sexta-feira, 3 de julho de 2015

Novos achados fósseis encontrados em obra de Uberaba são apresentados

Última atualização: sexta, 03 de julho de 2015 - 18h:49min


Equipe de técnicos trabalha para realizar a
retirada dos fósseis
Foto: Luís Adolfo/UFTM
Com o avanço do trabalho nas obras, novos exemplares foram revelados. Eles serão retirados e encaminhados para o Centro de Pesquisas Paleontológicas “Llewellyn Ivor Price”da UFTM.

O Complexo Cultural e Científico de Peirópolis da Universidade Federal do Triângulo Mineiro CCCP/UFTM apresentou nesta quinta-feira, 2, novos achados fósseis encontrados durante as escavações para a construção de um conjunto de edifícios no Bairro São Bento. Os fósseis apresentados ainda se encontram inseridos nas rochas originais e serão escavados do local e analisados  pela equipe do Complexo.  Além da apresentação dos fósseis, foram apresentadas as medidas adotadas pela Secretária Municipal de Meio Ambiente seguindo as recomendações do Ministério Público de Minas Gerais - MPMG e do Ministério Público Federal – MPF. Em Uberaba, a proposta de realização de um ‘Zoneamento Paleontológico é analisada para implantação.

Em dezembro de 2014, foram encontrados fósseis durante as escavações para a construção de um conjunto de edifícios em frente ao Parque do Jacarandá, mais conhecido como Zoológico Municipal, localizado no Bairro São Bento. Um desses fósseis, medindo mais de 50 centímetros, era de um fragmento de fêmur atribuído a um Titanosauria, espécie de dinossauro herbívoro.


A possibilidade de novas descobertas no local o CCCP/UFTM mobilizou uma equipe de técnicos que iniciou um programa de monitoramento com o objetivo de  resguardar a integridade do patrimônio paleontológico do local, onde eram realizadas as escavações para as fundações dos edifícios. A iniciativa teve o apoio da empresa ‘QUANTA Empreendimentos Imobiliários’, responsável pelas obras.
De acordo com o geólogo do CCCP/UFTM, Luiz Carlos Ribeiro, na primeira quinzena de abril novas descobertas começaram a aparecer, porém, em razão das fortes chuvas que se estenderam até o final de maio, as atividades de resgate foram paralisadas. Com o término do período chuvoso, as escavações foram retomadas no dia 22 de junho. Com o avanço do trabalho, novos exemplares como costelas, vértebras, tíbia,  e fósseis da cintura escapular têm sido descobertas no local.

 
Fósseis ainda se encontram inseridos nas rochas originais e serão escavados do local e analisados  pela equipe do Complexo
Foto : Luís Adolfo/UFTM























 “No que tange à importância científica, estes achados têm extremo valor, pois associam-se à Formação Uberaba, unidade geológica pouco prospectada paleontologicamente até o momento, o que abre novas oportunidades para se conhecer grupos de animais distintos dos que vem sendo descobertos desde 1945. Assim, há uma possibilidade de que os fósseis já descobertos, somados aos que ainda podem aparecer, sejam suficientes para descrição de um novo grupo de dinossauro”, acrescentou o geólogo.

Ainda de acordo com o geólogo, o programa de monitoramento e salvamento paleontológico ocorreu em harmonia como o desenvolvimento das obras, e não houve paralisações e atrasos nas atividades.

Zoneamento Paleontológico


Descoberta foram ponto de partida para adoção de
medidas públicas de geoconservação
Foto: Luís Adolfo/UFTM
As descobertas de fósseis nas escavações da construção de um conjunto de edifícios no Bairro São Bento acabaram por ser o ponto de partida de uma nova perspectiva para a proteção aos depósitos fossilíferos e para a adoção de medidas públicas de geoconservação. Por meio de uma nota técnica encaminhada a Prefeitura de Uberaba pelo Ministério Públicos de Minas Gerais - MPMG e Ministério Público Federal conforme pressupõe o Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM, órgão federal responsável pela preservação do patrimônio paleontológico brasileiro, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente –SEMAM, colocou em prática a recomendação para  a realização de estudos paleontológicos em obras do município.

De acordo com informações da SEMAM, em todos os processos administrativos que tramitam na Secretaria, que envolvem a movimentação ou interferência no solo, é solicitado que o empreendedor apresente declaração de um especialista, acompanhada de Anotação de Responsabilidade Técnica -ART, de que aquela ação não vá interferir nos tipos de rocha passíveis de serem encontrados fósseis, conforme delimitado na própria recomendação do MPMG, MPF e DNPM.

Ainda segundo informações da SEMAM foi editada uma Portaria Conjunta entre as Secretarias de Obras, Meio Ambiente, Planejamento e Serviços Urbanos determinando os procedimentos a serem seguidos, de acordo com a recomendação. A portaria será publicada ainda esta semana.

Segundo a recomendação feita pelo coordenador regional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente das Bacias dos Rios Paranaíba e Baixo do rio Grande – CRMA, Carlos Alberto Valera; promotora de Justiça da 11ª Promotoria, Claudine Lara Aurélio Bettarello; e os procuradores da República Thales Messias Pires Cardoso e Felipe Augusto de Barros Carvalho Pinto; as escavações, ou mesmo uma movimentação de terra, podem causar impactos nocivos; por isso, a proposta é de que sejam realizados estes acompanhamentos e monitoramentos.

O MPMG e MPF apontam que o município deve providenciar o zoneamento paleontológico, ou seja, um mapa guia mostrando as áreas com diversos graus de interesse paleontológico, ele servirá para orientar a ocupação e desenvolvimento em especial das obras que escavarão solos e rochas dentro do município. Segundo informações da Secretaria Municipal de Meio Ambiente os dados relacionados ao zoneamento paleontológico precisam ser atualizados e a secretaria estuda a melhor forma de realizar este procedimento, seja contratando uma empresa ou estabelecendo parcerias com entidades de ensino e pesquisa.

