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quarta-feira, 11 de março de 2026

 

Os leopardos-das-neves do mundo são geneticamente muito parecidos — descobertas sugerem que isso não é um bom presságio para o futuro deles



O artigo apresentando os resultados da pesquisa foi publicado online no final de fevereiro na revista Ichnos. O estudo foca em duas trilhas (T1 e T2) preservadas como hiporresíduos convexos na parte inferior de uma camada de arenito do Jurássico Superior, com aproximadamente 152 milhões de anos, provenientes dos penhascos a leste de Playa de España (Villaviciosa). Os espécimes agora fazem parte da coleção do museu e estão em exibição na galeria dedicada ao Jurássico Asturiano.

Em ambas as trilhas, as pegadas da mão e dos pés variam de tetradáctilo a pentadáctilo, são assimétricas e apresentam um aumento progressivo no comprimento dos dedos. Sua excelente preservação e características morfológicas permitem que sejam atribuídas a um lagarto e atribuídas ao icnogênero Rhynchosauroides, que foi amplamente distribuído durante o Permiano e Triássico, mas é muito raro no Jurássico. Na verdade, os exemplos asturianos representam sua ocorrência conhecida mais recente no registro fóssil global.

A Via T1 consiste em sete pegadas (quatro e três pegadas) e foi produzida por um lagarto com cerca de 50 centímetros de comprimento. A Via T2 inclui seis pegadas (três pegadas de mãos e três pegadas) e é atribuída a um indivíduo um pouco menor, com aproximadamente 30 centímetros de comprimento.


No caminho T1, os pesquisadores detectaram a presença de uma estrutura quase contínua, larga, reta e com muito pouco relevo. Sua morfologia permite identificá-lo como uma marca de arrasto na cauda.

Também foi observado que a distância entre as pegadas da mão e do pé varia ao longo da trilha, tornando-a altamente irregular. Para entender essa anomalia na locomoção, refletida na irregularidade da trilha, vários experimentos foram realizados com duas espécies modernas de lagartos: o lagarto ocelado e o dragão-barbudo.

Os testes não invasivos foram realizados com espécimes em cativeiro em uma instalação na cidade de Jiangyin, na província de Jiangsu, na China. Quando esses animais — especialmente os juvenis — passaram de uma posição estacionária para o movimento, fizeram curvas abruptas que geraram trilhas semelhantes ao exemplo fóssil asturiano.


Os lagartos deixaram essas pegadas enquanto atravessavam lama semi-consolidada nos deltas da época, que desciam para um mar interior sem marés. Esse mar era protegido de ondas fortes por uma barreira externa que o separava do oceano aberto, um cenário que favorecia a preservação das pegadas.

Detalhes da publicação

Laura Piñuela et al, Primeiro relato de rastros de lagartos no Jurássico da Europa, Ichnos (2026). DOI: 10.1080/10420940.2026.2634103

Informações do diário: Ichnos 








quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Recado de Michael Benton aos jovens aspirantes a paleontólogos

O ilustre membro de nossa comunidade paleontológica, Dr. Michael Benton (University of Bristol, UK), autor de centenas de artigos e diversos livros sobre paleontologia, manda um recado aos jovens brasileiros apaixonados por paleontologia.
Tivemos a honra de conversar com ele durante o 4th International Paleontological Congress, em Mendoza, na Argentina, aonde ele elogiou a iniciativa dos Detetives do Passado e mandou um recado a todos os jovens brasileiros que demonstram interesse em paleontologia e almejam tornarem-se futuros paleontólogos. O caminho é duro, mas vale a pena lutar pelos seus sonhos.
Saiba mais sobre Michael Benton aqui: http://www.bristol.ac.uk/earthsciences/people/mike-j-benton/
Assista ao vídeo:
 
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012


Ministério Público quer proteção de fósseis de dinossauros em SP

26/09/2012
             
Sítios arqueológicos em áreas particulares de três cidades do noroeste paulista estariam ameaçados, diz o MPF.

