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sexta-feira, 6 de março de 2015

Neandertais são injustiçados na história da evolução do homem

Espécie que mais se assemelha ao homem moderno é retratada como pouco inteligente e bruta, mas viveu em complexo sistema social.


Há 40 mil anos, no local onde hoje é a Alemanha, um caçador foi surpreendido quando tentava garantir o almoço. A Europa enfrentava um período de glaciação que escasseava os recursos. Com uma lança na mão, o musculoso homem vestido com peles grossas finalmente viu sua presa em uma caverna. Mas, antes que pudesse se apropriar dela, um grupo se aproximou. Eram pessoas extremamente parecidas com ele, porém mais altas e com feições menos brutas. Com técnicas e ferramentas avançadas, pegaram o animal ferido e mataram o inimigo.



O homicídio permaneceu escondido por camadas de calcário até que, no fim do século 19, o esqueleto foi encontrado na caverna de Neander Valley, dando início à corrida pelos ancestrais humanos. Feridas nos ossos permitiram aos paleontólogos, anos depois, concluir que o Neanderthal foi assassinado por uma nova leva humana que há 45 mil anos migrou para a Europa, exterminando os neandertais cinco mil anos depois.

De todas as espécies que compõem os galhos da evolução, essa foi a que mais se assemelhou ao homem moderno. Objeto de controvérsias, já foi considerada uma subespécie do Homo sapiens, a Homo sapiens neanderthalensis, mas hoje predomina a ideia de que os neandertais foram outra espécie humana que compartilhou um ancestral com o homem moderno e se dividiu há cerca de 500 mil anos.

Presentes na Europa e na Ásia por quase 200 mil anos, os neandertais desapareceram em um episódio ainda misterioso. O clima já foi responsabilizado, mas hoje aumentam as evidências de que a presença do Homo sapiens foi primordial para extingui-los. As mudanças de temperatura, de fato, deixaram o ambiente inóspito, dificultando a busca por comida. Talvez, porém, eles tivessem sobrevivido à escassez se não precisassem disputar recursos com uma espécie capaz de caçar em grandes grupos e que se reproduzia a toda velocidade.

Por muito tempo, o Homo sapiens foi injusto com seu parente mais próximo. Pintou o neandertal como um ser abrutalhado e pouco inteligente. Novas pesquisas de campo, contudo, mostram que a espécie tinha cultura própria e um complexo sistema de organização social. Controlava o fogo e, provavelmente, acreditava em vida após a morte, já que enterrava seus mortos seguindo um padrão funerário.

Fisicamente, os fósseis indicam que os neandertais tinham membros curtos, estruturados por profundas e largas costelas. A anatomia ajudava a reter o calor, já que eles viveram justamente na Era do Gelo. Usava lanças finas e pesadas para caçar e provavelmente fazia os ataques com a mão direita, visto que o estudo da ossatura da espécie revelou que esse lado do corpo era mais forte. Mais carnívoro que o Homo sapiens, ele usava métodos simples para a caça. Escondido na floresta, esperava a presa se aproximar. O fato de não se aventurar em emboscadas não significa, porém, que era menos inteligente.

Até maquiagem
Recentemente, o pesquisador João Zilhão, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, descobriu que os neandertais usavam bijuterias e maquiagem. Adornar o corpo com pinturas não era apenas uma questão de vaidade. Nas sociedades primitivas, os ornamentos tinham uma função ritualística. Daí a conclusão de que os neandertais eram mais sofisticados do que se imaginava. As evidências foram encontradas em dois sítios arqueológicos de Múrcia, no Sudeste espanhol: a Cueva de los Aviones e a Cueva Antón. Nas cavernas, eles resgataram conchas perfuradas e com resíduos de tinturas amarelas e vermelhas, datadas de 50 mil anos.

Ralph Holoway, pesquisador da Universidade de Columbia em Nova York, afirma que não há motivos para duvidar da inteligência dos neandertais, já que eles tinham um cérebro, inclusive, maior que o do humano moderno e anatomicamente idêntico. Para ele, as áreas cerebrais responsáveis pelos pensamentos complexos eram tão avançadas quanto às do Homo sapiens.

A espécie também era capaz de falar. Filmes e desenhos retratam o homem das cavernas, os neandertais, dizendo, no máximo, “uga-uga”. Mas, ao analisar o crânio de um indivíduo da espécie, o professor Bob Franciscus, da Universidade de Iowa, notou que o trato vocal dos neandertais era mais largo e curto que o de um homem moderno, características que não impediam a fala. “Crucialmente, a anatomia do trato vocal é suficientemente próxima à nossa, indicando que não havia razão para que ele não produzisse uma complexa extensão de sons.”

Inteligente e comunicativo, ainda assim o neandertal não aguentou a pressão do Homo sapiens. A capacidade reprodutiva pode estar por trás disso. De acordo com um estudo do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, a população neandertal era muito pequena. Mais numerosos, os homens que vieram da África levavam vantagem. Pouco a pouco, a espécie seria reduzida, morrendo de fome ou durante brigas, como a que vitimaram o indivíduo encontrado enterrado na caverna de Neander Valley.

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