 

As grandes regiões biogeográficas do planeta

Desde que as ideias evolucionistas de Darwin passaram a ser aceitas como explicação do processo de diversificação da vida na Terra, ficou evidente que as diferenças entre faunas e floras de continentes distintos deveriam ser resultado de histórias evolutivas diferenciadas.

Hoje se compreende perfeitamente que a movimentação dos continentes ao longo da história geológica como decorrência das dinâmicas de afastamento e aproximação das placas tectônicas, associada às flutuações climáticas de longo prazo, foi a responsável por processos evolutivos diferenciados em vários pontos da superfície terrestre, o que levou a uma diferenciação significativa na composição da fauna e da flora em cada uma das assim chamadas regiões biogeográficas do planeta.

Na primeira metade do século XIX, todavia, não existia ainda a principal chave para a compreensão desse fenômeno, que é a aceitação e o entendimento da deriva continental, cuja teoria, central para a explicação do movimento dos continentes, foi proposta pela primeira vez por Alfred Wegener em 1912 e só completamente aceita a partir da metade do século XX.

A ocorrência fóssil da flora de Glossopteris na África, Austrália, Antártida, sul da América do Sul e Índia, as semelhanças no recorte litorâneo das Américas, da Europa e da África e a similitude de rochas e dinâmicas estratigráficas entre esses continentes foram alguns dos elementos que levaram esse autor a propor, por meio da teoria mencionada, que todos os continentes atuais foram originalmente parte de um único supercontinente, chamado de Pangeia.

No entanto, como naquele momento ainda não havia nenhum mecanismo geológico conhecido capaz de fragmentar e mover continentes inteiros, essa teoria precisou esperar até a década de 1950 para que pudesse fazer sentido, com a descoberta da movimentação das placas tectônicas.
Engler
Adolf Engler, botânico alemão, foi muito importante por suas obras em Taxonomia Vegetal e Fitogeografia, “Die Natürlichen Pflanzenfamilien” ( As Famílias Naturais das Plantas)
Mesmo sem uma compreensão global dos mecanismos que promoveram tal diferenciação, o botânico alemão Adolf Engler (1844-1930) propôs, em 1879, uma primeira divisão ecológica do planeta levando em conta a distribuição de floras regionais visivelmente distintas.
Basicamente, ele dividia o mundo em quatro grandes zonas:
  •  o domínio boreal extratropical, englobando a América do Norte, a Europa e o continente asiático ao norte do Himalaia;
  • o domínio paleotropical, englobando o continente africano do Saara para o sul, até as Índias Orientais;
  • o domínio sul-americano, englobando a América do Sul e a América Central, até o México;
  • e o domínio do velho oceano, estendendo-se da costa chilena, passando pelo extremo sul da África, pelas ilhas do Atlântico Sul e pelo Oceano Índico, até a Austrália e parte da Nova Zelândia.
Da mesma forma que Engler, Philip Sclater propôs, em 1858, um esquema para a divisão ecológica do planeta levando em conta a distribuição dos principais grupos de aves, partindo do princípio de que todas as espécies haviam sido criadas dentro da área na qual são encontradas hoje em dia. Essa divisão acabou sendo aceita e aprimorada por Alfred Russel Wallace, que incluiu dados de outras tantas espécies de vertebrados, incluindo mamíferos não voadores, os quais deveriam refletir as divisões naturais do planeta com mais precisão, tendo em vista as suas dificuldades de dispersão.
Ao aperfeiçoar a proposta de Sclater, Wallace propôs, em 1876, um mapa detalhado das seis regiões biogeográficas do planeta, veja figura abaixo, documento este que serviu como referência para os biogeógrafos por mais de um século, permanecendo sem nenhuma modificação.
Biogeografia oficina de textos
Mapa das seis regiões biogeográficas proposto por Wallace em 1876, adaptado de Ritchison (s.d.). Retirado do livro Biogeografia de Adriano Figueiró e publicado pela Oficina de Textos.
Ben G. Holt e com um grupo de cientistas redividiram as seis regiões biogeográficas de Wallace em 11 regiões com base em informações mais detalhadas de distribuição de 20.000 espécies de aves, mamíferos e anfíbios. Veja imagem a seguir.
Biogeografia Oficina de Textos
Mapa das 11 regiões biogeográficas proposto por Ben G. Holt e com um grupo de cientistas no artigo “An update of Wallace’s zoogeographic regions of the world”. Biogeografia de Adriano Figueiró e publicado pela Oficina de Textos.

  Além da localização de um número maior de espécies de que dispunha Wallace, a atualização do mapa também levou em conta os registros de DNA dessas espécies, o que permitiu recompor relações de ancestralidade entre elas.

[Paleontology • 2015] Huanansaurus ganzhouensis • A New Oviraptorid Dinosaur (Dinosauria: Oviraptorosauria) from the Late Cretaceous of Southern China and Its Paleobiogeographical Implications

 Huanansaurus ganzhouensis 
Lü, Pu, Kobayashi, Xu, Chang, Shang, Liu, Lee, Kundrát & Shen, 2015
Illustration: Chuang Zhao  doi: 10.1038/srep11490
The Ganzhou area of Jiangxi Province, southern China is becoming one of the most productive oviraptorosaurian localities in the world. A new oviraptorid dinosaur was unearthed from the uppermost Upper Cretaceous Nanxiong Formation of Ganzhou area. It is characterized by an anterodorsally sloping occiput and quadrate (a feature shared with Citipati), a circular supratemporal fenestra that is much smaller than the lower temporal fenestra, and a dentary in which the dorsal margin above the external mandibular fenestra is strongly concave ventrally. The position of the anteroventral corner of the external naris in relation to the posterodorsal corner of the antorbital fenestra provides new insight into the craniofacial evolution of oviraptorosaurid dinosaurs. 
A phylogenetic analysis recovers the new taxon as closely related to the Mongolian Citipati. Six oviraptorid dinosaurs from the Nanxiong Formation (Ganzhou and Nanxiong) are distributed within three clades of the family. Each of the three clades from the Nanxiong Formation has close relatives in Inner Mongolia and Mongolia, and in both places each clade may have had a specific diet or occupied a different ecological niche. Oviraptorid dinosaurs were geographically widespread across Asia in the latest Cretaceous and were an important component of terrestrial ecosystems during this time.
Systematic Paleontology
Oviraptorosauria Barsbold, 1976.
Oviraptoridae Barsbold, 1976.
Oviraptorinae Barsbold, 1981.