O Ministério Público Federal de Jales, a 601 quilômetros de São Paulo, entrou com ação civil pública na Justiça Federal visando à preservação de sete depósitos com fósseis de dinossauros do Período Cretáceo, há pelo menos 65 milhões de anos.

De acordo com o MPF, eles formam um dos maiores complexos fossilíferos do País, mas correm o risco de se perderem. A ameaça vem principalmente das plantações de cana-de-açúcar e da criação de animais que invadem os sítios paleontológicos, localizados em áreas particulares.

O MPF pediu uma liminar para que as prefeituras de General Salgado, Auriflama e São João de Iracema, além de órgãos da União e do Estado, apresentem em 60 dias o mapeamento dos sítios e um plano para preservá-los.

Na região, os cientistas identificaram 17 espécimes de répteis do Cretáceo, pertencentes a três diferentes espécies de crocodiliformes de médio a grande porte. Duas delas foram descritas a partir desses achados, a Baurussuchus e Armadillosuchus arrudae.

Em General Salgado, onde está a maioria dos sítios, os fósseis foram encontrados na década de 1990. "Além dos esqueletos fossilizados, foram encontrados outros vestígios de vida daquele período (icnofósseis), como cascas de ovos, gastrólitos (pedras presentes no sistema digestivo de animais), coprólitos (fezes conservadas por processo de mineralização), rastros de vertebrados e invertebrados conservados na rocha", descreve na ação o procurador Thiago Lacerda Nobre.

As descobertas foram consideradas "de notável importância científica" pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos, que encaminhou à Global Indicative List of Geological Sites, órgão de referência internacional dos sítios geológicos, recomendação para que o sítio fossilífero de General Salgado fosse considerado Patrimônio Mundial da Humanidade. Segundo Nobre, o laudo do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) concluiu ser grande o potencial de novos achados.

Além das prefeituras, o MPF atribui a órgãos federais, como o DNPM e o Ibama, e ao governo estadual a responsabilidade pela preservação. A ação pede a apresentação, em 120 dias, de projeto de criação de unidades de conservação do patrimônio natural, a serem criadas até três meses depois. A prefeitura de General Salgado informou que há um plano para preservar o sítio, mas o projeto depende do próximo prefeito. Auriflama e São João de Iracema aguardarão notificação da Justiça. O Ibama também não tinha conhecimento da ação e o DNPM colabora com o MPF para preservar os sítios.

(O Estado de São Paulo)

domingo, 11 de julho de 2010

Um caminho para o gigantismo?

Um caminho para o gigantismo?

Estudo revela detalhes anatômicos relacionados à respiração e ao tamanho dos pterossauros

Por: Alexander Kellner

Atualizado em 11/07/2010

Um caminho para o gigantismo?

Esqueleto do pterossauro Rhamphorhynchus (acima). Abaixo, detalhe das costelas esternais, que tinham protuberâncias onde se inseriam músculos (imagens: PLoS One).

Entender como viviam e funcionavam animais que estão extintos há milhões de anos não é uma tarefa fácil. Mesmo assim, por meio de comparações anatômicas detalhadas e do emprego de novas técnicas e equipamentos cada vez mais sofisticados, os paleontólogos têm conseguido avançar na compreensão de várias questões biológicas dos organismos fossilizados.

Leon Claessens (College of the Holy Cross, Massachusetts, Estados Unidos) e colaboradores acabam de dar mais um passo nessa direção. Em estudo publicado na PLoS One, eles descrevem um novo modelo para a respiração dos pterossauros que pode ter levado ao gigantismo de alguns desses répteis voadores.

Os pterossauros formam um dos mais interessantes – e intrigantes – grupos de vertebrados que já surgiram na face da Terra. Os exemplares mais antigos encontrados até hoje procedem de depósitos formados há 215 milhões de anos (a origem do grupo é mais antiga, estimada em torno de 228 milhões de anos atrás). Esses répteis voadores se extinguiram há 65 milhões de anos, juntamente com a maioria dos dinossauros.

