em conseguir reconhecimento na comunidade internacional. Walter Alves Neves conseguiu emplacar uma teoria sobre a ocupação do homem na América que dava de frente com a teoria dos poderosos cientistas norte-americanos e, trabalhando num país com pouca tradição em antropologia física, ajudou a levar a pesquisa na sua área para um novo patamar.
O pesquisador já estava acostumado a conflitos. Trabalhando como arqueólogo no Instituto de Pré- História da USP, onde começou a carreira, percebeu que a metodologia usada na arqueologia estava totalmente atrasada e tentou introduzir uma abordagem mais moderna, trazida dos Estados Unidos, onde fez parte do seu doutorado. Mas, foi demitido em 1985 por cientistas que não aceitavam as mudanças que ele propunha. Logo em seguida, trabalhou por quase dez anos no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, desenvolvendo trabalhos na área de antropologia ecológica, que estuda as adaptações de sociedades tradicionais ao ambiente.

Em 1989, após analisar alguns crânios da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, percebeu que eles não seguiam o padrão mongol típico que, de acordo com a teoria americana, teria ocupado a América. Walter propôs então a teoria de que uma outra população, com traços africanos ou australianos, teria ocupado a América anteriormente, há cerca de 15 mil anos. Essa primeira leva teria sido eliminada ou assimilada em cruzamento pela população atual que chegou depois, há 10 mil anos. Sua ideia ganhou impulso com a descoberta do esqueleto de Luzia, e diversos outros achados no Brasil e no continente vieram a confirmar sua teoria.

“Até a descoberta de Luzia, em 1975, a pré-história brasileira não tinha um ícone como é o Neanderthal na Alemanha, o Cro-Magnon na França e a Lucy na Etiópia”, revela Walter, que, além de vencer batalhas no campo científico, tem feito também importantes contribuições na divulgação desse setor, como a publicação de um livro para leigos, O Povo de Luzia, da Editora Globo. As revelações do pesquisador hoje aparecem nos livros escolares, na imprensa e nas exposições com as quais colabora.
Uma das descobertas mais recentes foi a da gravura mais antiga da América. “A arqueologia sempre traz muitas surpresas. Encontramos a gravura num finalzinho de escavação, quando nós estávamos já levantando acampamento, e parecia que nenhuma novidade a mais surgiria.” Nesta entrevista, o cientista, hoje com 55 anos, fala sobre arqueologia, evolução humana, os desafios que encontrou em sua carreira e a importância da divulgação científica para a população.

Como o senhor começou a estudar Antropologia Física?
Aos 8 anos eu sabia que queria ser um cientista e inexplicavelmente, aos 12, eu descobri que queria trabalhar com evolução humana, apesar de morar numa cidadezinha do interior de Minas Gerais e não ter tido nenhum estímulo para isso. Eu acreditava que o curso de história era o melhor caminho, mas um ano antes do vestibular eu visitei o extinto Instituto de Pré-História da USP e fui aconselhado a estudar biologia. Quando fiz o curso, eu já sabia que ia usar o que eu aprendesse na biologia para estudar a evolução humana.

O senhor tinha de fato uma inclinação pelas humanas?
Em princípio não, foi o contato com a arqueo- logia que me levou ao interesse tanto pela teoria antropológica quanto pela etnologia. Trabalhei no Instituto de Pré-História, ainda na faculdade, onde conheci uma grande parceira, a Solange Caldarelli. Era um ambiente jovem que me despertou o interesse pela arqueologia, pela museologia e indiretamente pelas ciências humanas. Em 1985, porém, os professores mais velhos começaram a achar que o nosso trabalho estava expondo a mediocridade da pesquisa que eles faziam, e nós fomos todos demitidos da USP. Tudo que a gente havia feito de trabalho de campo desde 1978 foi perdido. Por isso, tenho muito pouca coisa publicada daquela época.

Qual foi o motivo da discórdia?
Fazia-se nessa época um trabalho arqueológico extremamente descritivo e destituído de um quadro teórico. Nós começamos a fazer arqueologia processual, que veio dos EUA, e estava mais interessada em reconstituir organização e comportamento social no passado, e não fazer uma mera descrição dos sítios escavados. Nós estávamos interessados em processos de formação social, o que foi considerado um escândalo.
De onde veio seu interesse pela divulgação científica?
Na escrita, veio em grande parte do (biólogo Oswaldo) Frota-Pessoa, um dos grandes difusores de ciências no Brasil, que logo pediu para que eu escrevesse artigos de divulgação científica. O lado dos museus começou no Instituto de Pré-História, onde trabalhei com a Maria Cristina Oliveira Bruno, que hoje está no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e é sem dúvida uma das maiores museólogas do país. Um dos maiores projetos foi a mostra do Redescobrimento, visitada por 1,6 milhão de pessoas em 2000, na OCA (SP).  Agora estamos terminando um grande projeto sobre evolução humana no espaço Catavento Cultural, para meados do semestre que vem. São Paulo finalmente contará com uma megaexposição sobre evolução humana. É um absurdo uma cidade com a importância da capital paulista não ter uma boa exposição sobre o assunto.