Huanansaurus ganzhouensis gen. et sp. nov. 
Etymology: Generic name refers to “Huanan” (in Chinese Pinyin), which means southern China, because the dinosaur was discovered in Ganzhou of Jiangxi Province. The specific name refers to the locality of Ganzhou.
Figure 2: The holotype of Huanansaurus ganzhouensis (HGM41HIII-0443) gen. et sp. nov.
Holotype: Partial skeleton with a nearly complete skull (HGM41HIII-0443); accessioned at the Henan Geological Museum, Zhengzhou, China.
Type locality and horizon: In the vicinity of the Ganzhou Railway Station (GPS coordinates are provided on request from the first author), Ganzhou City; Campanian-Maastrichtian; Nanxiong Formation (Upper Cretaceous)
Figure 1: Map of the fossil locality near Ganzhou, Jiangxi Province, southern China.

Junchang Lü, Hanyong Pu, Yoshitsugu Kobayashi, Li Xu, Huali Chang, Yuhua Shang, Di Liu, Yuong-Nam Lee, Martin Kundrát and Caizhi Shen. 2015. A New Oviraptorid Dinosaur (Dinosauria: Oviraptorosauria) from the Late Cretaceous of Southern China and Its Paleobiogeographical Implications. Scientific Reports. 5:11490. doi: 10.1038/srep11490

New Oviraptorosaur Discovered at Railroad Construction Site in China | IFLScience.com/plants-and-animals/new-oviraptorosaur-discovered-railroad-construction-site-china

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Quintais de outros tempos- Arqueologia em foco

Pesquisa investiga quintais de populações amazônicas em busca de vestígios de culturas do passado. 
 
Por: Everton Lopes
Publicado em 02/07/2015 | Atualizado em 02/07/2015
Quintais de outros tempos
Casa e quintal na beira do rio Urubu, na Amazônia. A região era ocupada por índios desde muito antes da colonização portuguesa – alguns vestígios arqueológicos encontrados ali datam dos séculos 6 a 9. (Foto: Katja Schulz / Flickr / CC BY NC 2.0).
 
Os hábitos e costumes dos primeiros habitantes da Amazônia não são apenas vestígios arqueológicos enterrados no passado: ao contrário, renovam-se com atuais moradores da região. Nos quintais das casas de comunidades contemporâneas, brotam várias espécies que já faziam parte do dia a dia dos índios que viveram naqueles mesmos locais há centenas de anos – como o mamão e a macaxeira. Esta foi a conclusão da bióloga Juliana Lins durante sua pesquisa de mestrado, realizada no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e recém-publicada na Plos One.

Instigada pelas marcas que os antigos índios deixaram, a estudante decidiu investigar quintais de casas atuais que se localizam sobre sítios arqueológicos, precisamente aqueles instalados em terras pretas de índio – solos antropogênicos ricos em nutrientes como fósforo, cálcio e magnésio, além de um tipo de carvão vegetal muito eficiente em reter nutrientes. Essas áreas frequentemente apresentam, também, vestígios mais concretos de populações passadas, como cerâmicas.
Quintal de casa na Amazônia
Quintal sobre sítio arqueológico na região do rio Urubu. Alguns autores relacionam cerâmicas encontradas nessa região com uma ocupação por povos falantes de línguas do tronco Arawak, famosos por sua agricultura. (Foto: Juliana Lins / Arquivo pessoal)
“É difícil explicar como ou por que, mas os índios, de alguma forma, criaram esses solos. Não sabemos se foi intencional, mas sabemos que eles estão nos locais onde as pessoas moravam e que eles existem por causa do lixo – restos de comida, excrementos etc. – que a comunidade produzia”, conta Lins. As terras pretas de índio estão espalhadas pela Amazônia, quase sempre em lugares privilegiados para a ocupação humana, como o topo de barrancos ou à beira dos rios. Depois dos nativos, viveram sobre elas os imigrantes europeus, que viram nesses locais paragens férteis e seguras, e a ocupação teve continuidade até os dias atuais.

Casas de hoje, plantas de ontem

Por definição, os solos com terras pretas de índios são sítios arqueológicos. Lins concentrou sua pesquisa em uma região de alta incidência dessas condições – às margens do rio Urubu, que desemboca no Amazonas. Visitou, então, 40 quintais em cinco comunidades diferentes, levantando as espécies florais encontradas e buscando explicações para a seleção das mesmas para compor os quintais.
Casa às margens do rio Urubu
Em cinco comunidades, foram encontrados vestígios cerâmicos da tradição Borda Incisa. Em três delas, a pesquisa identificou também outra fase cerâmica, a Saracá, típica da região e datada em torno da época da conquista europeia. Nas casas onde foram encontrados vestígios arqueológicos de tradições diferentes, a composição dos quintais também foi mais variada. (Foto: Juliana Lins / Arquivo pessoal)
A pesquisadora analisou a fertilidade dos solos, a localização e a distância entre os quintais, o tamanho dessas áreas e, ainda, o contexto arqueológico, avaliado pelas fases e tradições de cerâmicas arqueológicas existentes nas camadas do solo estudado. De todos esses fatores, o contexto arqueológico foi o mais capaz de explicar a composição florística dos quintais contemporâneos. Aqueles localizados sobre sítios arqueológicos onde houve mais de uma ocupação no passado pré-colombiano apresentaram composição mais variada. “As pessoas de hoje dialogam com as pessoas do passado através das plantas que brotam nesses quintais”, resume Lins.