Restos de pterossauros foram encontrados em praticamente todos os continentes. Suas formas são bem variadas, inclusive em tamanho: vão desde o Nemicolopterus crypticus da China, que tinha abertura alar de 25 centímetros, até o Quetzalcoatlus northropi do Texas (Estados Unidos), que atingia aproximadamente 10 metros de uma ponta à outra da asa – um verdadeiro gigante.

A origem do voo ativo
O aspecto mais fascinante dos pterossauros não é apenas o seu tamanho ou o fato de eles terem dominado os céus do planeta por mais de 150 milhões de anos, mas sim a proeza de serem os primeiros vertebrados a desenvolverem o voo ativo – e isto bem antes das aves e dos morcegos, os únicos grupos de vertebrados além dos pterossauros com essa característica.

Por isso, muito se especula a respeito do metabolismo desses répteis voadores: se eram animais endotérmicos, que poderiam controlar a temperatura de seu corpo, como fazem as aves; ou se eram ectotérmicos, com a temperatura do corpo sendo mais influenciada pela temperatura externa, como é o caso da maioria dos répteis atuais. A respiração, segundo os pesquisadores, é questão fundamental nessa discussão.

Estudos anteriores partiam do princípio de que a região torácica dos pterossauros não tinha grande mobilidade, pois o esterno (osso situado na parte ventral do tórax) se mantinha em posição relativamente fixa. Dessa forma, não haveria uma maior participação da região torácica no bombeamento do ar para os pulmões, uma característica associada a animais ectotérmicos.

Novo modelo respiratório

Modelo de respiração dos pterossauros Rhamphorhynchus (acima) e Pteranodon (abaixo). A musculatura associada às costelas e as costelas esternais permitiam um deslocamento do esterno e das costelas durante a inspiração (setas azuis e sombra rosa), o que contradiz modelos anteriores, segundo os quais esse conjunto de ossos não apresentaria qualquer movimento.

Leon Claessens e seus colegas resolveram então examinar em detalhe a região torácica de três gêneros de pterossauros: Rhamphorhynchus (o mais primitivo dos três), Pteranodon e Anhanguera. Além de analisar os exemplares fósseis em si, eles também realizaram tomografia computadorizada do material, sobretudo de um esqueleto Anhanguera procedente da Formação Santana, no Brasil, cujos ossos estão preservados de forma tridimensional e sem apresentar grandes distorções.

A equipe observou que o esterno dos pterossauros era ligado às costelas por um segundo grupo de ossificações, chamadas de costelas esternais. Essas costelas esternais não tinham tamanho uniforme – as posteriores eram maiores do que as anteriores – e todas possuíam protuberâncias laterais, que seriam base para os músculos da região. Assim, ao comprimirem e expandirem essa musculatura, os pterossauros podiam mover todo o conjunto, incluindo o esterno.

Além disso, os pterossauros possuíam um osso único na frente da bacia chamado de pré-pubis, que também poderia se movimentar para cima e para baixo, participando, assim, da atividade respiratória dos animais. Logo, apesar de a área dorsal da região torácica ser rígida, a parte ventral, onde se localiza o esterno, poderia se mover (por intermédio das costelas esternais), bombeando ar para os pulmões.

Outro ponto levantado por Claessens e seus colegas é a presença de cavidades pneumáticas em diversos ossos do esqueleto dos pterossauros. Esse tipo de estrutura é semelhante à encontrada em aves, que têm essas cavidades preenchidas por sacos aéreos diretamente vinculados à respiração. Dessa forma, o novo estudo sugere que o sistema de respiração dos pterossauros era análogo ao das aves – animais endotérmicos. Esse complexo sistema de sacos aéreos também já foi encontrado em um dinossauro carnívoro descoberto na Argentina, como mostramos anteriormente nesta coluna.