Qual o apelo da evolução humana para a divulgação científica?
A demanda por informações que nós recebemos é uma coisa emocionante, não tem um dia em que nosso telefone não toca, de colégios ou mesmo de pessoas comuns que ligam para saber onde elas podem conseguir mais conhecimento, mas nós não temos muito a oferecer. Agora, pelo menos, nós podemos indicar o livro O Povo de Luzia. Mas trata-se de um livro sobre a ocupação da América apenas, nós não temos ainda um livro de divulgação que trate do processo de evolução humana como um todo.

O sucesso da Luzia na mídia contribui para o êxito de sua teoria de ocupação da América?
Eu comecei a propor o meu modelo de ocupação da América em 1989, e ele foi solenemente ignorado até o advento da Luzia. Foi o sucesso midiático que a Luzia teve no exterior que obrigou os meus colegas norte-americanos a pelo menos admitirem que havia alguém aqui propondo um novo modelo de ocupação da América. Não dava mais para fingir que não existia ou jogar para debaixo do tapete.

Qual é o maior empecilho para a aceitação da sua teoria da ocupação da América em duas levas?
Atualmente, o maior entrave vem da genética. As pesquisas nessa área indicam a entrada nas Américas de apenas um grupo etnobiológico [de origem asiática, semelhante aos índios atuais], enquanto a minha pesquisa demonstra que deve ter entrado um grupo anterior, bastante diferente [semelhante aos africanos ou australianos]. Quem está certo? Nós, que trabalhamos com esqueletos, ou os geneticistas que trabalham com a diversidade genética das populações indígenas atuais? O problema é que hoje existe uma ditadura do DNA, como se os geneticistas devessem sempre dar a última palavra. Mas eu acho que eles deveriam ser um pouco mais modestos, porque 95% das populações indígenas que existiam nas Américas foram dizimadas pelos europeus. Portanto, é difícil tirar conclusões sobre aquele período pelo DNA que temos hoje.

O registro fóssil tem muitas lacunas. Isso significa que nós nunca vamos conhecer direito a evolução humana?
Mesmo que a gente não tenha acesso ao todo, nós já temos hoje um mapeamento bastante preciso de como se deu esse processo de registro fóssil. Como em toda área da ciência, nós estamos sempre corrigindo coisas, aprimorando, na medida em que novas descobertas vão acontecendo. Mas se você comparar com 40 anos atrás, nós estamos hoje anos-luz à frente no conhecimento da evolução humana que existia quando eu comecei há mais de trinta anos, em 1978.

A ocupação da América começou há cerca de 15 mil anos. Como é trabalhar numa escala de tempo tão distante?
Eu acho que a coisa mais glamorosa que uma pessoa pode ser é astronauta. Não há nada como chegar num planeta novo em que ninguém nunca colocou o pé. Eu acho que depois disso, a ciência mais glamorosa é a arqueologia, porque por mais que você tenha informações e conheça a região em que você vai escavar, mesmo que já tenham ocorrido outras escavações na área, um sítio arqueológico é sempre um baú de surpresas. Mas, apesar de lidar com coisas que estão bem distantes de nós, eu acho que mantenho o pé no chão.
Qual é a importância prática da antropologia física e ecológica?
O que eu sempre digo é que as pessoas não têm só fome de comida, mas também fome existencial. O que nós fazemos alimenta e elucida a questão existencial. Mas ela não tem nenhuma consequência prática no sentido de melhorar a qualidade de vida das pessoas, razão pela qual eu acho que temos a obrigação de pelo menos dar a elas essas informações que podem ajudá-las a se localizar no universo. Mas na área de antropologia ecológica nós estamos, sim, gerando conhecimentos que podem ser muito importantes para a questão da autossustentabilidade.

A antropologia física tem sido palco de debates acalorados. Por que isso acontece?
Toda área científica tem polêmica, mas nós trabalhamos com o cocô do cavalo do bandido em pó. O que sobra para nós construirmos uma grande narrativa sobre o processo evolutivo humano é muito pouco. Eu acho que isso torna a discussão mais tensa, muito personalista e muito suscetível às crenças pessoais. Daí predominam aqueles que têm maior capacidade de eloquência.

Pelo seu contato com os alunos que entram na universidade, o que o senhor acha do nível da educação no Brasil?
Os alunos que entram na USP, uma referência entre as instituições de ensino públicas no país, são semianalfabetos, a despeito de advirem, na sua maioria, de boas escolas, muitas delas particulares. Ou se provoca uma revolução no ensino médio no Brasil, ou nós não teremos perspectivas. Nossos alunos não conseguem se expressar por escrito nem ser claros, falta-lhes repertório, mesmo tendo feito cursinho e passado por um vestibular bastante competitivo. De maneira geral, eles são também extremamente entediados. E eu digo isso com certa tranquilidade, porque  dou aula sobre um assunto sedutor, sobre o qual todo mundo tem grande interesse. Parece até que só um Neanderthal vivo entrando na sala de aula causaria algum entusiasmo.

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