Conhecer o passado, fazer o futuro

Para Newton Paulo de Souza Falcão, engenheiro agrônomo do Inpa, investigações como a desenvolvida por Lins têm importância para além da descoberta de detalhes sobre a história da Amazônia. “Essas pesquisas são importantes não só para a preservação do que ainda temos, mas também para a recuperação de recursos genéticos de espécies nativas que estão desaparecendo”, afirma o engenheiro.
Pesquisadores de várias partes do mundo tentam recriar o que os índios brasileiros fizeram ao longo de muitos anos
Falcão, nascido e criado no estado do Amazonas, viu muitas espécies nativas perderem espaço com o tempo. Há mais de dez anos, estuda as terras pretas de índio da Amazônia central, procurando aprender com os povos do passado maneiras de enriquecer solos pobres e transformar áreas degradadas em produtivas. Ele não está sozinho. De fato, pesquisadores de várias partes do mundo tentam recriar o que os índios brasileiros fizeram ao longo de muitos anos. “Intriga o fato de esse solo manter a fertilidade por períodos tão longos, que chegam a até dois mil anos”, comenta o cientista.
O impacto das populações antigas sobre a floresta amazônica vem sendo abordado em pesquisas internacionais e, claro, brasileiras. No quebra-cabeças da história da maior floresta tropical do mundo, há muitas peças ainda sem encaixe, mas uma certeza já desponta: a de que ainda hoje construímos e habitamos sobre a obra de nossos antepassados.

Everton Lopes
Instituto Ciência Hoje/ RJ

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O céu a um clique

Aplicativos de astronomia estimulam o conhecimento dos céus e ajudam a localizar corpos celestes no espaço.
O céu a um clique
Em dispositivos móveis, a Carta Celeste ajuda a identificar estrelas e constelações observadas pelo usuário. (imagem: Reprodução.
 
Pontilhado de centenas de milhares de astros e planetas dos mais diversos tamanhos e a diferentes distâncias de nós, o céu ainda é uma imensidão de mistérios para os especialistas – para os leigos, então, nem se fala! Alguns aplicativos, no entanto, estão trazendo essa imensidão para a palma da mão, e deixando as belezas e curiosidades celestes mais acessíveis aos portadores de smartphones e tablets.

Os apaixonados pela astronomia, claro, saem ganhando. Embora a maioria dos programas esteja disponível apenas em língua inglesa, em português há boas opções. Um exemplo é a Carta Celeste, disponível para aparelhos com sistema Android, que guarda a localização das estrelas e constelações conhecidas. Apontando a câmera do aparelho para o céu, o usuário descobre logo que astros está observando. É possível também explorar o céu noturno como visto de outros pontos da Terra.

Já o Google Sky Map (para Android e iOS) usa o GPS do aparelho para dar nome e fornecer informações sobre corpos celestes. Com uma ferramenta inovadora, ele também permite descobrir em que locais os objetos do espaço vão estar em momentos diferentes da noite – uma interessante experiência de realidade aumentada.
O ganho real de aplicativos como estes – e tantos outros já disponíveis – ainda é ponto de discussão entre especialistas.

Clima extraterrestre

Para quem tem curiosidade sobre nosso astro-rei, uma boa novidade é o Magnetic Storms (para iOS), que ajuda a monitorar as atividades solares. Desenvolvido pelo geofísico Eder Cassola Molina, da Universidade de São Paulo, o aplicativo atua na área conhecida como space weather (em tradução livre, meteorologia espacial), que estuda o clima fora do planeta.
“Ele serve para estudar a interação do Sol com a Terra, não no sentido clássico de transferência de calor, mas sim dos efeitos desta interação com o campo magnético terrestre”, explica o cientista. Alguns eventos ocorridos na superfície solar podem danificar satélites e usinas de retificação de energia elétrica em nosso planeta.

Quando o Sol nascer...

Desenvolvido no Observatório Nacional, a ferramenta Astro (disponível na página do observatório) promete conhecer, em qualquer ponto do planeta, o exato instante do nascer e do pôr do sol. Ela também determina as fases da lua para as coordenadas geográficas do observador, indicando possíveis eclipses.
Astro, ferramenta criada pelo Observatório Nacional
Astro é a ferramenta criada pelo Observatório Nacional que permite ao usuário conhecer o momento exato do nascer e do pôr do sol, a posição dos astros e a possibilidade de eclipses. (imagem: Reprodução)
“Com visualização em 3D e linguagem simples e bem objetiva, Astro ajuda a compreender melhor diversos fenômenos astronômicos importantes”, garante Carlos Veriga, um de seus desenvolvedores.

A melhor forma de conhecer

O ganho real de aplicativos como estes – e tantos outros já disponíveis – ainda é ponto de discussão entre especialistas. Enquanto alguns apostam que as novas tecnologias favorecem o acesso ao conhecimento, outros ponderam que elas podem esvaziar o valor de livros e outros métodos tradicionais de estudo.
Para o físico Awdry Miquelin, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, os aplicativos aproximam os usuários de uma leitura inicial do céu. “Por exemplo, algumas ferramentas permitem que a pessoa identifique estrelas e planetas que estão visíveis de forma muito rápida e isso é enriquecedor”, destaca. Por outro lado, o cientista acredita que os aplicativos devem ser vistos apenas como porta de entrada para o conhecimento dos céus. “Para um melhor aproveitamento, é necessário consultar textos específicos da área e estudar mais a fundo o assunto”, ressalta.