Gigantismo
Um segundo ponto interessante do estudo publicado na PLoS One é a observação de que ossos pneumáticos (preenchidos por ar), particularmente nos membros anteriores, são comuns em pterossauros de maior porte (acima de 2,5 metros de abertura alar) e mais raros em formas menores. Por serem ocos, a densidade dos ossos é comparativamente menor, o que provoca diminuição no peso do esqueleto – uma vantagem para um animal alado.

Dessa forma, Claessens e colegas levantam a hipótese de que, à medida que o sistema de respiração dos pterossauros evoluía e os sacos aéreos invadiam outras partes do esqueleto desses animais, sobretudo os membros anteriores, abriu-se a possibilidade de os pterossauros atingirem tamanhos maiores. Ou seja, a evolução do mecanismo de respiração dos pterossauros fez com que eles pudessem atingir uma envergadura alar cada vez maior. Assim, acabaram surgindo formas gigantescas, como Pteranodon e Anhanguera, que podiam chegar a ter mais de 6 metros de uma ponta à outra da asa.

Reconstrução dos sacos aéreos presentes no pterossauro Anhanguera, com as posições dos pulmões (em laranja), dos sacos aéreos cervicais (em verde) e dos sacos aéreos abdominais (em azul). O sistema sugere que os pterossauros eram animais endotérmicos.


Naturalmente, uma pesquisa assim nunca pode ser vista como definitiva, pois existem questões não resolvidas. A mais importante é estabelecer se esse modelo é universal para todos os pterossauros, visto que o trabalho coordenado por Claessens envolveu apenas três gêneros dos mais de 180 conhecidos.

Agora pesquisadores têm que desenvolver mais estudos com uma diversidade maior de pterossauros para determinar se a teoria levantada se mantém. De qualquer forma, esse trabalho sobre os pterossauros mostra como uma pesquisa sobre fósseis pode se sofisticar ao procurar respostas para aspectos biológicos de um grupo totalmente extinto.

Não é apenas de pincéis, martelos e ponteiras que vivem os paleontólogos modernos...


Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
04/05/2009



sexta-feira, 28 de maio de 2010

Brecha para o neandertal



Comparação entre o genoma humano e a versão inicial do sequenciamento genético dos neandertais permite a identificação de genes exclusivos dos homens e sugere que pode ter havido reprodução entre as duas espécies.




Por: Camilla Muniz

Publicado em 06/05/2010 | Atualizado em 06/05/2010


Que características tornam o homem humano? A resposta a esta pergunta, tão buscada pelos cientistas, pode estar começando a tomar forma. Através de uma comparação entre genomas de humanos, chimpanzés e neandertais, uma equipe internacional formada por 56 pesquisadores constatou que o homem moderno possui genes únicos que o diferenciam de outras espécies hominídeas. A descoberta pode ser a chave para a compreensão da identidade humana.

O estudo foi possível graças ao pioneirismo da equipe em iniciar o sequenciamento do genoma dos neandertais, espécie mais próxima dos homens modernos na escala evolutiva. Envolvidos nessa tarefa há quatro anos, os pesquisadores apresentaram a versão inicial da sequência genética em dois artigos publicados na edição da revista Science publicada nesta sexta-feira (07/05).

O sequenciamento ainda permitiu à equipe identificar heranças genéticas dos neandertais nos humanos. Os pesquisadores calculam que entre 1% e 4% do DNA dos homens deriva do genoma desses seus parentes mais próximos. O achado sugere que houve reprodução entre as duas espécies há aproximadamente 80 mil anos.

Ossos de neandertais encontrados em caverna na Croácia
O sequenciamento do genoma dos neandertais foi realizado a partir de pequenas amostras de pó extraído de três ossos datados de mais de 38 mil anos (foto: Max-Planck-Institute EVA).

Conquista sem precedentes

Os avanços em obter a sequência gênica dos neandertais ocorre apenas dez anos depois da decodificação do genoma humano. O trabalho foi baseado na análise de mais de quatro bilhões de nucleotídeos (estruturas formadoras do DNA) extraídos do pó de ossos de três neandertais do sexo feminino.

Os fósseis, datados de mais de 38 mil anos, foram encontrados na caverna Vindija, na Croácia. A versão inicial do sequenciamento representa cerca de 60% do genoma completo.
“Pela primeira vez, podemos identificar as características genéticas que nos distinguem dos outros organismos”

"Ter uma primeira versão do genoma do neandertal satisfaz um sonho de longa data. Pela primeira vez, nós podemos identificar as características genéticas que nos distinguem de todos os outros organismos, incluindo os nossos parentes mais próximos na escala evolutiva", disse Svante Pääbo, líder da pesquisa e diretor do Departamento de Genética do Instituto Max-Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, em comunicado à imprensa.

Durante o estudo, os pesquisadores usaram técnicas avançadas para eliminar das amostras o DNA de bactérias e microorganismos que colonizaram os ossos ao longo do tempo.

Além disso, para evitar contaminação com DNA humano no laboratório, os experimentos foram conduzidos em 'salas limpas', ambientes controlados onde o nível de poluentes e contaminantes é mínimo. Medidas como essas são importantes para reduzir possibilidades de distorção nos resultados.

A equipe sequenciou também o genoma de cinco humanos nativos do sul da África, África Ocidental, Papua-Nova Guiné, China e França. A comparação do genoma dos neandertais com o dos homens modernos mostrou que a espécie extinta compartilha mais variantes genéticas com não-africanos do que com africanos. A relação mais próxima entre neandertais e não-africanos é a mesma, independentemente de serem originários da Europa, Ásia ou Oceania.

Para os pesquisadores, essa é uma evidência de que os neandertais e os primeiros homens modernos entraram em contato após o Homo sapiens emigrar da África, mas antes da dispersão de diferentes grupos em direção à Europa e Ásia. A estimativa é que o contato tenha ocorrido entre 100 e 50 mil anos atrás, no Oriente Médio, onde achados arqueológicos já comprovaram a coexistência das duas espécies.
“É legal pensar que alguns de nós têm um pouco de DNA neandertal”

"É legal pensar que alguns de nós têm um pouco de DNA neandertal, mas, para mim, a oportunidade de buscar evidências de seleção positiva ocorrida logo após as duas espécies se separarem é provavelmente o aspecto mais fascinante deste projeto", destaca o líder da pesquisa.

Os cientistas agora desejam descobrir quais características genéticas nos diferenciam das outras espécies e podem ter nos dado certa vantagem evolutiva. O estudo permitiu a identificação de 212 regiões do genoma humano que podem ter desempenhado papel importante na evolução humana. Essas regiões incluem genes relacionados a funções cognitivas, ao metabolismo e ao desenvolvimento de estruturas ósseas como crânio, clavícula e caixa torácica.

"Em todos estes casos, ainda é preciso muito, muito mais trabalho. Isto é realmente apenas uma dica de quais genes devem ser estudados agora, e tenho certeza que nós e muitos outros grupos farão isso”, afirma Pääbo.


Camilla Muniz
Ciência Hoje On-line

terça-feira, 25 de maio de 2010

Jay Gould e a Paleontologia



Jay Gould e a Paleontologia



Stephen Jay Gould, um dos mais estimados, prestigiados e populares escritores de divulgação científica do após-guerra, depois de lutar por mais de dez anos contra um câncer, veio a falecer aos 60 anos, no dia 20 de maio de 2001. Nova-iorquino da gema, cidade onde nasceu em 10 de setembro de 1941, celebrizou-se entre o público admirador da ciência por seus ensaios com títulos instigantes, imaginativos, curtos, densos, extremamente atraentes de ler-se, que ele vinha publicando desde 1974. Recolhendo-os, eventualmente, recheou com eles mais de 20 livros, quase todos um sucesso internacional de vendas, tornando-o um nome universal, traduzido para os principais idiomas. Gould, além de cientista afamado. era acima de tudo um apaixonado pelas causas gerais da humanidade, tornando-o o que um seu ex-colega seu denominou de “o perfeito cidadão público”