Miquelin acredita que o uso dos aplicativos deve ser estimulado dentro de salas de aula de educação básica, onde os alunos podem explorar o conteúdo em conjunto com o professor. “Quando tratamos de astronomia, muitos conceitos são abstratos, tornando difícil a visualização”, afirma. “Esses programas apresentam uma abordagem convidativa aos alunos, oferecendo um modo de enxergar os céus que apenas o quadro-negro pode não dar conta”.

Valentina Leite
Instituto Ciência Hoje/ RJ

O colapso dos grandes herbívoros

01 de julho de 2015

Karina Toledo | Agência FAPESP – De acordo com uma revisão publicada recentemente na revista Science Advances, 60% das espécies remanescentes de grandes mamíferos herbívoros – aqueles com massa corporal igual ou maior que 100 quilogramas – correm risco de extinção. Quase todas as populações ameaçadas estão nas nações em desenvolvimento.

Os dados são da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) e foram levantados por cientistas de vários países, sob coordenação de William Ripple, da Oregon State University, nos Estados Unidos. Entre os autores está o pesquisador brasileiro Mauro Galetti, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro.

“Lugares como a savana africana estão se tornando paisagens vazias e isso não é apenas uma questão ética ou estética. Afeta o funcionamento dos ecossistemas naturais. Todas essas espécies desempenham funções ecológicas importantes e, se elas desaparecerem, ninguém conseguirá substituí-las”, disse Galetti em entrevista à Agência FAPESP.
Das 74 espécies de mamíferos terrestres que compõem o grupo dos grandes herbívoros, 71 ocorrem em países em desenvolvimento e somente 10 nos países desenvolvidos. A única representante brasileira no grupo é a anta (Tapirus terrestres), que pode chegar a 300 kg e também está sob ameaça de extinção.
De acordo com o artigo, os grandes herbívoros ocupam atualmente, em média, apenas 19% das suas áreas de ocorrência históricas. “Isso é exemplificado pelo elefante (Loxodonta africana), pelo hipopótamo (Hippopotamus amphibius) e pelo rinoceronte negro ocidental (Diceros bicornis), que hoje ocupam pequenas frações de suas áreas históricas na África. Além disso, muitas dessas espécies em declínio são pouco conhecidas cientificamente e necessitam seriamente de pesquisas ecológicas de base”, ressaltam os pesquisadores.

Também no caso da anta, disse Galetti, a área de ocorrência vem encolhendo nos últimos anos. Os cientistas não sabem ao certo qual é o tamanho da população remanescente no país. “Originalmente, a anta era encontrada em praticamente todos os biomas brasileiros, mas hoje já há vários lugares da Mata Atlântica em que ela desapareceu. As causas principais são a caça ilegal, o desmatamento, a expansão agrícola e atropelamentos”, afirmou.
A caça, a expansão da pecuária e as mudanças no uso da terra – que incluem perda de habitat, invasão humana (como construção de estradas), plantações e desmatamento – são apontadas no artigo como as principais ameaças para os grandes herbívoros. A vulnerabilidade desses animais é agravada pelo fato de se reproduzirem lentamente.

A caça ilegal voltada à obtenção de partes valiosas do corpo, como, por exemplo, presas e chifres, tem causado um declínio dramático na população de elefantes e rinocerontes em partes da África e na Ásia Meridional, revertendo décadas de esforços de conservação, disse o artigo.
A perda de habitat é uma ameaça significativa principalmente na América Latina, na África e no sudeste da Ásia e, segundo os autores, a causa tem origem nos países desenvolvidos e em sua demanda por produtos agrícolas e outras commodities.

“O Sudeste da África tem a maior taxa de desmatamento nos trópicos e, se o ritmo se mantiver, a região poderá perder 75% de suas florestas originais e quase metade de sua biodiversidade até o fim deste século”, ressaltaram os cientistas.
No caso da América do Sul, o processo de defaunação pode ter tido início há 10 mil anos, coincidindo com a chegada do homem ao continente. “Havia espécies de preguiça gigantes, tatus do tamanho de um fusca e outras menos conhecidas, mas a região já foi transformada em uma paisagem vazia. Há uma controvérsia na literatura científica sobre a principal causa ter sido o clima ou as ações humanas. Os impactos para o ecossistema estão só começando a ser compreendidos”, disse Galetti.

Consequências

Por consumirem grandes quantidades de vegetação, explicou o pesquisador, esses mamíferos ajudam a moldar a estrutura dos ecossistemas, prestando serviços como ciclagem de nutrientes, dispersão de sementes e controle de fogo.
“A quantidade de matéria orgânica que esses animais reciclam é enorme. Se eles desaparecerem em biomas como o cerrado brasileiro ou a savana africana, a vegetação vai crescer, secar e eventualmente vai pegar fogo”, disse Galetti.

No Brasil, acrescentou o pesquisador, espécies de plantas que possuem sementes grandes, como jatobá (Hymenaea courbaril), buriti (Mauritia flexuosa) e palmito amargoso (Syagrus oleracea), e muitas outras plantas são dependentes da anta para dispersão.
“Além disso, as antas competem por alimento com diversos roedores, ajudando a controlar populações prejudiciais à saúde humana por transmitir doenças como hantavirose. A anta também é um dos poucos animais que servem de presa e ajudam a sustentar as populações da onça-pintada (Panthera onca), que por sua vez controlam vários animais que podem ser daninhos ao homem”, disse Galetti.

Os grandes herbívoros são a principal fonte de alimento para animais como leão (Panthera leo), hiena (Crocuta crocuta), tigre (Panthera tigris) e também para os animais menores que se alimentam das carcaças, como coiotes (Canis latrans), raposas (Vulpes vulpes), corvos (Corvus corax e águias (Haliaeetus spp.).