No Castelo de Löbau

A histórica reunião deu-se no Castelo de Löbau, na Saxônia, para onde um Copérnico envelhecido retirar-se com o seu discípulo Rético. Este era um daqueles aventureiros do Renascimento que, chegado à cidade de Frauenburg, em 1539, onde Copérnico residia, passara a insistir para que o velho mestre consentisse em editar o seu manuscrito sobre a Revolução das Órbitas Celestes. Mas que nada. Teimoso, o cônego Copérnico não queria de maneira nenhuma expor-se às conseqüências últimas da sua teoria. Naqueles tempos de intensa luta religiosa, quando, desde 1517, Martin Lutero fizera tremer o colosso papal, incendiando a Europa com uma guerra teológica, não seria ele, um modesto astrônomo desprotegido quem iria enfrentar os maus humores da época, instigando ainda mais os exaltados, dizendo que a Terra se movia . O amigo castelão e Rético, depois de longas conversações com o grande sábio, nas quais aqueles apaixonados pelas maravilhas cósmicas apresentaram todos os prós e contras à publicação, conseguiram arrancar de Copérnico uma promessa de um futuro “sim”. Um dos pontos a que Copérnico se prendia para não entregar os escritos ao prelo ( eles estavam prontos desde 1507) era a sua profissão de fé nos princípios da Escola Pitagórica que proibia aos sábios divulgar seus conhecimentos para fora do círculo dos iniciados.

Inspirara-se, disse Copérnico, numa carta, que ele mesmo traduzira, de Lísis para Hiparco, onde o grego seguidor de Pitágoras enfatizara os perigos da água pura da ciência ser derramada para baixo, sobre os ignorantes, os não-iniciados, o vulgo enfim, sem que isso redundasse em proveito para o conhecimento. Depois de segurar o manuscrito por 36 anos na gaveta, Copérnico capitulou, autorizando que o imprimissem em Nuremberg em 1543.
Um escritor para o grande público


Pois foi exatamente contra este primado ultra-elitista e reacionário que mandava confinar os textos e demais conteúdos científicos nas redomas dos gabinetes e dos laboratórios, é que Stephen Jay Gould insurgiu-se. É fato sabido que, até em nossos dias democráticos e ainda porosos ao socialismo, as corporações acadêmicas, em qualquer parte do mundo, nunca vêem com bons olhos o que se dedica à divulgação científica. Tem-no como uma espécie de Quinta Coluna, um inimigo nas trincheiras que fica, às escancaras, transmitindo aos estranhos (as massas, ao povo, ao vulgo) aquilo que deveria ser preservado como um segredo exclusivo dos sábios ou do Estado.
Professor de Harvard, Gould em nenhum momento hesitou em contribuir para a Natural History Magazine ,e outras revistas, com seus elucidativos ensaios (foram mais de 300, que foram editados em mais de 20 livros) sobre o evolucionismo e as polêmicas que o envolvem. Esclareceu, todavia, que não estava disposto a fazer concessões excessivas porque tinha consciência de que “popularização” tornara-se “sinônimo de ruim, simplista, trivial, barato e adulterado”, assegurando que ele se orientaria por outro principio: “Tornarei”, assegurou ele, “ a linguagem acessível definindo ou eliminando o jargão: não simplificando conceitos”.

Divulgador científico

Isto feito, Stephen Jay Gould, paleontólogo de profissão, seguiu ao longo da sua produtiva e prolífera vida, mantendo um coluna mensal intitulada This view of life, a tradição inaugurada nos tempos modernos pelo filósofo Voltaire (Elementos da filosofia de Newton, 1738), e, mais remotamente por Galileu com o Sidereus Nuncius (Mensageiro das Estrelas, 1610),
Ambos, tanto o iluminista como Gould, conseguiam a façanha de transmitir por meio de expressões simples e em prosa clara, os intrincados meandros da ciência. Em popularidade e celebridade ele pode ser comparado ao seu contemporâneo Carl Sagan, astrônomo e cientista espacial, outro escritor e cientista visionário, odiado pelos acadêmicos devido ao seu natural brilho estrelar, falecido em 1996, e, como Gould, vitimado por um câncer(*). Ambos acreditavam que a missão deles, como escritores de divulgação científica, era fazer o público ser “ menos temeroso da ciência para que não a vejam como arcana, monolítica e distante, mas como algo importante em suas vidas”. E, certamente, se assim não o fizessem, se não ocupassem os espaços existentes na mídia, deixariam o povo ao desabrigo, sujeito às maquinações dos bruxos, às artimanhas dos curandeiros, à perigosa convicção dos charlatães, dos ocultistas, dos quiromantes, e de toda a caterva que vive às custas da ignorância popular – “aos relatos espúrios que enganam os ingênuos”, como disse Sagan (in O mundo assombrado pelos demônios, p.20).

(*) Gould fez blague com Sagan, seu colega, dizendo que o amigo por ser um rapaz alto e elegante escolheu a astronomia, enquanto Gould, gorducho e baixo, apeteceu-se pela paleontologia.
Jay Gould e a Paleontologia - O equilíbrio pontual


Gould, entretanto, não foi somente um divulgador. Desde menino revelou-se um amante dos dinossauros. Tudo se deu a partir do dia em que o seu pai o levou a ver um Tyrannosaurus rex no American Museum of Natural History, de Nova Iorque, quando ele fez cinco anos. Sendo natural a adesão dele ao darwinismo, única doutrina cientifica e social séria seguida pelos norte-americanos. Procurou corrigi-lo, defendendo o Punctuated equilibria - a tese do equilíbrio pontual que o tornou famoso no meio dos estudiosos de ciência natural -, segundo a qual a evolução não se faz necessariamente aos poucos, de acordo com o phyletic gradualism, o gradualismo, como ainda hoje acreditam os neodarwinistas. As circunstâncias, o clima, a geografia, o inesperado, podem provocar o rápido surgimento de uma espécie, ou alterações substantivas na estrutura e na aparência delas. Pareceu-lhe bem plausível que algumas delas passassem por uma brusca mutação para depois estabilizarem-se, seguindo por séculos a fio sem conhecerem outras alterações. Ao gradualismo dos darwinistas ortodoxos ele opôs o espontaneísmo e o stop and go do pontualismo.

O gene regulador


E.Haeckel (1834-1919), o evolucionista alemão admirado por Gould
Defendeu, além disso - restaurando o antigo e desacreditado conceito de heterocronia, apresentado pelo alemão Ernst Haeckel em 1886 - a existência de um gene regulador, chamado de homeótico, provocado pela mudança do ambiente. Trata-se de uma espécie de autocorretivo que permite que certas espécies sofram modificações especiais, apresentando novos fenótipos, que só se processam localmente, não incidindo sobre as demais. Tudo isso levou-o, a este entusiasta da história natural, a defender um novo paradigma para o progresso, um modelo que enfatizasse não mais a complexidade mas a diversidade da vida, dando munição aos ambientalistas com sua crítica à visão excessivamente antropocêntrica que mantemos sobre as coisas do mundo. Ao ver a historia da vida como algo não necessariamente progressivo e muito menos previsível, como era crença entre os naturalistas evolucionistas da época de Darwin, afirmou que as criaturas da terra estão evolvidas em meio a uma série de eventos contingentes e fortuitos que as alteram significativamente. Do mesmo modo que Darwin pagou seu tributo a fé otimista no progresso ininterrupto do seu tempo, Gould, cedendo ao relativismo e ao multiculturalismo ( que desde os anos 60 tomou de assalto os campi universitários dos Estados Unidos), assegurou que a suprema excelência da vida dá-se pela variedade e diversidade dela. De certo modo ele foi o introdutor do politicamente correto nos estudos evolucionistas do seu tempo.
Um ardente polemista