O declínio dos grandes herbívoros causa ainda efeitos diretos nos humanos, especialmente no que se refere à segurança alimentar nas regiões em desenvolvimento, ressaltou o artigo.
“Estima-se que 1 bilhão de pessoas dependem de carne de caça para subsistência e ela deve diminuir em torno de 80% nas florestas africanas nos próximos 50 anos. Além disso, os mais carismáticos e emblemáticos herbívoros atraem muitos turistas para áreas protegidas. O declínio do turismo deve afetar as balanças comerciais e as taxas de emprego principalmente nas áreas rurais do mundo em desenvolvimento”, diz o texto.

Direções futuras

Na avaliação dos autores, o esforço para salvar os grandes herbívoros remanescentes deve incluir a redução das taxas de natalidade humanas, diminuição do consumo de carne de ruminantes, combate da caça ilegal, expansão e maior financiamento de áreas protegidas e combate às mudanças climáticas.
O artigo ressalta ainda a necessidade de pesquisas sobre as espécies mais ameaçadas no sudeste asiático, África e na América Latina, entre elas o Búfalo-anão-de-Mindoro (Bubalus mindorensis), cabra-das-rochosas (Capra walie), suínos da espécie Sus cebifrons e Sus oliveri e outras sobre as quais também há menos de dez artigos científicos publicados. No Brasil, uma espécie de anta recentemente descrita e denominada Tapirus kabomanii pode estar criticamente ameaçada pela caça e mineração na sua área de ocorrência.

“Em particular, mais pesquisas são necessárias para entender como o aumento da densidade humana e da pecuária, a mudança climática, a perda de habitat, a caça e as diferentes combinações desses fatores afetam esses grandes herbívoros”, afirmaram.

Costão Rochoso

Por: Marcus V. Cabral - 01/07/15


caranguejo Pachygrapsus transversus (Praia de Cibratel, Itanhaém, SP). Foto por Fernanda Zambom
caranguejo Pachygrapsus transversus (Praia de Cibratel, Itanhaém, SP). Foto por Fernanda Zambom.
 
O costão rochoso é um ambiente costeiro formado por rochas situado na transição entre os meios terrestre e aquático (SANTOS & GOMES, 2006). É considerado muito mais uma extensão do ambiente marinho que do terrestre, uma vez que a maioria dos organismos que o habitam, estão relacionados ao mar (LITLLE & KITCHING, 2000 apud ALMEIDA, 2008). É composto por diversos micro-habitat que contribuem para a riqueza da comunidade biológica, pois apresenta superfície extra para fixação, abrigo contra predadores, refúgio e proteção contra a dessecação, favorecendo as fortes interações biológicas como consequência da limitação de substrato, ao longo do gradiente existente entre os habitat terrestre e marinho (ALMEIDA, 2008).


O costão pode ser dividido em costões expostos (batidos), formados por paredões lisos, os quais apresentam grande hidrodinamismo pelo alto impacto de ondas, menor diversidade de hábitat, elevada taxa de produtividade primária devido ao elevado fluxo de nutrientes. Porém, a riqueza de espécies nesta região é menor, devido à grande perturbação sofrida pelos organismos, requerendo adaptações fisiológicas e morfológicas, desenvolvendo estruturas eficientes de proteção e fixação, para suportar o estresse ambiental (ALMEIDA, 2008; COUTINHO, 2004, MORENO & ROCHA, 2012; MAIS & ZALMON, 2008). Já o costão protegido, caracteriza-se por ser bastante fragmentado e por apresentar baixo hidrodinamismo. Isso leva a formação de complexos habitats com muitas espécies associadas, pois não requer adaptações complexas. Entretanto, o fluxo de nutrientes é menor, limitando o crescimento das algas.


De acordo com Moreno & Rocha (2012) e Mais & Zalmon (2008), uma das características mais representativas do costão é sua zonação vertical, implicando em uma elevada variação das condições ambientais (temperatura, salinidade e teores de oxigênio dissolvido) em menor escala espacial do que nos ambientes terrestres. Assim, essa zonação determina e limita a distribuição dos organismos em locais onde a interação de fatores físicos, químicos e biológicos favorecem a sobrevivência.


Segundo Almeida (2008) diversas metodologias, como as de Stephenson & Stephenson (1949) e de Lewis (1964), buscaram classificar a zonação do costão, entretanto, independentemente da metodologia adotada, definiram-se, de modo geral, três principais zonas de distribuição. As regiões mais superiores são mais influenciadas pelos fatores físico-químicos, contudo, cada região possui sua própria fisionomia, respondendo diferente para cada fator ambiental (LEVINTON, 2001 apud ALMEIDA, 2008).


A zona supralitoral, permanentemente exposta ao ar, chegando apenas borrifos da água do mar. Seu limite inferior é caracterizado pela presença de vegetação terrestre (liquens, bromeliáceas, cactáceas, entre outras) e o limite superior pela ocorrência de cirripédios (cracas), isópodes ou gastrópodes. Nesta faixa, os fatores abióticos como temperatura e radiação solar influenciam bastante na distribuição dos organismos, os quais são muito adaptados à perda de água e à variação da temperatura (ALMEIDA, 2008; MORENO & ROCHA, 2008; MAIS & ZALMON, 2008).


Segundo Almeida (2008), a zona mesolitoral é a região sujeita às flutuações da maré, submersa durante a maré alta e exposta durante a maré baixa. Seu limite superior é caracterizado, geralmente, pela ocorrência de cirripédios e o inferior pela alga parda Sargassum sp. Os organismos sésseis desta região estão adaptados à esta variação diária e consequentemente à todas as mudanças físicas que isto implica. Nessa área se formam as "poças de maré", depressões onde a água do mar fica represada durante a maré baixa e que podem estar sujeitas a alta exposição ao calor, sofrendo grandes alterações de temperatura e salinidade.