Jay Gould, lembrando a impetuosidade dos ianques, gostava de desafios, de lançar-se em eruditas polêmicas, brandindo para tanto o martelo dos paleontólogos. Além dos que ele denominou de fundamentalistas darwinianos e dos racistas, os seus adversários favoritos eram os criacionistas, os teólogos cristãos que, especialmente nos estados do sul dos Estados Unidos, combatem o evolucionismo por acreditá-lo doutrina atéia. Afinal a teoria da evolução, ao dotar o Homem de um passado simiesco, equiparando-o às demais espécies existentes na Terra, desmente o Gênese. Para o paleontólogo, ao revés, o Homem é fruto da Natureza e de si mesmo, não de um sopro divino. Ou como ele disse a respeito de Darwin, endossando-o “Nada de leis supremas sobre o bem das espécies ou dos ecossistemas, nenhum regulador sábio e vigilante nos céus – apenas organismos lutando”(Zoonomia” in O Sorriso do Flamingo, Cia das Letras, p.31) e exceções. De fato, ele era um deslumbrando pela vida, Gould era mesmo ouro!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Desenvolvimento de penas em dinossauros era diferente do que em aves modernas


Plumagem antiga era mais diversificada e produzida por processos mais complexos

por Katherine Harmon
19 de maio de 2010

Um raro fóssil de dois jovens terópodes emplumados revelou que esses animais tinham muito mais penas do que as aves modernas adultas.



Os pesquisadores liderados por Xing Xu, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da Academia Chinesa de Ciências em Pequim, descreveram os espécimes de dinossauros como do gênero Similicaudipteryx do Cretáceo Inferior. Os fósseis foram encontrados no oeste da província de Liaoning, na China. Os dois pequenos oviraptorosaurus foram preservados em diferentes estágios de desenvolvimento e mostraram tipos de penas distintas, com um padrão muito maior do que é visto nas várias fases de maturação das aves modernas.

"Essa descoberta sugere que as penas originais eram mais diversificadas do que as modernas, e algumas características de desenvolvimento e dos morfotipos resultantes foram perdidas na evolução”, segundo os pesquisadores em seu estudo, publicado online na revista Nature (Scientific American faz parte do Nature Publishing Group).

O menor dos dois espécimes (conhecido como STM4-1) é um terço menor que o Similicaudipteryx mais velho (referido como STM22-6). Tinha pequenas penas de vôo rasante no antebraço e muito mais penas na cauda, além de plumas cobrindo o resto do seu corpo. O maior dos dois, o STM22-6, também tinha muitas penas, mas permaneciam em maior abundância em seu antebraço e em sua cauda, “possivelmente refletindo um aumento do papel funcional das penas, como a aproximação da idade adulta do individuo”, sugerem os autores. Também tinham penas longas em torno de suas cabeças e pelves.

Esse padrão complexo de desenvolvimento de pena "não é conhecido nos pássaros modernos", concluíram Xu e seus colegas, apesar do fato de que os dinossauros serem antepassados dos pássaros modernos. A equipe especula que, ao contrário da expressão precoce dos genes que iniciam o crescimento da maturidade da penas em aves jovens de hoje, a ativação de genes semelhantes no jovem Similicaudipteryx "era provavelmente atrasada e incompleta", produzindo o estado curioso e diversificado do crescimento das penas observados nos dois dinossauros.

Fonte: www.sciam.com