A zona infralitoral é a região que permanece submersa, caracterizada pela alga Sargassum sp em seu limite superior e pelo encontro das rochas com substrato arenoso em seu limite inferior. Como os fatores ambientais são mais estáveis nessa zona, as relações bióticas (predação, herbivoria e competição) adquirem maior importância na determinação da distribuição biológica (MORENO & ROCHA, 2012; ALMEIDA, 2008)


Segundo Coutinho (2004) é considerado um dos ecossistemas mais produtivos e importantes da zona costeira por abrigarem numerosas espécies de reconhecida importância ecológica e econômica, tais como: mexilhões, ostras, crustáceos, algas e peixes. Por ser um ambiente de transição apresentam grande quantidade de nutrientes e, consequentemente, uma elevada biomassa e produção primária de microfitobentos e de macroalgas.


Portanto, os costões rochosos são locais de alimentação, crescimento e reprodução de um grande número de espécies vinculadas por fortes interações biológicas, em função da limitação de substrato ao longo de um gradiente existente entre estes ambientes (Coutinho, 2004). Dessa forma, esse ecossistema funciona como um bioindicador das condições ambientais locais.


Para a caracterização de alguns organismos que compõem a biota, foi realizada uma visita técnica à praia de Cibratel, na cidade de Itanhaém, localizada na Baixada Santista, a 90 km da capital paulista, compondo com os municípios de Bertioga, Cubatão, Guarujá, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente.


Os materiais utilizados para a coleta dos organismos foram roteiros, sacos plásticos, pinças, potes escuros, oxigenador portátil, refratômetro, termômetro, luvas, GPS, elásticos, caixas de plástico, réguas e lápis. Foi realizada a medição de salinidade, temperatura e posição geográfica do local.


As coletas foram realizadas no período matutino, correspondente à vazante da maré e durante o período lunar de sigizia. Desta forma, foi possível permanecer por aproximadamente três horas.


Uma vez que o nível da maré encontrava-se na região de infralitoral, foi possível realizar as atividades entre as rochas, poças de maré e a areia. Para a coleta no costão rochoso da praia de Cibratel, Itanhaém-SP, foi escolhida a maré de sigizia, caracterizada pelo aparecimento da lua cheia ou nova. Tal evento resulta em preamares mais altas e baixa-mares mais baixas, fornecendo um tempo maior de coleta e permanência no local. Isso ocorre devido ao alinhamento da Lua, Sol e Terra, no qual as forças de atração da Lua e do Sol se somam provocando uma grande interferência. (NYBAKKEN, 2001).


O costão rochoso de Cibratel apresenta uma grande diversidade de organismos por ser protegido, caracterizado por ser uma região com baixo hidrodinamismo, o que favorece a fixação e estabelecimento de espécies. Com isso, os mesmos ainda apresentam diversas adaptações para as condições ambientais encontradas no costão. Tais adaptações estão relacionadas, principalmente, com: variações de umidade, temperatura, salinidade e concentração de oxigênio na água, proteção contra os choques das ondas, contra predadores, entre outros.

A seguir, estão relacionados alguns dos organismos encontrados ao longo do costão, apresentando algumas de suas principais características e adaptações que permitem à sobrevivência nesse ambiente, de acordo com HICKMAN et al. 2004 e NYBAKKEN, 2000.


Pepino do mar – São caracterizados por apresentarem endoesqueleto calcário, que os fornecem sustentação. A organização ou rearranjo dos ossículos calcários pode tornar o pepino mais mole ou rígido, sendo que o enrijecimento pode ser um fator contribuinte contra a predação. Alimentam-se através da presença de tentáculos cobertos por muco na região da boca, os ajudando na captura de microrganismos e suspensões. Em situações de emergência, estes tentáculos podem ser retraídos, conferindo proteção. Ainda para a proteção, algumas espécies possuem veneno na parede do corpo, ou a chamada evisceração, onde o animal expele parte de suas vísceras, como forma de distrair o predador, ou pela presença de veneno nas regiões internas do corpo, encontrado em apenas algumas espécies. A região expelida é regenerada posteriormente. Também podem se proteger por possuírem coloração semelhante ao do substrato, dificultando a visualização por parte de predadores. Locomovem-se através dos pés ambulacrais, e apresentam um sistema de bombeamento de água, do ânus até a árvore respiratória, onde ocorrem as trocas gasosas.


Siris – Possuem apêndices toráxicos que auxiliam na alimentação, bem como os quelipodos, um apêndice modificado com a função de manipulação do alimento e proteção. Apresentam os apêndices posteriores modificados na forma de um remo, o que lhes auxilia na natação. Os abdomes são pequenos e dobrados abaixo de uma carapaça, sustentando o corpo, além de os proteger de possíveis choques mecânicos, predação e dessecação.


Caranguejos –
Semelhantes aos siris, com abdome pequeno e dobrado abaixo de uma carapaça, fornecendo sustentação ao corpo e conferindo proteção contra predadores, choques mecânicos e dessecação. Apresentam quelípodos e apêndices toráxicos modificados para a manipulação do alimento e proteção contra predadores. Deslocam-se a fendas rochosas para evitar predação, e algumas espécies possuem coloração semelhante ao substrato, dificultando a sua visualização. Outros possuem colorações mais chamativas, com a finalidade de atrair parceiros sexuais, entre outras.


Anêmonas – Possuem tentáculos na cavidade oral para a captura de alimento e um sistema intrínseco de revestimento, evitando a dessecação. Possuem ainda um sistema de ajuste osmótico para evitar o estresse osmótico. Algumas espécies produzem toxinas para evitar a predação.


Ouriço do mar
– São caracterizados pela presença de espinhos, utilizados na locomoção, via sistema ambulacral, proteção e fixação em fendas, esta os auxiliando contra os movimentos das ondas e os protegendo de predadores. Algumas espécies podem ser venenosas. Apresentam endoesqueleto calcário para a sustentação do corpo e possuem a boca na parte inferior do corpo, onde se encontra a lanterna de Aristóteles, responsável pela raspagem do substrato, fornecendo alimentos.


Peixes – Possuem diversas adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais que os conferem sobrevivência para as variações de temperatura, concentração de oxigênio e salinidade das poças formadas pela maré. Refugiam-se em fendas e buracos nas rochas e no solo para se protegerem das ondas.


Camarão
– Possuem apêndices especializados e o leque caudal com a finalidade de auxiliar na natação, e apêndices toráxicos modificados para a alimentação. Seu exoesqueleto é formado de quitina, responsável pela sustentação do corpo e proteção contra choques mecânicos. Através da mudança de pigmentação do corpo devido à ação do sistema nervoso, podem se camuflar, evitando possíveis predações.

Cracas – São encontradas fixadas a um substrato, aos quais se fixam através do processo de cimentação, evitando o arraste das ondas, ao mesmo tempo em que não se ressecam. Para evitar possíveis choques mecânicos e a dessecação, possuem uma carapaça formada por placas calcárias. Alimentam-se através da filtração de partículas suspensas na água pelos apêndices toráxicos.


Barata do mar (Lygia sp) –
São muito encontrados nas praias e apesar de não serem marinhos propriamente, são encontrados acompanhando a linha da maré e se alimentam de detritos. Podem mudar de coloração para dificultar a visualização por parte dos predadores.


Ermitões (Pagurus sp) – Possuem apêndices toráxicos modificados que os auxiliam na alimentação, bem como a presença de quelípodos, que os auxiliam na manipulação do alimento e contra a predação. Seu exoesqueleto é composto de quitina, fornecendo sustentação e proteção contra choques mecânicos. A região do abdome é vulnerável, mas são flexíveis para prender o animal dentro de conchas vazias, evitando assim que seja predado. São dependentes da água para sobreviver.


Poliquetas
– Possuem numerosas cerdas nos segmentos do tronco, a maioria com parapódios bem desenvolvidos que os auxiliam na natação.


Portanto, a partir dessas observações as possíveis conclusões são: (1) o costão é um ambiente estressante para muitas espécies, principalmente as que vivem em condições ambientais variáveis em relação à temperatura, salinidade e dessecação (ALMEIDA, 2008; COUTINHO, 2004); (2) os organismos que habitam o costão possuem muitas adaptações morfológicas, como o fechamento hermético das valvas (bivalves), coloração escura do corpo para refletir calor, estruturas de fixação e superfície corpórea arredondada; fisiológicas, como tolerância à desidratação e variações de salinidade, produção de muco e resfriamento por evaporação; e comportamentais, como a migração vertical de organismos frágeis em função da maré e refúgio em fendas ou banco de algas; (3) apesar de ser um ambiente estressante, a diversidade de espécie nesse tipo de ambiente é bastante elevada, onde podem ser encontrados diferentes grupos taxonômicos; (4) as espécies distribuem-se de acordo com a zonação vertical do costão, de acordo com as adaptações às condições do ambiente; e (5) destacando-se as espécies de crustáceos como caranguejos, siris, ermitões, camarões e cracas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALMEIDA, V. F. Importância dos costões rochosos nos ecossistemas costeiros. Cadernos de Ecologia Aquática. vol. 3, n. 2, p. 19-32, 2008. Disponível em: < http://www.ceac.furg.br/revista/artigos/26_Vivian.pdf >. Acesso em: 19 Abr. 2014.


CARVALHAL F.; BERCHEZ F. A. S. Costão Rochoso, a diversidade em microescala. Disponível em: < http://www.ib.usp.br/ecosteiros/textos_educ/costao/index2.htm >. Acesso em 19 Abr. 2014.


CARVALHO, J. P.; SAWAYA, P. Achegas ao Dicionário dos Animais do Brasil, de Rodolpho von Ihering. Bol. Inst. Oceanogr. [online]. 1952, vol.3, n.1-2, pp. 189-196.


COUTINHO, R. Programa Nacional da Biodiversidade – PRONABIO - Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira – PROBIO Sub-Projeto: Avaliação e Ações Prioritárias para a Zona Costeira e Marinha. Grupo de Ecossistemas: Costões Rochosos. In: Guia para o licenciamento ambiental, Atividades de Sísmica Marítima na Costa Brasileira, Atividades de Perfuração de Óleo e Gás, 2004.


HICKMAN, C. P.; ROBERTS, L. S.; LARSON, A. Princípios Integrados de Zoologia. 11ª Edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. 846 p.


MASI, B. P.; ZALMON, I. R. Zonação de comunidade bêntica do entremarés em molhes sob diferente hidrodinamismo na costa norte do estado do Rio de Janeiro, Brasil. Rev. Bras. Zool. 2008, vol.25, n.4, pp. 662-673, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbzool/v25n4/11.pdf . Acesso em: 19 Abr. 2014.


MORENO, T. R., ROCHA, R. M. Ecologia de costões rochosos. Estud. Biol., Ambiente Divers. v. 34, n. 83, p. 191-201. 2012.


NYBAKKEN, J. W. Marine Biology: An Ecological Approach. 5ª Edição. Califórnia: Hardcover, 2000. 516 p.


SANTOS, W.; GOMES, E.T. Importância econômica dos costões rochosos. Disponível em: < http://www.unigranrio.br/unidades_acad/ibc/sare/.../A01N02P06_R.html.
Acesso em: 22 Abr.2014